Retrocedersimetria: ficção
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o fim
por Ludwig Krippahl

O Fim

Hoje é um dia especial. Hoje, dia padrão trezentos e oito do ano vinte mil seiscentos e oitenta e um da Federação, faço setecentos e cinquenta anos. Hoje é o dia da minha reforma.
Setecentos e cinquenta anos. Uma breve infância já quase esquecida. Algumas recordações dos tempos na Academia. O inicio da guerra, como se fosse ontem. Uma sequência confusa de combates, de patrulhas aborrecidas, de alguns heroísmos e muitos arrependimentos em mais de seiscentos anos de serviço nas forças de defesa da Federação. Parece-me que tudo isso não foi mais que um breve prelúdio para o dia de hoje.
Pelas normas da lei militar, a partir de hoje Satmus Ktasis o terceiro tem o direito de exigir a sua retirada imediata do serviço activo. Basta-me apresentar o pedido formal a qualquer superior hierárquico. O mais próximo dos quais está a mais de vinte anos luz daqui. Graças à lei militar, a minha reforma vai ter que esperar uns trinta anos. Lá espertos são, os tipos que fazem estas leis...
Perdido em recordações, dou por mim já sentado à frente da consola, os meus dedos automaticamente a repetir o ritual diário destas ultimas três dezenas de anos e a digitar os comandos que invocam os planos da Varanus. Mas hoje não. Tiro do pescoço o velho cristal holográfico que Glaria me ofereceu nos nossos casamentos. Mais de seis séculos de uso e o fino colar de metal que o segura é mais familiar que as minhas próprias mãos, que distintamente já não se parecem com o que me lembro...
Um toque no cristal e lá estamos os quatro à minha frente. Glaria, com o seu sorriso encantador, muito agarrada ao Niro. Ctara, menos resplandecente mas mesmo assim a maior luz da minha vida, de braço dado comigo. Eu e Niro, com os nossos trajes de oficial recém-estreadas, a emoldurar as nossas belas e aínda mais recentes esposas. Foi provavelmente o momento mais feliz das nossas vidas.
Um ano depois, tudo estava diferente.
Hoje é um dia para recordar, e decido recordar o mau com o bom. Abro o ficheiro de Zalanis IV. A data: 102/20056 AF.
O primeiro, e até agora o último ataque relativista bem sucedido a um planeta habitado. Nesse dia uma nave robótica da Frota Real da Monarquia Democrática de Antar colidiu com o planeta. Com uma massa de repouso estimada em doze mil toneladas e uma velocidade de cerca de duzentos e oitenta mil quilometros por segundo, a energia do impacto vaporizou a superficie do planeta.
Mortos: 5,868,743,998
Sobreviventes: 0
Eu, a Ctara e o Niro estavamos a três dias de distância, a bordo duma velha Nexus e a caminho de Zalanis IV. Glaria esperava por nós em Zalanis IV. Foi certamente o pior momento das nossas vidas.
A guerra entre a Federação e a Monarquia foi imediatamente declarada. Zalanis IV fora um planeta sem interesse estratégico e por isso praticamente sem defesas numa época que, formalmente, era de paz. Os ataques aos sistemas de Sintaria, Alesia e Urmiss foram detectados a tempo e as naves inimigas vaporizadas pelos poderosos lasers orbitais. à parte de alguns efeitos ambientais causados pelas ténues nuvens de particulas, estes ataques foram neutralisados.
Seguiram-se seis séculos de guerra estupida, por vezes trágica, e quase sempre aborrecida. Com distâncias de dezenas de anos luz a separar os sistemas principais de ambos os lados, ataques em força estavam fora de questão. Quem seria idiota ao ponto de comprometer as suas forças a um ataque que demoraria meio século a concretizar? Nem as mais altas patentes militares chegavam a tanto...
A maior parte do serviço foi passado em longas patrulhas de observação para detectar e neutralisar os ocasionais ataques relativistas dos Monarcas. Muito raramente, naves inimigas aproximavam-se a velocidades suficientemente baixas para poderem usar os misseis de anti-matéria, e lá havia uma breve escaramuça sem sentido nem consequência, para além dos poucos desgraçados que morriam. A Federação nunca ripostou com ataques relativistas. Niro sempre deixou bem claro que era contra essa “política de saco de pancada”, em que nós aguentavamos com os ataques e não faziamos nada contra isso. Mas eu sempre discordei dele neste ponto. Não se justificava condenar à morte biliões de civis apenas porque o seu lider era escolhido pelos pais que tinha, e por terem que fazer tudo o que ele mandava por mais imbecil que fosse. Era uma Monarquia. Democrata só no nome.
Além disso, os ataques eram facilmente neutralisados desde que se pudesse detectar as naves a algumas dezenas de dias-luz de distância. Viajando próximo da velocidade da luz, quando aparece nos telescópios a 30 dias-luz, sabemos que entretanto já está apenas a 3 de distância. Mas como tem que acertar no planeta e àquela velocidade a capacidade de manobra é quase nula, é trivial reduzir qualquer ataque a uma nuvem de átomos dispersos que só em parte acerta no alvo. Nenhum escudo de plasma resistia mais de uns minutos sob o feixe dos lasers orbitais.
Até agora.
Deixo os meus dedos repetir o que já fizeram milhares de vezes nestas últimas décadas. Os planos da Varanus substituem Zalanis IV no projector holográfico à minha frente. Uma corveta da classe Vissar, por fora igual à minha Valassia e a muitas outras naves da Federação.
As diferenças estão por dentro. A Varanus não tem qualquer armamento. A Valassia dispõe das baterias de canhões de partículas anti-missil e do complemento padrão de vinte misseis de anti-matéria. Sem necessidade de controlo de fogo e com um sistema de navegação modernizado, a Varanus pode ser pilotada por um só elemento. A Valassia tem uma tripulação de 12, incluindo este velho comandante praticamente reformado.
