Retrocedersimetria: ficção
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cegueira artificial
por Luís Sequeira <[email protected]>

1.


Leo agarrou no digipincel, e num gesto brusco e expansivo, atirou-o com toda a força contra a parede do quarto. Seguiu-se um murro forte e sonoro sobre o tampo da mesa, que fez tremer o delicado equipamento psicossensitivo ligado à consola que dominava a secretária onde ficava o seu local de trabalho favorito.

Hoje era mais um daqueles dias maus para trabalhar. Aliás, mais um. Na última semana, tinham sido todos. Suspirou. Hesitou entre reacender o charuto meio fumado que estava no topo de uma pirâmide de cinzas e beatas no sujo cinzeiro. Acabou por se servir da garrafa de whiskey irlandês, deitando-lhe dois comprimidos de Neovalium, que engoliu de um trago. Souberam-lhe horrorosamente. Os seus neurónios deram um choque eléctrico quando a mistela lhe atingiu o córtex cerebral. Mas ao contrário do que esperava, nenhuma ideia brilhante lhe perpassou pela cabeça.

A loiríssima Beatriz entrou no quarto. Era alta e esquelética, e sinceramente, Leo estava farto dela. Já não apreciava rapariguinhas com ar de top model, estúpidas, burras, cretinas, sempre a pensarem em roupas, perfumes e acessórios de moda, que lhe sugavam o que restava do crédito bancário escassamente acumulado, especialmente naqueles meses sem vender nenhuma obra. Bem, a Bea não seguia bem esse estilo. Parecia ter dezoito anos mas tinha quase trinta, uma beleza fruto de genética cosmética, evidentemente. Até os olhos azuis eram falsos. E não se podia considerar completamente burrinha. Aliás, com o seu mestrado em sociologia, provavelmente seria mais inteligente do que Leo (que, após uns anos a estudar física de partículas, descobrira a sua verdadeira vocação na Arte). E era actualmente mais provável que fosse ele a viver do salário dela que o contrário. Resmungou algo de inaudível; Bea arqueou as sobrancelhas mas não disse nada, aproximando-se do cinzeiro, abanando a cabeça. - Nem limpas esta merda, Leo. Isto está cada vez mais uma pocilga e não uma casa decente.

- Deixa-me ao menos o charuto - barafustou Leo, fazendo um gesto vago, depois cofiou a barba, pensativo, os olhos pousados no corpo esguio da namorada. Estava a apetecer-lhe ir para a cama com ela, mas isso era fruto do Neovalium, e com o álcool no organismo provavelmente nem conseguiria fazer nada de jeito. O álcool causava-lhe impotência, para seu enorme desgosto. Afastou esses pensamentos. Bea limpara-lhe o cinzeiro à mesma, charuto e tudo, e acabou por acender um cigarro. Encarou o artista barbudo pensativamente. - Leo, quando é que acabas a encomenda para o Teixeira Duarte? Precisamos de dar uma limpeza nesta casa, deitar fora esta imundície toda, talvez fazer umas férias, precisas de descansar...

- Não me venhas com paternalismos! - exclamou Leo. - A casa é minha, gosto dela como está.

Bea obrigou-se a manter-se calma. Os seus olhos azuis pousaram nos de Leo, castanhos. - Vives como um porco, Leo, e isso não é saudável. Prejudica-te mais do que julgas.

- Tangas! Tretas! Balelas! - bramiu Leo. - Detesto quando começas com essa conversa, Bea. Já te disso isso um zilião de vezes. Eu gosto das coisas assim, é assim que elas vão ficar!

A loura observou o equipamento psicossensitivo. Depois seguiu o percurso do digipincel até à parede, recoberta de antigas fotografias, impressões, recortes de jornais e todo o tipo de bugigangas anacrónicas que escondiam a sujidade da parede. - Continuas a não arranjar inspiração, não é?

