Retrocedersimetria: ficção
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carne azul
por Joana Duarte

- «Ó Amêlia você tem magia nas mãos! Hum, Huumm, Que Delíííícia!» - disse a Dr.ª Estela e triturou a 120 km/h a comida - «Onde aprendeu a cozinhar assim?» - comeu mais um bocado - «Deviam erguer-lhe uma estátua, Não!, um altar» - revirou os olhos ao pôr mais um bocado da carne azulada na boca - «Quem me dêra ter dois estômagos» - sorveu ruidosamente o dedo grande da mão para onde tinha escorrido um veio de molho - «Ai, Aiiii, que isto é quase orgásmico!!!»

Pois é Dr.ª Estela, coma mais um bocadinho do meu/seu manjar. E você também Dr. Ricardo Espírito-Santo, Amélia pensou diabolicamente enquanto sorria para a Dr.ª Estela, que continuava a lamber os restos de carne da mão, esquecendo toda a etiqueta estorilense que tinha adquirido desde a promoção do marido e a mudança para a nova vivenda.

- «De facto, a minha mulher tem razão...» - disse o Dr. Espírito-Santo e limpou a boca escancarada - «a Amélia é mesmo uma génia da culinária» - roubou o último bocado de carne da travessa da Vista Alegre e chupou-o sobre a língua - «Mas afinal, que tipo de carne é esta? Não pode ser vaca...é assim... um pouco azulada...»

Nem imagina, Dr. Ricardo, Nem imagina...

Amélia relembra este diálogo vezes sem conta. Enquanto olha para as grades, em forma de tabuleiro de xadrez, são estas as vozes que lhe ecoam nos ouvidos e que percorrem cada célula do seu corpo. São as cores, os cheiros, os ruídos daquele almoço que a paralisam por fora e alvoroçam por dentro, até ter vontade de partir a cara a alguém com murros e pontapés, citando os pensamentos da nossa Amélia.

Mas na instituição Paz da Glória do Senhor do Aleluia da Ressurreição da Virgem Amélia foi declarada uma «paciente em estado catatónico - Catatonis Statis -, incapaz de sair do torpor do choque a que foi sujeita há cinco anos atrás» (assim o colocou pomposamente o médico) e portanto incapaz também de concretizar esta sua vontade, um pouco violenta, de espancar todos os que a rodeiam.

Enfim, Amélia está agora sentada numa cadeira-de-rodas desde o dia do almoço em casa do casal Espírito-Santo, adquirindo por isso um calo em cada nádega do cú [o uso de coloquialismos conquista sempre algum público mais juvenil, sei de fonte segura, e para além disso, continuo citando Amélia] e um bronze no padrão axadrezado da janela onde a depositam diariamente. De facto, a sua cara daria muito bem para um bom jogo do galo.

Amélia sabe que os culpados deste seu destino são os cabrões, nojentos e incultos dos seus pais...

Ninguém melhor que a própria Amélia para caracterizar a sua relação com os pais, o casal Josefina e Marcolino Saloio de Sombral de Montagrasso. Numa entrada de Janeiro de 1993 do Diário de Amélia Saloio pode ler-se o seguinte:

Olho para a minha mãe e para o meu pai e tenho nojo, um nojo que não só puxa o vómito, mas que também incita à mais bárbara violência. Sentados em frente à TV a ver a novela, ou melhor, as novelas, todas as novelas do mundo e mais que houvesse - estes são os meus pais. Ele, de camisa interior suada com decote em U por cima da qual se notam os pelos pretos da sua peitaça portuguesa que por pouco não precisa de soutien; e ela de bata e socas descosidas. Gorda, disforme e com bigode à la Hitler [note-se que no original se lia «maior que o do filho-da-puta do meu pai», mas este estrangeirismo comparativo dá mais classe ao texto], a minha mãe senta-se de manhã em frente às novelas venezuelanas e só se levanta, exceptuando as refeições, para ir buscar o chamado lenço-de-limpar-lágrimas-quando-Mária Márrrr-é-maltratada-por-outro-homem [a título de curiosidade, informam-se os leitores que Mária Márrrr - com pronúncia brasileira - é a protagonista de uma destas novelas e é constantemente abusada, violada e espancada por homens].

Resumindo, Amélia é uma daquelas jovens sem sonhos e/ou ambições que os Centros de Apoio vêem como potenciais toxicodependentes, prostitutas, ladras, et al.

