Retrocedersimetria: ficção
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o destino da rocha
por Carlos Guimarães <[email protected]>

Zeco Mola deitou um olhar de esguelha ao operador de manobras enquanto se ajeitava inconfortavelmente no cadeirão de vigia ao lado dele.

- "Grandes pedaços de pipocas" - pensou desviando o olhar para o exterior. - "Sim, é mesmo isso que parecem ser, enormes pedaços de pipocas flutuando etereamente para fora do alcance da vista" - concluiu. Estava à tanto tempo naquela estação mineira que invariavelmente se punha a divagar sobre tudo o que lhe passava à frente dos olhos. Neste caso, referia-se naturalmente ao descomunal bloco rochoso projectado directamente para o espaço à frente dele.

O operador fixou um dos monitores com ar azedo e verificou pela segunda vez que tudo estava em ordem. No topo Zeco leu escrito em abreviado a data de 14 de Março de 2076, tempo terrestre claro. Revirou os olhos ao fazer as contas de quanto tempo já tinha perdido naquele buraco.

O homem vomitou uma praga e saltitou com os dedos pelos botões da consola esmurrando o último que teimava em não obedecer, - Raios partam o material! - resmungou - Isto 'tá a ficar bonito! - Enervava-se mais pela presença de Zeco do que propriamente com o equipamento em si. Estava habituado à sua tarefa solitária e não lhe agradava nada que um tipo como ele ficasse ali horas a fio a observá-lo sem dizer pevide, era natural.

Esticando as pernas entorpecidas, o mercenário ficou a seguir a manobra através da pequena escotilha rectangular com as mãos entrelaçadas atrás da cabeça.

A invulgar rocha rica em diamante e metatitânio acelerou lentamente, passou a barreira protectora da estação e embrenhou-se pelo manto negro fora com os motores ligados em máxima força. Zeco ampliou a imagem do seu monitor dez vezes e constatou que nada se passara de anormal. O monstro ganhara velocidade de cruzeiro e os oito motores de impulso colocados estrategicamente na sua superfície rugosa traseira foram-se desligando automaticamente, par a par.

- "Nada a assinalar..." - constatou frustrado - "novamente." - Desligou o monitor e pôs-se a simular mentalmente o trajecto que iria traçar a rocha espacial, coisa que já tinha feito umas boas dezenas de vezes. Suspirou.

O operador sentiu a sua frustração e esboçou um ligeiro sorriso, levantou-se e saiu desajeitado da sala de controle sem dizer uma palavra que fosse. Zeco ignorou-o e olhou para a consola de controlo, o sinal de automático luzia intermitente iluminando fantasmagóricamente o canto direito da saleta. Agora estava tudo nas mãos do potente radar da estação mineira que iria fazer as correcções necessárias nos retrofoguetes mantendo o asteróide na rota certa. Uns bons milhões de quilómetros para lá da orbita de Marte à volta do Sol será feita uma passagem de estafeta com o radar e computadores da estação central lunar, propriedade, assim como também o era a estação em que se encontrava agora, da Companhia Mineira Terrestre. A partir daí os "fatos" na Lua irão ter o total controlo das operações e chegada ao seu destino, a rocha será processada e enviada em milhares de pedaços já filtrados directamente para a Terra, mais precisamente para os vastos armazéns da Companhia na selva Amazónia.

- "Aqui não se passa nada. O que na realidade aconteça à trampa dos asteróides, não tem nada a ver com os procedimentos de preparação e transporte, pelo menos à primeira vista" - rematou dando a sua investigação no local por finalizada. Levantou-se por sua vez e seguiu o mesmo caminho do operador.

A estação mineira escavada bem no interior do asteróide 44D na grande cintura de asteróides era constituída por três áreas principais ligadas entre si num emaranhado de corredores entrelaçados rocha fora. Duas delas, menores, ficavam no extremo mais protuberante da enorme rocha espacial, eram a área de dormitório e os casulos de comando onde ficava colocada a saleta de onde acabara de sair Zeco. A terceira zona principal era a de maior envergadura, o verdadeiro coração onde a maior parte do trabalho se desenrolava. Fala-se naturalmente do amplo complexo de docas e estaleiro da estação, onde o mercenário tinha o seu plano a correr sobre rodas, o seu magnifico plano.

Ao passar um dos corredores de acesso conseguiu reparar na azáfama que decorria no exterior pelo tecto transparente. O trânsito de maquinaria era infernal e estava a decorrer nesse preciso momento a preparação do próximo asteróide, dos maiores que se tinham visto até à data. Zeco queria inspeccionar os trabalhos de perto uma vez mais.

Era já o sétimo envio essa semana. A estação nunca antes tinha dado tanta produção; um por dia, o que em teoria era impossível. Veículos de perfuração e de reboque gemiam do esforço extra e o pessoal começava a queixar-se da sobrecarga e falta de tempo para descanso. Acidentes tornavam-se uma rotina e davam-se tanto na recolha como no transporte que se fazia dos asteróides circundantes para a estação. Claro que a Companhia Mineira estava-se borrifando para tudo isso, a produção era o que interessava e a mão-de-obra facilmente se substituía.