O interior da Varanus é quase completamente preenchido pelos enormes aneis de Irídio do PlasMag X, o prótotipo de um escudo de plasma que promete mudar completamente o rumo da guerra.
Niro uma vez explicou-me que o princípio de funcionamento dos escudos de plasma é simples. Simples para ele, aparentemente. Para mim, a única coisa que ficou é que é uma nuvem de particulas mantida à volta da nave por fortes campos magnéticos. Quanto aos detalhes, aquelas dezenas de guardanapos cheios de equações que ele animadamente rabiscou durante o jantar... enfim, desde que alguém lhe dissesse que sim de vez em quando, ele passava uma noite entretido a falar sozinho e a explicar coisas que ninguém percebia. O que um comandante precisa saber acerca dos escudos é como os destruír. A maneira mais prática é um míssil de anti-matéria; a energia do ataque é libertada num momento demasiado breve, e os escudos não conseguem dissipar mais que uma fracção desta.
A alternativa é um ataque contínuo tão poderoso que sobrecarregue os escudos. Este é o papel dos lasers orbitais de defesa contra ataques relativistas, pois a essa velocidade a intercepção com mísseis não é viável. Mas a enorme capacidade dos supercondutores de Irídio permite ao PlasMag X dissipar facilmente a energia das defesas orbitais mais poderosas construídas até hoje. Um míssil de anti-matéria aniquila facilmente o escudo, que por isso não é vantagem em combates a baixa velocidade. Mas é perfeito para ataques relativistas.
O ataque imparável. A solução final para a guerra. A arma que pode forçar a Monarquia à rendição incondicional. Na nave que o Niro roubou.
Comandante Niro Casmor Silanius, nascido a zero zero seis de um nove nove sete cinco ah efe, diz a voz algo monótona da minha consola. Começa a papaguear as inúmeras condecorações daquele que foi o meu melhor amigo, mas eu já não ouço. A holografia dele à minha frente traz demasiadas recordações.
Para mim o melhor Comandante de toda a frota. Certamente um dos mais experientes e condecorados. Depois da morte de Glaria, toda a sua vida estava orientada para a vitória sobre a Monarqia, e a sua dedicação e lealdade eram inquestionáveis.
Lembra-me o orgulho que senti quando apertámos a mão pela última vez na camera de descompressão da Varanus. Afastámo-nos um do outro flutuando silenciosamente. A Varanus acelerou em direccção à zona de teste, a luz ténue do PlasMag X a brilhar à sua volta.
Lembra-me a confusão quando a Varanus começou a acelerar a 50g poucos minutos depois. Na Xelosior os tipos dos serviços secretos tentavam furiosamente controlar a nave em fuga, e o velho almirante Alman recusava autorizar-me a abrir fogo ou interceptar, alegando que se tratava certamente de um problema técnico e que a Varanus era muito valiosa para destruir. Problema técnico... Que raio de problema técnico é que ele achava que simultaneamente ia cortar as comunicações, desactivar os sistemas de controlo remoto de segurança e acelerar a Varanus ao máximo que os seus motores conseguiam? Em poucos segundos percebi que teria que matar o meu melhor amigo.
Demorou três horas e oito minutos até que a mesma idéia entrasse no cérebro fossilizado daquele almirante senil. Quando finalmente decidiu ouvir-me e autorizou que detivesse a Varanus, toda a minha tripulação estava nos tanques de aceleração e arrancámos imediatamente a 50g. Mas por essa altura a Varanus deslocava-se a mais de cinco mil quilómetros por segundo.
Bastava ter ignorado aquelas ordens. Bastava um míssil naqueles primeiros minutos e tudo ficava resolvido. Matava o meu melhor amigo, e certamente ganhava uns bons anos de cadeia. Mas sempre era melhor do que trinta anos enfiado numa nave, a três horas e oito minutos dele, a duzentos e setenta mil quiómetros por segundo no meio do nada, à espera de uma oportunidade para finalmente matar o homem que fora mais do que um irmão para mim. Estes trinta anos foram certamente os mais estupidos de toda a minha vida. A Valassia tem vinte misseis de anti-matéria. Basta um para destruir a Varanus, que não tem qualquer defesa contra mísseis. Problema resolvido... a menos de um pequeno detalhe.
Os mísseis têm que ter uma aceleração superior e ser capazes de destruír os escudos do alvo. Entre os poderosos sistemas de propulsão e tudo o que é necessário para conter o núcleo de anti-matéria, não sobra espaço para mais que um pequeno gerador de escudos. Acima dos dez mil quilómetros por segundo as partículas microscópicas de poeira no espaço passam facilmente esta fraca protecção, e se alguma coisa chega ao núcleo de anti-matéria...
Ou seja, se disparmos um míssil contra a Varanus a duzentos e setenta mil quilómetros por segundo, o míssil rebenta-nos na cara.
Solução? Esperar que a Varanus desacelere até menos que dez mil quilómetros por segundo.
Trinta anos a olhar para este problema. Trinta anos com esta pergunta, e a resposta nunca mudou. Trinta malditos anos.
Três horas e oito malditos minutos...
-Comandante?
-Sim, Thulvar. – Respondi automaticamente, só agora vendo a cara do meu imediato projectada à minha frente.
-Pediu que o avisasse quando tivesse os dados sobre o sistema...
-E?...
-Confirmam o que tinhamos do observatório interferométrico de Sintaria. Dois planetas rochosos e quatro gigantes gasosos orbitam a CGE328. Há algumas anomalias orbitais, pelo que pode haver mais planetas. Mas o mais interessante é que confirmámos a análise espectral do CGE328-II, e tem cerca de 30% de oxigénio na atmosfera.
