Retrocedersimetria: ficção
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outras luas
por Leopoldo Guimarães

Há já dois meses terrestres que estava em Tétis, uma das quase três dezenas de luas de Saturno. Andávamos saltando de planeta em planeta em missão de testes de sobrevivência ambiental, o que em linguagem corrente significava logicamente que a nossa equipa era pluridisciplinar e tão alargada que incluía especialistas em terraformação, em defesa estratégica, em estruturas alotrópicas, em robótica e noutras ciências aparentemente dispensáveis no projecto base de trabalho atribuído ao contingente da nave Imbróglius. E foi quando na janela noticiosa do meu painel de bordo surgiram duas novas muito interessantes.

Uma anunciava que acabara de ser tornado público que finalmente, após inúmeros anos de profunda e frustrante investigação sobre a delicada manipulação de telómeros, cientistas japoneses haviam descoberto o modo preciso e subtil de intervenção no funcionamento do conhecido mecanismo molecular que controla a regeneração das células nervosas. Estava então estabelecida a farmácia do elixir da longa vida! De facto, antes de partir nesta viagem, apercebi-me que eram moda as conferências em sectores académicos, políticos e financeiros, sob títulos tão especulativos como "Que futuro para a humanidade?" ou "E agora, a vida?" ou ainda "Investimento ao maior prazo!" ou mesmo "Viver até quando?", mas não dei atenção particular ao assunto, atribuindo-o à tradicional motivação do círculo escatológico que intersticialmente estava introduzido em todos os domínios sociais.

A outra informava que no nosso perigeu seguinte atracaria na plataforma de acoplagem um módulo de transporte a deixar-nos mais três elementos de pessoal técnico. Um deles, Robin Stahll, expert em medicina regenerativa, o que não era estranho, dado que na passagem por Titã a densa atmosfera de metano corroera e perfurara imperceptivelmente o aro de uma escotilha da zona de manutenção dos geradores electromagnéticos e, a despeito do imediato alarme que desencadeou a eficaz isolação do compartimento, dois oficiais ainda sofreram graves queimaduras, e agora,. já bastante recuperados, necessitariam de terapias genéticas finais. Outro, uma neurofisiologista, a Lídia Zulin. E outro, a Selene Barsh, uma cirurgiã. Ora aqui estava um acontecimento imprevisível para todos nós, mas inegavelmente simpático para a maioria, porque nesta viagem da Imbróglius não tinha havido inicialmente destacamento de uma única mulher!

é certo que as nossas necessidades hormonais andam permanente e desejavelmente controladas, e que os nossos corpos, tanto machos como fêmeas, estão a tornar-se cada vez mais semelhantes em configuração física. As mulheres cada vez mais iguais, robustas mas feminis. Os homens também cada vez mais iguais, bem constituídos e varonis. A estatura é por de mais evidente, uniforme. Ao cabo de três gerações o Departamento Transcontinental de Saúde, muito gradualmente, conseguiu resultados espantosos porque ninguém parece compreender, ou pelo menos discutir, a normalização genética que está em curso sob sigilo. Talvez porque pessoalmente toda a gente goste de parecer bem, e a única parte que considera diferenciante e praticamente intocável seja o crânio. O que na realidade ainda caracteriza cada indivíduo é a sua cabeça, a qual vai mantendo traços comuns entre pais e filhos, que, como sempre se disse, saem uns aos outros, abafando assim a inquietante revolução morfológica entre os humanos terrestres. A mim, a evolução perturba-me, mas eu também reconheço que, como em toda a técnica progressista, o lado bom do processo é importantíssimo para o bem-estar geral. E às vezes até dou comigo a pensar que a minha filosofia moral, mais antiquada, não tem nada a ver com a minha filosofia ética, esta terrivelmente flexível e prática e actual. Olhando-nos uns aos outros vemo-nos seguramente distintos, e isso tranquiliza-nos, mas muito poucos de nós poderemos estar certos de que no interior da nossa cabeça, os nossos cérebros haverão permanecido intactos desde nascença, sem a mínima "intervenção orientadora" biologicamente conseguida, porque intelectualmente, já se sabe, ninguém escapa à infiltração cultural, ministrada aliás como direito fundamental. Nem sequer é questionada a forma como tal sucede, porque os códigos civilizacionais estão aceites universalmente, eliminados que foram os focos locais de radicalismo sociológico e estabilizado em tendência regressiva o insustentável crescimento populacional.

Bem, eu expresso-me assim, com espírito crítico e um misto de desconfiança e de auto-segurança, porque frequentemente avalio o meu livre arbítrio com façanhas temerárias, e logicamente meto-me em encrencas, mas felizmente o meu "arcanjo" protector, isto é a minha inteligência, passe a imodéstia, nunca falhou nos momentos exactamente necessários para me ajudar a subtrair-me a autênticos desaires. E desde já peço também que me perdoem identificar-me sob um trivial pseudónimo, Marwan, pois que a minha pessoa merece confidencialidade para efeito da narrativa, a qual visa realçar que, não existindo "presente" — de modo simplista a fracção de segundo que vem é "futuro" e a fracção de segundo que foi é "passado" e entrementes a fracção de segundo que poderia ser "presente" dissipou-se —, o subconsciente turbilhão temporal acrescido da incerteza quanto ao número de segundos de que ainda dispomos para existir, cada vez em maior quantidade, é que nos leva ao desafio de procurarmos viver situações inauditas.

"Ainda sou homem!", tinha eu por hábito afirmar, ironicamente, nas minhas tertúlias de amigos, quando alguém me convidava para algum jogo de talento aparentemente mais audacioso. Mas hoje logo desvio o olhar para qualquer coisa evasiva, perguntando a mim próprio: "Serei?". A minha afirmação vai carregada de múltiplos e arguciosos sentidos, mas tenho sempre um sorriso artilhado para desfazer eventual subentendido que incite o adversário a enveredar por um debate mais conclusivo.

A propósito, encontrei recentemente na biblioteca da Imbróglius um livrinho ainda de folhas de papel, vejam lá, portanto aí dos inícios do século XXI talvez, de autor desconhecido, com uma reflexão assim: "... Será que a era digital dispensará o corpo do Homem? O Leitor, que se está a tornar cada dia mais especialista — ou sábio, como agora dizem os mais presunçosos e ignorantes intelectuais — em cibercultura, dirá com um sorriso irónico e muitas reticências... — Pois sim!... — E interrogará, por seu turno: — Quem faz essa pergunta?

Poderia responder-lhe que quem a insinua é a plêiade de mágicos hipocráticos cada vez menos generalistas que desde tempos imemoriais lhe cuida da saúde e que antevê apreensivamente o colapso da sua clínica. No entanto o Leitor compreendeu que é uma pergunta falsa, proposta corporativamente para suscitar a sua imediata afirmação de que viver com todos os sentidos despertos é que é real... E pronto, fica logo contestada a ideia de abandono do corpo entusiasticamente argumentada por grande número de lúdicos cibernautas.

Mas o desenvolvimento da computação afectiva avança. A investigação em IA já atingiu patamares inimagináveis, ultrapassando a Ficção Científica mais reflectida e visionária, o que até já levou alguns cépticos a declararem prematuramente a morte deste género literário.

O que nos reserva então o futuro, se já hoje é larga a quantidade de diferentes próteses e mecanismos que aplicamos no nosso corpo, com a naturalidade com que substituímos peças em qualquer mecanismo inerte? Este fenómeno proporciona-se a muita especulação sem base científica, encontrando por exemplo um campo fértil no divertido fandom da cibernáutica, para o qual, de facto, o corpo biológico se constitui em algo quase supérfluo, substituível por um sistema mecânico e portanto desumanizável. é evidente que o conceito corporal se actualizou, no sentido de que a intrusão de partes artificiais, alheias à génese fisiológica original, é agora aceite como tratamento banal, e mesmo desejável. Antes de prosseguir desde já gostava de dizer que, em minha opinião, o caminho nunca seguirá por aí. Ou seja, o Homem jamais descambará num conjunto de peças descartáveis. Adiante explicarei a principal razão, que nem é fundamentada por questão de tempo, mais milhares de anos menos milhares de anos. Antes, acentuarei que é exacto que as técnicas e as ciências influenciam a evolução natural da espécie, mas tal acontece desde quando? Desde que o primeiro homem, ou a primeira mulher, surgiu à face do planeta, se bem que nos dias de hoje essa normal ocorrência revista formas muito perigosas — inúmeras espécies em vias de desaparecimento, outras sofrendo mutações insuspeitas; veja-se que em diversas áreas do globo têm sido revelados animais cujas mais recentes gerações estão a apresentar grande densidade de indivíduos hermafroditas, devido a alterações nos seus sistemas endócrinos por efeito de ambientes quimicamente poluídos nos seus habitat — ; alguém pessimista resmungará que o homem está a ter de enfrentar demasiados problemas ao mesmo tempo, não dispondo de capacidade de resposta nem para metade, mas alguém optimista asseverará humoradamente que os nós que não forem desatados pelos sábios implacavelmente serão tornados arcaicos e cairão desprezados por força da explosiva velocidade do avanço científico. Esta última asserção é verídica mas um tanto leviana, pois em alguns casos restarão sequelas inultrapassáveis. ..."

Seria um filósofo este sujeito? Claro. Mas a minha dúvida está incorrectamente formulada, pois deveria ser: — De que informação dispunha ele? — Algumas páginas mais à frente elucidava, linearmente: "... Sempre existirá quem se entretenha a desperdiçar paciência, tempo e dinheiro com pesquisa intempestiva que aliás não raro conduz a surpreendentes descobertas colaterais. Não obstante, as linhas de estudo mais escorreitas é que logram concitar a massa crítica da inteligência e aguçar a perspicácia dos ambiciosos lobbies financeiros, chame-se-lhes interesses laboratoriais, clínicos, alimentares, industriais ou governa- mentais. Se contemporaneamente as técnicas de diagnóstico e de cirurgia estão a alcançar requintes de precisão, e estão credivelmente franqueados larguíssimos horizontes no campo genético, o que nos reserva mesmo o futuro?..."

Bom senso e ampla informação são elementos indispensáveis, além de sagacidade, para vaticinar o que há de vir e este autor possuía-os. Página a página, usando seriedade e não pouca mordacidade, foi discorrendo sobre uma porção de preocupações guardando para o fim a sua razão principal, inteiramente válida. Cito aqui duas ou três cogitações, ainda coerentes nos tempos que correm: perversidade da falsa informação científica; sobrepopulação e recursos naturais; robτs humanóides; biologização das emoções; aceleração cronológica da clonagem. E a terminar, com extrema simplicidade, aduziu: "... Salvo por catástrofe total que origine mutantes ou até a longo prazo outra espécie de vida inteligente, a morfologia exterior dos homens e das mulheres, descansem os Leitores, não será objecto de visíveis transformações, e bem assim a sua fisiologia interna, pois até há de deixar de se recorrer a próteses, se não por motivos acidentais. Que certeza!? O Homem gosta de si próprio tal como é. Estabeleceu padrões de imagem pessoal que considera belos e provavelmente únicos no Universo. Para que são as prudentes e conservadoras Comissões Nacionais de ética, espalhadas pelos países ditos mais civilizados? Convençam-nas de que querem mais ou menos apêndices, outras capacidades corporais, ou a cómoda ausência do vosso invólucro biológico, se forem capazes. A perspectiva não me parece caricata, não." Certíssimo! Como já referi acima, estamos cada vez mais semelhantes em configuração física. Esta tendência de continuidade formal é tão pragmática que nem a deslocalização para alguns pontos do espaço tem provocado desvios, como previa o animado folclore fantasista que gravita nas margens da realidade, nomeadamente adaptações pulmonares para atmosferas diferentes, membros cibernéticos com habilidades acrescidas e outras ferramentas mirabolantes. As comissões de ética? Existem sim, regidas por arquétipos morais e princípios deontológicos, mas não se fazem notar.

Por sobre a porta da cabina os algarismos azulados do mostrador de tempo cintilaram rapidamente por uma dezena de vezes, assinalando que o posto ao lado do meu já estava ocupado e funcional. O meu presente turno de Oficial de Comunicações terminava. Opacizei a larga vigia e simultaneamente a reduzida luminosidade da pequena sala foi ampliada. Coloquei os scan astronómicos em operação de automatismo, a antena em rotação de cruzeiro e fui repousar um bocado no módulo social da Imbróglius. Era hora em que o nosso chamado "Bar" usualmente não tinha visitantes. Os operadores de turno neste horário preferiam ir logo para os seus aposentos individuais e efectuarem um período de sono antes de mais tarde se reunirem em convívio no salão. "Bar" é uma designação tradicional, pois quem conhece naves interplanetárias sabe que tal sítio nada tem a ver com semelhantes instalações em solo, como por exemplo aquelas esplêndidas salas do Lunar Strip Dancing. Mas nas circunstâncias é uma boa tentativa para facilitar que a tripulação confraternize amiudadamente. Numa parede, de lado a lado, existe uma fila de máquinas distribuidoras de dietéticas bebidas e ligeiros consumos alimentares, incluindo gavetas para incineração e reciclagem de desperdícios. A dois palmos de distância e a uma altura equilibrada passa um corrimão plano, em acrílico, que serve de apoio para quem se quiser encostar ficando na conversa ali mesmo. Dispersas pelo salão, mesas e cadeiras simples e confortáveis. Numa nave a economia de espaço, a eficiência objectiva e a ergonomia do mobiliário são uma constante obrigatória. A mais, algumas consolas com jogos de estratégia.

Abasteci-me de um suco de Luntang e fui sentar-me comodamente a jogar Magic the Gathering. Ainda me andava na cabeça a história da manipulação proteica nos telτmeros celulares e por isso não estava concentrado na partida, lançando jogadas arriscadas, apesar de não ter sido distraído pelos fracos ruídos da chegada de mais alguém.

— Você é sempre assim, um jogador impulsivo, místico?!

— Não! Bem pelo contrário. Quando jogo sou muito cerebral... Olá! Você sobressaltou-me!

— Olá! Não foi caso para tanto!

— Já sabia que duas senhoras teriam sido acolhidas na Imbróglius, mas ainda estava longe de contar que inesperadamente escutaria atrás mim um voz feminina e simpática... Tenente Marwan, às suas ordens, doutora. Bem vinda!

— Obrigada, Tenente... Lídia Zulin, neurofisiologista. Muito gosto.

— Não quer sentar-se e dar-me uns palpites, Lídia?

— Humm!... Está a aliciar-me para alguma coisa, Marwan?... Os bons jogadores não apreciam palpites de mirones.

— Pois eu aprecio, o que indicia que não sou um bom jogador... E estou a tentar que me faça um pouco de companhia, não só pelo prazer de cavaquear com uma mulher bonita mas também pela curiosidade de conhecer uma neurofisiologista... Que é que você faz mesmo Lídia?

— E diz você que é um jogador cerebral! Então já está em ataque cerrado... Golpe por golpe, o seu baralho não dispõe de feitiços poderosos nem encantamentos mágicos! Ah! Tenente, quer saber o que eu faço? Resumidamente, estudo e trabalho a cabecinha das pessoas in situ, a fisiologia do sistema nervoso.

— Bolas! é melhor não falar dessa coisa complicada... Não arranja um nome melhor para isso? — ripostei, divertido.

— Lídia... Serve-lhe?

— Extraordinariamente melhor, Lídia! Você prefere baralhos diabólicos? Os seus contra-ataques são fulminantes...

— Marwan, você é que seleccionou o jogo...

— Certo, Lídia! Eu devia ter logo apostado tudo, perguntando-lhe há quanto tempo não pratica sexo e se terei chances de a levar comigo para os meus aposentos...