Contudo, Amélia realizou o 12º ano, sem nunca chumbar e com uma média razoável. Aliás, a professora de Português chegou mesmo a dizer à de Francês que a Amélia «é um diamante por lapidar». Foi o incentivo constante dos professores que despertou na nossa protagonista o desejo de escrever um diário que um dia fosse publicado, à semelhança de Anne Frank e daquela outra imitadora da Bósnia. Por isso, tenho agora à minha frente o Diário de Amélia Saloio, no qual me baseio para a construção desta minha narrativa. Mas continuemos a relatar a vida de Amélia, recorrendo à sua própria escrita:

Foi o suor do meu pai e o bigode da minha mãe que me impediram de entrar para a Faculdade e de levar uma vida normal [optei aqui por cortar totalmente a linguagem menos própria, até porque se a incluísse não teria espaço suficiente para o resto da narrativa].

Finalmente, Amélia saiu de casa aos 18 anos acabados de fazer e mais uns dias de chulanço aos meus pais [Op. Cit, dia 3 Março]. Dirigiu-se para o Estoril, para a vivenda Sunset, virada para o mar, com garagem e piscina. O anúncio do jornal, fanado do café O Albicastrense, dizia apenas:

EMPREGADA PRECISA-SE

Interna, para lida da casa
e trabalho de babysitting.

Contactar: (01) 836 31 27 ou 0931
666 666

Amélia achou perfeito, apesar de não ter percebido claramente a parte que dizia respeito ao «babysitting», mas, se for alguma coisa de quecas vou-me logo embora, pensou sensatamente enquanto pegava no telefone. (Bla, Bla, blabla, Blaaaa) Ao desligar, Amélia sentiu-se realizada por finalmente ter um emprego e poder sair de casa dos pais [consultando o Diário pode ler-se a este respeito: o emprego é meu, meu. E só bastou um telefonema para me livrar daqueles dois montes de banha. De facto, Amélia exibe uma escrita de laivos primitivistas, diria mesmo naturalistas].

A Dr.ª Estela - Tété para os amigos - parecia gostar de Amélia, embora esta nunca tivesse percebido de que raio é que a gaja é Dr.ª. Mas Amélia tinha aprendido a nunca interrogar os patrões, a sorrir constantemente e a obedecer in loco a tudo, apesar de o casal Espírito-Santo constituir um enorme mistério para a sua mente de Sobral de Montagrasso.

De pele bronzeada (mesmo no Inverno!), seios asiliconados e «és» ligeiramente metamorfoseados em «ês», a Dr.ª Estela achava «imênsa Graça, sei lá» ao facto de ter em sua casa uma «rapariga tão nôva como a Amêlia, sei lá». O Dr. Ricardo - sim, o chavalo é mesmo Dr., acho que é numa dessas engenharias que agora há pá aí, afirma Amélia com segurança - é director de uma firma em Cascais e todos os dias traz uma nova anedota para contar à sua Tété e da qual se riem os dois muito (mas com cuidado para não desfazerem as plásticas - a cozinheira disse em segredo a Amélia). Amélia descreve o casal: Nenhum deles tem pêlos, nem bigodes. Fartam-se de ir a festas e a recepções. Porra, parecem o Ken e a Barbie. Mais à frente acrescenta, Irritam-me, apetece-me esfaqueá-los enquanto dormem (...) [de novo, suprimi aqui as partes do corpo que Amélia gostaria de retalhar no casal e as descrições referentes à cor e quantidade de sangue do mesmo].

A Filipa Espírito-Santo - mais conhecida por Pipinha - tinha oito meses quando Amélia se mudou para a Vivenda Sunset. Mesmo assim, notava-se já nela o temperamento caprichoso e mimado que todos os filhos de Kens e Barbies estorilenses acabam por assumir. Basta referir que a casa-de-banho do quarto da Pipinha é maior que um átrio de hotel. Amélia sentia-se cada vez mais ressentida e invejosa desta pequena criatura. A propos disto mesmo, encontramos no dia 8 de Abril do Diário o seguinte desabafo: Vaca, cabra, porque é que a gaja não tem pêlos e banhas sempre em cima dela? Porque é que já tem uma aparelhagem Sony e a Faculdade escolhida?. Enfim, Amélia tinha uma raiva interior que crescia e que, por vezes, lhe chegava mesmo a provocar urticária.

Três meses depois e a tensão aumentava. Era Verão, altura de recepções e festas para todos os casais Espítito-Santo de Carcavelos à baía de Cascais. Amélia não aguentava mais: Estou farta dos «ós Amêlias» da Dr.ª Estela e dos gemidos do monstrozinho que tem agora um ano e tal. Na festa do primeiro aniversário, o Dr. Ricardo convidou o Avô Cantigas para vir para aqui fazer figura de palhaço no meio de todos os outros monstrozinhos que apareceram. Não faço comentários quanto aos meus dias-de-anos, mas o convidado de honra era quase sempre o Avô Porradas. Qualquer dia esta merda explode...

