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o cão de pavlov
por Leandro Ribeiro

Moisés não se lembra, ninguém se lembra. A primeira das sessões deve ter ocorrido ainda em tenra idade, quiçá, imediatamente após o nascimento. A primeira da qual tem memória, tinha já ele uns sete anos, embora esteja consciente de que muitas houve antes, as reminiscências são vagas mas comprovativas dessas alturas, talvez. Mas a primeira que relembra com imagens firmes e concisas foi a dos brinquedos. Depois de uma das refeições entraram-lhe inesperadamente no quarto assustando-o, empunhavam lanternas que lhe apontavam cara de modos que o ofuscavam. Este seria o método que sempre usariam. Dos membros do Ministério, e graças a este procedimento, Moisés nunca viu mais que as sombras, indicativas vagas apenas da estatura, e todos a tinham igual, ou muito semelhante. Nesse dia de lembrança primeira, trouxeram-lhe brinquedos. Foi uma sessão divertida. Deixaram-no horas entregue ao prazer dos joguetes, dezenas e variados que eram. No fim da sessão, e por isso, talvez, do que sucedeu nunca tenha esquecido, afastaram-no repentinamente dos brinquedos e com um bastão de madeira destruÍram-nos um por um, até que não sobejasse nada que não fosse plástico partido. Moisés principiou um choro, mas logo lho calaram com um estalo firme e disciplinador na face direita. Calou-se, e nesse lado da cara ficaram as marcas de três dedos, os outros dois não levaram tanta força.
Isto foi repetido inúmeras vezes, Moisés já se habituara, já não chorava, os brinquedos partidos eram, na sessão seguinte, substituÍdos por novos, que assim seja, já acreditava que seria aborrecido ter de brincar com os mesmos todos os dias. Os brinquedos de momento eram dispensáveis, sem qualquer valor, no dia seguinte haveria mais, até que no final de uma das sessões os membros do Ministério esqueceram-se miseravelmente de tratar da limpeza para que os velhos não ocupassem o espaço necessário aos novos. Mas deixaram o bastão para trás e Moisés, com explÍcito prazer, tomou a liberdade de os partir, um a um, deixando pedaços ainda mais pequenos do que os que deixavam aqueles a quem a tarefa deveria ser um dever.
Na sessão seguinte, não teve de brincar sozinho, após terem entregue os brinquedos, a pesada porta voltou a abrir e mostrou do outro lado, com as mãos atrás das costas e um sorriso leve nos lábios, um rapaz da mesma estatura de Moisés, de cabelo espesso e fortes caracóis, vestido com roupas simples e disponÍvel para brincar. Os olhos de Moisés brilharam de jubilo, os lábios rasgaram-se num sorriso, era a novidade da novidade, a companhia da solidão. Todo o dia brincaram juntos, sem nada saberem um do outro. Horas passadas vieram, como já era habitual, os membros do Ministério pôr termo sessão. E fizeram-no interrompendo bruscamente a brincadeira, empurraram o visitante para um canto iluminado, encostaram-lhe uma arma s têmporas e premiram o gatilho. O som foi ensurdecedor, ecoou como mil e um gritos de agonia nas paredes metálicas do quarto, o sangue espalhou-se pelo chão e pela parede, Moisés não acreditou no que viram seus olhos. Ficou de queixo caÍdo e trémulo, olhos vidrados, mas sem mover um osso, um músculo, sem nada dizer, sem pestanejar. Os membros do Ministério pegaram no corpo, colocaram-no numa maca e levaram-no para fora do quarto. Moisés, uma vez sozinho, aproximou-se da parede ensanguentada, por lá passou os dedos e com o sangue pintou a cara. Só aÍ chorou.
Tal como com os brinquedos, este foi um procedimento que se repetiu nas sessões seguintes. Os brinquedos são dispensáveis, sem valor, os amigos são dispensáveis, sem valor. E tal como com os brinquedos, chegou o dia em que o sangue do visitante espalhado na parede, foi Moisés que derramou.