— A tripulação da Imbróglius é toda assim esfomeada como você? Ou será o robτ da cozinha que anda a falhar a sua dose hormonal, Tenente!?

— Fui eu que o subornei para isso. Dei-lhe a notícia de que estava para chegar um reabastecimento de carne fresca e saborosa... Um cozinheiro fica sempre contente por poder variar a ementa e usar produtos não sintéticos, não é?

— Você gosta muito de Magic...

— Outro dia estive à conversa com o Comandante e concordamos que há entretenimentos clássicos que o homem nunca abandonará, como jogar Mahjong ou Xadrez ou Magic.

— Previno-o de que sei uns truques muito razoáveis. Hoje não dá, que estou bastante cansada da viagem e do transbordo, mas espere-me na volta...

— Acho que já ouvi escusas parecidas noutras ocasiões. Tem razão, um bom jogador deve ser paciente... Tive muito gosto em recebê-la neste "Bar" tranquilo e proponho-lhe um pacto: não se tente com a minha cabecinha, que é muito complexa, e eu prometo-lhe pensar duas vezes antes de procurar seduzi-la sem o Comandante se aperceber. Até depois, doutora Zulin!

— Até breve, Tenente Marwan!

Só me despedi de Lídia porque ela já se levantara e fazia tenção de se retirar, mas depois, já no meu beliche, reflecti se não teria sido melhor convidá-la a ficar mais um pouco, abrindo outro jogo com novo baralho e ela por parceira, desmontando com delicadeza aquela imagem ousada que inopinadamente lhe atirara aos olhos. O que me teria conduzido para uma corte tão imediata e directa? A Dra. Lídia era bonita, mas não invulgar. Claramente Indostânica, tez morena, usava um rabicho saltitante de cabelo preto. Magra. Seios firmes sob a malha do uniforme. Ah! Olhar biónico! Devia ser: íris negras e pupilas azul escuro! O que é que ela observaria e eu não? Fascinante! Ou teria sido ilusão minha? A qualquer hora poderia confirmar isso. Todavia, depois da minha entrada impetuosa, apesar de tudo bem aceite, ela semeara perplexidade na minha mente. Mulheres... enigmas, sempre.

A qualquer hora, não. Várias órbitas depois, alguns dias portanto. Para ser mais concreto, após pularmos interessadamente para Iápeto, mundo de gelo e matéria orgânica. A rota pesquisadora da Imbróglius não era sistemática. Mas, logo no meu turno seguinte quase sofri um pequeno vexame por causa de Lídia. Ora vejam:

— Com que então Tenente Marwan, já soube que anda em maré de conquistas?!

— Viva meu Comandante! Espero bem que não tenha sabido... Julgo que tem ideia que a sua guarnição tem orgulho de dizer que a Imbróglius é a única nave isenta de câmaras ocultas, livre-se...

— Olá!...Acertei, Marwan!

— Em que e como é que acertou? Poderá esclarecer-me, meu Comandante?

— Exceptuando muito poucos, vocês não deveriam merecer a minha atenção. Não passam de um grupo de presunçosos. Mas deixando em claro esse arremedo de rebeldia, que eu nem escutei direito, tome lá nota: Meta-se lá com ela, sem infringir regulamentos, mas depois não se queixe...

— O Comandante está a recrear-se comigo... A Lídia contou-lhe algum devaneio...

— Isso mesmo, Marwan... A Dra. Lídia Zulin esteve há pouco a trocar impressões profissionais comigo, e insistiu tanto num Oficial de Comunicações, um tal Mar... não se lembrava bem, muito simpático, que eu adivinhei logo que você já teria andado a rondá-la. Boa mira, en?!

— O Senhor prega-me cada partida!...

— Vamos ao trabalho. Primeiro as Luas e depois as estrelas...

Quer dizer, Lídia não desdenhava jogar comigo, mas queria estar em vantagem desde o primeiro lance. E por que não?

Mais tarde quando larguei o serviço operacional liguei-lhe para o gabinete pela rede geral de comunicações, o único ponto casualmente inseguro na privacidade individual dentro da nave. Estava quase a completar-se a rotação de um período de turnos, e então o meu descanso voltaria a cair por duas vezes consecutivas na mesma hora sem bulício em que nos conhecêramos. E eu achava que seria uma cena invejável exibir a minha familiaridade com ela.

— Viva Dra. Zulin! Não sei se ainda se recorda, mas estabelecemos um pacto...

— Quem?!...

— Tenente Marwan...

— Ah! Marwan... Não vai acreditar mas estava mesmo a pensar em si e a vê-lo no ecrã e não o reconhecia!... Desculpe-me, Marwan. Posso ajudá-lo de alguma maneira?...

— Se tiver um pedacito de tempo livre, agora, desafio-a para dois dedos de conversa e uma partida de Xadrez. Que tal?

— óptimo! Sempre se varia de jogo, e nos revemos de perto...

— Sabe que hoje está com um aspecto mais clínico mas não menos auspicioso?

— Obrigada, Marwan. Vou ter consigo ao Bar mas dê-me tempo para me desgrenhar a fim de aparentar que estive muito atarefada... Assim, se perder o jogo, estou justificada.

Demorou um pouco mas surgiu com uma aparência encantadora, e brilhante. Não estou a exagerar pois ela aplicara no cabelo muito penteado uma ténue poalha dourada. Pela primeira vez me perguntei quantos anos teria aquela mulher. Dominada a telτmero-génese, muito brevemente o factor idade perderia bastante significação. Também foi a primeira vez em que lhe avaliei a atraente figura, quase com indiscrição, mas o seu olhar escapou-se-me constantemente.

Enquanto aguardava por Lídia servi-me de um aperitivo amarelado, supostamente com sabor a lentisco. E para assegurar que a mesa mais central estaria livre para nós, fui sentar-me lá informando inocentemente os dois pilotos de reserva que estavam a contar anedotas até haver indicação definitiva de que se poderiam recolher: — Pareceu-me ouvir por aí que o Comandante andará à vossa procura... Desliguem os vossos note books e suspendam as pilhérias e desapareçam antes que ele vos chame e apanhem com mais outro turno. — E eles olharam-me instintivamente desconfiados mas desandaram agradecidos. Quando verificassem que por uma boa causa pessoal os caçara distraídos, não ficariam irritados e até zombariam de si próprios. Era tudo gente com fair play. Logo que eles se foram embora desloquei para cima da mesa dois monitores, parametrizei-os em linha exclusiva e carreguei o melhor programa de Xadrez tridimensional que encontrei em arquivo.

Mal a vi assomar à entrada do salão soergui-me e acenei-lhe, e pelo meu atabalhoamento por pouco não me desequilibrei... quase todos os que se encontravam no Bar seguiram com o olhar o percurso dela até mim, como se eu estivesse invisível e não soubessem quem ela era. Só faltou que um ou outro mais atrevido a brindasse com umas galanteadoras assobiadelas. E mostrei-me ufano quando Lídia se aproximou e me cumprimentou sorridente e amistosa levando a mão ao meu braço e conservando-a assim por momentos enquanto me dizia:

— Olá, Tenente Marwan! Gostei do seu desafio... Vamos lá a uma partida. — acrescentando, provocadora: — Costuma ganhar sempre?!

Por entre um nítido cicio que perpassou a sala... ssssssssssss... e no silêncio que ficou depois, disfarcei a pura vaidade por aquela homenagem finalmente concedida também à minha pessoa de modo expresso, ajudando Lídia a sentar-se e revelando-me gentil e cúmplice no nosso trato:

— Não, não, Dra. Zulin! Não passo de um iniciado Mestre, pelo que as minhas vitórias dependem muito essencialmente do valor dos adversários... Este aperitivo de lentisco é agradável. Posso trazer-lhe um igual para si ou deseja outra bebida mais doce? — e em voz muito baixa: — Você está encantadora... Veio para jogarmos Xadrez, de certeza?... — ao que ela me retorquiu em tom normal, soltando uma pequenina risada: — Lentisco! Ah! Estou a compreender... Marwan... sabores ancestrais... Também quero para mim, obrigada.

Era lisonjeiro mas um tanto incomodativo que toda a gente estivesse calada e interessada no nosso diálogo.

— Já estou a ganhar alguma coisa de si! Até hoje escapou-me sempre essa correlação ancestral entre a minha personalidade e certas formas de estar, Dra. Lídia.

— Ah, não! A minha especialidade é apenas neurofisiologia, Marwan... de outras coisas não sei nada.

— Lídia!? Sorte para mim, que nesse caso tenho hipóteses de conseguir vencê-la...

— Veremos... E dá-me a vantagem de jogar com as brancas, Marwan!

— Só esta partida, Lídia. Primeiro as senhoras!

Mais tarde muitos haveriam de me gozar por estas tiradas fora de moda, era certo e sabido — Primeiro as senhoras!... Também deseja um aperitivo de lentisco?... ó pá, até parece que uma mulher é mais do que uma mulher... Que é que te aconteceu? Ela deu-te forte na cabeça? — Mas eu, e tenho a convicção de que Lídia também, estava radiante com a brincadeira onde havia subentendidos que além de nós os dois ninguém percebia, e fluía numa linguagem que fixava entre nós uma abstrusa dissimulação de intimidade. Razões para este nosso desusado procedimento? Não via. E também não me interessavam.

Começamos o jogo e então lembrei-me que poderia ter optado por projectar o tabuleiro no videowall duma das paredes laterais da sala, ante tanta malta que se acomodara tanto por detrás de Lídia como de mim, a seguir o jogo com muita curiosidade. Mas ainda bem que não cometera essa asneira porque por um lado haveria alguém que não resistiria a comentar descontraidamente: — Bom lance!; ou — Joga aquilo!; ou — Não, não! Aí joga-se isto... E por outro deu logo para entender que ela sabia bastante Teoria de Aberturas e Defesas e eu só teria a lucrar se mantivesse para nós o ambiente reservado, no qual a disputa escaquística era somente o pano de fundo para publicamente apressarmos a nossa relação de ambígua camaradagem.

Verdade seja dita que ela jogava bem e que eu estava pouco absorvido nos lances. Ganhar ou perder era-me indiferente, naquele caso. Mas como eu não jogo mal, a partida, desenvolvida calmamente, cedo se tornou numa competição posicional com potencialidades combinatórias a qualquer momento fatais para um de nós. Entretanto, a minha autêntica intenção era a de lhe prender um olhar inadvertido que me permitisse aproximar-me da definição do tipo de mulher que ela estava a representar propositadamente para mim. Esforço debalde. Talvez não tanto por que ela tenha percebido a minha ideia mas mais porque ela voluntariamente houvesse determinado que eu não teria autorização de fácil acesso aos seus misteriosos olhos escuros. Nem mesmo quando, para minha admiração, me propτs um inusitado empate no jogo, precisamente no momento em que eu constatei que no seu próximo lance, que nem era muito difícil de descortinar, ela poderia consubstanciar uma superioridade material insustentável para mim. De facto então encarou-me com um sorriso bem simplório e amigável, olhar semicerrado, o semblante assumindo resignada derrota. Aceitei a igualdade, sem comentários, mas escutei diversas vozes desoladas: — Oh!... — Decerto não penalizadas por mim mas porque nem queriam acreditar que Lídia não houvesse achado o golpe que me derrubaria. Ainda hoje os homens como as mulheres se combatem mais entre si do que inter-pares. Apaguei imediatamente os ecrãs e deu-me imensa satisfação vê-la olhar em redor e receber muitos acenos de felicitação ao mesmo tempo que toda a gente se retirava com discrição como se então notasse ter sido abusivo da sua parte estar a observar o nosso confronto.

— Excelente o seu nível de jogo, Lídia!

— Você estava distraído...

— Um pouco, mas por isso mesmo você não devia ter-me poupado.

— Marwan, você é mesmo um sujeito cerebral... Que jogo fechado!

— Esqueci-me que a Lídia conhece os meandros das nossas cabeças. A sua caracterização lúdica também não me pareceu emotiva... Fria?

— Que ideia, Marwan!

— Hei de comprovar isso.

— Está mesmo tentado?

— Quase. E sabe porquê? Porque quero ver os seus olhos e atinar com a razão de eu ter sido o eleito...

— O que é que me diz pelo Comandante ter estado quase todo o tempo a seguir os seus lances?

— Não me diga! Ele esteve aqui?

— Ou será que se colocou por detrás de si com o intuito de me vigiar?...

— Em conclusão: andamos a desempenhar estes papéis ultrapassados no tempo, porque motivo? Agora é a sua vez de me marcar um encontro... designadamente para me explicar o que está a acontecer..

— Que não seja por isso que você possa dizer que o abandono. Quando?

— A seguir completo um ciclo de rotatividade e volto a despegar à hora remansosa em que a conheci... Vale?

— Está combinado, Marwan. Agora vou-me embora, porque estou a sentir grande curiosidade à minha volta mas não propriamente interesse em mim...

— De acordo. Lídia, o que é que foi feito dos seus colegas Robin e Selene que eu ainda não tive o prazer de conhecer?

— Provavelmente, tempos livres desencontrados dos seus Marwan.

Encarreguei-me de ser eu a levar os nossos copos para uma gaveta de reciclagem e este pequeno gesto inculcou-me decisivamente a noção de que Lídia era senhora de uma individualidade atipica, sensivelmente distinta das outras mulheres com quem eu algum dia convivera e que nem se detinha em subtilezas para esconder essa faceta, ou então estaria pura e simplesmente a diligenciar iludir-me. Eu ainda não lograra estabelecer-lhe a idade, mas parecia-me que ela não deveria ter mais dois ou três anos que os meus trinca e quatro, e não seria por essa escassa diferença, traduzida em experiência de vida, que Lídia conseguiria enganar-me, esquecida a minha íntima imodéstia quando aos índices de outros atributos mentais, certamente. Como é do conhecimento geral apenas com a recente, pode-se dize-lo, criação da Federação Transcontinental e já fruto do trabalho das impostas Altas Autoridades, foi possível dar início pratico às imperiosas regras fixadas na Carta da População Mundial, e se já há medidas efectivas em tempo muito próximo outras levarão ainda mais gerações até terem resultado plenamente. Estou a falar, por exemplo, do desequilíbrio crescente que afectou a relação numérica de existências homens/mulheres, muito favorável a elas e que agora nos escalões etários juvenis já está a regredir para patamares compensados. Quero eu dizer que, entre adultos, ainda há muito mais mulheres do que homens, quase numa proporção de cinco para dois. à Lídia, paradoxalmente numa situação inversa na Imbróglius com tripulação exclusivamente masculina na presente missão, para escolher parceiro não faltariam candidatos.

Apesar de tudo, estes raciocínios que me povoavam o pensamento foram bem sucedidos em mostrar-se complicados de explicitar. Lídia, especializada em neurónios, já estava a baralhar-me? Os seus olhos, que eu dizia biónicos, é que me haviam seduzido? E porque razão eu não lhe manifestara que terminado o dito próximo turno entraria também em gozo de licença regulamentar?

Boa hora de me recolher. Seria, se não estivesse a entrar na sala o único homem por mim desconhecido na nave, o Dr. Robin Stahll. Caminhou justamente na minha direcção, com um sorriso naturalmente simpático. — O quê!? Também vai avisar-me que não será bom para mim ir com a Lídia para a cama?! — disse comigo próprio, comicamente, ao mesmo tempo que levei as pontas dos dedos ao boné em saudação cerimoniosa.

— Dr. Stahll, creio!...

— Tenente Marwan. Como passa? Curiosamente, deve ser um dos raros habitantes da nave que apenas agora tenho a satisfação de conhecer!