A causa deste caos e da presença de Zeco naquele fim de mundo estava no desaparecimento dos asteróides algures a meio da viagem de transporte para a Lua. Ninguém sabia como, mas eles simplesmente se esfumavam dos radares controladores, e não havia qualquer tipo de pista que levasse a resolver o mistério.

Tinham sido gastos milhões na tentativa de descobrir o que se passava, grande parte empregues na contratação do pessoal para levar a cabo essa tarefa. Além das horas extra pagas às equipas de segurança da Companhia, contratara-se um exército de investigadores particulares, a policia lunar, empresas militares de rasteio e tinha-se mesmo iniciado uma tentativa de negociações com a colónia renegada de Marte para a autorização e utilização da sua monumental rede de satélites-sonares, sem sucesso claro; o governo de Marte tinha dificultado as coisas até à data. A guerra de independência para com a Terra em 2060 ainda estava em fase de lamber as feridas e falava-se à muito num novo corte de protocolos entre as duas potências.

Anteriormente desconfiara-se que o vizinho planeta vermelho estaria metido no misterioso desaparecimento e tinha motivos que chegassem para o fazer; além do ódio instalado desde o inicio da guerra e o seu término, havia o caso bicudo da exploração comercial da cintura de asteróides, pois em detrimento da sua independência Marte ficara apenas com uma quarta parte dos enormes pedregulhos para explorar.

A princípio, aquando do fim da guerra, os marcianos esfregaram as mãos de contentes pelo óptimo negócio conseguido, claro que tinham pago um preço elevado com vidas e com as devastações no planeta que eram quase irreversíveis, mas tinham ficado com a sensação de que o saldo final valera a pena; engaram-se por completo. Os interesses da Terra por Marte já há muito se tinham desvanecido, muito antes da guerra estoirar e mesmo depois dos triliões gastos na sua Terraformação em que o ar marciano ficara respirável. A única utilização era o de servir como porto trampolim para a exploração dos afamados asteróides, o que a partir de certo momento nem para isso foi utilizado; ficava mais rápido e barato montar uma base no próprio local e enviar os asteroides directos para a Terra.

Entretanto Marte continuara ilegalmente a minar os asteróides enriquecendo rapidamente com o mercado negro terrestre e a cidade mercante submarina instalada no oceano interior de Europa, a lua habitável de Júpiter. Com o tempo ganhara o estatuto de planeta-civilização e requerera a independência. A mãe Terra orgulhosa e traída, negou-a.

A guerra foi declarada de imediato e meses de fúria depois, acabara tão rápido como começara. Felizmente a estupidez do Homem chegara a um impasse e a Terra cedeu, não valia a pena aniquilar o seu semelhante ainda que fosse seu inimigo e traidor, era melhor aplicar uma lição de "moral" aos filhos renegados. Além disso, o que interessava era que Marte parasse de minar o raio dos asteróides e para isso, em troca da sua independência, os terrestres acordaram ficar com três quartos da concessão, marcando a zona com bóias sinalizadoras inteligentes.

Que negociata, pensaram o Marcianos. A independência e um quarto dos asteróides todinhos para eles, que sorte, era mais do que eles alguma vez poderiam imaginar, claro que só era viável explora-los quando Marte passava na sua orbita pelos respectivos asteróides, mas mesmo assim era um bom negocio. Regozijaram-se até ao momento em que sondaram o respectivo quadrante e verificaram que estava seco, empobrecido de matéria a extrair.

Os terrestres tinham conseguido engendrar um verdadeiro segundo Tratado de Tordesilhas, aquando dos Portugueses de outrora em que trocaram os passos aos Espanhóis, a verdadeira banhada do milénio! Tinham cortado completamente as pernas a Marte, agora impotente de se auto-desenvolver.

Pior de tudo, Marte não tinha capacidade suficiente para declarar nova guerra, seria o suicídio. Estavam confinados ao seu planeta quase morto, às suas duas luas ainda mais mortas e a uma fronteira marcada paralelamente à orbita de Marte em relação ao Sol, tanto para o interior do sistema solar como para o exterior, exceptuando apenas o angulo de 90º em direcção aos estéreis asteróides.

O ódio agigantara-se e dadas todas estas circunstancias, restavam-lhes apenas a opção de dificultar de todas as maneiras e feitios a vida aos terrestres. Esta recusa de ajuda era só uma delas.

De qualquer maneira e não obstante serem o "suspeito" numero um, chegou-se à conclusão que não tinham nada a vêr com o caso dos desaparecimentos, pois a Companhia mantinha a fronteira bem vigiada com a ajuda da defesa terrestre, e nada passava sem que se desse por isso. Zeco mesmo assim, tinha a sensação que estariam metidos no assunto.

Entretanto, com a confirmação que o planeta vermelho não tinha culpa no cartório, a Companhia Mineira estava bem ciente que Marte podia observar através dos seus sonares o que realmente se estaria a passar. Mesmo que isso não se verificasse, a colónia renegada tinha chegado à conclusão que a empresa terrestre não sabia o que eles realmente observavam. E a frustração de guerra fria continuava, assim como o mistério dos desaparecimentos.