- Deixa-me em paz - suplicou Leo, refastelando-se na cadeira ergonómica, mas o seu tom de voz foi mais suave. Bea tinha razão, claro. Não conseguia inspirar-se. Não conseguia criar. Serviu-se de mais um trago de whiskey. Talvez não fosse má ideia perder a consciência e entrar em coma alcoólico, despertando amanhã para um novo dia, quiçá mais produtivo que o de hoje.

- Leo, não podemos continuar assim.

- E que queres exactamente dizer com isso? - tornou ele. - Isso é uma ameaça?

- Uma constatação de um facto. És um artista. Mas não produzes nada de jeito há meses.

- Ainda na outra semana vendi uma obra para a Galeria Leclerc - afirmou Leo.

- Leo, isso foi em Dezembro! Lá fora temos o Verão à porta! - disse Bea, desesperada. - Quando é que te compenetras disso? A musa criadora abandonou-te...

- Fora daqui! - bramiu o artista, fora de si. Detestava quando Bea lhe atirava com os factos à cara. Não que ela não tivesse razão, claro, mas Leo não queria ouvir a verdade. Ao ignorar a realidade, mantinha as suas esperanças, e Bea estava a destruir esse seu edifício de auto-promoção do ego, construído com tanto esforço.

A jovem encolheu os ombros e saiu do quarto, suspirando. Sabia quando não valia a pena continuar a discussão.

2.


Acordou antes do Sol nascer, banhado em suor. Tinha tido um pesadelo terrível, mas que se desvanecia rapidamente, ao ponto de se esquecer imediatamente de tudo quando abriu os olhos. Bea estava enroscada nos lençóis no outro extremo da enorme cama, talvez pressentindo inconscientemente o calor que Leo expelia por todos os poros e afastando-se assim para uma zona mais fresca da cama.

Ergueu-se, servindo-se da casa de banho, resmungando para si mesmo frases incompreensíveis. No regresso pousou o olhar sobre o resto do whiskey e meditou brevemente sobre a bebida que restava no copo. Afastou a tentação, e franziu o sobrolho, ainda pensativo. Apesar de ser artista por profissão, gabava-se do seu gosto eclético em termos de leitura, e era um apaixonado das revistas e livros de divulgação científica dos séculos passados, em especial aqueles que eram censurados pelo Governo e que nem sequer surgiam na InfoRede. Relembrava-se agora de uns artigos em que os pequenos prazeres da vida eram apelidados de «vícios», enumerando-se todo o tipo de consequências graves para a saúde que eram causadas pela ingestão de álcool, estupefacientes, tabaco e todo o tipo de drogas, químicas ou orgânicas. Mas os tempos mudavam, assim como as modas, e a medicina nunca fora mais do que isso, uma moda sujeita a novas descobertas científicas, aprovada numa década e reprovada na década seguinte, com novos Prémios Nobel a destruírem a argumentação dos seus predecessores. A verdade é que esses prazeres da vida persistiam, mesmo que durante algumas épocas fossem tabu - como o álcool no início do século XX, o tabaco no século XXI, as drogas pesadas durante quase dois séculos - e relegados a toda uma indústria paralela com distribuição ilegal.

O actual Governo Terrestre era muito mais permissivo e praticava a política de encorajamento do consumo de todo o tipo de drogas, desde que pagassem impostos que fossem aplicados no tratamento de indivíduos toxicodependentes - geralmente através de programas de psicoterapia e hipnose que forçassem um autocontrolo maior em relação ao consumo dessas drogas. Mas a verdade é que toda a gente as consumia, desde a mais tenra idade. E Leo reflectiu no assunto pela primeira vez.

Toda a gente consumia drogas.

Era um pensamento assustador. Mas, por outro lado, noutros tempos também toda a gente lia os livros hoje proibidos, como o 1984 de George Orwell, Brave New World de Aldous Huxley ou Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, que apresentavam exemplos de distopias onde os respectivos governos impediam os cidadãos de absorverem conhecimentos, através da leitura. Obviamente que esses livros tinham sido escritos bem antes da existência da InfoRede ou sequer da televisão não interactiva, coisa que hoje em dia só existia nos locais mais subdesenvolvidos do mundo ou das colónias espaciais mais pobres. Hoje em dia, conhecimento era poder, informação era dinheiro, e era natural que o Governo não estivesse interessado que os cidadãos absorvessem mais conhecimentos do que os que eram verdadeiramente necessários para o desempenho das suas funções.