— Acasos... Já me opinaram tratar-se de desfasamento nos nossos tempos livres. Talvez pela mesma causa, nunca encontrei Selene Barsh.

— No caso dela a razão é mais de ordem profissional, Marwan. Desde que aqui chegámos que ela não larga o seu gabinete e só tem sido vista por quem ela chama a entrevistas pessoais. — Salvo o Comandante... — pensei eu, com humor. Ainda não me familiarizara com Robin mas suspeitei que ele acharia muita piada a este dito se eu o houvesse incluído na conversa. Robin era um tipo meio fleumático. Loiro, inocentes olhos azuis, bigode aparatoso, compleição idêntica à minha, idade mais avançada.

— Robin, brevemente passaremos a ver-nos mais vezes, se gosta deste Bar e da nossa Biblioteca, e acho que vamos dar-nos bastante bem. Aposto que você também dá apreço aos bons velhos jogos de táctica e estratégia, não?

— Marwan, conte com adversário. A Lídia já me advertiu que circunstancialmente eu tenho andado a perder uma boa amizade consigo. Arranje tempo e apareça.

— A Dra. Lídia é muito simpática para comigo... Então até breve, Robin! — despedi-me, a meditar: — Lídia! Não a incumbi da minha promoção pessoal! E se quer descobrir-me que venha fazer amor comigo, que será oportunidade muito mais eficiente e deliciosa...

Hábito frequente, o Comandante falou-me de passagem quando ia a caminha de retomar o meu horário de serviço. Desta vez apenas para me dizer:

— Marwan, antes de entrar de licença vá ao meu gabinete, por favor. Gostava de trocar umas impressões...

— Comandante, tem mesmo de ser então? Não poderá ficar para mais tarde um pouco? Já tinha prevista uma curta e proveitosa desambientação funcional...

— é consigo. Vá quando puder.

— Sim, Comandante!

— E se eu lhe disser que posso lá ter a Dra. Selene Barsh para divagarmos um bocado?...

— Nem assim, meu Comandante. Tenho sempre receio de cirurgiões.

— Você tem é cabeça quente enfiada em boné congelante. Por antecipação, boas férias, Marwan!

— Obrigado, e assim sejam Senhor.

No fim do turno dei um grande suspiro de contentamento e corri para os lavabos comuns para tomar um duche rápido e depois voei para o meu camarote onde mudei o uniforme. Ela esperava-me no Bar, mas — Inconveniência! — estava acompanhada por Robin. Mais ninguém no salão e logo ele a intrometer-se! Malvados instantes que eu perdera a vestir-me!

— Olá, Marwan! Ainda bem que você apareceu. Preciso de ir trabalhar mas não queria deixar Lídia sem companhia. Aturem-se ou ajudem-se. Passem bem. Até depois!

— Não foi pela minha expressão desolada que ele se foi embora, pois não, Lídia? — perguntei em entoação normal depois de ele sair e sem me importar que ainda me tivesse ouvido.

— Que é que acha, Marwan?

— Não suporto mulheres que a uma interrogação me respondem com outra, quero dizer, deixo de me interessar por elas. Mas já reparei que consigo ando a abrir uma excepção. Não sei até quando, é claro...

— Gosto de homens que me tratam como excepcional. Agrada-lhe?

— Agrada-me... Ambas as coisas, a resposta e você, Lídia.

— Podemos começar a beijar-nos aqui, ou no meu gabinete, ou no seu beliche ou no meu, ou em algum lugar único. Tantos sítios mas você é que escolherá Marwan, na condição de me satisfazer...

— Deixe-me raciocinar, Lídia. Não pretendo apenas satisfaze-la na cama, mas em tudo... Estou a ver que ainda tenho de acabar por ir falar com o Comandante...

— O quê, Marwan!?

— Tive uma ideia brilhante, algo que você nunca deverá ter experimentado, mas necessito de autorização superior...

— Onde, Marwan?

— Estou a ficar rendido por redescobrir a sonoridade do meu nome!

— Marwan!

— Que tal numa câmara de Gravidade 0, Dra.?

— Fantástico! Tenho a prática mínima indispensável em G0 mas é verdade que nunca tentei fazer sexo. Sabe que estou mesmo a entusiasmar-me consigo?

— Bonito! Não querem lá ver que vamos fazer amor e ainda me tratas por "você"?

— Gravidade 0!... Mas porque é que não disseste isso logo? Em que piso é que fica esse "quarto"? Entre o dois e o cinco eu posso circular livremente...

— Mas não posso eu, Lídia. Precisamente no quinto necessito de luz verde do Comandante.

— Vamos, que eu tenho permissão de andar acompanhada. Ou estavas a fazer bluff comigo?... E essa câmara garante alguma reserva de privacidade?

— Não se pode ter tudo. Lídia, uma tal experiência não é momento que valha um certo sentimento de insegurança? Ou queres que eu vá mesmo pedir ao Comandante para bloquear a vídeovigilância?

— Era o que me faltava, contares-lhe que vamos fazer amor!

— Era capaz de não ser mau de todo, porque assim ele próprio se encarregava de ser o único com acesso às imagens... O pior é a gravação, que ficará à mercê de mais de meio mundo da Segurança.

— Marwan!

— Diz Lídia, diz. Depois daquela piada já começava a perder a esperança de ouvir de novo o meu nome antes de te mordiscar...

— Boa novidade para ti! O meu chip de identificação também dá para interromper a digitalização de imagens. Basta um sinal meu diante da câmara. é evidente que ficará registado que eu e tu estivemos lá, e por quanto tempo, e que eu cortei a gravação vídeo... Mas, por mim aguento o risco. Tens a certeza de que é um local observado?

— Doutora, nesta nave todos os lugares que não sejam individuais podem ser controlados oficialmente. Salvo o Bar e, adivinhe, as instalações da Segurança... Não acha uma boa medida?

— Safa! Que cautelas, Marwan!

— Contigo cá dentro e outras cabecinhas como a tua, e andam por aí imensas, é indispensável, eu acho. Mas está descansada que não existe captação de som em lado algum. — Também, o que nos apetecerá dizer em Gravidade 0, meu Tenente?

— Basta que me digas: "Amor, estou regalada!", sim Lídia?

— Presumido!... Vamos!

Nem eu alguma vez havia provado sexo em condições G0. E não aconselho a aventura a quem quer que seja, pois evidentemente que é pouco cómodo e exige muito treino. Imaginem, imaginem porque não vão afastar-se muito da realidade. E nem eu nem a Lídia atingimos o climax, mas deu para muita brincadeira e para constatar que ela possuía uma pequenina tatuagem animal, um dragão flamejante, na curva mais redonda da nádega esquerda e para ficarmos serenamente enamorados. Depois desistimos e fomos para o camarote dela, igualzinho ao meu, mas que foi o que ela preferiu. E por lá ficamos tempos esquecidos, numa penumbra intimista, ora fazendo amor ora preguiçando em conversa com pouco nexo mas com muito alcance.

— Porquê eu, Lídia?

— Tenente a sua fama anda longe, sabia? à minha passagem na Base Lunar disse entre amigos uma frase que às vezes uso a título de chalaça: "Ainda sou mulher!". E gozaram-me logo: Olha, outra! Não sei onde há um Oficial de Comunicações que costuma embrulhar-se nessa veleidade... Estás a ver como nós é que temos razão. Ou não me achas mulher?

.....

— Deu-te satisfação andares a saber de mim junto do Comandante?

— Até deu, Marwan! Topei que vocês os dois têm qualquer relação especial... Durante a nossa conferência, que foi pelo meio dela que eu sondei o que me interessava, pude verificar algo curioso. é que só a ti e a um outro tripulante, Kinny, o vosso robτ-cozinheiro, ele designou pelos nomes em vez dos postos ou funções.

— Olha que se concluíste por uma relação "qualquer" concluíste pouco!... Estima, desde há muito tempo, e semelhanças de personalidade.

.....

— Mas porquê eu, Lídia? és tão emotiva e no entanto tens um jogo tão lógico...

— Porquê tu, Marwan? De novo? Ora, depois saberás...

— Depois!?... O que queres dizer com isso?

— Quero dizer que vou passar outra vez para cima de ti... Não me desiludas, Marwan! Quiseste-me, agora...

.....

— Nunca me deixas fitar os teus olhos, porquê?

— Então não sabes?

— Não sei que tens visão biónica?!...

— Danado! Não sabes que tenho evitado mostrar-te o meu desejo? Ora olha agora...

— Com esta obscuridade adianta-me muito. São negros e misteriosos, isso eu sei, Lídia.

— E também são azuis.

— Pareceu-me que são, mas...

— Mas, nada. Quero sentir o teu furor numa "canzana". Conheces o termo, ou só eu é que esmiucei isso numa enciclopédia muita antiga?

— Se o Comandante te ouve! Ele que é um bibliófilo conhecedor...

— Bem, Marwan, se não sabes eu ensino-te.

— Ouviste contar que há muitos anos havia quem tivesse livrinhos de cabeceira com essas técnicas todas? O Kamasutra, salvo erro.

— Estás a ver-me à procura de curiosidades dessas no meu notebook?

— Não, minha estrela, eram mesmo livrinhos em papel, ilustrados...

— O bibliófilo é o teu Comandante ou és tu?!

— Eu mostro-te já.

Por estas falas me entenderão? Lídia era deliciosa mas irrefragável na sua sexualidade e em alguns enigmas que se haviam encaixado no meu espírito. Digam-me o que disserem, na minha opinião, com indesmentível e fundamentado conhecimento de causa, aliás, hoje raramente susceptível de ser obtido e confirmado, as mulheres fazem sexo com emotividade diferente de quando fazem amor, ainda que essa distinção seja subtil. é claro que também a afectividade tem facetas diferentes de geração para geração. Neste caso, não tenho dúvida que a Dra. Zulin faria sexo comigo, enquanto Lídia fez amor. "Ainda sou mulher!" prestava-se a variadas interpretações mas a que eu reconhecia marcadamente era a nuance afectiva. As mulheres estão cada vez mais iguais mas, independentemente da poligamia oficiosa que exercem, ainda restam algumas a quem as reputadas terapias hormonais não terão desarmado totalmente o sentimentalismo. Acaso bom, ou mau? Nunca discuti isso nem sequer comigo. Agora, que gosto delas disfarçadamente sonhadoras e carecidas de mimo, é verdade.

Todos os sensores suspensos indefinidamente e todas as vias de intercomunicação pessoal desligadas por período superior a um adequado repouso, naturalmente que despertariam atenções preocupadas mas indesejáveis. Lídia estava a fazer-me chegar a um ponto a partir do qual eu adormeceria e tão cedo não quereria acordar e ir-me embora. Avisei-a e ela riu-se e provocou-me com tanto escândalo de corpo que até o meu subconsciente veio em meu auxílio recordando-me que estivera a guardar um trunfo valioso: — Lídia! Excelente notícia para ti! Esqueceu-me de te prevenir que neste instante já estou de licença regulamentar. Férias por duas rotações inteiras de turnos! Será melhor trazer para aqui alguns pertences de uso particular, não? — Nem penses, Marwan! Eu não posso dedicar-me a contínua vida de cama contigo... nem tu arcavas com a minha viciosidade! Mas é bom saber que não será por impossibilidade de horário que não me tomarás. é melhor descansarmos agora, porque depois e depois e depois os teus turnos vão ser comigo, não achas?

Já nem lhe respondi pois caí no sono imediatamente. E tive um sonho parvo, em que ela me hipnotizou e disparatadamente me pτs a vaguear pela Imbróglius, como um sonâmbulo, e a certa altura, depois de muito cirandar que até parecia que a nave era dez vezes maior, surgiu o Comandante irritado a perguntar "Quem foi que o pτs assim?" e logo a Dra. Zulin replicou com insolência "Fui eu! Além de estar a testar a capacidade de orientação do Tenente, acho-lhe graça, e digo mais, gosto do Marwan!". Escusado será dizer que foi quando acordei apalermado, Lídia encavalitada na minha anca massajando-me suavemente os plexos acima das omoplatas e a murmurar-me: — Estás no céu, Marwan?! Tem paciência meu anjo, levante-te e vai ronronar na tua cabina porque eu ainda preciso de arranjar a Dra. Zulin para o trabalho.... Logo à mesma hora? O que é que tu vais fazer durante tanto tempo sem mim? — Aquilo que fazia antes de ti, mas não me peças para descrever agora, que nem me tenho de pé... Até logo, chuchu! — Ah, bem suspeitei que tinhas bebido afrodisíacos... em sumo dessa cucurbitácea, o lentisco?! — Cucur?... és sempre assim inaturável quando sais da cama, Lídia!? Pelo menos dá-me um beijinho... Até logo! — Até logo, Tenente Marwan.

Sim, no sonho ela permitiu-me mirar-lhe os olhos por uma vez, desde quando exclamou para o Comandante "Fui eu!..." e até "... gosto do Marwan!" e eu então fiquei interdito de lhe ripostar: "Olha que estás a falar com o meu Comandante, e de mim! Sabes que te quero, não sabes?" porque senti-me a cair pelo azul escuro daquelas pupilas e vi, claramente, que os olhos dela não eram biónicos mas bicolores, lindíssimos, amantes e perigosíssimos. Um sonho, sem dúvida.

O que é que eu fazia nos períodos de férias? Lia imenso, seguia o programa aconselhado de manutenção física, cumpria escrupulosamente um mini-curso intensivo de prática militar, organizava e jogava competições dos meus aliciantes clássicos, conversava com quem estava disponível para isso, dormia o suficiente, e sobretudo ouvia música. Música de todos os géneros inventados, em todos os sítios e em quase todas as circunstâncias. Apenas pelo prazer de escutar sonoridades, com as únicas restrições de abolir imediatamente estridências e volumes incomodativos. Era a altura em que tinha autorização para percorrer o sexto piso, onde se ministrava uma ligeira instrução de armas e de sobrevivência para imprevisíveis situações de conflito ou de incidente desastrosos. A câmara G0 conhecia-a desses períodos de treinamento, os únicos enfadonhos para mim. Nesta folga a G0 proporcionar-me-ia a memória de divertidas e excitantes acrobacias. O que eu faria nesta licença? Quase tudo isso e mais vida de cama com Lídia. Estávamos em Iápeto? Por mim até poderíamos andar por outra Galáxia. Querem saber que a minha prioridade foi enviar uma mensagem a Kinny indicando-lhe, sem reservas, que desequilibrasse bastante positivamente o meu sistema endócrino, se necessário com assentimento do Comandante, pois eu estava de férias e era-me indispensável euforia para aquietar um súcubo que entrara na minha existência? Kinny só me respondeu muito mais tarde, ou quando um certo senhor autorizou: — Entendido! Demónio feminino em Imbróglius problema seu, meu Tenente. Eu por eu, sempre cuidar dieteticamente seu stress. Comandante ordenar: "Lava daí as tuas articulações, Kinny! O Tenente Marwan deve estar sob efeito de pasmo estelar." (sic). Boas férias!

A cerca de metade da minha licença o Comandante mandou-me uma mensagem, a qual só por mero acaso não ficou a boiar no ecrã dos meus aposentos durante alguns turnos porque no momento em que a recebi ainda estava a fechar um saco com dois fatos, dois pares de botins, a máquina de cortar o cabelo, dois boiões de creme antibarba, um par de micro-auscultadores, e mais nada, porque outros utensílios pessoais havia-os também no camarote de Lídia e eram partilháveis. Decidíramos que me mudasse para lá porque era a última fase das minhas férias e, não obstante estarmos mais calmos a nossa sede e fome um do outro continuava inqualificável e tal já merecia que assumíssemos uma relação transparente para quem quisesse notar. Estávamos um com o outro, e pronto! Até poderíamos romper os nossos laços a qualquer momento, mas haveriam de ficar no Diário de Bordo da Imbróglius, fazendo história.