Bem, resumindo todos os factores até à data, a Companhia não tinha outro remédio senão simplesmente aumentar o número de envios para compensar os asteróides que desapareciam. Isso significava despesas catastróficas, mas por outro lado viam-se obrigados a satisfazer os pedidos de encomendas. Mudar o sistema de envio ficava monstruosamente caro, fora de questão, aliás nem tempo para isso tinham, parar o abastecimento significaria a bancarrota. Até que finalmente chegou-se ao ponto de desespero de contratar homens como Zeco Mola, mercenários a soldo pagos com o seu peso em ouro, homens que não olhavam a qualquer meio para atingir os seus fins.

Zeco não aceitara logo de inicio, tinha sido escolhido devido à sua reputação de infalível, mas não lhe agradava muito meter-se em aventuras nos confins do espaço metido entre pedregulhos, por outro lado a situação financeira estava fraca e não prometia melhorar nos tempos vindouros; a concorrência estava forte. Aceitou relutante e mal chegara ao local, arrependera-se de o ter feito. Bem, não havia nada a fazer e iniciou mal humorado as investigações.

Atingira o ponto de frustração muito rapidamente sendo que todos os caminhos levavam a becos sem saída. Estava farto de rever todos os passos implicados no caso sem encontrar resultados de alguma espécie. Estudara os registos históricos de todos os asteróides desaparecidos e não encontrara nenhum padrão em comum, nenhum ponto chave que o levasse a seguir uma pista concreta. Apenas reparara que os asteróides que desapareciam tinham ligeiramente maior dimensão que os que passavam sem nada acontecer, isso não levava a conclusão nenhuma a não ser, claro está, que talvez houvesse realmente mão criminosa por trás; maior dimensão significava mais matéria de valor.

Agora, depois de tanto tempo gasto e tanta investigação em vão, ia jogar a sua última cartada.

Já anteriormente tentara executar um plano em que ele próprio escoltava um dos asteróides na sua nave mas o comandante da estação interditou-o de o fazer. Dissera o oficial que mesmo uma nave furtiva como a dele interferiria com a constante comunicação entre o ultra-sensível sistema de captação de sinais dos motores e o radar de navegação da estação, não havia maneira de o seguir ou acompanhar. Por isso é que existia o corredor espacial para uso exclusivo dos transportes de asteróides da Companhia. Além do mais, os Marcianos considerariam isso como um acto de guerra, pois segundo o acordo com a Terra somente os próprios asteróides tinham permissão de passar num corredor espacial especifico através da fronteira orbital marciana. Os outros transportes e naves usavam um corredor espacial diferente, ligeiramente mais largo.

Pôr sondas com câmaras de vigia que se ejectavam mal alguma anormalidade surgisse também não resultara, desapareciam elas também. O mesmo tinha acontecido com equipamentos de sinalização instalados tanto na superfície como no interior, eram programados para emitir sinais depois do desaparecimento. Nenhum funcionara até à data. Não, qualquer que fosse a tecnologia empregue, nenhuma dera sequer um minúsculo indicio a seguir e obrigou Zeco a enveredar por caminhos menos ortodoxos.

Revendo os passos de seu plano, passou pela última comporta estanque e viu-se quase a ser atropelado por um empilhador em excesso de velocidade.

- Raios! Mas vocês estão loucos! - gritou ao operário que somente respondeu levantando o braço direito e o dedo do meio da mão respectiva. Seguiu, misturando-se na confusão.

A área era um enorme cais de saída e entrada de veículos de transporte e assemblamento. Ali preparava-se todo o equipamento que posteriormente seria montado no asteróide. O movimento era de doidos e o barulho ensurdecedor.

Dirigiu-se à zona de instalação dos sistemas de motores apressando o passo, não fosse surgir outro condutor destravado.

O supervisor chefe Jonas Ribote afagava um servofoguete verificando a sua montagem tentando descobrir uma eventual falha no equipamento. Era um homem que facilmente fazia boas relações de amizade e acatara logo a atenção do mercenário, que mal o conheceu viu nele uma futura oportunidade de aliança.

Zeco teve que tossir a bom som anunciando a sua chegada e fez-lhe um sinal para que se reunisse com ele em particular. O supervisor respondeu com um piscar de olho e afastaram-se dos outros técnicos atarefados.

- Está tudo preparado? - perguntou Zeco ansioso enquanto se escondiam por trás de dois cilindros de combustível onde o barulho era aceitável.

- Sim, sim, mas diz-me uma coisa - respondeu Jonas em tom curioso - estás mesmo disposto a arriscar a pele nesta aventura suicida?

- Ó pá! Eu estar não estou, mas não tenho outro remédio, é a reputação que está em jogo tás a vêr? Falhar uma missão é declarar falência neste "emprego".

- Compreendo.