Pensativo, dirigiu-se ao escritório em vez de voltar para a cama, activou vocalmente o terminal psicossensitivo e deixou-se imergir na realidade virtual do seu nó da InfoRede. Desencriptou os dados ilegais e fez uma breve pesquisa de notícias em revistas proibidas. Nunca tinha aplicado um programa de correlação e análise de todos os artigos de revistas científicas ilegais relativamente à questão das drogas. E o facto é que desde os finais do século XIX, durante quase todo o século XX e grande parte do XXI, até à Abolição, a esmagadora maioria dos artigos criticava a ingestão deste ou daquele tipo de droga. Ao longo desse período, mais e mais drogas foram banidas da sociedade, terminando com a Abolição, que proibiu terminantemente todo o tipo de drogas e alimentos considerados pouco saudáveis, primeiro no continente americano, depois no europeu e finalmente em todo o mundo. As consequências eram conhecidas de qualquer estudante do liceu: um aumento exponencial da criminalidade, o colapso da indústria química e farmacêutica, um colapso do primeiro sistema de governo planetário e o despertar de uma sociedade que tinha por sua vez abolido a filosofia do «politicamente correcto» e da noção paternalista de que um governo tinha de obrigar os seus cidadãos a manterem-se «saudáveis» segundo os padrões que estivessem na moda num dado instante do tempo. O segundo governo planetário era muito mais permissivo - jogo, droga e prostituição tinham sido legalizados em todo o Espaço Terrestre numa questão de anos, numa tentativa de acabar com a criminalidade. E foram extremamente eficientes nesse aspecto. Mas por sua vez passaram a censurar a informação. Porquê?

Algumas coisas eram evidentes: num Estado em que todos os vícios eram permitidos não fazia sentido que se tomasse conhecimento de relatórios contraditórios elaborados séculos atrás que condenavam as drogas. Leo compreendia isso, mas achava que cada pessoa deveria ter a liberdade de escolher se acreditava ou não nesses relatórios. Mas o Governo não estava interessado que o público soubesse sequer que esses relatórios tinham existido. A História oficial falava num «enlouquecimento colectivo» que tinha conduzido à Segunda Abolição. Mas a realidade parecia ser outra: muitos dos textos pareciam ter sido elaborados por cientistas da época que eram fiéis ao método científico tal como enumerado por um Descartes ou um Giordano Bruno ou um Newton. Não podiam estar todos completamente errados. Deveria haver um fundo de verdade no que escreviam -mesmo que não tivessem acesso à alta tecnologia dos dias correntes. Mesmo assim, o grosso das invenções tecnológicas tinha nascido no final do século XX, altura em que os relatórios pareciam apresentar dados cada vez mais concretos...

Mesmo que compreendesse, ainda que emocionalmente, a necessidade de evitar o acesso a informação que poderia colocar o actual sistema e sociedade em causa, já não compreendia porque é que a literatura especulativa era também tabu. Afinal de contas, os contemporâneos de Orwell sabiam que este escrevia uma obra de ficção. Em 1984 não tinha acontecido nada do que este previra. Era apenas especulação. E não tinha sequer nada a ver com drogas, mas apenas com o controlo totalitário por parte de governos futuros. Mas o actual governo não era «controlador»: era permissivo, como nunca antes na História da Humanidade. O indivíduo era livre de fazer o que quisesse, desde que não prejudicasse a liberdade e felicidade de terceiros. O papel do governo na economia era diminuto. Porquê, então, esse receio absurdo de dar a conhecer as distopias ao público em geral? Que mal faria conhecê-las? Ninguém queria abolir um governo democraticamente eleito, pacífico, distante e benévolo para introduzir um modelo de totalitarismo e absolutismo descrito nesses livros! Não fazia sentido para ninguém. Esses autores alertavam justamente para o perigo desses modelos totalitários, não a sua promoção. Logo, até deveriam ser utilizados como propaganda governamental: «vejam o que estamos a evitar que aconteça a todo o custo!» Contudo, o que acontecia era o oposto disso: proibição total de leitura.

