Retrocedersimetria: ficção
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betelgeuse
por Carlos Silveira Filho <[email protected]>

O sonho de minha vida finalmente estava começando a se realizar. Para sua consecução, tive que economizar durante muitos anos, mas agora, com quarenta e dois anos de idade, havia conseguido, por fim, adquirir um belo e potente TELESCÓPIO.

Tinha ainda muitas coisas a fazer, é claro, isso era apenas o começo: vender o apartamento na cidade grande, comprar uma boa casa bem no interior e num lugar bem alto e seco e (até que enfim!) me aposentar do trabalho no Banco. Então, daí a mais uns seis meses eu estaria vislumbrando as estrelas e me sentindo, graças àquela enorme geringonça, bem junto delas.

Apesar de todo o meu entusiasmo, tive que controlar-me ao máximo para não abrir os caixotes nos quais as peças do telescópio estavam acondicionadas, o que, por medida de segurança, somente aconteceria quando tudo estivesse pronto, inclusive o compartimento no qual ele seria definitivamente instalado.

Já possuía, por essa época, uma enorme biblioteca astronômica e até o projeto arquitetônico básico do pequeno observatório que pretendia construir, e, assim, só me restava aguardar a ansiada hora de poder plantar meus olhos nas objetivas do telescópio e viajar pelo universo montado naquele foguete ótico.

E assim foi.

***

Tornei-me noctívago. Dormia durante o dia e passava as noites acordado, olhos no céu, apesar dos protestos de minha mulher e das risadas da população da pequena cidade onde fomos morar, quando de minhas raras aparições durante o dia.

Após um ano de observações, já sabia razoavelmente onde estavam os principais astros conhecidos e não me cansava de admirá-los: Saturno era uma bolinha colorida girando dentro de seus anéis, Júpiter, uma face listrada com uma grande verruga, Andrômeda, um polvo esbranquiçado.

Nas madrugadas, quando já não era mais possível a observação, divertia-me elaborando pacientemente a grande lente plano-côncava que iria equipar um instrumento bem mais potente, e cujo vidro havia mandado confeccionar especialmente, através de um amigo industrial.

Quando por fim a lente ficou pronta, foi imersa numa grande tina cheia d'água, e, através de uma reação química cuidadosamente planejada e testada, foi depositada uma fina camada de estanho em sua face plana, tornando-a espelhada e, principalmente, refletora.

Foi um trabalho e tanto, mas o que realmente deu trabalho foi o seu alinhamento, dentro do tubo metálico de um metro de diâmetro e quatro de comprimento, especialmente preparado para acomodar a lente.

Levei três meses para deixá-lo cem por cento, mas nada nesse mundo valeu a emoção da primeira observação para valer efetuada naquele trambolho. Eu mesmo havia bolado um sistema de movimentação micrométrica que me permitia mover o telescópio para cima, para baixo e para os lados quase sem esforço e bem suavemente. Bolei, ainda, um sistema (quem quiser patenteá-lo, é seu!) de compensação automática da rotação da Terra muito eficiente, limitado, é claro, à própria esfericidade da Terra (óbvio!).

Costumava, já por essa época, acoplar uma câmara de vídeo ao instrumento, a fim de obter imagens dinâmicas, as quais eu podia, posteriormente, analisar em detalhes não percebidos nos momentos de observação, além de compor filmes em movimento que me deixavam extasiado, assim como às poucas pessoas a quem eram mostrados. Nessa noite em particular, não havia ligado a câmara e apenas observava: se, antes Saturno aparecia como uma bolinha minúscula, agora era quase do tamanho de uma bola de golfe, e muito mais nítido.

Movi um pouco o controle de azimute, procurando Marte e suas brancas calotas polares, mas, antes de encontrá-lo, alguma coisa me chamou a atenção e voltei atrás apressadamente com o instrumento, procurando o que o havia feito.

Reconheci-a logo. Tinha um brilho avermelhado, forte, e era, sem dúvida, Betelgeuse. Já a tinha visto muitas vezes ao telescópio, enquanto me maravilhava com a beleza da Constelação de Orion, mas desta vez, havia... hum... havia... algo que...

CARAMBA!