A evolução das lições seguia a velocidade da evolução do discernimento do sujeito. Moisés atravessava sucessivas fases e mostrava-se um aprendiz exemplar. Ensinaram-no a ler e apresentaram-no Matemática, QuÍmica e FÍsica, Anatomia humana e Biologia. Depois falaram-lhe dos prazeres proibidos, do álcool e drogas, do sexo e da libertinagem, tudo isto deliciando-o com respectivas descrições, mas chicoteando-lhe a vontade com a proibição, isto porque idade, supostamente, ainda não a tinha suficiente. E quando a idade já o permitia, decidiram apresentá-lo tentação. Moisés a quase todos resistiu, constituindo excepções o sexo e o álcool, que eram os menos censurados pelos professores que nestas matérias teve. Trouxeram-lhe duas mulheres para o quarto, uma certa vez, e disseram-lhe que escolhesse uma para seu prazer, podendo a escolha ser feita entre a mulher A, a que disseram ser feia, e a mulher B, a que disseram ser bela. Moisés não sabia, até altura, discernir entre a beleza fÍsica de uma mulher, mas não era burro nenhum e escolheu, obviamente, aquela que lhe disseram ser bonita, eles lá sabiam o que diziam.
Uma das sessões que mais o marcou foi aquela em que o deixaram sair do quarto. Moisés aprendeu tudo sobre o exterior, sobre o Mundo, mas daquele quarto de paredes de metal nunca havia saÍdo. Aquele era o seu mundo. Esse mundo expandiu-se naquele dia, a porta abriu-se mas, ao contrário do que usualmente acontece, ninguém entrou. A porta permaneceu aberta, Moisés estranhou, pela primeira vez, aproximou-se da porta aberta, espreitou, viu um corredor de paredes brancas, havia mais portas no corredor, abertas, mais quartos, mais homens como ele, todos espreitavam dos respectivos quartos, todos se analisavam com a curiosa satisfação de descobrir que não estavam sozinhos, todos, saindo lenta e receosamente dos quartos, precisos e sincronizados como se um dia tivessem ensaiado juntos aqueles passos, silenciosos. No fundo do corredor uma porta permanecia fechada. Ouviu-se um discreto ruÍdo, essa porta começou lentamente a abrir-se, por ela entrou uma luz diferente, diferente da luz dos focos que iluminavam os quartos e a novidade do corredor, uma luz pura, a luz das luzes, o pensamento foi unânime, depois daquela porta, está o Mundo.
A ânsia aproximou-os da saÍda, receosos e maravilhados, e que sensação magnÍfica mostrou ser a combinação do medo com a maravilha. O primeiro que atravessou a saÍda chorou, era tudo tão lindo. Um a um, chorando todos sem excepção, pousaram ambos os pés no pátio vedado por um muro de acrÍlico. Por cima das suas cabeças estendia-se um infinito céu azul. Um disco amarelo reinava nesse céu, queimando os olhos a quem se atrevesse contemplá-lo, e muitos eram os que passavam pelo suplÍcio só para terem o prazer de o olhar. Abaixo deles vislumbrava-se uma cidade tão infinita como o céu, excepto ao lado direito, onde era o verdejante viço da natureza que reinava, cidade e floresta separadas por um muro imortal, onde um houvesse não havia o outro, coexistindo essa diferença em harmonia perfeita. Tudo estava abaixo deles, eles estavam no topo do Mundo.