-Então existe mesmo vida neste sistema... Alguém à nossa espera?
-Não detectámos radiação característica de geradores de anti-matéria ou fusão. A probabilidade de estar aqui uma nave como a Valassia ou maior é de 2%.
-Ok. Obrigado. – Digo eu, cortando a ligação. Claro que não está ninguém à nossa espera. Niro odeia os Monarcas, não fazia sentido que tivesse combinado o que quer que fosse com eles. Na verdade, nada disto faz sentido.
Este foi o outro problema nestes trinta anos. Porquê? Porque é que o homem que mais odeia a Monarquia em toda a Federação quer lhes entregar uma arma que lhes pode dar a victória?
Trinta anos a olhar para este problema. Trinta anos com esta pergunta e nenhuma resposta. Só mais perguntas.
Será que o Niro quer mesmo entregar a Varanus à Monarquia? O PlasMag X estava a ser testado no sistema de CGE1044, uma anã branca na orla do espaço da Federação e a mais de trinta anos luz do sistema mais próximo da Monarquia. Quando Niro fugiu com a Varanus, dirigiu-se para CGE328, um sistema interessante mas que com o início da guerra nunca chegou a ser explorado, e que se encontra sensivelmente à mesma distância da Federação e da Monarquia.
Se quer levar a Varanus aos monarcas, porquê não se dirigir directamente para lá? é certo que teria que atravessar parte da zona controlada pela frota da Federação, mas é practicamente impossível interceptar uma nave a 90% da velocidade da luz sem saber exactamente para onde se dirige.
E se não quer, para que quer ele a nave? Quem fez uma facilmente faz outra, e certamente que não construíram apenas um protótipo. Não é isto que vai tirar a tecnologia à Federação. De qualquer forma, o PlasMag X é a realização do sonho do Niro: uma maneira de aniquilar a Monarquia.
Lembro-me de inúmeras tentativas de comunicar com ele nos primeiros anos, mas sempre sem resposta. Outro grande mistério. Como é que alguém como o Niro aguenta trinta anos sozinho sem explicar nada a ninguém? Talvez seja por isso que nunca respondeu... ele sabe que assim que começassemos a falar não ia resistir contar-me os seus planos todos em detalhe.
A única resposta é que ele está a fazer algo que não quer que eu saiba. Mas o quê?
A consola avisa-me que falta um minuto para o almoço. Saio do meu quarto e caminho pelo apertado corredor. Pela primeira vez em anos reparo como o chão é curvo, sendo a parte interior do cilindro do casco. A rotação rápida da nave dá-nos um sucedâneo de gravidade, e um chão curvo que mesmo assim, como por que magia, está sempre horizontal. Tenho a impressão que se alguma vez voltar a casa vou estranhar o chão direito.
Entro na messe às 12:00 em ponto. Toda a tripulação já está à volta da mesa, em sentido. Um dos pequenos rituais que seguimos todos os dias. Uma forma de manter a sanidade de 12 pessoas enfiadas durante anos num tubo de metal no meio do nada.
Cumprimento-os e sentamo-nos. Thulvar, ao meu lado direito, faz-me umas perguntas sem importância. Dou-lhe respostas sem importância e sem saber sequer quais eram as perguntas. Faço um pouco de conversa, mas tudo em automático. Sei que pergunto à Zalida, a nossa engenheira chefe, se está melhor do braço. Ela responde com um sorriso e qualquer coisa que nem ouço.
é importante falar com a tripulação. Estes momentos que passamos juntos permitem relaxar, e compete-me faze-los esquecer por instantes que estão a vinte anos luz de casa. Mas hoje não me consigo concentrar. Estamos a chegar ao destino que Niro escolheu, e sinto que tudo se vai decidir em breve.
Depois do almoço inspecciono os vários postos. Outro ritual necessário, mas não porque seja preciso inspeccionar o que quer que seja. O controlo de fogo está a postos para qualquer emergência. Os motores e geradores de escudos 100% operacionais. O relatório da manutenção das baterias de defesa e dos mísseis é meticulosamente apresentado. Passo meia hora a fingir que ouço e a murmurar palavras de encorajamento.
Finalmente reúno-me com Thulvar no meu quarto.
-Novidades?
-Sim Comandante. Há cerca de doze minutos a Varanus ajustou o rumo. Daqui a sete minutos teremos observações suficientes para determinar a nova rota com rigor. Já alertei a navegação para a alteração de rota daqui a...— O mostrador holográfico à frente do seu olho esquerdo muda de cor – ...duas horas, cinquenta e cinco minutos e trinta e dois segundos.
Thulvar é o meu imediato. é escrupulosamente rigoroso com os números. Daqui a umas horas, quando a Valassia estiver exactamente no mesmo sítio onde a Varanus ajustou a sua rota, ajustaremos a nossa também. Estas são as regras do jogo da perseguição pelo espaço.
Durante trinta anos mantivemo-nos a três horas e oito minutos da Varanus. Se acelerassemos para reduzir a distância, Niro podia mudar de rumo e teriamos que desacelerar para poder acompanhar a trajectória. O melhor método é fazer exactamente o que ele faz até sabermos para onde vai.
-Muito bem. Quanto falta para travar?
-Assumindo uma inserção orbital à volta da estrela ou de um dos planetas, a 50g terá um período de travagem de 150 horas que começará daqui a 5 a 12 horas, dependendo do destino final. Assim que tiver a rota da Varanus posso dar-lhe um valor mais preciso. De qualquer forma, em menos de 15 horas temos que estar todos no banho.