No dia 15 de Agosto houve, então, a festa da Cimpor na qual o Dr. Ricardo era O convidado de honra. A Dr.ª Estela veio do Salão de Beleza Princesa Diana às quatro da tarde e esteve até às sete no quarto a «arranjar-se, sei lá». Chamou Amélia vezes sem conta. A Pipinha chorava incessantemente. O Dr. Ricardo aparava meticulosamente as patilhas para que não parecesse um taberneiro, segundo Amélia ouviu dizer. Cocktails foram preparados e vestidos de lantejoulas saltavam de um dos quatro armários da Dr.ª Estela. Amélia estava nervosa e a violência lutava com o seu bom senso. No Diário pode ler-se: ajudei o Dr. Ricardo a arranjar o laço preto do fato e o meu impulso era apertá-lo até ver sangue a espirrar por todos os lados. Que ódio! Finalmente saíram, mas deixaram a Pipinha nas minhas «cuidadôsas mãozinhas de fada». Apetecia-me gritar da porta: Onde é que estão os vossos pêlos? Cabrões de plásticos. Car(...) [a ideia principal já foi expressa, os restantes insultos são deixados à imaginação do leitor].

Já na recta final deste exemplum literário, deixo agora Amélia falar:

Falta-lhe um último dente de leite. A miúda não se cala, não me deixa em paz. Vou lá, volto. Dou-lhe água, escrevo mais um bocado.

Não resulta, nada resulta. Nada faz calar aquele mostro rosado.

Amélia dirigiu-se pela última vez ao quarto de Filipa. Apertou-a violentamente, mas as lágrimas continuavam a cair por entre gritos cada vez mais lancinantes. Com os abanões, os caracóis loiros iam-se desfazendo lentamente. Amélia deixa-a cair na cama. Finalmente tem um momento de silêncio e a raiva amaina. Mas, mesmo já na sala, os gritos de Filipa continuaram a penetrar-lhe os ouvidos de uma forma que Amélia descreveu da seguinte forma:

A miúda está calada, mas continua a gritar. Lembro-me de uma porca que uma vez mataram lá na terra da minha da mãe e de cujo sangue fiquei salpicada quando deram o golpe inicial. Merda, começo a ter até dificuldades em escrever esta merda [sim, de facto a caligrafia está um pouco tremida]. Porra, a minha garganta parece palha d'aço, tenho os músculos todos tensos, a pele queima-me por dentro, não sinto nada. Desejo o golpe inicial como o que deram naquela porca. Desejo ouvir o som da pancada seca no osso cervical à qual se segue o esguincho de sangue... [o resto não se percebe, infelizmente. Daria um óptimo texto para análises Freudianas].

Como zombie, Amélia encaminhou-se para o quarto de Filipa, agora já em silêncio. Olhou para a cama e viu-a deitada de costas. Ao virá-la, deparou-se com o azul da sua cara que condizia com o azul dos seus olhos esbugalhados e inertes... 'tou fodida, pensou, no último rasgo de sanidade que alguma vez iria ter. Os dedos, azuis, o tronco azul, as coxas, o peito, os joelhos, tudo azul. E o som da porca lá da terra, misturava-se com o eco dos gritos de Filipa dentro da mente de Amélia. E o golpe seco inicial...

- «De facto, a minha mulher tem razão...» - limpa a boca escancarada - «a Amélia é mesmo uma génia da culinária» - rouba o último bocado de carne da travessa da Vista Alegre e chupa-o sobre a língua - «Mas afinal, que tipo de carne é esta? Não pode ser vaca...é assim... um pouco azulada...»

Amélia não responde, nem ouve sequer o que lhe dizem. Ainda cheira o sangue e agora é o som do golpe inicial que lhe ecoa na mente e que a deixa sedenta de mais golpes, muitos golpes, e esguichos de sangue.

-«Ó Amêlia - grita a Dr.ª Estela do quarto - onde está a Pipinha?... Ainda não vi hoje a minha rosadinha?...

 

FIM

[escrevo aqui «Fim», mas todos sabemos que o universo está em contínuo devir e que nada nunca tem o seu fim, não é verdade?]

 

acerca do conto...
Título: Carne Azul
Data: 12/10/98
Autora: Joana Duarte