E não era o único absurdo da Comissão de Censura. Na literatura religiosa antes dos meados do século XX, falava-se em milagres e na intervenção divina. Com o colapso progressivo das religiões no Século da Ciência, passou a falar-se da existência plausível de seres extraterrestres que visitariam o nosso planeta com a sua alta tecnologia. Estes absurdos da histeria colectiva tinham sido estudados por eminentes sumidades científicas como Jung nos meados do século XX. Apesar disso, mais tarde, chegou-se ao ridículo de fomentar pesquisas pela procura de vida extraterrestre, levado a cabo por eminentes cientistas como Carl Sagan. Um disparate completo, mas inocente! Claro que essas experiências pseudo-científicas nunca tinham chegado a nenhuma conclusão; não existia vida inteligente fora da Terra, como toda a gente sabia. Mas esses projectos e artigos sobre o assunto eram inofensivos. Porquê proibi-los então? Ninguém, hoje em dia, sabia o que queria dizer a sigla SETI e mesmo o nome de Sagan e outros visionários tinha quase desaparecido dos anais dos grandes cientistas dos séculos passados. Até o trabalho de Jung sobre estes fenómenos de histeria colectiva tinham sido riscados da bibliografia do autor. Porquê?

Estariam estas coisas relacionadas? E de que forma? Bebidas, tabaco, especulações científicas e médicas, alucinações colectivas, distopias... o que tinham em comum? Absolutamente nada. Leo abanou a cabeça. Não fazia sentido. Sentia-se como nos tempos em que existira uma Inquisição -uma comissão de censura medieval que durara em Portugal até ao início do século XIX - que procurava riscar do conhecimento tudo aquilo que era desagradável para uma Igreja que efectivamente dominava o mundo. Mas nesses tempos a censura era justificável: a Igreja Católica exercia uma espécie de domínio sobre todos os povos civilizados e não se podia dar ao luxo de deixar que as pessoas desenvolvessem ideias radicais que colocassem esse seu domínio em questão.

Mas nos dias que corriam, praticamente tudo estava na InfoRede, e qualquer pessoa podia ser eleita como um membro do Governo. Era uma democracia global. Podia-se manifestar a sua opinião publicamente, na InfoRede - desde que não se tocassem nos assuntos tabu. Ok, era uma limitação, mas ninguém achava que o actual modelo de governo fosse perfeito. Era apenas o melhor dos maus sistemas políticos. A democracia dava uma resposta efectiva a quase todas as questões da forma menos prejudicial. Claro que tinha os seus problemas, mas reconhecia as suas próprias limitações e procurava minimizá-las. E através da InfoRede qualquer cidadão podia dar a sua contribuição, por muito pouca ou pequena que fosse.

Qual era então o «medo» que o Governo tinha dos tabus? Que temível segredo se escondia neles? Com a mesma determinação com que se lançava num projecto criativo novo, Leo decidiu deslindar o mistério.

Começou por despejar o resto da garrafa de whiskey irlandês no minidesintegrador. Os seus olhos seguiram com saudade o precioso líquido. Mas depois sentiu-se melhor com a decisão que tomara e regressou à cama, onde adormeceu com surpreendente rapidez, apesar de ter os pensamentos num turbilhão.

3.


Bea surpreendeu-se por ver Leo sentado em frente ao terminal psicossensitivo tão cedo pela manhã, aparentemente fervilhando em excitação. Mais estranho ainda foi encontrar uma garrafa de neoplast de sumo de tomate no lugar do whiskey. E o cinzeiro mantinha-se limpo, sem restos dos terríveis charutos que Leo insistia em fumar.

Algo de estranho se passava, e inicialmente Bea pensou em não o interromper: afinal de contas, estava a trabalhar, coisa que ultimamente parecia cada vez mais uma hipótese remota. Mas a curiosidade venceu-a e tocou ao de leve nos largos ombros do namorado.