O sorriso nervoso de Thulvar não engana ninguém. Estas piadas são a sua forma de esconder o medo, o pavor mesmo, que tem dos tanques de aceleração. A única forma de suportar acelerações elevadas é completamente imerso em liquído, dentro de um tanque fechado. Passar 150 horas num tanque de aceleração é desagradável para todos. Para um claustrofóbico como o Thulvar...
-Ok Thulvar. Avisa a tripulação. Quero todo o equipamento preparado para a travagem dentro de duas horas. Assim que a Varanus começar a travar, certifica-te pessoalmente que está tudo preparado.
Assim sempre ficas ocupado e não sofres tanto por antecipação, penso eu. Ele obviamente compreende a intenção, e parece um pouco mais aliviado.
-Sim Comandante.
Estou novamente sozinho. Trato dos relatórios, do registo de bordo e dos detalhes do costume sem qualquer entusiasmo. Thulvar manda-me os dados da rota da Varanus. Aparentemente Niro vai tentar uma inserção orbital no maior gigante gasoso, originalmente designado CGE328-IV. Thulvar diz que o correcto é designá-lo CGE328-V, porque descobrimos um novo planeta junto à estrela que o observatório de Silaria não tinha detectado. Diz-me também, entusiasmado, que as anomalias orbitais dos gigantes gasosos indicam outro planeta mais exterior, mas que tem os telescópios todos apontados para a Varanus e aínda não confirmou.
No total, CGE328 tem quatro planetas rochosos, quatro gigantes gasosos e um outro, provavelmente pequeno e rochoso. Dois fomos nós a descobrir, e confirmámos a existência de vida neste sistema solar. Já é qualquer coisa.
Dou algumas ordens e recomendações pela minha consola. Peço alguns relatórios e esclarecimentos. Enfim, mostro que estou acordado e em cima das coisas, mesmo que todos saibam o que têm a fazer. Toda a tripulação está mais excitada. Finalmente estão a acontecer coisas.
São 17:43. Thulvar entra no meu quarto, obviamente entusiasmado com qualquer coisa importante. Não me parece que seja outro planeta.
-Comandante, a Varanus começou a travagem. Mas a 48g.
-Continua na mesma trajectória?
-Sim. Chegará a CGE328-V, o gigante gasoso, a cerca de quinze mil quilómetros por segundo. Além disso, estive a verificar a trajectória várias vezes... é disparatado, eu sei, mas é a única possibilidade se a Varanus mantiver esta trajectória... além disso...
-Thulvar. Acalma-te.
-Desculpe, Comandante. A trajectória... não é de inserção orbital. é de travagem atmosférica.
-A quinze mil quilómetros por segundo? Impossível!
-Foi o que pensei primeiro, mas é nitidamente essa a trajectória actual, e estive a fazer uns cálculos e penso que o PlasMag X aguenta uma travagem atmosférica a essa velocidade. Tenho aqui a projecção da trajectória.
à minha frente aparece um diagrama colorido do gigante gasoso. A fina linha azul marcando a trajectória da Varanus passa praticamente em linha recta tangente à atmosfera do planeta. Mal reparo nas coloridas bandas de nuvens do gigante gasoso. São os números que chamam a minha atenção.
-Mas... Uma desaceleração de praticamente vinte mil g? A nave fica desfeita...
-Não Comandante. – O esquema da Varanus substitui o diagrama do planeta – O casco está completamente integrado com o sistema de escudos e geradores. No fundo tudo isto – a sua mão move-se através da figura – está a ser suportado pelo campo magnético do PlasMag X. A força exercida pela atmosfera será uniformemente distribuida por todo o casco, não havendo assim zonas de tensão diferencial que danifiquem a nave.
-E o interior? O Niro?
-Pois... esse é o problema. A vinte mil g mesmo um ventilador pode abrir um rombo no casco, e claro está, ninguém a bordo poderá sobreviver. Mas praticamente só o sistema de suporte de vida é que não está integrado com o PlasMag X. Os sistema de propulsão e orientação e o reactor principal não darão problemas. O que eu acho é que basta ejectar o sistema de suporte de vida, os robôs de manutenção, consolas e assim.
-Mas isso é suicídio.
-Os números não mentem, Comandante.
-Os números não, Thulvar, mas as pessoas sim. A qualquer momento o Niro pode mudar a trajectória. Isto pode ser tudo um engodo. Ele não faz coisas sem razão, e suicidar-se agora não faz sentido... Vamos continuar a fazer tudo o que ele faz, e esperar para ver. Prepara a tripulação. Começamos a travagem a 48g em três horas.
-Sim Comandante.
Três horas passam depressa quando há coisas para fazer. Meia hora antes do início da travagem a rotação da nave é parada. Os preparativos finais são feitos sem gravidade artificial, sem tecto nem chão. Paro uns segundos a ver a tripulação passar pelo corredor, fantasmas apressados a nadar pelo ar.
Na camera de travagem já se ouvem as piadas nervosas de sempre. Alguns já estão deitados nos tanques cilindricos, embutidos na parede que separa o habitáculo do módulo de propulsão. Em poucos minutos e durante seis dias essa parede vai ser o chão onde cada um de nós estará deitado com cinquenta vezes o peso normal Coloco os projectores holográficos dérmicos sobre os olhos, e encaixo o interface neurológico na nuca e garganta. A vantagem de ter trezentas e oitenta agulhas espetadas no crâneo e no pescoço é que sempre nos distraí um pouco do resto.
O resto é estar fechado dentro dum cilindro de metal enquanto o liquido viscoso nos cobre até que temos que o inspirar e enfiá-lo nos pulmões. Por tradição o Comandante é o último a entrar, e verifico cada um dos onze tanques. As luzes verdes vão acendendo uma a uma por cima de cada tanque, e simultâneamente no holograma à frente dos meus olhos.