A mensagem ditava, exigentemente: — Tenente Marwan, convoco-o para se apresentar com urgência no meu gabinete. O Comandante. — Caso sério, resmunguei eu. Agora!...

Digitei para Lídia: — Chego mais tarde, chuchu. Um inconveniente Comandante convocou-me de urgência! Terão detectado algum autóctone sob o gelo desta bola? Beijos em chamas no teu dragão. Marwan.

Refresquei a cabeça e sequei-a para mostrar um aspecto menos exuberante, e lá fui, temente de que me fossem atrapalhar a paradisíaca festa que era a minha licença mais a enfeitiçante Dra. Lídia Zulin.

— Tenente Marwan, devia castigá-lo por me ter sido necessário usar autoridade para que viesse escutar coisas importantes, em particular para si, que lhe desejava comunicar. Não veio em bom tempo, agora desenrasque-se como lhe aprouver, na certeza de que não lhe servirá apelar para mim.

— Está a assustar-me, Comandante!

— Assustá-lo, a si, que "ainda é um homem"!?

— Se não sou um Deus nem um bicho, e sou vivente, é a conclusão lógica, não é meu comandante?

— A sua lógica vai ter agora mesmo oportunidade de lhe mostrar a si próprio quanto vale.

— Desculpe-me o meu Comandante mas então ainda não será demasiado tarde para me salvar...

— Exactamente, quero dizer, agora já não tem fuga possível, mas ninguém está a pensar dar cabo de si. Trata-se de uma pequena e sigilosa investigação científica para a qual foi oficialmente e superiormente requisitada a sua voluntária colaboração... Está a seguir as minhas palavras?

— Com certeza, Comandante. E para ser franco, tal requerimento, se bem digo, nesta altura é muito inconveniente para mim...

— Que seja. Você é que não se interessou por saber antes, e pensar, pensar, se lhe agradaria ir direitinho ao lugar geométrico, se digo bem agora eu, das intenções desse trio de experts em cabeça humana que embarcaram em Tétis.

— Lídia está metida nessa conspiração contra mim!?

— O que quer ouvir, inocente Marwan? De qualquer modo a si até lhe poderá agradar pois nada os impedirá de prosseguirem nesse rebolar sexual, acho eu.

— Receio não estar a compreender quase nada, meu Comandante!

— Mas compreenderá, descanse.... Sozinho é que eu nada podia fazer por si, Marwan... Alegar que me faz falta um Oficial de Comunicações em gozo de licença? Dizer que por estima não quero que lhe mexam no crânio, se me garantem que é para o melhorar, Marwan?

— Apre! Não posso crer que a Dra. Lídia Zulin esteja envolvida nisso!

— De facto, o seu chuchu... Onde é que eu ouvi isto?

— Comandante!!...

— Ouvi, ouvi ontem, no Bar... tão embevecidos que toda a gente escutou coisas de espantar... Enfim, não tenho nada com isso. Apenas me resta confirmar superiormente que o Tenente Marwan, Oficial de Comunicações na Imbróglius se orgulha de poder contribuir para o avanço da ciência e do homem que ele ainda é... Permitindo-me o aparte, passe bem seu cabeça dura! Ora, até pode ser que lha amoleçam devidamente...

— Estou estupefacto, Comandante...

— Pois não fique, que ainda não sabe tudo. Vá pedir ao seu... à sua Dra. Lídia, que lhe explique melhor o objectivo. E não seja severo com ela porque a senhora também cometeu um erro de principiante, misturar trabalho com prazer, se é que você não é mesmo irresistível, Marwan!

— O senhor é implacável!

Desgraça de mulheres que ainda são mulheres!... Não se pode mesmo confiar nelas, não é? Com as outras basta ler o manual feminino. E ainda por cima misturou sexo com sexo! Como!? Pois, sexo físico com sexo psicológico. O nosso cérebro não é o nosso órgão mais complexo e lúbrico? Não, lúbrico não é, graças às programadas dosagens de Kinny, excepto em casos desobrigados como o meu. Também a mente de Lídia deveria estar feita numa trança, como o seu cabelo. E segundo o Comandante a culpa até era minha, por ser um tipo irresistível.

— Minha linda, o que é que tu me arranjaste com essa história de cooperação com a ciência? Não podias ao menos esperar para depois das minhas férias? Não te estou a satisfazer inteiramente em todos os teus turnos livres? Lídia, eu não tenho sentimentos agressivos, mas sinceramente apetece-me abafar para sempre o teu desejo...

— Marwan, vai ser bom. Por todos os Deuses que vai! Correu-me tudo ao contrário, mas tenho um plano sensacional, acreditas em mim?

— Não, não acredito, mas se é para participarmos em alguma boa peripécia conta comigo.

— Porque será que o Comandante parece tão teu amigo, Marwan? Fez um tal escarcéu, embora delicadamente como é seu atributo, que a Selene e o Robin ficaram admirados. Se a requisição superior não tivesse surgido na altura, haveria decerto algum incidente protocolar.

— Não te rias Lídia, mas por acaso não tens ideia de quando pela última vez te chamei de chuchu? O Comandante...

— Agora mesmo, Marwan!

— Engraçadinha!... Esquece. Explica-me então o meu próximo acto heróico... que vai ser o de continuar a dormir contigo, não?

— Querido espécimen laboratorial... Desculpa, estou a gracejar, pois nesse sentido eu também serei um modelo experimental. Desde miúdos que aprendemos a lidar amplamente com o conceito S&E - Smart and Easy, o que nos leva rapidamente a subvalorizarmos se não a esquecermos a feição psicológica em favor da feição prática de muitos instrumentos tecnológicos do quotidiano.

— Dra. Lídia, por favor, não me venha com citações técnicas dispensáveis. Sinto a inquietação a alastrar no meu pensamento e posso conseguir engendrar um expediente para me furtar a uma trama desleal ou que não a inclua a si.

— é não só uma tentativa de recuperar a tua confiança mas também de te fornecer dados importantes...

— Então conta-me o que for necessário. O que é que me está reservado, Lídia?

— Estava eu a referir o quotidiano para te lembrar que, tal como eu, és portador de um chip electrónico para efeitos de identificação. Subcutâneo, provavelmente nem sabes onde está alojado no teu corpo. Tens perfeito conhecimento da existência dessa peça, recuso-me a denominá-la de prótese, porque te informaram e pela funcionalidade, ainda que limitada, que representa para ti e também para os serviços sociais e de segurança da Imbróglius.

— Até aí não vejo nada de especial. Esses chips até começaram por ser utilizados há dezenas de anos por autoridades locais. Eram introduzidos sob a pele dos canídeos, com dados para identificar com facilidade os donos dos animais que se perdiam por qualquer circunstância.

— Exactamente, meu cachorrinho... E apenas continham um número que podia ser lido num vulgar descodificador existente nos canis, correlacionando a leitura com um actualizado banco de informações tais como nome, sexo, raça, cor, morada, etc.

— S&E, certo. Então sou o teu bichinho de estimação, é?

— Claro! Mas não saltes já para o meu colo. Deixa-me acabar a exposição da nossa próxima fantasia. Nessa altura ainda não era aplicada real interactividade nos dispositivos. De qualquer modo, e também há já muitíssimo tempo, foram considerados os méritos circunstanciais de idêntico sistema evoluído quando aplicado ao homem, sem pruridos por inadmissíveis restrições que contendam com a liberdade e reserva individuais, restrições que são tecnicamente e seguramente evitáveis. Ainda não adormeceste pois não, Marwan?

— Não, doutora, gosto de escutar a sua voz para além do tom meigo com que normalmente me recebe nos seus braços... Mas também não estou a entrever o que é que o seu e o meu "transponder" tenham em comum com a minha cabeça. Alto! Por certo não querem abrir-me o crânio e atirar lá para dentro um bip bip electrónico verificando se é um local mais seguro para ser usado de futuro!?

— Quase isso, Tenente e Oficial Marwan, mas muito mais S&E. A grande experimentação consistirá em implantar nos nossos cérebros, o teu e o meu, chips de comunicação inseridos nos nossos circuitos neuronais, inter-relacionando a minha e a tua pessoa, sob parâmetros específicos e em níveis delimitados, evidentemente. Nada de nos fundir numa só entidade...

— Intracranianos?! Que projecto ambíguo e impressionante...

— Bem, a ideia é: "Que eficaz e simples é transmitir à Dra. Zulin o estranho sinal que estou a receber de um possível alienígena em Hiperion!" ou eu informar-te mentalmente: "Tenente Marwan, os Texas Elephants acabam de levar uma cabazada no campo dos Nairobi Flippers!"... A técnica operatória é exacta e está testada em seres vivos..

— Isso não tem interesse nenhum para mim. Se for para te dizer onde quer que estejas "Lídia, vem ter comigo agora! Só de pensar em ti a minha adrenalina ficou quase incontrolável..."

— Ouve, Marwan, depois de te conhecer resolvi fazer uma insignificante alteração no projecto, tornando-o magnífico... Como sabes eu sou neurofisiologista, isso, Lídia como tu preferes, mas também possuo algum saber avançado em matéria de electrónica, informática e outras coisas de somenos. Aliás, a Selene e o Robin também têm vastas habilitações científicas mas nem gostam de as mencionar, para que não se diga que são uns génios

— Razão teve o Comandante para ficar irritado comigo. Pediu-me para o visitar mal entrasse de licença, deduzo agora que para me alertar, e eu negligenciei a ajuda dele ... Os teus olhos, Lídia, foram os teus olhos os causadores!

— Serena Marwan, porque não terás de que te arrepender. Palavra de Lídia Zulin!

— Arranja notícia melhor do que a dos Texas Elephants e veremos.

— Privilegias antes as cotações instantâneas da Bolsa de Lisboa?...

— Ainda te divertes à minha custa!

— Na minha área de trabalho já quase ninguém se recorda dos velhinhos primeiros passos, designadamente até ao ponto em que se conseguiu ligar tecido nervoso a computadores. Bastante mais tarde entrou-se na fase do chip de identificação. Antes, já se sabia que a consciência e a emoção não podem separar-se, e teorizava-se sobre computação afectiva.

— Por acaso não será necessário que eu também seja sujeito a uma aprendizagem sobre o assunto, doutora?

— Queres desistir, Marwan?... Os meus olhos são biónicos. Não na acepção que tu imaginas... Não podem ler a tua mente nem ver detalhes microscópicos ou através do que nos rodeia. São biónicos porque tu achas que são e é assim que gostas deles. Aliás, eu própria gosto que pareçam biónicos, porque isso me ajuda quando é necessário submeter alguém a transe hipnótico.

— Ah!...

— Pronto! Estás mais descansado? E estás farto de saber que eu não te posso hipnotizar se tu quiseres. Mas continua a gostares assim de mim, biónica, com poderes de feitiço e saberes mágicos, e então repara que uma mulher assim não conseguiu resistir ao teu magnetismo pessoal...

— Infeliz dela!

— Deixemo-nos de brincadeiras, Marwan. Não temos muito tempo, se ainda te agradar ofereceres-me mais um bom bocado de prazer. Depois tens de voltar para o teu beliche. Aproveita para fazeres exercícios de descontracção física. Mais tarde vão-te buscar e já sabes que será para te prepararem e levarem para o Bloco de Cirurgia. Lá estarei eu também e, por favor, não te metas comigo quando me vires como paciente. A finalidade da operação é de facto abrirem os nossos crânios e introduzirem-lhes, rigorosamente situados em cada qual, um microcircuito electrónico interactivo que nos possibilitará entre outras coisas conversarmos sem utilizarmos a voz e partilharmos critérios e sensações sobre certas matérias, mesmo estando em termos físicos relativamente longe um do outro. Fui eu quem desenhou esses chips, e tive o cuidado de criar uma paleta variada. Num deles poderemos trocar informação e discutir amplamente sobre filosofia e moral, mas não acreditei que esse te entusiasmasse. Num outro poderemos abordar astronomia. Noutro tecnologias avançadas. Noutro jurisprudência actual e antiga. Noutro ainda progresso social. E ainda mais dois ou três muito interessantes. Era para seleccionar de acordo contigo o género do comunicador, mas depois que te conheci em pessoa enveredei por algumas alterações ao projecto inicial e achei melhor decidir eu. Oxalá gostes. Olha, habitua-te já a seres tratado como uma alta personalidade. Desde o momento em que saíres por aquela porta e até ao final do nosso restabelecimento, que será rápido, terás um pelotão da Segurança a seguir os teus calcanhares. Não tenho dúvida que em qualquer caso teremos direito a louvores, e isso é que me atrapalha porque por princípio sou avessa a atenções públicas. Nunca te disse isto à letra, mas tu sabes... enamorei-me de ti! Tontice!? Nos dias de agora é... mas "eu ainda sou mulher!". Ama-me e a seguir vai-te embora calado e sossegado, Marwan.

O Bloco Hospitalar de qualquer nave espacial é um compartimento estanque, asséptico e caracteristicamente desprovido de ambiência amena. Na verdade o que desejam os doentes que lá transitam não é sentir-se agradavelmente acomodados e regozijantes com a decoração. O que pretendem é entrar por sair, eficiência e celeridade no tratamento recomendável. O Bloco de Cirurgia da Imbróglius era um refinamento da especialidade. Absolutamente frio, não por falta de climatização, mas pelo seu aspecto cru, inabitável, nevoento, estranho. Entrava-se lá e tudo era branco e todos os brancos, intensos ou difusos, como a forte luminosidade, ou a cobertura translúcida das mesas operatórias ou a alvura brilhante da multiplicidade de braços robóticos, criavam um ambiente de ficção. Era uma perspectiva inconsequente e que apenas cruzava o espírito por poucos segundos, porque quem lá chegava já antes transpusera uma pequena câmara sanitária onde até inalara imperceptivelmente a porção de anestesia apropriada ao seu caso. E a maioria dos pacientes só muito tempo depois de recuperados é que colocavam a hipótese de terem sido operados somente por cirurgiões robτs. O que era exacto e muito praticado sobretudo quando se tratava de intervenções que exigiam delicada precisão. Isso não invalidava que noutro local os responsáveis pela cirurgia seguissem minuciosamente o desenrolar do acto, mesmo com possibilidade de intervirem em qualquer momento, coisa que talvez fosse inédita porque a programação depois de estabelecida era filtrada, simulada num poderoso processador de imagens holográficas e então, dada como correcta, vertida para linguagem de automação, revista e memorizada.

Não me recordo de nada, realmente nada, desde que dei dois passos na sala e observei Lídia, tão nua quanto eu, serena e já adormecida sobre uma das mesas, até que despertei dentro de uma espécie de incubadora. A princípio o torpor, uma certa rigidez dos tecidos musculares, não me deixava mover se não o olhar. Sentia um leve formigueiro a percorrer-me e lentamente a motricidade ia-se reinstalando. Disse incubadora porque notei os buracos circulares laterais que possibilitavam o acesso do exterior ao meu corpo — quem me teria tocado, e como e com que fins? Há perguntas estúpidas face às circunstâncias, eu sei — mas o meu invólucro era mais uma cápsula em formato de paralelepípedo em plástico baço com variados terminais e eléctrodos e sensores de funções inimagináveis para mim Mal pude levei a mão à nuca, a apalpar com suavidade o meu cabelo muito curtinho e arruçado, que era uma das minhas marcas pessoais, procurando vestígios da operação. Evidentemente que não constatei diferença alguma. Incisões e cicatrizações com técnica laser, efectuadas com indiscutível competência, tornam-se indetectáveis. Também a minha sensibilidade não acusava a mínima dor ou incómodo físico. E a nível mental estava perfeito. São e independente! Abriram-me, confirmaram que eu ainda sou homem e já não tiveram coragem de me estropiar as circunvoluções dos miolos, se calhar, ironizei comigo próprio. E Lídia?