Este grunhiu, afastando o indutor psicossensitivo, e arreganhou os dentes num largo esgar. Estava mal barbeado mas parecia ter ao menos tomado um banho. - Olá, jeitosa! Dormiste bem?

- Sentes-te bem?

- Que raio de pergunta é essa? Sinto-me maravilhosamente! E estou a trabalhar, como podes ver! - Exibiu parte da sua composição, fazendo um floreado com o digipincel.

Bea observou criticamente a criação durante uns instantes. Não deixou de reparar que o terminal estava a correr um programa de análise e correlação a um canto. Apontou para o holograma e disse: - Que estás a fazer? A propósito, a obra está porreira, mas...

- Tantas perguntas! «Sentes-te bem, que estás a fazer» - troçou ele, evidentemente bem disposto. - Se queres mesmo fazer, estou a dedicar-me a actividades subversivas... - Deu uma risadinha seca. - Mas gostas mesmo da composição? Estou a basear-me nos impressionistas do século XIX, que infelizmente tinham apenas painéis bidimensionais para as suas criações, mas tinham algumas ideias giras que estou a tentar explorar...

Bea agora tinha a certeza que algo se passava com Leo. As suas mudanças de humor eram frequentes, mas geralmente eram sempre para pior, raramente para melhor. E mesmo nas fases melhores raramente lhe pedia uma opinião crítica em relação ao trabalho. Encolheu os ombros e acendeu um cigarro. Se esta fase fosse uma «fase boa», e Leo completasse realmente a composição para a Teixeira Duarte, que lhe preocupava o facto de estar a comportar-se de forma estranha? Procurou entre a barafunda em cima da secretária. - Onde é que meteste o Neovalium?

Leo fez um gesto vago, desinteressando-se da questão, concentrando-se na composição. Bea reparou agora que um dos ciberagentes estava também a correr num canto, disparando imagens bidi para uma área do terminal, que Leo de vez em quando ampliava e observava criticamente por um instante antes de voltar à sua criação.

- Isso é quase plágio - notou Bea, continuando a procurar na secretária pelas drageias, sem sucesso.

O artista franziu o sobrolho. - Plágio? Balelas! Então e os neocubistas que só copiam o Picasso e o Dali e esses malucos? Eu nem sequer estou a copiar as ideias, apenas a observar como eles captavam a ideia de luz com pinceladas a óleo. Nem tenho ferramentas apropriadas para copiar isso, apenas fiz o telecarregamento dum software pela InfoRede que me faz uns cálculos aproximados sobre os traços de forma a captar a essência da luz... mas o resultado é demasiado artificial. Estes tipos eram uns génios, Bea. Imagina que conseguiam estes resultados maravilhosos um século antes de inventarem o computador pessoal!

Bea abanou a cabeça, passou a mão pelos longos cabelos dourados, e voltou a abrir e a fechar gavetas. Suspirou. - Tu é que sabes, Leo, tu é que és o artista... mas olha, onde é que meteste mesmo a porra dos comprimidos? Não os consigo encontrar em lado nenhum. - Soprou fumo para o tecto, exasperada.

Leo virou-se na sua cadeira anatómica, com um ar sério. - Pensava que não tomavas Neovalium.

Ela observou-o, de perfil. - E não tomo. São para ti, tolinho. Onde é que meteste os comprimidos? - repetiu.

O artista sorriu. - Ah, bom... não quero mais Neovalium, acabei com isso, foram ontem pia abaixo - explicou, apontando para o minidesintegrador.

Bea estremeceu. - Acabaste com o Neovalium?!

- Quero dizer que não vou tomar mais - explicou ele, pacientemente.

- Mas... - balbuciou ela.

- Mas o caraças! Irra! Sempre a contradizer-me! Não me apetece tomar mais, aquilo queima-me os neurónios, estou farto de Neovalium! - explodiu Leo, gesticulando avidamente.

Bea sorriu ligeiramente, já se parecia mais com o Leo que conhecia. - Estás a gozar comigo, não estás? Tu tomas uns dez comprimidos disso por dia...