Por fim chega a minha vez. Um breve momento de pânico enquanto me sinto sufocar no liquido, mas depois de encher os pulmões a respiração volta ao normal. Envio um comando sub-vocal ao computador principal para fechar as blindagens dos tanques. As agulhas na minha garganta intrepretam a actividade muscular e sintetizam a minha voz nos ouvidos da tripulação.
-Muito bem pessoal – Tento dar um ar animado à voz, mas sem sucesso. Prefiro pensar que a culpa é do sintetizador. – Temos três minutos de espera. C’taria, tás amarela. Dá um jeito nisso. – à frente dos meus olhos o quadrado amarelo com o nome da C’taria passa a verde assim que ela ajusta o seu equipamento de telemetria. Começo a ver de novo a sua pulsação, tensão arterial e outra informação – Ok. Está bom assim. Boa noite a todos.
As blindagens acabam de fechar. Os tanques de aceleração estão agora selados e preparados para suportar a enorme pressão durante a travagem. Este é normalmente o momento de maior tensão, e vejo pelos números à minha frente que o nervosismo é geral. A pulsação de todos está bastante alta. Incluíndo a minha.
A partir de agora os projectores dérmicos e o interface neuronal são o meu único contacto com o exterior. As agulhas no meu escalpe e garganta interpretam a actividade de nervos e músculos e permitem-me comunicar. O mostrador holográfico à frente dos meus olhos e os auriculares mostram-me o que se passa com a nave e tripulação. A manobra de orientação termina, mas dentro do tanque de aceleração isto é completamente imperceptível. Apenas sei porque vejo no holograma a nave a alinhar os poderosos propulsores iónicos, virando-os para o planeta do qual nos aproximamos a duzentos e setenta mil quilómetros por segundo. Em poucos segundos os propulsores são activados. No mostrador vejo os dados da densidade do fluxo, velocidade média das particulas e a aceleração a aumentar gradualmente. Aos 5g algumas bolhas de ar nos ouvidos começam a doer, mas uma expulsão forte do líquido pelo nariz rapidamente resolve o problema. Agora o líquido do tanque preenche completamente todas as cavidades.
Durante os próximos seis dias este líquido será a fonte e o destino de todas as nossas acrtividades biológicas. Este é sempre um facto popular nas breves sessões de humor antes e depois de cada aceleração.
Começo a sentir a pressão a aumentar. Em menos de um minuto estamos a 50g de aceleração, e a pressão é claramente desconfortável. Mas com o tempo o corpo habitua-se.
As horas arrastam-se, intermináveis. Converso ocasionalmente com Thulvar, mas ele está entretido a calcular com precisão a posição do nono planeta. Penso que repetiu os cálculos centenas de vezes por esta altura, mas deixo-o distrair-se. Se alguma coisa acontece preciso dele em forma, e não em pânico.
Durante o sono sonho sempre que me estou a afogar e acordo várias vezes. Não é de admirar, e ouço dizer que é comum. Mas em seis séculos disto tenho sempre, sempre, o mesmo sonho quando estou nos tanques...
No terceiro dia acordo com a voz de Thulvar.
-..ndante! Comandante!
-Sim, Thulvar... o que é? Encontraste o nono planeta?
-er... Sim, ontem.. mas não é isso. Penso que sei para onde vai a Varanus.
-Sim? – Agora estava completamente acordado.
-Estive a calcular exaustivamente trajectórias possíveis para a Varanus. Assumí que esta pode apenas acelerar a 48 g... só um momento...
à minha frente um diagrama do sistema solar CGE328 tomava forma. A linha azul fina representando a trajectória da Varanus tocava no ponto brilhante com a designação CGE328-V, e depois torcia-se num longo e elegante braço de espiral. Quase direito a principio, mas depois cada vez mais apertado até chegar a um ponto azul claro marcado CGE328-III
-Está a ver o diagrama, Comandante?
-Sim...
-Penso que a travagem atmosférica em CGE328-V será de cinco segundos a vinte mil g, o que irá reduzir a velocidade da Varanus de 14.600 km/s para 13.500 km/s. Isto permite à Varanus atingir CGE328-III aproximadamente 13 horas mais tarde a cerca de 2.000 km/s. A esta velocidade poderá fazer nova travagem atmosférica, que estimo durará dez segundos e permitirá uma inserção orbital ou aterragem... as margens de erro das estimativas estão no diagrama... Mesmo que começemos a travar a 50g logo após a Varanus terminar a primeira travagem atmosférica, não será possível acompanhá-la. A nossa velocidade superior obriga-nos a uma trajectória muito mais extensa e quando pudermos lançar os misseis já o Comandante Niro aterrou no planeta. Penso que é este o plano dele... o planeta tem oxigénio, o que implica necessariamente flora autotrófica... ele poderá esconder a nave e sobreviver até chegarem reforços e....
-Bom trabalho, Thulvar. Só um pequeno detalhe...
-Sim?
-é impossível sobreviver a uma travagem atmosférica de vinte mil g. Confio nos teus cálculos, e admito que a trajectória faz sentido. Mas não me parece que o plano do Niro seja aterrar no planeta depois de ser esborrachado a vinte mil g. Duas vezes...
-Tem razão, Comandante... peço desculpa por incomodá-lo com isto.. trabalhar nestas condições, aqui fechado e...
-Não faz mal Thulvar. Compreendo. De qualquer forma os cálculos são claros e como tu próprio dizes, os números não enganam. A trajectória faz sentido, e é possível que seja esse o plano dele mesmo que seja suicídio. Quero uma solução para nossa trajectória caso ele conclua de facto a primeira travagem atmosférica como tu dizes.
-sim...
-Preciso também duma solução de fogo que nos permita disparar os mísseis e interceptar a Varanus antes de aterrar em CGE328-III.