— Que me desejas Marwan? Já descobri que és um preguiçoso... primeiro que acordasses! Olhei para os buracos da cápsula, na expectativa de examinar as mãos da Dra. Zulin a enfiarem-se por ali e a apalparem-me relembrando-se da minha masculinidade, e, nada observando, repensei:

— Lídia, é isto?

— é isto, é, Marwan. Não há razão para te preocupares, porque eu estou contigo. Por enquanto não deves pensar em mim, evita isso; da minha parte farei por não te atender. Quando estivermos fora daqui dou-te mais detalhes. Agora imagina que estás a cumprir um turno de Oficial de Comunicações. Faz o que eu te estou a pedir, Marwan, porque a Selene e o Robin possuem um quadro onde não ficam registados os nossos pensamentos mas ficam mapeadas as áreas e os pontos do cérebro onde os impulsos forem gerados. Há vastos estudos sobre a matéria, o que por comparação torna viável chegar a conclusões muito próximas do que se estará a passar nas nossas cabeças. é melhor não começarmos já a causar surpresas bem inesperadas para os meus colegas.

— Pois sim, chuchu...

— Por favor... Olha que eu não te respondo mais! Se queres entreter-te com alguma coisa dá umas pancadinhas na tampa da cápsula, que aparecerá quem vá apurar o que se passa contigo e então faz de conta que está mesmo a acabar de acordar. Daqui a pouco tirar-te-ão daí e serás submetido a dois ou três testes de rotina para se certificarem que podem deixar-te ir à tua vida. Depois vai para os teus aposentos e espera pacientemente. Toma em atenção que te trocaram de instalações; agora és um sujeito com verdadeiro estatuto; até terás livre acesso à sala G0...

— Já sei! Não queres que pense em ti, mas posso imaginar a Dra. Selene?

— Infiel!... Podes, e também o Robin se preferires.

— Marwan?! Estás bem?...

— Estou em boa forma, Dra. Zulin. Até aqui correu tudo tal como previu. Apercebeu-se do que entretanto estive a idealizar acerca da sua amiga morenita e arisca Selene Barsh?

— Não, essa mulher está dentro das meditações a que te podes dedicar sem que eu compreenda por onde andas mentalmente. E daí, talvez possamos vir a realizar com ela alguma experiência digna de interesse científico. Mas haverá necessidade de planificarmos a acção muito bem. Oportunidade não nos faltará.

— E então?

— Então, já fiz tolice, embora sem grande importância. Estive demasiado tempo a palrar contigo e os registos assinalaram imediatamente essa corrente de impulsos. Os meus colegas conseguiram empolgar-se pois ficaram na dúvida quanto a ter-se tratado ou não de comunicação entre nós ainda no estado de vigília. Creio que já estudaram melhor os dados, que ainda contêm naturalmente elementos que confundem, e concluído que afinal já estávamos despertos. Ainda nada me perguntaram sobre o caso e provavelmente a interrogação será colocada a ti. Conta-lhes o que te apetecer, que então estavas a sonhar, ou que estavas a comentar comigo acerca de Artes em geral, o tema nada invasor das nossas personalidades que teoricamente está programado nos nossos chips intracranianos como leitmotive do nosso contacto mental. Em todo o caso, quando lhes estiveres a responder pensa em mim para que eu entenda o que lhes estarás a impingir.

— Lídia, essa tua linguagem está a confundir-me! Então não é pressuposto que estejas envolvida até à medula na investigação? E achas que não é criticável que eu lhes transmita dados inverídicos?!... E além do mais foste logo escolher um campo do qual eu não percebo mesmo nada, Artes!

— Meu bom rapaz, por que te conheci acabei a viciar toda a pesquisa... Os microchips foram atempadamente trocados por mim. E queres saber a área que eu seleccionei de facto?... Sexo, meu Tenente... Não te garanti que a experiência seria magnífica para nós? — Lídia, posso ir já ter contigo?

— Não, não, não! Por favor, não te atrevas para já, Marwan. O sistema funciona por abertura e conjugação gradual de portas lógicas. Se começas imediatamente a explorar em plenitude o extenso horizonte da nossa intimidade, o assunto poderá tornar-se desde já inquietante para o Robin e para a Selene e até para o psicólogo de bordo, que vai ser solicitado a acompanhar os nossos comportamentos, um pouco tardiamente mas isto devia ser sigiloso até termos a cirurgia finalizada com êxito.

— Que maçada! Não queres que pense em ti, não me queres ver perto de ti, tenho que aturar os distintivos da Segurança a contarem os meus passos e ainda me vai calhar uma equipa médica a seguir-me e a conferenciar nos seus quadrinhos de cristais... Essa perspectiva magnífica está complicada!

— Só não dou uma gargalhada porque seria mesmo inconveniente...

— Lídia! Tu sorriste!...

— Cala-te, Marwan!... Será indispensável contar-te histórias para te distrair a atenção? Se assim é, vou dar-te assunto. para raciocinares... Nem só tu ou o teu Comandante são apreciadores dos montes de pó e do cheiro a papel velho de bibliotecas privadas, que nas públicas não há cheiro algum salvo de vez em quando o odor a canais de energia em sobrecarga. Alguma da minha cultura científica foi respirada aí.

— Como é que esse meu pacato entretém chegou ao seu conhecimento, Dra. Lídia?

— Li no Banco de Dados do Pessoal da Imbróglius, secção Hobbies. Eu conto-te, para te entreter, embora acredite que já saberás de qualquer coisa semelhante. Isto, a propósito de ter desatado à procura de uma temática de especialização após o meu primeiro curso em Neurologia. Um amiguito meu soube e, muito entusiasta de Ficção Científica, meteu-me na mão este ficheiro que encontrara nos arquivos de um dos seus avós:

"Novo microchip poderá banir o ΄falso orgasmo΄.

A implantação intracorporal de um microchip desenvolvido recentemente vai permitir que duas pessoas partilhem a dor de cada uma, o movimento e mesmo a excitação sexual, segundo foi revelado por um especialista em inteligência artificial. O microchip poderá até levar o "falso orgasmo" a ser banido do quarto de dormir e colocar um ponto final na batalha dos sexos, reivindicou o seu inventor, Professor Kevin Warwick. O microchip com um custo de $683,000 e o tamanho de uma bolacha After Eight, será ensaiado pelo Prof. Warwick, um Professor de cibernética na Reading University, de Berks, e por sua esposa Irena durante um período de mais de duas semanas. Desenhado com um implante corporal, o chip transmitirá sinais do sistema nervoso de uma pessoa para o de outra por via de uma incisão no braço, possibilitando-lhes conhecer o que a outra está a sentir. Um transmissor é ligado aos nervos no centro do braço e os chips são então conectados através de um vulgar computador. O Prof. Warwick revelou que a sua experiência estava a ser orientada para aferir as diferentes percepções dos sexos, incluindo a excitação sexual, a qual poderá alterar o modo como homens e mulheres comunicarão no futuro. ΄O sistema nervoso está cheio de sinais electrónicos que emanam do cérebro, os quais têm efeitos corporais, como a maneira de Irena saltar quando vê uma aranha.΄, disse. ΄A implicação poderá ser nunca mais se voltar a falsear um orgasmo.΄ Os microchips habilitarão o par conectado a experimentar a excitação de cada um, dor e acção e eventualmente poderão levá-los a moverem mutuamente os seus membros. De acordo com declarações do Prof. Warwick não terão capacidade de aceder aos restantes sentidos, vista, cheiro ou sabor e não permitirão a cada um a leitura da mente do outro. Além dos possíveis benefícios para os casais o Prof. Warwick avaliou também as possibilidades do perigo que pudesse ser causado pela pioneira experiência. O maior problema é mental, aparte o possível dano de nervos e a perda da percepção ou de movimentos, segundo disse. ΄O meu cérebro conseguirá aguentar? O principal risco é que poderei enlouquecer.΄ A despeito de ter uma visão optimista acerca do futuro do projecto, o Prof. Warwick disse que as implicações emocionais dos implantes são vastas bem como as dúvidas sobre se os microchips aproximarão ou afastarão os casais. ..." (*)

Era uma notícia satírica, evidentemente, que retomava um projecto antigo, muito complexo e que só há poucas horas foi concretizado no campo prático, sob autorização da Comissão Universal de ética, e com base técnica muito desenvolvida entretanto. Ao tempo era um texto lógico, onde o toque fantástico estava quase ausente, pois como vimos já existia o implante de identificador pessoal, a tecnologia de produção de chips estava a tornar-se sofisticada, a utilização de tecido nervoso em computadores prometia bons resultados a qualquer momento, estava anunciada a descoberta do mecanismo molecular que controlaria a regeneração das células nervosas e até já se especulava com o termo biochips. Era uma anedota coerente com a época e que através do bom humor caricaturava os trabalhos laboratoriais que estavam mesmo a ser conduzidos em inúmeras instituições científicas, algumas delas claramente referenciadas e outras camufladas. Mas como vês ainda demorou muito tempo até se compreender e dominar o princípio da entropia cerebral. Que se passa Tenente? Não estou a sentir a sua respiração!...

— Estou quase a dormitar, Dra. Zulin... debatendo-me com esse Princípio da Entropia Cerebral... Mau Lídia! Podes sentir a minha respiração!?

— Não, não posso, a não ser que te concentres em transmitir-me essa percepção. Estava apenas a verificar se ainda estás atento... Continuo?

— Ora deixa lá ver... Isso de entropia é relativo a termodinâmica, permite avaliar a degradação da energia de um sistema, não é?

— O que quer dizer que a entropia de um sistema caracteriza o seu grau de desordem. Nesta perspectiva o conceito tem aplicação em muitos outros campos. Depois de ultrapassadas todas as complicadas questões do foro neurológico e instrumentais, ainda restou o refinamento da calibragem automática de impulsos nervosos segundo um extenso quadro de entropia. Sarcasticamente o Dr. Warwick até se perguntou: "O meu cérebro conseguirá aguentar? O principal risco é que poderei enlouquecer". O engenho é assim, inventam-se coisas extraordinárias e no momento de as concretizar salta um detalhe, um impasse. Então anda-se tempos infinitos à roda do embaraço, com a certeza de que a solução está debaixo do nosso nariz, mas o bloqueio mental chega a ser definitivo e o problema fica em aberto para futuras gerações. As concepções básicas revolvem-se por outras sendas e de repente, muito mais tarde, aparece alguém a exclamar: — Isto!? Isto é assim... — é claro que quem disse "Isto é assim..." beneficiou de conhecimento adquirido e compactado e distribuído anteriormente e não foi por acaso que deu continuidade à criação. Imagina que naquela data já existia um robτ para despistar a compreensão do funcionamento da consciência humana!...

— Dra. Zulin, estou a gostar da sua dissertação mas o Comandante acaba de me pedir para ir visitá-lo e eu não quero repetir a indelicadeza, para não dizer asneira, bem perversa, de quando entrei de licença. Dá-me licença?

— à vontade, Tenente. As minhas saudações para o Comandante e a confirmação de que está tudo a correr bem.

A relação entre a estrutura do cérebro e os comportamentos é diferente de pessoa para pessoa. Lídia não me falou desta dificuldade mas também deve ter sido trabalho árduo padronizar a correlação. Estava à vista que esta experimentação fora rigorosamente desenhada e eu até duvidava que antes dela não tivessem existido ensaios semelhantes, talvez com cobaias. Os receios do "Prof. Warwick" quanto à capacidade do seu cérebro aguentar a avalanche de dados, em quantidade de informação e intensidade emocional, e a confusão, também me assaltaram por momentos, antes de ser conduzido ao Bloco de Cirurgia, mas livrei-me deles rapidamente ao ponderar que Lídia, inteligente e lúcida como era, não se deixaria submeter levianamente a uma qualquer intervenção perigosa ou de consequências imprevisíveis. Decerto que a partir de nós em breve o processo tornar-se-ia banal, ainda que sujeito a restrições e finalidades que gradualmente tenderiam a ser adaptadas, tal a amplitude de aplicações potenciais.

A inusitada troca de chips a que Lídia intencionalmente procedera, surpreendeu-me de todo e agradou-me bastante. Eu apenas possuía umas ideias simples acerca da tecnologia empregue, mas nesse campo estava confiante. Já em terreno psicológico não me sentia tão seguro. No meu subconsciente ficaram a vaguear alguns possíveis óbices, os quais não seria sequer viável avaliar como uma qualquer infecção moderna, isto é, fornecer uma amostra de tecidos contaminados e em poucos instantes o computador analisá-la e relacionar exaustivamente as substâncias que matam ou implementam a respectiva actividade bacteriana. Seriam cuidados sem fundamento? Admiti que sim, mas só a progressiva sequência e conjugação de abrir e fechar portas do chip, como Lídia resumira, haveria de manifestar-me a verdadeira trapalhada, ou não, em que alegremente me metera. Lídia era uma mulher fora do vulgar. Dizemos isso de todas quando nos cativam, evidentemente, em expressão prosaica. Li algures que antigamente era comum e razoável estabelecer comparações do tipo: "fulana é que é bonita!", ou "sicrana é que é inteligente!" ou "beltrana é que é sensual!"... Agora essas referências não têm sentido, graças à engenharia genética, e às ciências médicas regenerativas e suas subsidiárias. As mulheres são bonitas, inteligentes e funcionais. Diga-se o mesmo dos homens, é claro. Mas há algumas, raras, salvo na faixa etária mais idosa em que ainda são frequentes, que por razões insólitas mas incontroversas nos casos jovens, reúnem ainda uma sensibilidade emotiva muito particular. Essas mulheres e esses homens reservam para a sua profunda intimidade essa espécie de atavismo, por instinto, como se psicologicamente temendo ser diferenciados. Em alegoria, um "pecado original", se me permitem usar e entendem, termos teológicos outrora muito em voga.

A Dra. Zulin não desejava que por enquanto eu pensasse nela, e por muita ocupação de corpo e espírito a que eu me submetesse isso era bem difícil de acatar. O acaso veio em meu auxílio e descobri por reacções de Lídia que para comunicar com ela devia inicialmente projectar na minha mente a visualização da sua imagem. Género de clique de activação a comandar o meu chip interno. Portanto, com precaução nada me impedia de anonimamente raciocinar sobre ela. Assim aconteceu nos meus estados de ânimo mais silenciosos.

— Sabe que continuo apreensivo a seu respeito, Tenente Marwan? Por que disparate se pτs você a cativar discretamente a Dra. Lídia Zulin, no Bar, mal ela tinha acabado de entrar nesta nave impoluta, a uma hora inconvenientemente sossegada?!

( — Estás a escutá-lo, Lídia? Tem um aspecto lívido, irado!...)

( — é a brincar consigo, Tenente... Ele quer é conversa.)

— Comandante, por favor, eu não ousava uma coisa dessas! O senhor sabe que o meu estilo é muito directo. Passou-se tudo com naturalidade, posso afiançar-lhe.