- E depois? Hoje não quero mais nenhum. Não me apetece, pronto! - disse, como o menino mimado (que era) com uma birra.

- Leo, não podes deixar de tomar Neovalium assim sem mais nem menos, de um dia para o outro - insistiu Bea, agora num tom de voz preocupado, admitindo que talvez Leo estivesse a falar verdade.

Ele acenou afirmativamente, curiosamente calmo. - Eu sei, Bea. Por isso é que estou a beber isto. - Apontou para o copo e a garrafa de neoplast.

- Sumo de tomate? Mas...

- Vitaminas - explicou Leo, interrompendo-a.

Agora Bea estava verdadeiramente preocupada. Ficou a observá-lo por um longo minuto, tentando ler-lhe os pensamentos. Leo percebeu que ela não estava a achar piada nenhuma à conversa mas manteve-se silencioso, devolvendo-lhe o olhar.

Num impulso, Bea afastou-o, activou o programa de análise e correlação e observou de relance os documentos que este estava a classificar. - Leo, porra, já te disse para te deixares destas merdas! Isto é altamente ilegal, c'um caraças!

As manápulas pesadas do artista afastaram-na do terminal. - Que se passa contigo, Bea? Sempre soubeste que eu lia estas merdas... que raio de reacção estúpida é essa? - Ampliou as imagens. - Além disso, só estou a ler artigos antigos de jornais obsoletos...

- De antes da Segunda Abolição, presumo? E estás a acreditar nessas tangas todas que lês??

- Quem falou em «acreditar»? - Leo suspirou. - Estou a fazer uma experiência, nada mais.

- Uma... experiência?

- Sim, vou experimentar passar sem estes vícios todos diários durante uns tempos, a ver que efeito é que têm sobre o organismo.

Bea abriu muito os olhos, incrédula. - Vícios? Agora chamas-lhes vícios? Tu deves estar completamente doido, Leo! Como é que podes acreditar nisso??

- Acreditar em quê? É só uma experiência, nada mais...

- Os Revivalistas são geralmente presos, Leo. Essas «experiências» são tabu. Porque é que julgas que eles proíbem esses documentos subversivos de circularem na InfoRede?

Leo cruzou os braços e sorriu. - Tu é que és a socióloga. Diz-me tu.

- Ora porra, Leonardo! Tiveste as mesmas aulas que eu! Nos séculos em que essas baboseiras circulavam livremente, as pessoas ficaram com ideias malucas na cabeça que conduziram à Segunda Abolição, e sabes perfeitamente o que aconteceu depois disso!

Leo proferiu calmamente: - Primeiro de tudo, eu não acredito nestas baboseiras, como lhes chamaste. Apenas acho que seria divertido fazer uma experiência. Como se sentirá uma pessoa sem o efeito destas drogas todas? Imagina: os radicais desta sociedade procuram com cada vez mais insistência a Droga Mãe de Todas as Drogas, o trip que os levará ao Nirvana ou que lhes faça atingir o Orgasmo Total ou outra coisa qualquer. Ri-mo-nos dos seus disparates, mas toleramos o seu comportamento alucinado. Mas apesar de gozarmos com eles, o facto é que todos nós tomamos algum tipo de drogas, constantemente. Nem que sejam simples aditivos na comida ou na bebida. Isto é sumo de tomate puro, Bea. E não sabe horrorosamente por causa disso. Ora experimenta lá.

Bea hesitou, não sabia como lidar com a situação. Bebeu um trago do sumo e fez uma careta. - Nem sequer sal...

- Faz mal à tensão cardíaca - ironizou Leo.

- Claro que faz, por isso é que a gente toma reguladores de tensão - comentou ela.

- Mas se não ingeríssemos sal em excesso, não precisávamos de tomar reguladores de tensão, pois não?

- Que estupidez, Leo. Para isso é que inventaram os reguladores de tensão! A seguir vais dizer-me que te tornaste vegetariano ou qualquer desses disparates abolicionistas!