-Mas... penso que não será possível... Não nos podemos afastar muito da Varanus, e temos que reduzir a velcidade abaixo dos dez mil km/s antes de podermos disparar os...
-Confio em ti, Thulvar. Encontra maneira de o fazer. E de preferência, mantendo os mísseis alinhados com a Valassia para mascararmos a assinatura dos propulsores dos mísseis o mais possível. Só temos uma hipótese, e não quero que a Varanus fuja.
-er.. Sim Comandante. Vou tentar, mas não posso prometer...
-Tu sabes o que fazes. Ao trabalho.
Cortei a ligação. Claro que o Niro não vai fazer uma travagem atmosférica. Não faz sentido andar mais de vinte anos luz para se suicidar. Mas ao menos agora Thulvar tinha um problema complicado, ou mesmo impossível de resolver, e ia ficar entretido durante uns tempos. Infelizmente, eu tenho pouco com que me entreter. A telemetria da Ctaria dá outra vez problemas, mas basta acordá-la e rapidamente fica resolvido. Tenho que dar uns análgésicos à Zalida por causa do braço. Uma travagem a 50g é dolorosa quando se tem uma fractura por curar. Fora estes detalhes menores, o tempo custa a passar.
145 horas de travagem. Acordo com o alarme do computador. A voz sintética do sistema de monitorização avisa-me duma alteração na Varanus. Que raio se passa?
Acordo o Thulvar e ponho-o a trabalhar.
-Parece que a Varanus ejectou uma quantidade considerável de material – diz-me poucos minutos depois – é impossível saber ao certo o que é, ou quanto é, mas penso que será o sistema de suporte de vida e todo o equipamento não essencial. Eu diria que de facto a Varanus se prepara para a travagem atmosférica.
-Parece que tens razão, Thulvar... Tens alguma solução para o problema?...—pergunto sem grande esperança.
-Não tenho uma solução perfeita, mas a melhor que tenho talvez resulte...
- Qual é o plano? –pergunto, tentando disfarçar a surpresa.
-Envio-lhe já os cálculos, Comandante. Mas em traços gerais, apanhamos a Varanus imediatamente antes da travagem atmosférica em CGE328-III. Essa é a altura em que a manobrabilidade da nave está mais comprometida, devido ao rigor necessário à manobra.
-E como conseguimos pôr lá o míssil?
-Essa foi a parte mais complicada.. Primeiro precisamos que o míssil acelere no mínimo a 112g...
-Mas os nossos mísseis aceleram a oitenta...
-Sim Comandante – mesmo no sintetizador, a sua voz parece ofendida – Mas conseguimos se acoplarmos os módulos de propulsão de três misseis numa só ogiva. Tem aí o diagrama...
-Sim, sim.. estou a ver. Mas esta parte aqui... o míssil será lançado com a Valassia a 18.000 km/s? Isto é...
-Ah, sim. Eu explico, Comandante. O escudo do míssil só protege o núcleo de anti-matéria abaixo dos dez mil quilómetros por segundo. Mas esse valor é para uma segurança de 99.99% com o míssil a acelerar. No nosso caso o míssil terá que travar, com o módulo de propulsão à frente do núcleo de anti-matéria. O fluxo de particulas do propulsor, o campo electrico e magnético dos motores iónicos e a blindagem do módulo ajudam a proteger o núcleo da ogiva. As simulações indicam que podemos lançar a 18.000 km/s com 99.9% de segurança.
-é isto que queres dizer com ‘talvez resulte’? Talvez o míssil não nos rebente na cara?
-Não, Comandante. A probabilidade de isso acontecer é de uma em mil, que podemos desprezar. O problema é que o sistema de orientação dos mísseis está preparado para uma aceleração de 80 g com apenas dez por cento de tolerância. A minha estimativa é que a 112 g um terço dos misseis sofrerá uma avaria. No máximo temos tempo para preparar três mísseis, o que dá uma probabilidade de cerca de 4% de todos avariarem e não conseguirmos destruir a Varanus.
Afinal, Thulvar descobriu mesmo uma maneira de eliminar a Varanus... Resta saber o que o Niro fará.
-Muito bem. Faltam menos de duas horas para sabermos o que ele vai fazer. Quero tudo pronto nessa altura.
Passo uma hora a rever o plano com o Thulvar. à parte de alguns detalhes, tem já tudo bem planeado. Quanto mais tempo passo com esta tripulação, mais me convenço que o segredo para ser um bom comandante é pouco mais que evitar atrapalhar-lhes a vida...
Confirma-se o plano. A Varanus mergulha na atmosfera de CGE328-V por cinco breves segundos. A a sua velocidade decai mais de mil quilómetros por segundo, com uma desaceleração média de vinte mil g. Niro está morto.
Dou o comando ao computador para iniciar o plano de Thulvar. A desaceleração é reduzida para 3g para permitir aos robots de manutenção alterar os mísseis, e todos podemos saír dos tanques. Desta vez não há piadas. Temos muito para fazer, e pouco tempo para o fazer Trabalhar a 3g é difícil, mas os mísseis ficam preparados em menos de três horas, com mais de dez minutos de sobra. Os misseis são transportados e colocados em posição por fora do casco da Valassia. O acoplamento de três módulos de propulsão a cada ogiva não permite o uso dos tubos de lançamento.
Mesmo fora da Valassia os mísseis estão protegidos pelo escudo de plasma da nave, que se estende por centenas de metros à volta desta. Assim que começam a desacelerar, o campo magnético do escudo é modificado, abrindo um buraco para a passagem dos mísseis.
A nossa velocidade é de 18.000 km/s. Segundo as contas do Thulvar os propulsores dos mísseis vão proteger o sensível núcleo de anti-matéria da ogiva. De qualquer forma deixamos os mísseis para trás de nós, e durante alguns quilómetros os escudos da Valassia varrem o espaço de partículas à frente dos míssies.