— Não afiance nada, que ainda o mando penalizar por afirmações incorrectas. é claro que ousou tal. Só vários turnos depois é que foi para a cama com ela! Você próprio não acha isso esquisito?! E foi com essa Lídia precisamente quando já não devia ir, quando já eu estava alertado para a aventura imprópria em que o melhor Oficial de Comunicações da Imbróglius seria enredado. E mais, quem é que aproveitou da folga que você lhe deu até esses turnos depois? Ninguém!

( — O teu Comandante também me queria, ein!? Responde-lhe que nunca encontrei o nome dele na minha Agenda de Contactos interessados...)

( — Estou a reparar no perigo que corri, meu chuchu... Andaram ambos a falar de mim nas minhas costas, ele com ideias de avaliar a tua prestação voluptuosa e tu à espera que ele se inscrevesse no teu caderninho de possíveis companhias gradáveis... )

( — O sujeito está à espera que lhe responda, Tenente!)

— Desculpe Comandante, mas a Dra. Lídia assegurou-me que o senhor não se inscreveu na agenda de entrevistas dela, e pela minha parte não tive nada com a abstinência dela, muito provavelmente foi um daqueles períodos inadequados...

— Inadequada foi a pobre tetravó que ingenuamente esteve na base da sua origem. Você já atentou bem no caldo sintético em que mergulhou até ao pescoço? Pelo menos desde a ponta desse cabelo avassourado até ao cachaço.

— Está tubo a correr bem, meu Comandante.

— O que é que você chama correr bem, Marwan? Tirarem-me um homem à tripulação?! Logo um Oficial de Comunicações!? Mas será que a Imbróglius é alguma nave turística e eu não sabia isso!? Ainda vou acabar por ter de ser eu a fazer turnos na cabina de Rastreio Astronómico...

— O senhor está muito preocupado, mas...

— Agora não sei como tirá-lo dessa armadilha. Até não sei se lhe substituíram a massa encefálica por qualquer gelatina anti-oxidante para lhe conservarem uns poucos de neurónios em silício. Faça-me ao menos um favor, Marwan, quando se aperceber de que eu não poderei mais contar com os seus serviços, tenha um rasgo de esperteza e avise-me com urgência para requisite para o seu lugar um tipo menos cerebral...

— Comandante, posso retirar-me? Ou deseja debater alguma outra situação séria?

( — Lídia, está caladinha, não te metas nisto. O homem quer dizer-me qualquer coisa mas está hesitante... )

( — Ora! Concentra-te em mim, Marwan, e repete-me sem te constrangeres. O teu Comandante merece...)

— A amizade que lhe tenho, como sabe Comandante, vem de longe, e ela é que permite confidenciar-lhe, para o serenar, que a Lídia é uma luinha habitável, um pequeno planeta bem quente, cheio de ternura, com vulcões e crateras e sitiozinhos excitantes, um odor delicioso, curvas e linhas macias, enfim, uma investigadora profundamente meiga... amorosa!

— Estou a adivinhar... Mas ainda é? Ou foi?

— Quando ela decidir dispensar-me daquelas alturas ardorosas e insaciáveis hei de recomendar-lhe o senhor...

— Olhe para mim, Tenente!... O que é que lhe fizeram também ao seu par de olhinhos já de si matreiros!? Você não está bom, Marwan!

( — Estás a ver, Lídia?! Está quieta, por favor. Assustas o Comandante e ele ainda acaba com a minha comissão de serviço.)

— Sente-se bem meu Comandante!?

— Realmente não posso estar bem, Tenente. Ora mostre-me outra vez os seus olhos. Claramente... Por instantes julguei ter perdido o domínio de mim próprio, sob um olhar que nunca lhe conheci! Estou a ficar traumatizado com a sua pouca sorte. Então, está tudo a correr bem!? Antes isso Tenente Marwan. Pode retirar-se... (Uma luinha... uma pequena, habitável e deliciosa lua... Esta juventude de agora é terrivelmente imaginativa... é uma pena ter de o substituir, mas não vejo outra solução e pouco mais tempo posso esperar para que ele fique outra vez normal...)

— Até à vista, Comandante!

— Realmente o teu Comandante tem-te uma afeição extremosa, Marwan! Quando lhe expus o projecto deveria ter-lhe entregue uma carta de garantia em como nada de mal te sucederia. A minha lealdade, ou ética, sabendo que no mínimo há sempre uma pequena probabilidade de falhanço, é que me inibiu.

— O que nos sucederia se tivesse falhado, Dra.?

— Francamente, não sei. E também ainda não tenho a confirmação de que até ao fim não haja incidentes aleatórios... é esta capacidade de risco que faz de nós, experimentadores e experimentandos, ignorados e generosos heróis, as molas do progresso humano.

— Nem posso acreditar que ainda vou ficar maluco por tua causa!

— Acalma-te, homem! Antes da operação já eu te tinha feito perder o juízo, lembras-te?

— Sim, sim, mas não será melhor ficarmos por aqui? Sem desastres e comigo equilibradamente tolo por gozar as tuas delícias eróticas?

— Funde-te comigo, Marwan... "Amor" assim nem no passado existiu e nós podemos estar a ser percursores de uma nova forma sociológica de viver. Não achas formidável esta antecipação!?

— Ainda não deu para viver essa exaltação mas vai dando para sobressalto.

— Querido Tenente, mais logo procuro-o para nos amarmos. Aceita?

— Talvez. Se estiver ainda bem disposto...

Senti-a abeirar-se, aninhar-se em mim, sem uma palavra anunciadora, e no entanto fremente, poderosa no seu encanto, estimulante. E não lhe via o olhar! Que fixação a minha! Beijava-lhe os olhos semicerrados e ela estremecia de ternura, mas o prazer estava em imensos sitiozinhos dela... nos delicados tornozelos, nas pernas bem torneadas, nos marcados joelhos, nas coxas voluntariosas, no anelado da púbis, nas virilhas sedosas, também nas suaves dobrinhas da pele nas articulações dos braços e pernas, nas nádegas arredondadas e fofas, no dorso quase liso onde pontuam os nós das vértebras que eu gosto de tocar uma a uma ora lento, desafiador, ora vivace, trepidante, no umbigo sedutor, nos seios firmes, perfeitos, de auréolas rugosas e róseas e mamilos arrogantes que eu adoro entontecer sob o meu bafo, nos seus fogosos lábios, na língua frutada, nos braços acolhedores e de intenso cingir, nas mãos caprichosas, no seu instinto possessivo, e mais... Enfim, minúcias que nem ela conhece!

— Não terás deixado nada por assinalar, Marwan, ias tão bem...

— Lídia! Então estavas aí calada, só ardente!?

— Não te faças de palerminha, Marwan. Saboreaste-me desde que cheguei à tua mente. Não pares, por favor... E não precisas de falar alto. Basta-me que penses com verosimilhança. Também achas que assim são bons os meus afagos?

— Chuchu, eu detive-me porque me pareceu que ia muito apressado, quase a entrar em ciclo orgástico, e queria saber que, dito o melhor haveria de novo a possibilidade de recomeçar noutro dos teus escaldantes sitiozinhos...

— Já conseguiste esse objectivo, Marwan. Vá, prossegue e desatina-te e renova-me a excitação. Eu vou-te guiando com as minhas mãos... caprichosas, disseste tu?

— ... e mais, no pescoço esfomeado dos meus beijos, e sim, nas orelhas labirínticas em que eu gosto de ciciar ditos impudicos, e na mornidão trigueira da tua pele, e no fundo bem no fundo da tua alma e, bah!... no teu mítico sexo...

— Sabes que te amo, Marwan, não sabes?

— Shiu!... Que eu agora não posso suster-me Lídia...

— Marwan!?... Marwan!... Oh!... Oh!... Adoro-te...

— ...

— ...

— Lídia, estamos no Céu ou no Espaço?

— Estamos no Paraíso, Marwan.

Foi praticamente indizível a primeira relação de sexo, puramente psíquica, que tive com Lídia — psíquica porque a bem dizer o chip integrado mo meu cérebro tornou-se em meio orgânico. E não sei por quanto tempo continuamos a soltar-nos um no outro, de cada vez mais ávidos e extravagantes pois os nossos sentidos masculinos e femininos também cada vez mais se potenciavam um ao outro, misturando-se, confundindo-se, celebrando-se em êxtases reais. Não obstante, antes de atingirmos o limite da nossa resistência mental, serenámos e aquietámo-nos, como se um cronómetro houvera sido regulado para abrandar e desligar a nossa hiperenergia após um intervalo determinado.

Possuímo-nos sem nos tocarmos. Cada qual refastelado, agitado ou calmo, no seu beliche. E no entanto, profundamente sensíveis. Haverá quem esteja a perguntar-se, talvez com maliciosa admiração, se isto é o que eu e ela entendemos por "amor". Sim e não. Mas algum dia alguém soube qualitativa ou quantitativamente o que é o "amor"? — pergunto eu sem irritação. Então perseverem lá em manter desperta essa velhíssima curiosidade porque como sabem nos tempos de agora o termo não passa de uma redundância em desuso, e até ao fim do mundo persistirá em ser um vago mistério.

Turno sim, turno não, e esta é a única medida temporal adequada e com significado enquanto a bordo da Imbróglius, lá nos enrolávamos nós, cada um em seu canto, em rejuvenescida fornicação. No resto do tempo, salvo mantermos curtos diálogos — que também eram "amor", acreditem — ambos nos ocupávamos, independentes, com o que cada qual apreciava. Lídia dedicava sistematicamente à investigação teórica uma parte da sua disponibilidade; noutra envolvia-se nas leituras mais variadas; também não falhava um único treino de preparação física; mas deixou de frequentar o Bar em alturas em que eu lá não pudesse ir ter com ela. Sintomaticamente, o Comandante arranjou maneira de topar essas ocasiões, o que nem era complicado pois bastava-lhe estar atento ao mapeamento identificado das nossas deslocações, e juntava-se-nos para discretear um pouco sobre trivialidades e nós desfazíamo-nos em atenções com ele como a dizer-lhe que estávamos gratos pelos seus cuidados connosco.

Aqui, julgo pertinente uma nota esclarecedora de que era uma RAM volátil a memória de acesso aleatório estabelecida nos nossos chips intracranianos. Daí que, interrompida a sua utilização, por voluntário barramento do fluxo electromagnético que alimentava de energia os circuitos integrados, toda a informação aí contida, e não transferida para a memória de longo prazo, se apagava irremediavelmente. Ora, decerto não estão a ver-nos a suspendermos a nossa impetuosidade sexual para aturadamente guardarmos sob protecção incontáveis e renováveis emoções. Mais adiante voltarei aos aspectos técnicos desta embrulhada.

E de facto não só estávamos agradecidos como suspeitosos da inoportunidade de qualquer interferência sua no decorrer da nossa aventureira empresa. Um dos dois acabaria por propor alguma medida para distracção do assédio do Comandante, mas foi Lídia, cujo afectuoso comportamento para com ele era o factor que lhe ia sustando atitude imediatamente indesejável, quem sugeriu:

— Marwan, o "nosso" Comandante parece-me já inseguro de mais. Estive a improvisar um esquema para o desviar de nós, nem que seja por pouco tempo, até gizarmos coisa melhor. — De acordo, Lídia. Mas, muita precaução porque ele é muito sagaz.

— Qual! Ele é como tu... um palerminha.

— é melhor estar calado. Explica-te lá, por favor.

— Selene Barsh! Lembrei-me da Selene, que em última instância até pode ser posta ao par da nossa inofensiva inspiração. No entanto, para já acho aconselhável ela também desconhecer o plano. Realmente neste momento ela já está muito desconfiada acerca do funcionamento dos chips. Ela e o Robin focaram a sua atenção em determinada área do cérebro, naturalmente direccionando para lá complexos instrumentos de análise, e os resultados estão a ser provenientes de outra zona, como nós bem sabemos. O que é que terá sucedido mal, perguntam-se eles, embora globalmente estejam contentes com a experiência.

— Estamos a correr o risco de eles decidirem corrigir o que entenderem que está errado, tornando a abrir-nos as cabecinhas e substituindo os chips!?

— Não! Nem pensar nisso! Agora já não há mais soluções correctivas. Depois explanarei isso melhor.

— Que alívio!

— Talvez. Não te aflijas escusadamente, Marwan! Ora, o teu Comandante poderá simplesmente agradar-se da Selene... Não achas piada?

— Que diabrura, Lídia! Como é que vamos conseguir isso se a não solicitarmos a colaborar?

— Vamos provocar um encontro propício. Habitualmente o Comandante passa pelo Bar quando lá estamos... Para reunir também a Selene não será necessário um grande pretexto. Depois segue-me, que isto é trabalho para ambos.

— é evidente que sigo, pois não posso deixar-te assumir sozinha a responsabilidade de um episódio em princípio tão entusiasmante. Quando?

— Daqui a bocado. é aquela hora, não é?...

— E se ele não aparecer?... Vou buscá-lo ao gabinete, desafiando-o para um duelo de Magic contigo!

— Excelente! Quando não preguiças vences-me de longe, Marwan...

— Sabias que de tanto cheirar nas bibliotecas achei feitiços sobrenaturais? O que é o "amor", Lídia?

— Olha, vai à procura do teu Comandante, porque se tu não sabes o que é, eu muito menos... Desgovernaste-me a razão e...

— Eu, Lídia!?

— Viva Dra. Selene! Olá Comandante! Fui agora mesmo ao seu posto, convidá-lo para uma partida de Magic comigo, e não o encontrei. Pudera, está aqui bem acompanhado!

— E estou muito bem, Tenente. Dá-me é a sensação de que você já está um tanto desfasado dos meus horários. Tenho qualquer coisa para lhe perguntar, mas fica para mais tarde. Selene e Lídia finalmente têm estado a dar-me novidades recentes e de interesse sobre a grande urbe terrestre... faltava aqui você para me ajudar a diverti-las!

— Folgo em vê-lo com boa disposição, senhor. Lídia, por acaso encontrei aquele dado craniométrico que te faltava completar no ficheiro sobre mim! Mas não falemos disso agora. Permitem-me que vá abastecer-me de um sumo? Alguém mais quer alguma bebida?...

( — Estupor! — Não sei onde fui buscar esta palavra! — A falares exactamente de craniometria! O teu Comandante ainda fica com os cabelos em pé! Vai lá abastecer-te do teu sumo de lentisco e quando voltares senta-te em frente a ele e pensa nos meus olhos, estranhos, quando os achas biónicos, isso mesmo...)

( — Ena! Isto vai ser alvoroçante!... )

— Selene, o seu trabalho vai bem?

— Razoavelmente, Marwan.

— Se eu passar pelo seu gabinete para conhecer um pouco das suas técnicas, não vou perturbar, não?

— Claro que não, Marwan.

— Talvez consiga levar comigo o Comandante nessa visita. Ele também é um insatisfeito, gosta de estar sempre a aprender. — Alto Marwan! Sem querer ser indelicado para a Selene, da minha agenda trato eu.

( — Maravilhoso, Marwan! Os teus olhos estão igualzinhos aos meus. Belos e assustadores, eu sei. Repara como o Comandante está intimidado connosco! Até está a chegar-se para a Selene... quer a protecção dela, e apesar de tudo estamos a procurar transmitir-lhe simpatia. Não ceio que possamos ir mais longe do que isto. )

( — E então? )

( — Calmamente troca com ele impressões bem humoradas sobre a ideia de vocês irem visitar a Selene durante o seu trabalho. Essa tirada foi boa. Aliás, deve ser no que ele estará a matutar: poderá falar de nós com Selene e colher informação. Necessitamos de aproximá-los, por uma causa que os justifique a ambos. )

( — E quanto a ela? )

( — Vou espevitá-la, insinuando-lhe que percebi no Comandante uma natural atracção física por ela, a qual ele só não manifesta porque o exemplo de nós os dois é incomum e na sua posição hierárquica não quer dar azo a equívocos. Mas porquê, se ambos têm obrigação de saber de cor o Guia Das Relações Sociais?)