- Nah, estive a ler que essas porcarias ainda pioram a situação. Mas pode-se comer uma dieta perfeitamente equilibrada - e não tomar químicos que nos corrijam o equilíbrio do corpo. Percebes?

- Não percebo nada. Isso é uma burrice. Além do mais, isso pode funcionar com a alimentação, mas não funciona com uma série de coisas...

- Sim, como o Neovalium, o tabaco, a marijuana, o café, o álcool... não há nada que reponha o equilíbrio depois de ingerir isso...

- Claro que há, palerma! Há pelo menos uns cinquenta produtos no mercado que anulam esses efeitos todos! - exclamou Bea. - Não estás a ser racional! - Sugou furiosamente o resto do cigarro e esmagou-o com violência no cinzeiro. - Onde queres chegar com essa experiência? Atingir o Orgasmo Total com a completa ausência de químicos?

Ele riu-se. - Quero ver quanto tempo aguento sem essas coisas todas. E ver se realmente conduz a algum resultado positivo.

- Portanto, acreditas mesmo nessas tangas. - Bea cerrou um punho. - Leo, aviso-te desde já que não estou a achar piada nenhuma à brincadeira. Vais ver que os resultados não são os que estás à espera. E não sei depois o que faço: se te denuncio à Polícia ou se te interno no primeiro hospício que me aparecer pela frente.

- Ora, nunca chegarei a esse ponto. - Levantou-se para a beijar carinhosamente numa bochecha. - Tenho a certeza que a minha lindeza me fará parar imediatamente se começar a ter comportamentos bizarros...

- Tu estás mas é a ficar gagá - resmungou ela, mas não insistiu na discussão.

4.


No dia seguinte, Leo acordou com uma tosse cavernosa. Parecia que os pulmões queriam explodir de dentro para fora. Os brônquios ardiam-lhe como fogo ao ponto de lhe virem as lágrimas aos olhos. Tossiu até ter a impressão de que estava a expelir pedaços de matéria pulmonar ou sangue; mas claro que nada disso aconteceu. Levantou-se, tentando inspirar fundo, mas os ataques de tosse não diminuíram de intensidade.

Cambaleou até uma das casas de banho (Bea estava a tomar um duche sónico na outra) e procurou maquinalmente o antitússico. Depois relembrou-se da «experiência» e abandonou a ideia. Iria suportar a crise até ao fim sem medicamentos. Teimosamente dirigiu-se ao escritório e verificou que o ataque de tosse desaparecera, mas deixara um travo amargo na boca. Apetecia-lhe um café e o primeiro charuto da manhã, mas resignou-se com um iogurte e um sumo de laranja. Estava a começar a ter uma pontada de dores de cabeça mas também não tomou nada contra isso. Em vez disso, procurou concentrar-se no trabalho.

Um pouco depois apareceu Bea no escritório, um livro de sociologia por baixo do braço, um cigarro nos lábios e uma caneca de infusão de ervas na outra mão. Deram-se mutuamente os bons dias, Leo observando-a com inveja, Bea fazendo-lhe um pequeno sorriso irónico. Trabalharam em silêncio durante umas horas, Bea fumando cigarro atrás de cigarro, Leo rangendo os dentes mas incapaz de fazer um comentário que fosse.

Os ataques de tosse regressaram, menos convulsivos que os da manhã, mas mesmo assim presentes. Leo ergueu-se, dirigiu-se à janela, abrindo-a. O ar fresco do exterior limpou-lhe os pulmões da tosse e exibiu um pequeno sorriso, ao contemplar a placidez do seu pequeno jardim, contíguo ao pinhal que se prolongava a pouco e pouco até atingir as colinas no horizonte.

- Fecha isso, está frio - pediu Bea, concentrada no seu livro, onde de vez em quando acrescentava umas notas com uma digicaneta.