- O sucesso ou morrer a tentar consegui-lo - disse numa frase feita - este negócio não admite o meio termo.

- Porra que vocês mercenários aguentam cada uma, sois duros como aço.

- Bem, chama-lhe o que quiseres, para mim não passa de sobrevivência e fuga ao raio do sistema. - Com estas palavras as feições de Zeco tornaram-se mais graves, não gostava de falar muito sobre filosofias de trabalho. - Mas de certeza que está tudo em ordem? - continuou mudando o rumo à conversa.

- Sim, acho que não falta nada, instalei a capsula camuflada exactamente onde tu querias, numa das faces laterais da superfície. Fiz uma ligação directa dos diagnósticos e restantes sensores à consola principal, motores incluídos. Depois... ah sim, perfurei o asteróide em quatro sítios diferentes e coloquei os detectores tectónicos como mandaste, estão também eles ligados à consola. Estranho pedido esse, pra que raio queres tu aquela tralha?

- Tenho as minhas razões. E o resto?

- O.K., 'tá bem, tu é que sabes. Quanto ao resto... tens um duplo sistema de suporte e manutenção de vida, penso que não irás ter qualquer problema com isso.

- Perfeito. E não te esqueceste das cargas de ejecção pois não?

- Não. Foi difícil instalá-las, o espaço era curto. Mas consegui colocá-las mesmo à risca entre os ganchos de suporte e o raio do asteróide.

- Óptimo, perfeito. Agora só espero que este asteróide seja um dos que desaparece, senão vai ser uma viagem em vão e passarei por idiota quando chegar à Lua, alem de provavelmente ser preso.

- Já estou a imaginar a cara dos "fatos" ao descobrirem...

- Nem me fales. Rezo pra que seja um deles, por isso escolhi este.

- Sim é um dos maiores enviados até à data e está cheio de diamantes como um ovo - concordou Jonas.

- Lá se verá, bem, agora vais-me prometer uma vez mais que não dirás nada a ninguém, o sucesso desta missão depende disso. Se isto se sabe... o comandante corta-te logo as pernas, e a mim... o negócio.

- Não te preocupes, sou um túmulo. Eu quero é vêr esta gaita resolvida uma vez por todas pois o trabalho tá-nos a matar, é que nós não somos nenhuns escravos sabes? Daqueles que trabalham até caírem pró lado, raio dos "fatos"...

- Conto contigo - rematou Zeco apertando a mão firmemente a Jonas - e obrigado.

- Ora, não é nada. Promete-me só que me porás ao corrente logo saibas alguma coisa, isto é, se não te perderes nalgum buraco negro - brincou.

- Trato feito amigo, até à próxima.

- Sim e boa sorte - desejou-lhe Jonas Ribote ao surgirem por trás dos cilindros. Aproximou-se dos seus técnicos e olhou para trás - vais precisar dela - proferiu ao vêr o mercenário escapulindo-se ao longe por uma das comportas.

Quinze horas mais tarde o operador de manobras tornou a saltitar os seus dedos pesados pelos botões de comando; o último voltou irritantemente a encravar e novamente sofreu um violento murro. Duzentos metros à sua frente, no vácuo gelado do espaço, um gigantesco asteróide com um mercenário como carga desligou-se das suas centenas de amarras e projectou-se lentamente em direcção ao grande portal da barreira protectora.

Zeco verificou satisfeito que o seu plano resultara em pleno. A capsula camuflada instalada por Jonas desempenhara o seu papel à risca e ninguém suspeitou da sua existência, o supervisor tinha feito um bom trabalho. O seu próprio desaparecimento tinha também sido bem executado, fingiu ser um dos técnicos e penetrara na capsula quando os outros estavam atarefados fazendo os últimos ajustes aos motores.

Olhou para a consola e observou um dos monitores mostrando a retaguarda. Centenas de técnicos olhavam para o "seu" asteróide até que se foram tornando imperceptíveis à distância. A enorme estação foi-se afastando e tornou-se gradualmente mais e mais pequena, dentro em breve seria apenas mais um ponto no firmamento, semelhante aos outros todos.

Suspirou aliviado, agora nada o poderia parar.

Zeco concentrou então todas as atenções no interior da capsula e na preparação da sua enfadonha viagem.

Apesar do fato espacial ser de grande dimensão era confortável e não o incomodava muito. Escolhera-o devido a essa faculdade e à sua variada instrumentação de apoio, já para não falar do seu alto índice de segurança. Era bem possível que não fosse precisar dele, mas a sua longa experiência levava-o a tomar precauções redobradas em situações como aquela.

Como tivera cuidado na escolha do fato assim o fez também em relação à capsula. De forma oblonga e compacta era das mais resistentes que se poderiam encontrar em stock nas prateleiras da estação, albergava uma ampla escotilha de observação em se que poderia observar tudo em redor, inclusive uma grande parte do asteróide. Era constituída por uma liga de metatitâneo com aço super flexível, um resultado ainda mais duro que o diamante, com a capacidade extra de se poder dobrar em ângulos impossíveis sem quebrar. Além do mais e de importância fulcral, era de regresso automático.