( — Não me parece suficiente... Selene é um tanto fria... )

( — Achas, Marwan! Não a conheces em privado. Sinceramente, também não acharei graça se vieres a conhecê-la na cama... Mas que mais poderemos fazer? )

( — Já sei! Tenho de abordar Kinny, o mestre-cuca. Não deves saber, mas é um indefectível admirador do Comandante. Colaborará connosco, para bem da sanidade do Supremo da Imbróglius, desregulando-lhe um bocadinho o equilíbrio hormonal. Eu encarrego-me disso, Lídia ).

Tossicando, para de alguma forma iludir a falta de atenção com que estava a seguir Selene numa curta referência às modernas práticas de cicatrização instantânea de cortes profundos em tecidos epiteliais, assunto ali amplamente descabido em face das nossas pretensões, quase desperdiçava o que constituíra discreta intervenção de Lídia, que me corrigiu imediatamente:

( — Não estás a depreender nada, palerminha! Essa fala deles é apenas para nos impingirem a treta de que entre os dois só transpira profissionalismo. Bom, mal os deixemos a conversa será outra... Portanto, convém-nos aplicar-lhes golpes duros e rápidos. Ataca!)

— Desculpe a curiosidade, Comandante. Está a imaginar alguma aplicação extra para essa técnica?

— Eu não, mas o Tenente provavelmente está...

— De facto. Teremos necessidade de estudar e discutir muitos detalhes com a Selene, em melhor oportunidade. — insinuei, desligando-o um pouco da conversa entre Lídia e Selene. — Foi inspiração de momento, mas já estou a sentir as dificuldades que a matéria terá para mim.

— Conte lá, Marwan. Já não é a primeira vez que você se sai com "coisas do outro mundo", as quais não passam de truques infantis mas que resultam, é verdade. (Anda depressinha rapaz, e raspa-te com a tua "luinha", que eu quero dar uma palavra a essa senhora, Selene Barsh...)

— (Lídia já tomou conta da Barsh. óptimo!) Ideias absurdas toda a gente tem, e eu também gosto de brilhar, como o Comandante sabe...

— Está no seu direito, Tenente. Mas tome cuidado com o seu desassombro ou pelo menos o que for tolice limite-se a murmurar para que apenas eu ouça e ninguém se atreva a propalar que você está... como direi...

— Ainda que pareça, não estou pateta, asseguro-lhe. Aqui para nós, o processo de desencarceramento dos meteoritos, já para não lhes chamar apenas grandes calhaus, que embatem na Imbróglius e se lhe alojam no casco, e até a reparação das brechas de ressalto nessas colisões inevitáveis, mereciam um estudo comparativo de aplicação dos princípios expostos pela Dra. Selene.

— Eu bem suspeitava que era uma ideia "do outro mundo"...

— Olhe que não é, Comandante. Mas é trabalho absorvente para o senhor, que é especialista em Tecnologia de Materiais. Sem dúvida que será indispensável extrair muito saber da Dra. Selene, e quanto a isso ela estará à disposição. Documentação, apresentações gráficas, casos de estudo, acho que ela própria se sentirá atraída por um projecto tão distante da sua área de actuação mas tão confinável a teorias semelhantes. Pense, Comandante, pense nisso favoravelmente.

( — Vamos embora, Marwan, mas antes segreda-lhe: — Perdoe-me este aparte, meu Comandante, mas de repente assaltou-me a premonição de que a Dra. Selene estará interessada em apreciar a sua masculinidade! Pelos Céus! Desculpe-me. Retiro-me já com a Lídia. — Ora diz-me lá que não estás a sentir a nossa amiga bem quente... )

— Comandante, Selene, não vejam indelicadeza da nossa parte mas vamo-nos embora. Marwan prometeu-me para agora momentos muito sensibilizantes ao som de Música das Esferas.

— Vamos Lídia, que ainda vou procurar esses arquivos digitais. Nem sempre tenho o cuidado de manter impecavelmente ordenadas as bases de dados. Acomoda-te confortavelmente enquanto esperas que os localize. Até breve, Selene! Inspiração, Comandante, muita inspiração...

— Marwan, o que é que estás a recomendar ao Comandante?

— Nada, é cá um projecto sobre o qual estivemos a tecer considerações.

— Selene, tem cautela com um e com o outro. Não descubro o que é, mas eles têm características muito parentais. Marwan conheço eu, e por isso te aviso...

— Eu cuido-me, Lídia. Até depois!

( — Marwan, viste aquele olhar cúmplice da Selene? O Comandante já não lhe escapará das mãos... )

— Música das Esferas... Você também dá apreço a harmonias esotéricas, Selene?

— Nunca experimentei ouvir dessas melodias, talvez porque nunca se tenha apresentado a ocasião mais oportuna. Aconselha-me?

— Já conheci operadores que monitoravam as cirurgias, com auscultadores nos ouvidos. Pareceu-me estranho porque na sala ao lado, o Bloco Cirúrgico, não estavam se não os robτs executores do trabalho programado. E além disso, no silêncio total os sujeitos nem articulavam sons nem sequer mexiam os lábios. Estavam era a escutar música relaxante.

— Nessas alturas prefiro o máximo de silêncio. Nos momentos em que exijo de mim uma intensa concentração mental, sou assim.

— Pois eu, se eventualmente tivesse de ser colocado em suspensão vegetativa, não sobreviveria sem música.

— Havia em si um pouco de divertida malícia quando repetiu a expressão deles: Música das Esferas... ou fui eu que o interpretei mal?

— Havia sim. Alguma.

— E também guarda curiosidades dessas em arquivos pessoais? Estou esforçadamente a evitar tratá-lo por Comandante. Acha bem?

— Concordo plenamente. Acontece que o meu nome é quase desconhecido nesta nave... uso de anonimato que me ficou da passada carreira.

— E então, atribuo-te um número, é?

— Ah! Respondendo-te: vamos ver o que há de arquivos digitais nos meus aposentos? A minha música, isto é, os meus gostos musicais julgo que são razoáveis.

— Se não me convidavas ia ficar muito surpreendida, 707...

— Que horror, Selene! Podes chamar-me Mustaphá, mas apenas na intimidade, por favor.

— Gosto do teu nome, sabes? Mustaphá...

— é melhor irmos embora também. Ainda surge por aí algum indiscreto e não compreenderá esta confidência. Vamos, Selene! Aqueles dois contagiaram-nos, foi?!

— Não poderás transferir esses ficheiros para o meu camarote? Menos cómodo que o teu não deve ser e eu achar-me-ei muito mais solta. Não, não tenho lá aparelhos cirúrgicos nem nada da minha arte. E em contrapartida tem outra vantagem. é que se te virem sair de lá, dirão: Olha, o Sultão foi visitar a sua favorita!

— Espirituosa!... Então abdicas dos privilégios do Comandante?

— Mustaphá, tenho outra coisa a pedir-te...

— Malvado Marwan, foi ele de certeza quem nos tramou!

— O quê?! Bem, isso não interessa agora. O pedido é o de que metas uma folga de presença durante dois ou três turnos. O teu Imediato até agradecerá.

— Que queres de mim, Selene?

— Não queremos os dois esquecer a monotonia desta nave?

— E mais?

— E mais... a seguir quererei ir explorar os tais privilégios. E depois, se ao fim não ficar convencida com a diferença, retornaremos para o meu sítio. Estou a notar que tenho andado muito esquecida de mim própria. Provavelmente será o meu subconsciente, confiante de que numa nave atravancada exclusivamente de máquinas e homens me é suficiente um divertido sinal para arrumar essa questão. E mais... entretanto também conversaremos sobre coisas imprevistas que estão a suceder e me intrigam e a ti também com certeza. Mustaphá, já ouviste falar em música de encantador de serpentes?

— Eu vou-te mostrar...

— Qual será a minha reacção num ambiente melódico quando da minha próxima concentração máxima a nível físico e metal?

— Vai indo, Selene. Logicamente, eu ainda devo tomar disposições...

Homem de sorte é o Comandante, que por obra nossa vai levar a Selene Barsh para a cama, na realidade, monologuei eu para comigo, acrescentando sorrateiramente para que Lídia não me escutasse: — e nós, a possuirmo-nos com tanta intensidade psíquica mas com tanta separação física...

— Marwan, não fiques desolado. Não é tão bom o nosso relacionamento? Queres que te console? Eu sei que queres... é uma situação passageira. Experimental.

— Faz-me falta a autêntica e carnal substância do teu corpo, Lídia!

— Amamo-nos, não é? O "amor" consegue aceitar sacrifícios incomensuráveis... Abraça-me e descansa, ou desafia-me... De todo em todo, por algum tempo vamos estar livres do teu Comandante.

— Bom tipo! Aquela história da Música das Esferas foi a propósito de ele me ter solicitado uma cópia desses meus ficheiros particulares pouco antes de ter sido anunciado que vocês estavam a caminho da Imbróglius.

— Então tens mesmo dessa música!

— Queres escutar?

— Porque não? Vamos tentar. Envia...

— Se eu adormecer é porque fiquei hipnotizado, Lídia.

— Também haveremos de testar isso, Marwan.

Contra o esperado, porque não tivemos mais o Comandante no nosso encalço, passei a viver com uma certa angústia, em vez da habitual leveza sonsa com que me movimentava. Apenas a mim contristava tal sensação e não fui capaz de a conservar secreta, permitindo que Lídia se apercebesse em duas ocasiões, na última das quais se dispτs a tranquilizar-me: — Não vejo motivo para receio, Marwan. A Selene e o Comandante são diferentes de nós. Há alguns turnos que não andam por aí? Aposto que têm trabalhado mais do que feito sexo. Quem inventou aquele projecto?... E também não dizias tu que a Selene era fria? Então, fica descansado.

Entretanto, descobri coisas que me embasbacaram. Por um lado, já não me era precisa absoluta concentração imagética em Lídia para lhe transmitir percepções ou pensamentos concretos; uma ligeira invocação mental dela abria os nossos canais de transferência de dados. Por outro lado, a informação fluí mais de mim para ela do que inversamente, o que me levou a suspeitar de que ela usava algum dispositivo lógico que estancava unilateralmente a corrente de dados ou pelo menos reduzia a expontaneidade de Lídia. E por fim ainda constatei que estava a servir, com elevado gradiente de potencial, de via psicológica para ela realizar exercícios de manipulação da personalidade de outros tripulantes com quem eu convivia frequentemente.

Atarantaram-me estas conclusões. Sobretudo a noção de ser praticável a minha definitiva dependência da individualidade dela. Ou o stress estava a grassar em mim ou magicava de mais. Ainda assim dediquei-me aturadamente à ideia de desvendar uma forma de obstar também à livre invasão da minha mente. Muito possivelmente Lídia detectou o nervosismo e a intencionalidade do meu afã, mas não me deixou perceber-lhe contrariedade. E achei! Imputar a Lídia a identidade visual de Selene, com subtileza e quando conveniente. Método rocambolesco? Mas comprovadamente útil. Ao certo ao certo também não poderia garantir que adormecido eu lhe fosse ainda invulnerável. Paciência, que eu nesse estado não tinha serventia aparente para ela.

Existira uma oportunidade que eu deveria ter agarrado para sensatamente analisar em pormenor o esquema total e as componentes da investigação, até ao detalhe dos algoritmos dos circuitos integrados nos chips a implantar, mas não quisera saber, ousando que a minha secreta mas excessiva sentimentalidade fosse arrastada pela emoção, que não era absurda nem falsa, da afectividade de Lídia. Agora desconhecia quase tudo que era do meu interesse ter avaliado antecipadamente. Desculpo-me porque ante uma Convocação Oficial irrecusável, sobre a qual eu não teria o mínimo recurso de justificável intercessão, não valeria a pena inteirar-me e desassossegar-me intempestivamente. Agora era esperar o termo da observação — quando seria? — e que entretanto não me surgissem escolhos de monta.

Talvez algum tédio, sobretudo porque havia já vários turnos que não punha a vista em cima de Lídia, ainda que o nosso contacto mantivesse muita constância mental, espicaçou-me a interrogá-la, também para confirmar uma suspeita plausível:

— Suponhamos que deparávamos com qualquer beco inesperado na lógica das tuas portas "lógicas" — ironizei eu — e optávamos por acabar o nosso trabalho de campo. Terias de obter beneplácito de alguém para a realização da cirurgia de desinstalação dos chips?

— Marwan, eu ainda não te falei nesse caso!?

— Mau, Lídia! Essa resposta é indiciadora... há algum problema? — A compreensão do funcionamento do cérebro, digamos assim, é um estudo altamente complexo, Marwan. Exige um saber estruturado...

— Isso não me elucida nem responde à minha questão, que é outra.

— A resposta é: impossível... porque é enorme o risco de danificarmos os nossos cérebros. Por conseguinte, nunca cairei na tolice de pedir que nos tornem a abrir a cabeça e retirem de lá aquelas minúsculas chapinhas de circuitos electrónicos.

— Irreversível, Lídia!? Não acredito!

— Aceito o teu espanto, mas tens de acreditar. Os chips são colocados no sistema nervoso periférico, desempenhando o papel de muito fortes sinapses a interagirem nas transmissões de impulsos eléctricos que passam em delicados grupos de axónios. Estás a ver a dificuldade que o assunto apresenta para um leigo, apesar da minha tentativa de abreviar a teoria?

— O que me espanta, como disseste, é termos chegado a este ponto sem me avisares que era um caminho sem retorno!

— Servia-te para o quê, Marwan? Além disso, foste seleccionado há muito tempo por uma razão comum a mim. é claro que eu não estou aqui simplesmente por meu desígnio, porque tenha resolvido passar dos testes com cobaias laboratoriais para uma investigação em seres humanos... Mas é verdade que me ofereci a mim própria para a experimentação idónea.

— Acho que te tenho "amor", Lídia, mas com lealdade te digo que esta situação pode levantar em mim ódio por ti.

— Não digas isso, Marwan, por favor. Não podemos retirar os chips, porque um ou outro dos axónios utilizados podem não mais regenerar-se da descontinuidade que lhes foi provocada, com consequências muito graves para as nossas mentes. Nem podemos dar-lhes ordem para interromperem o seu trabalho, porque se autoalimentam com energia dos próprios impulsos que estão a intermediar e bloqueá-los seria o mesmo que, neste caso, estrangularmos uma parte importante da nossa consciência sensorial.

— Há mais novidades que eu deva saber?

— Tanto quanto calculo, ainda há um microcircuito completo por activar, cujas combinações de portas lógicas, impossíveis de preanalisar por computação de dados, proporcionar-nos-ão, hipoteticamente, muito boas surpresas.

— Ponto final, Dra. Não me atemorize mais, por favor.

— Adoro-te, Marwan, sabias?

— Então aplica-te em desanuviar-me o sentimento de que me perdi.

— Ter-me-ás para sempre, Marwan...

Acabrunhado, saí do meu beliche na disposição de submeter-me a uma pesada sessão de exercício físico. Queria esgotar-me, para não ter de pensar e ao mesmo tempo afastar aquela ansiedade algo culposa pela prolongada ausência do Comandante. Agora que eu tinha mesmo necessidade de conversar com ele, encafuara-se no camarote de Selene, como já era do conhecimento geral, e que outra coisa andaria a absorvê-los que não...