As contas de Thulvar estão certas. Atrás de nós os três mísseis afastam-se cada vez mais depressa, desacelerando a 112g e ajustando a trajectoria com destino a CGE328-III. à nossa frente a Varanus continua a desacelerar.
Agora é esperar. Aproveito para estudar o palco do drama que se segue: CGE328-III. Um planeta azul e branco. Com uma lua incrivelmente grande como tinham concluído no observatório de Silaria pela oscilação do planeta. Num impulso, digo ao Kiron na navegação para tirar o telescópio principal da Varanus e apontá-lo para o planeta. Afinal, Niro está morto, e mesmo que a Varanus esteja programada para mudar de rota agora já pouco poderemos fazer. Subitamente, este planeta parece mais interessante.
Os dados começam a chegar lentamente. Grande abundância de vegetação, com absorção de luz principalmente no vermelho. Atmosfera respirável e climas bastante agradáveis em muitas regiões. A gravidade, a duração do dia e a luminosidade média são quase perfeitas. Um bom sítio para viver.
Chegam também más notícias. Um dos mísseis deixa de desacelerar e não responde a qualquer comando. Thulvar diz que uma avaria era esperada, mas não esperava que fosse tão séria. Aparentemente uma falha fatal no sistema de orientação do míssil levou-o a desligar todos os sistemas. Temos um míssil de trezentas toneladas a nove mil quilómetros por segundo. Directo ao planeta azul.
Peço ao computador uma simulação do impacto. A ogiva de anti-matéria pouco efeito terá, mas a velocidade do míssil criará uma colisão catastrófica. Estimativa de 70% de perda de biodiversidade na flora durante os próximos anos. A estimativa para a fauna não é possível fazer aínda, a esta distância.
Chegamos ao ponto mais próximo de CGE328-III. A menos de dois milhões de quilómetros o telescópio principal capta algumas imagens de répteis gigantes. Durante alguns minutos devoramos as imagens, as análises ecológicas, os estudos de comportamento social e toda a informação que o computador consegue gerar. O planeta contém formas de vida extremamente avançadas – répteis, aínda por cima! – e as simulações indicam uma probabilidade de 50% que uma civilização evolua em menos de cinco milhões de anos. Esta é a maior descoberta da história.
Neste momento a nossa prioridade é tentar deter o míssil descontrolado, e ponho toda a tripulação a trabalhar nisso. Tentamos designar novos alvos, enviamos repetidas vezes comandos de auto destruição. Thulvar tenta até recalibrar os sensores do míssil para que este pense que chegou ao alvo. Tentamos tudo o que podemos, várias vezes. Mas não chega. às 13:48 de 315-20681 o míssil colide com CGE328-III. O impacto dá-se do outro lado do planeta, e só teremos medições dos efeitos daquí a oito horas. Mas as simulações dão um prognóstico terrível.
Nos últimos segundos antes do impacto o único ruído na nave era o vibrar suave dos ventiladores. Olhávamos todos em silêncio para o diagrama à nossa frente, hipnotizados pelos número que decrescia rapidamente e que não conseguiamos parar.
Agora, com o contador a zero, digito em silêncio o comando para registar tudo no diário do comandante e mudo a projecção para uma panorâmica do telescópio secundário. No centro, o pequeno planeta azul permanece inalterado. Todos sabemos o inferno desencadeado do outro lado, mas esta face oferece-nos aínda a ilusão dum paraíso. Mais importante neste momento são as estrelas que brilham no fundo da imagem. Algumas são a nossa casa, onde a sobrevivência de billiões depende do sucesso da nossa missão. Mesmo sem palavras, sei que todos comprendem isso.
Faltam cinco horas para a segunda travagem atmosférica da Varanus. Deixo o telescópio principal a observar o planeta, mas seguimos a Varanus com os restantes sensores. A estimativa da sua trajectória é constantemente refinada, e correcções mínimas são enviadas aos dois restantes mísseis para os manter na trajectória óptima de intersecção. Mais uma vez toda a tripulação se empenha na tarefa, mas agora não por entusiasmo. Por desespero. Tudo o que fizémos nestes últimos trinta anos foi com este objectivo. Deter a Varanus.
Quinze minutos para a intersecção. Mais uma vez estamos todos em silêncio a seguir o diagrama projectado à nossa frente. Subitamente, o alarme do computador acusa uma alteração no escudo de plasma da Varanus. Ordeno rapidamente que apontem o telescópio principal para a nave. Vemos agora tanto a imagem do telescópio como a trajectória calculada pelo computador. Na imagem a Varanus é apenas um pequeno círculo brilhante, mas que parece alongar-se ligeiramente até libertar um ponto de luz. No diagrama projectado ao lado o traço azul representando a sua trajectória bifurca-se subitamente. Onde estava apenas um traço, agora mostra as trajectórias de dois corpos independentes.
Estamos a mais de trezentos milhões de quilómetros. O que vemos no telescópio já aconteceu há quase vinte minutos, o tempo que a luz demorou a chegar a nós. O primeiro impulso é reagir de imediato e designar um alvo para cada míssil. Mas qualquer comando enviado agora demora também vinte minutos a chegar aos mísseis, e por essa altura será tarde demais.
O diagrama mostra a intersecção. Num exemplo de precisão astronómica, ambos os mísseis colidem simultâneamente com um alvo de poucas centenas de metros a dois mil quilómetros por segundo, após terem percorrido centenas de milhões de quilómetros. Mas a trezentos mil quilómetros dalí a outra parte da Varanus, que sabemos agora ser o módulo de salvamento, acelera a 68g.
Os módulos de salvamento na classe Vissar têm uma aceleração máxima de 20g. Viro-me para o Thulvar, mas antes que possa fazer a pergunta vejo que ele já tem a resposta.
