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gladíolo
por Leandro Ribeiro <[email protected]>

Gladíolo

Restava-lhe esperar, apenas. Tinha-se isolado com sucesso e agora vivia a paredes meias com a espera que ele próprio criou, visto faltar-lhe a coragem. Uma falta de coragem que se poderia, em muitos casos, censurar, mas este não é um dos muitos casos, tal como não é, de igual modo, um caso inaudito ou único. Existem miríades de mortais como este que se colocaram em situações que, mesmo variando em motivos e pormenores, são cópias em desfecho, de um certo modo, compreenda-se. Mas não falo de todos os outros, falo deste homem em particular, homem que nada tem a mais que os outros, que, tal como os outros, tem brilhantes talentos e desdenhosos defeitos, que, tal como os outros, conseguiu geniais feitos e sórdidos actos, mas uma vez mais repito, não falo dos outros. E poderão perguntar-me, porquê este? Se é um dos homens, sem mais nada a acrescentar, porquê este? Porque no meio do caos absoluto, este homem parou para salvar um Gladíolo. Mas a isso chegaremos. Falava-vos de falta de coragem, todavia não revelei o acto para o qual essa coragem seria necessária. Nem tal irei fazer directamente, por achar que se tornará óbvio ao longo deste relato. Restava-lhe esperar, como já disse, esperar que o final daquela viagem que é a vida, inevitavelmente, chegasse. Sabia o que o esperava, pois tal foi de sua escolha e vontade, no entanto, naquele momento, daria uma segunda alma, se tal possuísse, para poder voltar atrás e salvar a primeira. Estando a primeira condenada, a morte torna-se extremamente mais penosa de aceitar e o único modo que temos de protelar o seu sofrimento é protelando a própria morte. Mas a evasão tinha sido bem sucedida. Ninguém sabia do seu paradeiro, estava isolado. Agora, seria mais fácil, aparentemente, controlar os factores externos que pudessem fazer a areia do relógio da vida passar por aquele buraco infinitesimal mais rapidamente. A comida não seria um problema, afortunadamente tinha encontrado um lugar que já havia sido habitado. Deixaram para trás uma casa, campos para cultivo, algum gado sobrevivente e os corpos putrefactos. Um deles, o de uma mulher, em cima de uma cama de braços cruzados sobre o peito. O outro, o de um homem, caído no chão da cozinha. O homem de que falo, Silvério de nome, recolheu ambos com a ajuda de uma padiola e enterrou-os ao lado de uma campa já existente. Pelas datas inscritas nessa campa, o corpo que ali enterraram não foi moradia de alguma alma mais que nove anos. Silvério concluiu, e muito bem, que deveria tratar-se de um filho do casal. Pensou também, e uma vez mais acertou, que pudessem todos ter sido vítimas de uma peste que assolou a região há já alguns anos. Uma vez que tal doença tinha sido erradicada e uma cura encontrada, Silvério nada tinha a temer no que toca a esse assunto. E como a zona estava como que esquecida do mapa das terras dos senhores feudais, não havia perigo de o encontrarem. Decididamente, tinha sido afortunado.