Senti as pernas tremerem. Travei o instrumento e, com um tapa, liguei a câmara; corri para o telefone, na outra extremidade do observatório, achei o catálogo telefónico e folheei-o até a lista de DDI. Com um lápis, risquei por baixo dos números relativos ao Chile. Disquei informações em Santiago e três minutos depois conseguia ligação com o Observatório de Serro Tollolo, um dos mais potentes do mundo.

Não consegui me explicar direito, pois nem eu sabia o que estava acontecendo, mas identifiquei-me e implorei pelo amor de Deus que parassem tudo o que estavam fazendo e focalizassem seus telescópios em Betelgeuse. Foi um inferno convencê-los, mas, por fim, consegui falar com o próprio chefe do observatório, em sua cama, que me prometeu solenemente (?!) tomar providências (ah, a América Latina...).

Tentei por mais de uma hora a mesma coisa com os Estados Unidos (Montes Wilson e Palomar) e Porto Rico (Arecibo), e, por fim, desisti. Voltei meio desconsolado para meu instrumento, enquanto pensava com raiva «burros, estúpidos, eu aqui perdendo um fenômeno desses só para avisar esses idiotas, e eles dizendo: tá maluco, homem!»

Agora, duas horas depois, era bem visível e não podia haver mais nenhuma dúvida: o brilho da estrela estava variando! Escurecia lentamente até cerca de metade de seu brilho e depois clareava rapidamente até bem mais do que o normal; e depois voltava, também com rapidez, se bem que menor, ao seu brilho normal, permanecia assim uns quinze minutos e recomeçava todo o ciclo. E toda vez que chegava ao máximo e ao mínimo, dava uma «piscadela» (não era bem isso, mas não acho termo melhor para definir uma espécie de pequeno relâmpago ou flash, sei lá!).

Consultei o catálogo celeste. Embora não se saiba seu valor, a massa de Betelgeuse é estimada em muitas e muitas massas solares e é considerada uma das maiores entre as chamadas gigantes vermelhas (a maior de todas é Ras Alguethi, na Constelação de Hércules), já há muito, muito tempo, fora da sequência principal (vide Diagrama Hertzsprung-Russel), isto é, uma estrela que caminha para a morte como estrela, depois de esgotar todo o seu estoque de combustível nuclear. E o que estava acontecendo era único até agora, somente comportando uma explicação: se aqueles palhaços focalizaram Betelgeuse, estavam presenciando, pela primeira vez na história, uma transformação estelar profunda, em que, ainda não dava para imaginar.

O telefone tocou e fui atendê-lo. Demorei uns dez segundos para compreender que língua estava sendo falada do outro lado, pois a voz estava quase histérica, mas era mesmo o inglês. O sujeito estava falando do Chile e pedia pelo amor de Deus que eu continuasse observando, pois ainda estava tentando se comunicar com seu país, sem sucesso, e o rastreamento ótico da estrela estava falho, por defeito no sistema. Ok, Ok, eu disse, desliguei e voltei para a observação, para ser surpreendido com o que vi, ou melhor, com o que não vi: simplesmente não havia mais nada em foco! ... isso: nada! Zero! Sumiu! Puf!

E agora?

***

Evidentemente, eu e a minha fita de vídeo ficámos famosos. E a vidinha calma e tranquila com que sempre sonhei, pluft... acabou-se.

Agora é viagem pra cá, conferência pra lá, repórteres, hotéis, aviões e chateação e o diabo é que não sei como sair dessa, embora já me tenham dito que é apenas uma fase e que tudo irá diminuindo com o tempo. Mas, há já um ano que a maldita fase só está aumentando, então vai levar mais uns dez anos para acabar! Ou eu morro antes, porque já não aguento mais; até falar dormindo já falo, como se estivesse pronunciando uma conferência, e não consigo mais pensar em outra coisa. ... sim, a coisa está virando psicose (ou neurose, sei lá!).

E por falar nisso, alguém sabe o que aconteceu com Betelgeuse?

Pois é, o problema é esse. É que eu sei.

 

acerca do conto...
Título: Betelgeuse
Data: 21/01/99
Autor: Carlos Silveira Filho
e-mail: [email protected]