Pensei em Kinny e a sua voz apalhetada ressoou na minha cabeça: — Em que posso servi-lo, Tenente? — Nem retruquei, desviando-me instantaneamente para a imagem de Selene. A minha ideia era peregrina... recomendar encarecidamente ao cozinheiro — uma designação estereotipada pois que o robτ nada confeccionava limitando-se a programar individualmente doses de sintética alimentação conformes ao estado fisiológico de cada um, o qual recebia através do identificador pessoal — que esfriasse o fluxo hormonal do Comandante!

Estaquei. Ah! Também adquirira aptidão para comunicar com máquinas, sofisticadas mas sem a faculdade da razão, às quais nós próprios conferíamos por divertimento ilusória humanização?! Outra capacidade perigosa?

Selene era agora o meu abrigo de fuga, por interposição entre mim e Lídia, mas era-o porque eu estava nitidamente acomodado às circunstâncias. Era essencial que eu reagisse. Se pressionado por tanta confusão psíquica conseguia aceder a algumas deduções correctas e independentes, deveria saber reencontrar o meu código de liberdade. Sem dúvida que gostava de Lídia de uma maneira absolutamente diferente da vulgar entrosagem sexual, e até admitia que ela estivesse inocente a respeito de qualquer diabólica maquinação científica, ou política, mas, ou a minha razão definia claramente objectivos estratégicos para o meu futuro, quaisquer que eles fossem, ou teria de alcançar meios expeditos para me desembaraçar quanto antes desta enrascada.

— Tens jeito para dramatizares, Marwan! Não, desculpa, estou a brincar...

— O quê! Estiveste a escutar os meus pensamentos!

— Não! Embora me pareça que podes não acreditar, tenho respeitado sempre a tua integridade psíquica, mesmo quando a tua receptividade se mostra enorme ante a minha penetração.

— E queres mesmo que acredite em ti?!

— O caso é que chamaste por mim, desgostoso, mas afirmando a ti próprio que gostas de mim de uma maneira absolutamente diferente da vulgar, e eu acorri e naturalmente apanhei com o resto da tua expressão.

— Pois. Então também pudeste entender que isto não vai bem comigo...

— é claro. Mas não vai melhor para mim. Só o facto de chegar a ti tão profundamente, tanto como te recebo na minha recτndita intimidade, me não faz arrepender. Tal como tu, eu não sou ambiciosa, e nunca sonhei que se nos empenhássemos nesta investigação e procurássemos tirar ocultas vantagens pessoais bem poderíamos tornar-nos senhores do mundo.

— Poder meramente factício e vulnerável e transitório. E não dinástico. Nunca poderemos gerar filhos com a qualidade do nosso artificialismo. Geneticamente não há cromossomas substituíveis por biochips...

— Esse tema, futuras gerações, vai agora dar muito que discutir, quando estamos decisivamente no umbral da imortalidade.

— Que estão a fazer connosco, Lídia? Entristece-me já não me poder gabar, mesmo ingenuamente, de que "ainda sou homem!".

— Gostas de mim, Marwan? Então não pronuncies tão sub-reptícia acusação. Vai lá para onde ias, que eu também estou muito ocupada em construir soluções para os mesmos problemas que te colocas a ti.

Entrei no ascensor do segundo piso e subitamente dei conta que em meu redor se erguera uma inexplicável tensão psíquica. Olhei de relance para os poucos passageiros, todos meus conhecidos, e pelas suas expressões fisionómicas apercebi-me que estava a ser mal encarado. Disfarcei, como se não tivesse apreendido a grosseira atitude deles, e acto contínuo saí no terceiro piso. Não era o meu destino mas quase me sentindo acossado optei por me afastar da incomodidade. Os meus dois seguranças, que não estavam à espera do meu desvio, atrapalharam-se mas seguiram-me. Enfrentei-os e disse-lhes:

— Não se aborreçam, rapazes, mas parece-me que vou pedir que sejam dispensados da vossa preocupação comigo. Têm visto que não há razão para tanto cuidado comigo e eu acho que a restante tripulação não está a gostar do meu privilégio. Notaram o que se passou agora? Suspeitam que a camaradagem deles já não será digna da minha confiança. Desculpem, mas tem de ser.

— Actue como melhor lhe aprouver, Tenente, mas, como imagina, enquanto não houver outra indicação... — retrucaram quase em uníssono.

No Centro de Manutenção Física, mesmo ao lado do Bloco da Segurança, e talvez por isso, era o único lugar fora de quaisquer instalações individuais, evidentemente, em que me via livre dos meus vigilantes. Entrei e constatei uma frequência desusada. Todos os aparelhos ocupados. Preenchidos os espaços delimitados para exercícios de solo. E ainda pessoal em fila de espera. Coincidência anormal! Caras fechadas. Toda a gente fazendo por desconhecer a minha presença. Encostei-me a um corrimão, clamando intimamente por paciência. Quando havia decidido dar uma sova de esforço no meu corpo para me alhear da má sorte que estava a perseguir-me, à população não activa da Imbróglius apetecera-lhe também exercitar-se. Depressa comecei a ficar irritado ainda que não me exteriorizando. Quando me palpitava que sucederia uma vaga aqui ou ali e me aproximava do local, já chegava atrasado. Dois ou três interessados surgiam lá primeiro do que eu. Acaso? Concluí que tudo estava a passar-se propositadamente. Do fundo da sala disse audivelmente para o tipo que se encontrava mais perto de mim: — Vou-me embora, que não estou com pachorra para brincadeiras. Até logo! Observei que ele levantou o braço bem ao alto e ainda interpretei o gesto como saudação. Mas não era. Porque mal dei uns passos se desenhou à minha volta uma ampla clareira, um anel de tripulantes, com uma brecha de passagem para a porta de saída, e de entre eles destacou-se um Piloto da Robótica, bem meu amigo, aliás, e excelente lutador de Judo com quem eu frequentemente praticava Artes Marciais. Era um desafio e, claramente, ele tinha a representação de toda a assembleia!

Eu poderia ter abandonado a provocação, indiferente, até petulante. Mas o que significava aquilo? Sorri-me e desapertei o fato. Em instantes estava nu e apanhei no ar um quimono que sobrevoou as cabeças à minha direita. Trocamos saudações e o meu opositor atacou com imprevista oportunidade. Aparei o golpe com uma queda enrolada para a frente e no momento astucioso em que me levantava consegui uma projecção dele por cima do ombro terminando com um estrangulamento pelas costas. Se o apertasse mais uns segundos ele desistiria. Nunca me fora tão acessível vencê-lo. Os meus reflexos nervosos estariam mais aguçados, ou por atitude subconsciente quereria ele perder a luta comigo? Mas fui em quem gritou Maitta — Desisto!

Julguei que escutaria uma exclamação de desagrado, distanciei-me um pouco, voltei a saudar o adversário e enquanto trocava novamente de roupa atirei-lhe: — Que é que vocês me querem, que eu francamente não percebi!?

— Admitindo que não percebeu, e então estará muito estragado da cabeça, é nossa convicção que foi e é o Tenente o responsável por não haver rasto do nosso Comandante há demasiados turnos. Nem sabemos se lhe aconteceu algum mal, ou se está contaminado por esboroamento sexual igual ao seu...

— Eu não tenho nada com isso! Porque é que não interrogam o Segundo Comandante? Ou a Segurança, aqui ao lado?

— Um tem instruções rigorosas do próprio para, até contra-ordem, deixar o nosso Comandante em paz e também a Dra. Barsh. A Segurança acha que não temos o direito de ser tão curiosos. E até o Dr. Stahll declara que, não fazendo parte da tripulação escalada da nave, não tem que se meter no assunto embora concorde que a situação não é normal.

— E então eu é que pago a conta...

— A verdade é que não queremos conversa consigo. Desejamos apenas que por qualquer meio contacte o Comandante e lhe faça saber que nos desagrada que um boneca estouvada lhe dê a volta à cabeça, sendo ele quem é e merecendo-nos a consideração que merece. Também nós estamos sem diversão há muito tempo e aguentamos com naturalidade.

— Não estou a ver como possa contactá-lo. Contudo, acredito que ele saberá o que está a fazer em isolamento tão reservado.

— Tenho pena de dizer-te, mas na opinião de muito pessoal, e por comportamento suspeito, perdeste credibilidade Marwan. Poupa-nos a desculpas e desenrasca-te.

— Não preciso de desculpar-me. Tentarei o que me for possível. E dou a toda a gente um conselho: não aceitem mais ser voluntários em missões exclusivamente masculinas. Exijam contingentes mistos e em boa proporção!

— Toca a andar, Tenente! Queremos acção lesta da sua parte.

O cúmulo! Em cima das minhas complicações pessoais ainda caía a esbórnia daqueles dois. Sem dúvida por estímulo meu e da Lídia...

Pouco depois o Centro ficou vazio e eu pude praticar todo o exercício que me atraiu. Esfalfei-me e não evitei que um desgosto insidioso, próximo da ira, me abalasse a presença de espírito. Amava Lídia, e ela atolara-me num sarilho inominável. Era um apaniguado fidelíssimo do Comandante — imaginam o nome dele? Mustaphá! — e ele desiludia a guarnição, por erro meu de atirá-lo para o regaço de Selene. Estava na minha mão tornar-me Senhor do Sistema Solar, e desprezava o poder.

— Lídia, informa-me imediatamente! Podes aceder à mente do Comandante?

— Marwan! Que furor é esse!? Que perturbação!

— Responde-me, por favor...

— Não, não posso. Se isso é tão importante para ti, porque é que não procuras ligar-lhe pelas vias normais? Queres que pense num modo alternativo?

— Não há ninguém como uma mulher para efectuar deduções com simplicidade!...

— Não sejas indelicado, Marwan.

— A sério, Lídia, enquanto estudas outra possibilidade vou insistir em enviar-lhe mensagens electrónicas. Aqueles parvos todos bem podiam ter experimentado isto. — Não te entendo, Marwan.

— Nem precisas de entender, por ora. Obrigado!

Lembrei-me que já realizara coisa mais incrível: comunicar com o cristal nevrálgico do robτ-cozinheiro. Mas recusei-me a abordar o Comandante por meios paranormais, ou de transmissão electromagnética integrada, ou como se lhe chame, pois se tivesse êxito eu próprio entraria em estado de choque ante as minhas extraordinárias capacidades. E foi talvez essa relutância que me despertou outra opção: discutir com Lídia a maneira de adulterar exageradamente os dados constantemente recolhidos no quadro de registo dos nossos sinais encefálicos, do qual, apesar de tudo, eu não acreditava que a Dra. Barsh andasse completamente alheia. Alertada, decerto que esta efectuaria um contacto, mínimo que fosse, com Lídia e através dela haveria de passar uma mensagem ao meu Comandante.

Tal não se mostrou necessário porque, ou o Comandante codificara acesso livre para uma eventual chamada da minha parte, hipótese não improvável de todo, ou, coincidentemente, já estava em fase de ressuscitar da sua sensual hibernação com Selene. Enviei-lhe poucas palavras:

— Imbróglius reclama sua presença urgente, em corpo e alma. Possível sublevação. Impotente para controlar estado sociológico geral que teme Comandante esteja sequestrado. Tenente Marwan.

Pouco mais tarde redarguiu-me:

— Vocês são uns incompetentes! Perdão... débeis mentais! Para que é que existe a Segurança?! Não chateiem o papá que logo há-de voltar a dar-lhes mimo. Comandante Mustaphá.

Atordoado pela surpresa, insisti com outra mensagem:

— Ou reaparece feliz com a sua conquista, perdão... com a Dra. Barsh, ou eu serei linchado. Segurança apenas serve para perseguir-me. Exijo imediata libertação pessoal. Quero fugir daqui. Marwan.

Já nem me deu troco.

Contei tudo a Lídia, embora não lhe confessando o meu receio principal. Antes pelo contrário, detive-me a entusiasmá-la com a deslumbrante intenção de conjuntamente expandirmos as nossas poderosíssimas habilidades e dominarmos esta fracção do Universo. Quem sabe do que mais conseguiríamos assenhorear-nos? De lírica intriga — uma outra ideia simples, inteligente, portentosa, guardara-a eu num recesso da minha consciência — a urdidura depressa se converteu em plano arrebatador, alucinante. Parecia-me que estava a interiorizar cada vez mais profundamente o conceito de circuito integrado, a minha mente assemelhava-se-me a um chip expansível, porventura aquele que Lídia calculava estar ainda inactivo, e a desencadeada abertura das portas lógicas nele desenhadas ocorria agora numa sequência imparável mas coerente. Consumava-se um processo de evasão de mim próprio! Porque existiam portas cuja saída levava de imediato ao Espaço Estelar e por cada uma delas eu sentia escapar-se uma velocíssima partícula subatómica do meu pensamento, transportando para o cosmos uma mensagem pura e catastrófica: — Sou Marwan! Trago-vos o Amor e a Esperança! Sou Marwan!

De rompante um clarão radioso, brilhante, halogénico, explodiu algures e perpassou na minha massa encefálica imersa numa escuridão pontilhada de corpos celestes. Perguntei então, assombrado: — Lídia? Vieste comigo? Onde estás?...

Reabri os olhos e verifiquei que continuava no meu beliche, mas tal como eu antevira algum drástico incidente havia de ter acontecido pois eu não conseguia obter percepção anímica da parte de Lídia.

O Clarão! O curto-circuito tivera lugar. Ficou-me a dúvida se fora provocado externamente pelo desconhecido e longínquo master da Operação Outras Luas, ou se tivera origem no desenvolvimento lógico do chip intracraniano que me fora implantado. As duas hipóteses eram válidas, ainda que eu me inclinasse mais pela primeira. Uma experiência tão ambiciosa seria impossível de levar a cabo fora do secreto controlo da Comissão Universal de ética.

Resultado: o meu comunicador funciona mas o de Lídia paralisou indefinidamente. Já não tenho receptora para as minhas apuradas mensagens psíquicas. Não me pode escutar e está apática. Os seus circuitos neuronais ficaram desarranjados e perdeu alguma lucidez. Desejei beijá-la, para recordarmos outros tempos, mas o seu lindíssimo olhar biónico fitou-me com tamanha indiferença que eu me arrependi com muita tristeza pela minha precipitação indutiva. Aguarda trânsito para a Terra.

Está suspensa uma parte de mim. Talvez a parte mais perigosa, mas paradisíaca. Quando penso em Lídia, fico desconsolado e amarguro-me e desespero-me, mas felizmente tenho um refúgio constante e sereno: Selene Barsh, que se apaixonou pelo estudo de neurofisiologia, deliberadamente para assimilar um modo de tomar conta do lugar vago na minha mente, ainda que sem recurso a implantação de chip algum, que lhe foi superiormente negada pela Comissão Universal de ética, até que estejam exaustivamente analisados os resultados do meu caso, quer dizer, provavelmente nunca mais. Ainda bem!

Claro que só raramente ouso vangloriar-me "— Ainda sou homem!".

Tenente Marwan
Oficial de Comunicações
Nave Espacial Imbróglius


NOTA:

(*) > Fw... [email protected]) -- 10.07.00 > To: [email protected] From abc.com news (suggest The Beatles 'Come Together' as background music while reading): New microchip could banish the 'faked orgasm' A newly-developed microchip implanted into the body will allow two people to share each other's pain, movement and even sexual excitement, it was revealed by an expert in artificial intelligence. The microchip could even see the "faked orgasm" banished from the bedroom and bring an end to the battle of the sexes, its inventor Professor Kevin Warwick has claimed. ..."


acerca do conto...
Título: Outras Luas
Data:
Autor: Leopoldo Guimarães
e-mail: [email protected]