Fez os últimos ajustes no sistema primário de suporte de vida e activou o secundário em stand-by. Depois foi a vez de ligar os incómodos desinibidores de musculatura, não gostava nada de os usar mas era um mal necessário devido ao longo tempo que iria permanecer sem gravidade.

Olhou para a consola dando uma última verificação aos dados que iam lendo os sensores, tudo estava nominal e apenas os sensores tectónicos tinham registado alguma actividade devido à vibração provocada pelos pequenos mas potentes motores instalados no asteróide, ordenou aos sensores para que filtrassem as vibrações dos motores e dos retrofoguetes que iriam ser utilizados pontualmente durante a viagem.

Programou o computador para o acordar algures dentro da fronteira de Marte, era a partir dai que se davam os desaparecimentos dos asteróides. Preparou-se para finalmente hibernar e lembrou-se de repente que não tinha ligado o alarme ao seu fato - "que erro magistral" - pensou. Se acontecesse alguma coisa ainda em antes de chegar ao ponto de acordar, não teria alguma hipótese. - "Bem, ao menos não sentiria nada. Sonhos eternos e felizes." - Fez uma careta perante o pensamento e ligou-se ao sistema.

Estudou o espaço calmo à sua frente e sentiu uma profunda solidão acompanhada por uma nuvem de nostalgia. Relembrou a longa jornada que iniciara, claro que ia passa-la em estado latente, nem daria por ela, mas por outro lado seriam uns bons seis meses que perderia da sua vida. Uma infinidade de tempo comparando com os sete dias que necessitava ao percorrer a mesma distância com a sua nave.

Finalmente conformou-se com a sua sorte e pôs em funcionamento o sistema de latência. Submergiu lentamente na escuridão começando a sonhar que zarpara num mar imenso em cima de uma pipoca.

Zeco navegava à muito tempo ao sabor do vento num mar azul como nunca vira. A pipoca em que seguia luzia debaixo de um sol estranhamente brilhante, mudava suavemente com todas as cores do arco-íris. Pôs-se a pensar que nunca tinha visitado um lugar assim, tão calmo, cheio de paz e no entanto tão cheio de mistério. Dias se passaram naquele ambiente tão pacifico, e subitamente começou a pressentir que algo iria mudar. Sem aviso, as águas límpidas agitaram-se violentamente, o sol ficou vermelho de raiva. Por baixo da pipoca materializou-se um redemoinho gigante começando a girar em aspiral pulsando e engolindo violentamente o mercenário. Zeco assistia desesperado e impotente ao que se passava à sua volta, sentiu tudo a desmoronar-se na sua pipoca ouvindo sons horríveis e persistentes, mas de repente... de repente já não estava a sonhar. Viu-se a braços com uns olhos bem abertos e uma dor de cabeça do tamanho do asteróide por baixo dele. O alarme soava irritantemente e um dos monitores avisava que ia desligar por completo o seu fato do sistema de latência.

Pondo o desinibidor de musculatura em ponto morto olhou para outro monitor, o de navegação, e constatou que a sua posição estava nesse preciso momento a cruzar-se com a órbita de translação de Marte. Dentro da fronteira mas correctamente no corredor espacial de transporte da Companhia. Consultou a carta interplanetária e confirmou essa posição. Depois verificou o radar anti-colisão que não demonstrou nenhum sinal de perigo - "O.K., quanto a isto não me preciso preocupar, e Marte ainda está bastante longe." - pensou aliviado - "mas porque diabo disparou o alarme?" - Fez uma vistoria a todos os sensores, tudo estava normal, nenhum dado avisador. No radar de longa distância estudou a zona circundante e também nada havia de anormal. - Mas que raio... - disse intrigado. Já não estava a perceber nada, até que se lembrou finalmente dos sensores tectónicos. Ao passa-los para activo, notou que um deles, o que estava perto dos motores e de todo resto equipamento de propulsão, registava sinais de actividade no interior do asteróide, muito pouca actividade era certo, mas o suficiente para acrescentar uns tantos pontos irregulares aos valores nominais. Sem pensar duas vezes Zeco abriu a chapa protectora do sistema de ejecção e premiu um enorme botão vermelho. A cápsula disparou por baixo de uma explosão controlada das cargas ejectoras e viu-se a afastar rapidamente do enorme asteróide.

Acertara em cheio quando decidiu instalar os sensores, coisa que ainda ninguém tinha se lembrado. Agora parecia que estavam perto de lhe salvar a vida. Zeco já tinha visto aquele tipo de registo anteriormente, quando se tinha embrenhado em missões negras pela Federação Terrestre, aquilo só poderia ser provocado pelos impulsos magnéticos de uma bomba de fissão!