Mas voltemos atrás. Corria o ano de mil quinhentos e doze numa cidade de nome Lamego. Na praça principal, homens erguiam enormes estacas de madeira e, à volta dessas estacas, largavam, numa precisão de relojoeiro, fios de palha. Havia uma multidão que crescia na praça. A hora estava breve e muitos já diziam sentir o cheiro da carne queimada dos hereges. Mas ignoremos tais ridículas manifestações de fé (se tal nome lhes podemos atribuir) e foquemos a atenção naquele rapaz de cara limpa e roupas aprumadas que se encontrava, muito desenquadrado diga-se, no meio da furiosa multidão. Os pequenos olhos estavam fixos na ponta das duas estacas. O futuro e efémero ocupante de uma delas era seu conhecido, mais do que isso, era a única pessoa a quem ele chamava amigo. Era bastante mais velho e muito estranho, mas não era herege nem tampouco tinha o Diabo no corpo. Se não ia à missa e falava sozinho ou com galinhas e gatos, era porque, muito provavelmente, era um pouco avariado da cabeça. E também era o único que não queria nada de Silvério, daí, este ver nele um singular amigo. Sim, o rapaz de olhos tristes mas firmes de que falamos é Silvério. A multidão exasperava, gritava, movia-se e enlouquecia. Amigos e familiares agrediam-se por um lugar onde o espectáculo fosse visível. E tudo piorou quando trouxeram o primeiro dos condenados. Queimem-nos, ouvia-se. Amarraram-no à estaca e arrastaram o segundo que se debatia ferozmente, como poderia comprovar qualquer um que visse. O que já estava amarrado entoava um cântico e o que tentavam ainda amarrar blasfemava e pontapeava com uma fúria de cem homens. Silvério só soube qual dos dois era o seu amigo pelo cântico. Uma vez que, do cenário, apenas via a ponta das estacas, concluiu que só o seu amigo entoaria tal melodia, religiosa melodia, antes de atravessar a ponte do sofrimento que leva à morte. Atearam o fogo e a multidão foi ao rubro, queimem-nos, queimem-nos, gritavam. E, até as chamas se extinguirem e a visão de dois corpos carbonizados enojar a maioria, não se ouvia outra coisa que não fosse, queimem-nos. Mas tudo foi diferente para Silvério. No meio de gritos, do som de madeira a estalar e de pele a queimar, Silvério apenas ouvia o cântico do amigo. Nesse dia, dia do seu décimo segundo aniversário, decidiu que odiava Deus e os homens que o serviam.

Passaram-se oito anos precisamente. Como celebração do seu vigésimo aniversário, Silvério foi convidado a tocar cravo, uma das suas composições, perante um nobre. Passados tantos anos habituou-se a servir, de sorriso rasgado nos lábios, todas e quaisquer extravagâncias que pudessem surgir da vontade de um nobre. Nessa noite, o nobre bocejou várias vezes e não aplaudiu uma única, tendo-se até retirado mais cedo queixando-se que se aborrecia. Ele, Silvério, o maior músico até à data, aborrecia-o. Voltou assim para casa, furioso, apesar de todos os presentes o terem freneticamente aplaudido. Chegando a casa, esperou que a mulher se deitasse e sentou-se frente ao cravo. De um modo quase inaudível, começou a tocar a mesma melodia que sempre tocava quando se sentia em baixo, a mesma que lhe tinha ensinado o seu único amigo às portas da morte. E em cima do cravo adormeceu, como já muitas vezes tinha acontecido. Silvério era deveras conhecido em todo o território como o rapaz prodígio, o músico brilhante que superou os músicos da corte com apenas dez anos de idade. Começou a tocar aos cinco no cravo do falecido avô, vítima de peste. Desde então todos o queriam ouvir tocar, todos o tratavam como se de um brinquedo fosse, ou, no máximo, um saltimbanco. E todos queriam algo dele. Com o tempo, aprendeu a usar isso em seu benefício. Tinha todas as mulheres que queria, todos lhe deviam favores ou dinheiro, era convidado para todas as festas, incluindo a sua. Na realidade, não conseguia imaginar a sua vida futura se não pudesse tocar. Mas foi o que sucedeu. O cavalo endoideceu, foi o que se disse. Derrubou-o e deixou-o sem remédio, o rapaz jamais poderá voltar a tocar. E assim ficou, confinado a uma cama