-Claro! Que estupidez não ter pensado nisso antes... é por isso que a Varanus só travava a 48g. O Comandante Niro teve trinta anos para fazer o que quisesse na nave, e obviamente não contava usar o módulo de salvamento. Bastava retirar um dos propulsores auxiliares da nave e instalá-lo...
Thulvar é interrompido pelo computador que avisa a recepção de uma transmissão. à nossa frente surge o Niro, com uma cara cansada, envelhecida. Por trás dele vê se o casco despido da nave, sem isolamento térmico, ventiladores, nada.
-Olá Satmus. – ouço o dizer com uma voz ofegante – Se estás a ouvir isto, é porque o plano correu bem. Engraçado... tive trinta anos a sofrer com vontade de te contar tudo, até ao mais pequeno detalhe. Agora que tenho que gravar isto, o meu testemunho para a eternidade – rí-se, uma gargalhada rouca e forçada – sinto-me tão cansado que nem me apetece falar... bem.. cá vai. Penso que a pergunta que mais te atormenta é “Porquê?”. Certo? Porque aquela cambada de políticos não faz nada sem que os agarrem lá no sítio. Porque os monarcas merecem ser exterminados como a praga que são... merecem o mesmo que fizeram à Glaria, e vão tê-lo. Era isso que não percebias, não era? Porque lhes daria eu o PlasMag X se os odeio tanto? é simples, caro amigo... assim que o tiverem não resta outra hipótese à Federação senão exterminá-los antes que construam naves com ele. Por isso te trouxe até este fim do mundo. Trinta anos... em trinta anos certamente que os nossos estimados líderes – O Niro nunca fora bom em sarcasmo, mas esta frase mostrava que tinha treinado bastante – tiveram mais que tempo para construír uma frota de mísseis relativisticos com o PlasMag X. Daqui a vinte anos recebem o teu relatório do insucesso desta missão. Entretanto a Varanus está pousada em segurança no planeta e o seu módulo de salvamento está a caminho de Nirna, a base monarca mais próxima. Talvez consigas destruir uma destas, mas seja como for daqui a vinte anos os monarcas terão também o PlasMag X... talvez até o usem antes de nós, o que não me admirava muito... aniquilação mútua era um fim justo para esta guerra estúpida. Sabes... não sinto remorsos nem pena. Nem me arrependo disto. Apenas sinto saudade da minha Glaria, e em breve nem isso vou sentir. Bem, está na hora de acabar esta gravação. Daqui a uns minutos vou estar esborrachado contra aquela parede, e talvez seja boa idéia tomar qualquer coisa para as dores antes... Adeus Satmus.
Silêncio. O holograma mostra de novo o diagrama com as trajectórias, mas ninguém o vê. Estão todos certamente a pensar nas suas casas e famílias, e se algum dia os voltarão a ver. Dou-lhes alguns momentos, mas quebro finalmente o silêncio e ordeno os preparativos para regressarmos. Por pouco evito dizer... a casa. Quem sabe se haverá aínda alguma coisa quando chegarmos?
Não há qualquer possibilidade de inteceptar o módulo de salvamento. Deslocamo-nos depressa demais na direcção errada, e o módulo tem uma aceleração superior à da Valassia. Faço uma inspecção de todos os postos, com o meu ar mais militar para lembrar a todos que são, acima de tudo, soldados. O moral é baixo, mas as coisas são feitas e começam os preparativos para o regresso. Volto ao meu quarto, onde me espera o relatório sobre CGE328-III. O que vejo é tão mau como esperava.
A Varanus foi completamente vaporizada pelo impacto dos mísseis e subsequente entrada na atmosfera. O único elemento potencialmente contaminante é o Irídio dos supercondutores do PlasMag X, que é um elemento raro no planeta. Mas o efeito da contaminação será apenas um fino depósito sobre toda a superfície, sem consequências para o ecossistema. A desintegração da nave ocorreu próximo da zona de impacto do míssil, pelo que a energia libertada para a atmosfera pouco acrescentou ao inferno que se desenrolava por baixo. Mas os efeitos do míssil são devastadores. De imediato, uma vasta região circundante ao impacto foi completamente incinerada. Pior aínda, a ejecção de milhões de toneladas de poeira para as camadas superiores da atomsfera vai mergulhar o planeta na escuridão durante anos. Grande parte da vegetação vai perecer. As simulações indicam a extinção de 90% a 100% das espécies de répteis, entre as quais as mais inteligentes. Dos animais terrestres mais evoluídos apenas ficarão os mamíferos, e os modelos teóricos indicam que o metabolismo destes é incompatível com um cérebro grande ou inteligência. O prognóstico é que este planeta, que esteve à beira da civilização, nunca mais desenvolverá espécies inteligentes.
Estou sozinho no meu quarto. à minha frente o holograma semi-transparente do planeta. Um pequeno ponto azul com as estrelas por trás. No fundo negro do espaço vejo as minhas mãos apoiadas na superfície polida do projector, e o reflexo da minha cara. Só consigo pensar na morte. Na morte dum planeta, duma civilização antes de nascer. Na morte de outra civilização naquelas estrelas ao fundo. Na morte do Niro. Na minha morte, anunciada por aquelas mãos envelhecidas, com escamas pálidas e ríjas, já sem o brilho da juventude.
Estou sozinho e abandono-me finalmente à tristeza. Deixo as escamas do pescoço mostrar o púrpura quase negro do luto, e a minha cauda tombar inerte no chão. Por entre as estrelas imagino a morte, um pontinho invisível, a acelerar a 68g.

O princípio...

acerca do conto...
Título: O Fim
Data: 2000
Autor: Ludwig Krippahl
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