A explosão que se deu de seguida veio confirmar a sua premonição. Feixes de luz branca emanaram do interior do asteróide rachando-o sem piedade em milhares de pedaços mais pequenos que iniciaram uma louca dança chocando violentamente entre si. Zeco, ao principio, tapou os olhos para não ficar cego com a luz intensa, mas depois pôde vêr claramente como todos os blocos expelidos voltavam, quase que por magia, suavemente a aproximar-se entre si. Era uma particularidade curiosa das bombas de fissão, o núcleo da explosão gerava um potente campo magnético que logo fazia implodir toda a matéria explodida pela mesma. A capsula salva-vidas teve o mesmo comportamento e um Zeco ainda zonzo pelo choque observou-a a gemer freneticamente com os seus pequenos motores, tentando fugir ao campo magnético para regressar automáticamente. O mercenário desligou-a de imediato e a embarcação ficou vagueando pelo espaço juntamente com uma miriade de rochas brilhantes espaciais tão pequenas como a sua minúscula embarcação, uma pequena gota numa nuvem de asteróides.

Num instinto nato de sobrevivência o mercenário começou a fazer contas às opções possíveis e ao estado das coisas. Agora já sabia o que acontecia aos afamados asteróides: explodiam - "e quê?" - perguntou-se. Não admirava como até agora nada tinha sido descoberto. Uma explosão de uma bomba de fissão não deixava nada para contar a história. Nenhum aparelho ou equipamento conseguia resistir aos poderosos impulsos magnéticos.

Ficara marcadamente curioso com o acontecido, mas afinal porquê? Ansioso passou outra vez os olhos pelos monitores da consola e estudou-os por um momento.

- Mas claro! - quase que gritou olhando novamente para a carta interplanetária. Ligou num só movimento o sistema de comunicação da capsula apontando a pequena mas poderosa antena interior para estação mineira. Hesitou, pensou por um momento e decidiu-se a reajustar a antena. Não poderia arriscar uma comunicação para estação no asteróide 44D sabendo que poderia estar a falar com uma das pessoas implicadas na sabotagem. Por isso regulou o aparelho em direcção à Lua.

- S.O.S. naufrago à deriva pede ajuda! - gritou esperando por um sinal. - S.O.S. naufrago à deriva pede ajuda à estação lunar da Companhia Mineira Terrestre! - Fez-se ouvir um ruído de estática seguido de sons imperceptíveis e abafados.

- S.O.S. Naufrago! - repetiu.

- Esta... lu... nhi... - uma voz, ainda que surgindo aos soluços, suou confortante aos ouvidos de Zeco que repetiu prontamente o pedido de ajuda por mais meio minuto possibilitando que equipamento fizesse os ajustes automáticos de correcção. Logo a comunicação ficou estável.

- Estação lunar da Companhia Mineira Terrestre pede identificação à embarcação em apuros - perguntou um técnico de comunicações em tom monocórdico.

- Soldado a soldo da Companhia com o nome de Zeco Mola pede permissão para falar directamente com o comandante da estação, motivo de importância crítica! - expeliu ansioso começando a repetir, - soldado a sol...

- Mas que diabo!?!? - surgiu uma voz mais grave. - Que raio está você ai fazer? Sabe o que isso significa? - Já tinham verificado a sua posição pelo sinal da comunicação.

- Olá comandante, um muito bom dia pra você também.

- Explique-se por favor. Já reparou que está para lá da fronteira? Estavamos à espera de um asteróide e não de um mercenário!

- Bom, é uma longa história e não tenho tempo de a contar agora - respondeu calmamente - vou-lhe somente pedir um favorzinho.

- Mas...

- Comandante, está em causa a resolução de todo o mistério dos asteróides, por favor não complique e digne-se a enviar a seguinte mensagem para o alto comando terrestre - afirmou o mercenário olhando para o exterior onde uma multitude de pequenos asteróides brilhantes rodopiavam sobre si próprios.

- O alto comando? - perguntou o outro surpreendido.

- Sim - ripostou Zeco - é essencial, repito, essencial que uma esquadra armada esteja na data, hora e nas coordenadas que irei enviar de seguida. - Consultou a carta interplanetária e calculou trajectórias e desvios no computador, depois introduziu os resultados no sistema de comunicação. - Comandante, os dados estão a ser enviados neste preciso momento.

Houve cinco segundos de silencio quebrado de seguida por um comandante nitidamente perturbado.

- Mas isso fica... não se enganou?!?

- Não discuta por favor, sei exactamente onde isso fica. O essencial é mais o tempo do que a localização.

- Bem, não lhe prometo nada, mas vou fazer os possíveis.

- Estou certo que sim, e é de interesse de todos que o faça. Comandante vou terminar a comunicação, preciso de poupar o máximo de energia, bem vou precisar dela.

- Bem, O.K., só me resta desejar-lhe boa sorte na sua missão, acho. Comunicação terminada.

Zeco desligou imediatamente todos os sistemas desnecessários deixando apenas os de apoio e manutenção de vida, comeu alguma pasta energética e voltou a realizar todos os procedimentos para entrar em estado de latência. Enquanto o fazia pensava em como tivera sorte em lidar com a pessoa certa na estação. Se Jonas Ribote fosse o sabotador, a esta hora estaria concerteza morto e bem morto; teria sido fácil para ele sabotar os sensores tectónicos ou mesmo o suporte de vida.