Regressaram aos quartos, um a um, todo o tempo não se falaram, sabiam da existência uns dos outros, isso bastava. Esperando no quarto, estavam os membros do Ministério segurando lanternas que apontavam aos olhos de Moisés, luz que nada era para quem já tinha olhado o Rei do céu azul, Moisés não pestanejou. Entre os membros do Ministério estava um homem que sorria com um sorriso irónico ao ver entrar o sujeito. Era um daqueles a quem Moisés podia ver a cara, habitualmente um professor das lições que o Ministério pretendia ensinar. Falou com simpatia e convicção, informou Moisés que o que tinha acabado de ver era o Ministério, ou seja, o Mundo. Tudo o que era civilizado era-o graças ao Ministério, tudo o resto era selvagem. Os mecanismos do Mundo civilizado regem-se por inexoráveis legislaturas e ideais adoptadas pelo indivÍduo, futura peça da engrenagem do Ministério. O indivÍduo é efémero, o Ministério vive para sempre, é perene a sua sapiência, é santa a sua complacência. Por tal, deve todo o indivÍduo abdicar dessa existência alquebrada e abraçar o Ministério. A fome de abraçar a vontade e ideologia próprias são frutos da fatuidade e levam a falsos axiomas, pois a verdade está com o Ministério. Os atreitos a enveredarem por tais caminhos são identificados com devida antecedência graças ao processo de condicionamento e submetidos a novos processos. O Mundo agrada-te, o Ministério agrada-te, sei que sim, depois de abandonares a tua condição de efebo e estares devidamente preparado, as portas que levam felicidade proporcionada por esta famÍlia ser-te-ão abertas, compreendes isto que te acabei de explicar, perguntou o professor. Sim, foi a resposta de Moisés.
Um dia deixarei de ser indivÍduo e passarei a fazer parte do Ministério, anseio esse momento, pensava Moisés com ávida vontade e satisfação. Depois desse dia, a Moisés e a todos os outros na mesma condição, eram permitidas visitas regulares ao exterior, ao topo do Mundo, ao reino do omnipotente Ministério. Nunca falavam entre eles, lá chegaria a altura. Um dia, ao regressar de uma das visitas ao exterior, Moisés encontrou uma folha de papel escondida nos lençóis. Leu. Toda uma vida aprendemos que somos homens, de um momento para o outro sufocam-nos a Humanidade e nem nos apercebemos da contrariedade presente no condicionamento e nas palavras que nos dizem que o explicam e justificam. O Ministério oblitera o Homem, seremos todos cegos? A vida civilizada calca o indivÍduo até sua insignificância. Como é possÍvel ainda termos fé nela? Eu sou eu, quero ser eu, quero conhecer a não-verdade que dizem ser os axiomas pérfidos do Ministério. Somos bichos sem pensamento próprio? Somos peças de uma engrenagem? O Ministério diz sim, digo eu não, quem tem razão? Quem tudo vos ensinou? E de onde aprenderam eles aquilo que ensinam? Pensando, obviamente, discernindo por eles próprios. Pensemos então nós. Os dogmas deixemos para os que discernimento não têm. Ensinaram-me a pensar e pretendem agora algemar-me a vontade. Observem tudo o que sabemos, tudo em que acreditamos, tudo o que gostamos. Essa não é, de modo algum, a nossa lista, é sim, a lista do Ministério. Para fazer parte do Ministério, há que aceitar tudo isto, e como mais nada conhecemos, para quê a revolta? Existem alternativas, digo-vos, eles fizeram-nos estudá-las, sois cegos? E todo aquele verde, supostamente selvagem, aquele infinito verde que se alastra oposto cidade? É a nossa fuga, digo-vos, é a prova de que nem só o Ministério é perene, sim, o Homem é efémero, mas pode imortalizar a sua verdade individual, deixá-la disponÍvel para que outros tomem conhecimento, para que outros tenham a possibilidade de colocar em causa a verdade das grandes potências. A verdade não é única, a vontade não é a do Ministério, o caminho é conhecermos todas as supostas verdades e forçarmos o direito de escolher uma delas. Juntem-se a mim nesta vontade de seguir esse caminho.
Que palavras, que ideias, Moisés já não sabe nada de nada, que confuso ficou. Releu todas aquelas palavras várias vezes e depois, sempre ciente que, embora lhe tenha sido apresentada uma nova perspectiva em que a vontade própria e o discernimento próprio são permitidos, o castigo ainda vem do Ministério, do inexorável Ministério, então releu e levou as folhas boca, mastigou-as e, por fim, engoliu a pasta resultante. De nada o poderiam acusar, por enquanto. Moisés dormiu essa noite de um sono perturbado. Acordou diferente, o Ministério está errado, está tudo errado.