Durante dois anos de lá não saiu, e não se compreendia como ainda não havia estupidificado. Tal como previra, foi deixado ao abandono. Já não havia nada a violar naquele rapaz. Odeio Deus e os homens que o servem, pensou. Até que um dia foi visitado por um tal de Luís Ciprus. Silvério não conhecia ninguém com um nome tão invulgar, mas permitiu a visita. Uma vez a sós, Silvério perguntou, ao que vens?, a que o visitante respondeu, venho por tua alma. És a morte, indagou. O visitante respondeu que não. E disse-lhe que tinha algo para lhe oferecer, o corpo, em troca de algo, a alma. És Lúcifer, Demónio, Diabo, Satanás, pensou inocentemente Silvério. E o visitante confirmou tudo. Disse-lhe que se aceitasse o pacto, lhe daria algo que o resgatava daquele leito. Ora, Silvério já odiava Deus, logo não seria um grande sacrifício, o de vender a alma ao Demónio em troca de um corpo capaz de tocar. A vingança estaria perto, vingar-se-ia de Deus e dos homens que o seguiam, ambos de uma cajadada. Passados dias, ergueu-se da cama e voltou a sentar-se frente ao cravo, e tocou. E a notícia espalhou-se. Milagre, o menino voltou a tocar. Mas o que agora tocava eram notas de raiva, ódio, desespero. Silvério aproximava-se da loucura como nunc. O dito Diabo acompanhou o seu regresso a par e passo, ditando-lhe exortações que Silvério seguiu sem pensar. Estava realmente possuído. Mas um dia, o seu demoníaco conselheiro abandonou-o, levando-lhe a filha como amante e deixando uma carta onde anunciava um doloroso reencontro na cerne do Inferno. Odeio Deus, Lúcifer e seus seguidores, odeio tudo e todos, decidiu. Silvério perdia tudo a uma velocidade estonteante, tornara-se insuportável, egoísta, violento como nunca, em suma, tinha atingido o cume da genialidade. Depois começou a ver coisas, espíritos, segundo dizia para si próprio quando se encontrava só. Viu o seu único amigo numa aparição em seu quarto e até esse odiou. Odiava todas as almas que lhe apareciam, sentimento compreensível visto que estas apenas surgiam para lhe dizerem que a sua alma estava condenada, como se ele não o soubesse. Vendi-a por livre vontade, gritava-lhes. Depois começou a ouvir o inaudível. Ouvia a mulher pensar, e ela pensava, sei do teu pacto e irei denunciar-te para que se te arda o corpo como irá arder a alma. Também ouvia tal vontade do pai, vontade que o espírito da defunta mãe confirmou quando lhe apareceu. Até que uma vez o pai foi lá a casa e Silvério abriu-lhe a cabeça com um machado. Quanto à mulher, usou as mãos para a deixar inconsciente. Depois amarrou os dois com a mesma corda e arremessou-os para uma cova que já havia aberto, altura em que a mulher voltou a si. Cobriu o pai morto e a mulher ainda viva de terra seca. Depois da cova tapada, foi uma questão de minutos para que os gritos exasperados da mulher se tornassem inaudíveis. Sentou-se logo de seguida ao cravo e compôs uma das mais geniais melodias que os seus dedos tinham tocado. E assim ficou, sem comer ou beber, sentado ao cravo, dias a fio, até que alguém resolveu averiguar tão misterioso desaparecimento. Dormia quando em sua casa entraram. Um padre toucou-lhe ao de leve no ombro e ele acordou. Onde está tua mulher e teu pai, perguntaram-lhe. E ele chorou. Levaram-no e condenaram-no à morte pela fogueira. Quem proferiu a última palavra foi um inquisidor dos mais temidos, que se apresentou pela primeira vez a Silvério como Luís Ciprus. Desesperado, gritou no meio do tribunal o quanto odiava tudo e todos, Deus inclusive, e sem que ninguém esperasse, usurpou uma lança e trespassou o peito do inquisidor. No meio da confusão gerada, conseguiu fugir do tribunal. Em toda a cidade o procuraram, em lado nenhum o encontraram. Na sala do tribunal, a única coisa que ficou intacta foi um vaso que acolhia um Gladíolo, vaso que foi tombado por alguém, mas que fez Silvério parar e colocar a flor onde era devido. Porque o fez, talvez nem ele o saiba. Talvez porque uma planta não tem alma e desse modo não pertença nem a Deus nem ao Diabo.

Conseguiu chegar aqui, a esta terra por todos esquecida. Restava-lhe fazer de tudo para adiar a morte, pois coragem para entregar a alma ao eterno sofrimento, não havia. Acomodou-se o melhor que pôde quando lá chegou e, exausto, deitou-se e adormeceu. Quando acordou, o seu corpo estava dentro de um armário, submerso em terra até ao pescoço. Não havia qualquer ponto por onde entrasse qualquer luz. Gritou desesperado, chorou como uma criança, sentiu um medo que nunca havia sentido, e viu ratos, havia ratos nesse armário, ao lado da sua cara. Gritou, gritou, gritou, mas nenhuma porta se abria. Quando ficava em silêncio, jurava que ouvia alguém entoar uma melodia, a melodia que o mesmo compôs nos últimos dias que se sentou ao cravo. E a voz que a entoava, era capaz de jurar que era a voz de sua mulher.

arede.

acerca do conto...
Título: Gladíolo
Data: 14/04/01
Autor: Leandro Ribeiro
e-mail: [email protected]