Lembrou-se que poderia ter avisado a estação lunar das sabotagens a decorrer na base mineira, - "bem, mais pedregulho menos pedregulho... que se lixe" - decidiu. Programou o alarme e deixou-se cair no mundo dos sonhos uma vez mais. Um sorriso esculpiu-se na sua face, encontrava-se no mesmo mar calmo e pacifico do sonho anterior, só que desta vez não zarpara numa pipoca, não, desta vez nadava rodeado de milhares delas.

Dois meses depois Zeco voltou a acordar com uma dor de cabeça ainda maior que a primeira. Algo brilhava intensamente vindo do exterior e entre fortes esfregadelas de olhos, avistou a superfície avermelhada que representava... Marte!

O planeta cobria totalmente o angulo de visão do mercenário obrigando-o a escurecer a viseira do capacete. Olhou para o relógio na consola sorrindo, - data certa, tempo certo e lugar... - consultou a carta - o mesmo, correctíssimo! - disse congratulando-se a si mesmo, correra tudo como tinha previsto, a capsula nem um quilómetro se tinha distanciado do local onde estivera sessenta dias terrestres antes - agora só falta aparecer a cavalaria, onde estarão eles? Costumam ser de uma pontualidade militar extrema... - enquanto proferia a última palavra espreitando para o exterior, uma grande nave almirante cobriu imponentemente toda a forte coloração de Marte vinda de cima, obrigando o mercenário a ajustar novamente a viseira do capacete. Mais uma dezena de couraçados fizeram a sua entrada ameaçadoramente, rodeando a capsula e os asteróides, acompanhados por inúmeras naves de caça.

Sentiu um curto zumbido e a embarcação começou a mover-se lentamente, sendo atraída e engolida pela enorme estrutura da nave almirante, deixando para trás as milhares de rochas companheiras de sono do mercenário.

Meia hora mais tarde percorria apressadamente os corredores e secções da nave, eram de uma magnitude que metia respeito. Zeco perguntava-se a si próprio conforme os passeava, o quanto não implicaria fabricar um vaso de guerra daquela envergadura. Já estivera em vários navios militares, percorrera vários milhões de quilómetros em naves de grande porte mas nunca num porta estandarte como aquele, sentira-se uma insignificante formiga quando foi puxado para as suas entranhas.

Era escoltado por quatro soldados de elite que o conduziram a um grande salão de combate na ponte da meganave. No centro, ao redor de uma escura mesa redonda, viam-se sentados vários oficiais de alta patente, todos com ar de quem estavam a perder o seu precioso tempo.

Zeco parou junto à mesa por ordem do soldado que se encontrava à sua direita. No lado oposto à sua posição o almirante Barol Tarantil, como se podia lêr na lapela, jazia sentado numa poltrona maior que as dos outros. Pôs de lado o relatório que estava a lêr e franziu o sobrolho quando avistou o mercenário. Pelo olhar pôde-se constatar que não tinha muita amizade por comandos solitários como ele, e o aspecto degradante como se devia encontrar depois da sua atribulada jornada não ajudava nada.

- Muito bem - começou a falar com uma voz grave e controlada - deixemo-nos de rodeios e passemos directamente ao busílis da questão. - Deixava transparecer sem cerimónias o seu desagrado pela situação. - Soldado da fortuna Mola... Zeco não é? - continuou olhando de soslaio para o relatório.

- Sim, almirante, esse é o meu nome - respondeu Zeco tentando não transparecer nenhum nervosismo.

- Espero sinceramente que tenha uma explicação sólida e concisa que justifique a movimentação de meia armada terrestre para este ponto tão critico à paz do sistema. O alto comando terrestre teve que espremer toneladas de suor para apaziguar a fúria dos marcianos que consequentemente não estão nada contentes pela nossa posição dentro de suas fronteiras, tenho de confessar que foram estranhamente mais relutantes que o costume, mas repito, explique-se com boas razões mercenário.

Zeco manteve a calma e fez uma ronda com o seu olhar por todos os oficiais na mesa. Antes de tudo era essencial defender a sua frágil posição.

- Senhores, sabem de antemão que estou a soldo da Companhia Mineira, ajo independentemente mas estou sobre contrato e protecção da dita instituição que, como sabem, é propriedade em cinquenta e um por cento da Federação Terrestre. Exijo que se faça respeitar todas as normas e direitos.

- Sim, sim, continue - ripostou o almirante.

- Seja então. Cavalheiros, tenho de lhes informar que poderia ter-vos avisado muito mais cedo, mais precisamente à dois meses atrás quando descobri tudo. No entanto achei de importância crucial ter-vos no local-prova para não haver duvidas algumas sobre toda esta trama. - Todos o olharam com ar curioso, continuou confiante: - meus senhores, a culpa do mistério dos asteróides... é dos marcianos.

O salão de combate entrou em burburinho de imediato, a noticia tinha soado quase como uma incómoda e inesperada bomba.

- Isso é uma acusação muito grave soldado. Como chegou a essa conclusão?