No exterior já não eram os mesmos, os olhares, foste tu, ou tu, ou tu até, foste tu quem escreveu o texto revelador, foste tu quem pensando mais que os outros fez os outros pensar, foste tu, quem? Moisés pensava distinguir o profeta pelo olhar, mas como, se todos eram iguais nesse dia, cruzando-se mutuamente com desconfiança. cidade do Ministério já ninguém dispensava uma Ínfima atenção que fosse, os olhares focavam ora os outros olhares, ora o espaço verde e selvagem, terra da liberdade se um dia a alcançassem. Nesse dia, após regressar ao quarto, os membros do Ministério levaram-lhe duas mulheres, uma bela, uma feia, Moisés que escolha. A feia, decidiu. A feia?, perguntaram com espanto. Sim, respondeu Moisés, o Ministério é uma fraude, tudo está errado, o belo é asqueroso, o horror é a pura beleza, tudo está errado, pobres de vocês que não sabem mais que aquilo que vos foi ensinado e do que. Travaram-lhe o discurso com um violento golpe nas pernas utilizando um bastão de ferro. Continuaram a agressão, Moisés já prosternado no chão, até que chegou um professor, o mesmo que lhe tinha falado da soberania do Ministério. Pecas em vaidade Moisés, esse não é o caminho, disse-lhe.
Foi privado de comida e bebida, era mantido vido com caldos insÍpidos, proibiram-lhe as saÍdas ao exterior, as mulheres, feias ou belas, privaram-no de tudo, com um propósito, o perfeito condicionamento. Quem é teu soberano, quem se sobrepõe a ti ofuscando toda a tua individualidade e essência?, perguntavam-lhe todas as sessões. A resposta manteve-se firme e imutável durante bastante tempo, pobres sois vós, tudo está errado, a verdade é a cegueira do Homem, forte é Moisés. Mas perante esta resposta, logo o chicoteavam ou algo pior lhe preparavam. A dureza do castigo aumentava a cada sessão. Daqui não sairás enquanto não acreditares no Ministério, e deixavam-no com uma tigela de caldo. Tudo é mentira, pensava Moisés, o já fraco Moisés, e derrubava o caldo. Um dia entrou o professor no quarto, já estava Moisés muito fraco. Tens de comer, disse-lhe, e tens de aceitar o inevitável. Quanto tempo pensas conseguir resistir?, perguntou-lhe com escárnio. Depois, perante a passividade de Moisés, ergueu-se e, em tom peremptório, declarou, fizeram-te duvidar de nós, quem o fez não o sabemos, tu próprio não o sabes, mas quem to disse já está lá em baixo, na cidade, faz hoje parte daquilo que te convenceu ser errado, aceitou a verdade. Moisés soltou uma lágrima ao ouvir o que fora dito. O professor continuou no mesmo tom. Está lá em baixo como um Rei, porque no Ministério todos são reis porque todos são iguais, concluiu. Depois agachou-se, ficou ao nÍvel de Moisés, tigela de caldo na mão. Moisés, chorando, sem saber em que acreditar, pegou na tigela e ingeriu o caldo, o professor sorriu. Quando sorveu a última gota disse, o Ministério é meu soberano. É claro que terás de acreditar nisso para que possas descer, rematou o professor. Este, pediu algo a um dos membros, recebeu um bloco de folhas e uma caneta. Aqui, quero que escrevas, Abraça O Ministério Abomina o IndivÍduo, ordenou o professor. Moisés obedeceu. E todos saÍram do quarto deixando-o sozinho, com o bloco e a caneta, caneta em que pegou Moisés e usou para, entre as palavras Abraça e O Ministério, riscar uma vÍrgula. Na sessão seguinte queimaram-lhe os dedos.
Não estava só, não era possÍvel, era nÍtido nos olhares que os outros partilharam, o fraquejar dos outros era um artifÍcio do Ministério, haveria de arranjar modo de os libertar, libertar-se a si próprio. Todas as sessões, Moisés tinha de escrever a dita frase, sem adições gramaticais. Isto era sempre verificado na sessão seguinte. Até o dia do já não suportar mais. A caneta era uma caneta normal de tinta permanente, facilmente rasgaria a pele de um homem. Esperou junto porta, esta abriu-se, entrou o primeiro membro do Ministério, ficou este com um olho cego, ficou o seguinte com a garganta rasgada, o terceiro quarto e quinto espancados por um bastão de ferro, o sexto com uma bala entre os olhos, o professor com três balas nas costas, Moisés disparou enquanto este tentava fugir, rápido, surpreendente, eficiente. Todas as portas estavam abertas, as dos quartos e a que dava acesso ao exterior, todos os quartos estavam vazios, assim como estava a cidade lá em baixo, vazia de vontades, sempre era verdade, os outros fraquejaram. Moisés levou consigo uma arma, uma lanterna e uma farda de um dos membros. Passou despercebido por todos, cautela, dispensou todos os elevadores que encontrou e desceu pelas escadas. O alarme fora dado tarde demais, Moisés estava já na terra da liberdade, do indivÍduo, aquela que se via de lá de cima, oposta cidade do Ministério, e sentia-se bem, livre, mas cansado. Parou na primeira clareira que encontrou para dormir.
Acordou e prosseguiu marcha. O sol ainda não iluminava todos os recantos, melhor, seria mais seguro. Pensou se alguma vez mais iria encontrar alguém. Cedo descobriu que sim. Viu um riacho onde parou para saciar a sede, matou uma lebre de um tiro e comeu-a crua. Alguém se lembrou do mesmo, Moisés ouviu os disparos. Viu alguém, escondeu-se. Surpreendeu-se e foi surpreendido. Quem és, perguntou um a outro, outro a um. Partilhavam do mesmo passado, das mesmas dúvidas, da mesma fuga. Sentiram-se bem por não estarem sós, e ainda mais encontraram, ficaram catorze ao todo, cada um deles com a mais comum fome de verdade e pensamento livre. Somos os afortunados, somos os que resistiram até ao fim. Fugiram em bando entranhando-se cada vez mais na terra desconhecida, os fortes, os profetas da verdadeira verdade.
Um dia encontraram um local que já fora habitado por alguém, pessoas do Ministério, talvez, fugitivos como eles, provável. De qualquer forma, naquele momento, estava tudo abandonado, tanto melhor. Moisés declarou que deveriam ficar por ali, fundar naquele local uma sociedade em que fosse permitido o pensamento livre, a vontade do indivÍduo, a essência da humanidade, a casa de todas as verdades, escolhesse cada qual a que lhe conviesse, mas teriam de dividir tarefas, nada funcionaria de outro modo, a necessidade de estabelecer certas regras era óbvia, o pensamento livre não era sinónimo de caos e anarquia. Que nome daremos a tal sociedade?, quis saber um deles. Nenhum, respondeu um outro, que fique simplesmente Sociedade, o dar-lhe um nome é torná-la restrita. Aplaudiram. Comecemos então por estarmos certos da segurança deste local, propôs uma voz. Todos concordaram, eu procuro aqui, tu ali, tu vai ver aquele lugar, Moisés lá foi, de lanterna em punho, iluminando todos os recantos, procurando algum vestÍgio de alguma coisa que fosse contra a ideologia livre. Se algo assim fosse encontrado, teria de ser eliminado com rapidez. Entrou, sempre atento, numa pequena barraca de janelas tapadas, lanterna na mão esquerda, arma de fogo na mão direita, que é assim que dá jeito s pessoas normais. O interior era escuro, entravam pequenos raios de luz do exterior pelas frinchas de madeira, iluminando as infinitesimais partÍculas de pó que permaneciam suspensas no ar. Numa das divisões desta cabana, Moisés estremeceu. Ali estava, de lanterna em punho ofuscando-lhe a visão, a estatura e pose de sempre, um deles, sua frente, gritou em pânico, encontraram-nos, aqui dentro, encontraram-nos, e disparou logo de seguida sobre o membro do Ministério. Após o os dois disparos, ouviu-se o som de vidros a partir. Os outros fugitivos acudiram ao local. Que se passa, perguntou um deles. Nada, respondeu Moisés, era apenas um espelho.

dedicado a George Orwell


acerca do conto...
Título: O Cão de Pavlov
Data: 30 Jun. 2001
Autor: Leandro Ribeiro
e-mail: [email protected]