- A prova está neste preciso momento lá fora... no lugar onde ainda há pouco se encontrava a minha cápsula. Peço que façam uma leitura à chuva de asteróides que vagueiam no exterior.

O almirante deu a ordem que logo foi executada, momentos depois um dos oficiais colocado ao seu lado repetiu o que ouvira no seu auscultador - metatitâneo e diamante senhor, na sua maioria.

- Está a querer dizer que o que está lá fora é um dos asteróides? - concluiu o almirante.

- Cem por cento correcto - afirmou Zeco - é um dos asteróides, a prova viva do maior roubo da história meus senhores.

- Mas como? Como veio parar aqui e o que lhe aconteceu?

- Muito simples. Alguém na estação mineira sabotava o asteróide com uma bomba de fissão...

- Um bomba de fissão? Mas claro! Como não pensamos nisso? - exclamou um oficial de côr negra.

- Mas isso não explica o resto, como veio parar aqui? - desafiou outro com ar de oriental.

- O resto... o resto é obra prima do furto meus amigos. Se repararem a posição dos desaparecimentos fica sempre perto da orbita de translação de Marte, mais milhão menos milhão de quilómetros, não é? Pois bem, o resto a que você se referiu - apontou para o amarelado oficial - a natureza e as leis da fisica encarregam-se por si mesmas do assunto, ou ainda não entenderam? Passo a explicar, ao ser transformado em milhares de pedaços mais pequenos o asteróide fica indetectável aos radares da Companhia, consequentemente "desaparece". Mas na verdade está lá, talvez com umas gigatoneladas a menos, mas está definitivamente lá. Com a ajuda do campo magnético da explosão, todos os escombros do asteróide permanecem no mesmo lugar do espaço em que se dá a sabotagem. Sendo assim, o que será mais fácil do que esperar pacientemente, e no meu caso foram cerca de dois meses, que Marte siga a sua trajectória orbital, e quando passe por perto da "mercadoria", atraia naturalmente com a sua gravidade a maior parte ou mesmo todos os pedaços? O chamado fenómeno "estrela cadente" como devem saber muito bem; pequenos corpos ou lixos celestes que são atraidos para as orbitas dos planetas e que com tempo caem na superficie, era exactamente o que estava para me acontecer quando me apanharam. Metatitâneo e diamante concerteza não se desfazem ao entrar na leve atmosfera marciana, certo? Os marcianos usando a sua rede de satélites-sonares, fazem sem esforço o seu rasteio e recolha. Resultado meus senhores: não movendo virtualmente um dedo, encenam um roubo limpo, sistemático e eficaz, quase sem sujarem as mãos.

Nesse momento todos na sala olhavam fixamente para Zeco, pasmados, sentiam-se como a criança a quem lhe foi retirado o sorvete. Realmente era um plano tão genial e tão simples que fizera passar toda a gente por idiota.

O almirante finalmente quebrou o silêncio e levantou-se ordenando a recolha imediata dos pedaços de asteróide e para tomarem todas as devidas providencias para que futuramente não acontecesse o mesmo. Levantou-se e dirigiu-se para o mercenário cumprimentando-o.

- É um grande peso que nos tira de cima soldado. Perdão se fui um bocado áspero na nossa apresentação, mas tem de compreender.

- Sem ressentimentos almirante.

- Concerteza que a Federação Terrestre e a Companhia lhe irão recompensar devidamente mas diga-me, você daria um óptimo oficial não se quer alistar?

- Talvez um dia, talvez um dia. Agora só necessito de um bom banho e repouso numa cama de verdade, se fosse possível claro, era o meu único desejo... Ah! E se não fosse pedir demasiado, que alguém me fosse buscar a nave à estação mineira.

- Concedido. Tenente?! - chamou. - Por favor trate da devida instalação do soldado Zeco Mola! Estatuto VIP.

- Não era preciso almirante...

- Insisto soldado - disse começando a afastar-se - você merece. E agora se me dão licença preciso de fazer uma comunicação urgente ao alto comando terrestre.

Zeco embrenhou-se novamente nas entranhas da meganave pensando na choruda recompensa a que teria direito, mas antes de tudo, sumariava como aquilo tudo iria mudar o curso da História. Com a descoberta, Marte impotente perderia concerteza as suas fronteiras e o estatuto de planeta-civilização. Ficaria subjugada novamente ao poder da Terra como uma mera extensão ao seu império. Caso contrário, se oferecessem resistência, nova guerra seria inevitável e a aniquilação do planeta uma triste realidade.

Independentemente do futuro resultado, Zeco iria ser citado como o homem que despoletara a mudança, idolatrado por muitos e odiado por outros tantos. Mas isso nada importava, felizes dias se avizinhavam e ele pensava passá-los da melhor maneira. Talvez comprasse uma quinta à moda antiga na Terra, onde pudesse ter um campo de milho e fazer pipocas, muitas pipocas.

 

acerca do conto...
Título: O Destino da Rocha
Data: 05/11/98
Autor: Carlos Guimarães
e-mail: [email protected]
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