- Acho que vou dar uma volta. Apanhar ar fresco - acrescentou, à laia de explicação. Bea arqueou uma sobrancelha interrogativamente, mas não fez comentários. Casmurro como Leo era, não valia a pena demovê-lo das suas decisões feitas no momento. Seja como for, olhando de relance para o terminal psicossensitivo, Bea constatou que realmente o trabalho dele continuava a avançar a olhos vistos. Os agentes inteligentes que pesquisavam a InfoRede em busca de mais e mais informação para correlacioná-la e apresentar posteriormente um relatório das buscas continuavam activos a um canto. Alguns deles despejavam aqui e ali pequenos quadros bidimensionais que flutuavam no espaço algures em torno do centro da obra. Bea fez uma careta, abanou a cabeça e regressou ao seu próprio trabalho.

Leo, entretanto, tinha colocado um sobretudo isotérmico, e, murmurando um «até já» entre dentes, saiu para a rua. O tempo estava fresco e húmido mas não lhe parecia que fosse chover. Hesitou entre tirar o aerocarro da garagem, mas depois decidiu-se por uma caminhada a pé para fazer exercício naturalmente. Estava farto dos aparelhos do ginásio que tinha na pequena cave da moradia.

Não havia muita gente a passear no seu bairro. Um ou outro residente idoso, que levava os cães a passear na rua, os inevitáveis ciclistas ou joggers que também preferiam um passeio pelos trilhos junto ao bosque em vez dos aparelhos de ginásio, mas pouco mais. Não havia trânsito automóvel no bairro: todos tinham aerocarros, ou então serviam-se do metropolitano para as suas deslocações, cada vez menos desnecessárias numa sociedade centrada em serviços que podiam ser feitos em casa. Claro que proliferavam cada vez mais as instituições de lazer, desde os restaurantes, cafés e banhos públicos à romana, até aos holocinemas, discotecas, bares, parques temáticos e todo o tipo de instituições para ocupar os tempos livres das pessoas. Mesmo que modestamente, muitos museus tinham também surgido nos corações das metrópoles, em particular os que apresentavam arte plástica. Qualquer pessoa podia ver quadros no conforto das suas casas - já que os museus não permitiam que se tocasse nos quadros para apreciar a sua textura - mas nada como poder sentir uma obra de arte física. Por muito sofisticadas que fossem as realidades virtuais, não era a mesma coisa.

Leo dirigiu-se a um dos trilhos que passavam pelo pinhal. Activou o GPS para não se perder, embora achasse pouco provável que isso acontecesse. Meditou mais uma vez sobre as suas obsessões. Porque é que as drogas eram todas elas permitidas? Porque ocultava o Governo a leitura de certos autores que falavam em utopias e distopias, ou em contacto com civilizações alienígenas, mesmo sabendo que se tratava de pura ficção? E qual a relação entre elas? Existiria alguma relação, ou era apenas o cérebro humano, ávido de reconhecer padrões onde eles não existiam, que lhe forçava a equacionar uma coisa com a outra?

Levou maquinalmente a mão ao bolso onde trazia a charuteira, depois sorriu com o gesto. Nem sequer trouxera uns estimulantes, ou um comprimido qualquer para lhe aumentar a adrenalina, caso se cansasse a andar a pé. Ou um anti-espasmódico qualquer para as inevitáveis dores musculares de umas pernas pouco habituadas a andar por aqueles trilhos de terra batida, rasgados pelos sulcos das bicicletas. Cruzou-se com um ou outro caminhante como ele; alguns eram vizinhos que conhecia vagamente, e ergueu o braço para lhes acenar. Sorriam-lhe e davam-lhe os bons dias. Eram bons vizinhos.

Inevitavelmente reparou que, apesar da preocupação em fazer algum exercício «à antiga», quase todos eles traziam as suas garrafas de neoplast com estimulantes. Alguns até fumavam enquanto pedalavam. Leo franziu o sobrolho. Porque acharia isso estranho? Quando estava no ginásio, ele fazia o mesmo; um charuto no cinzeiro e um copo de whiskey ao lado, para ir bebericando enquanto se sujeitava às torturas dos aparelhos. E dois comprimidos de estimulantes musculares se se sentia cansado. Isso era perfeitamente natural. Toda a gente fazia isso.

A questão do «toda a gente» estava a intrigá-lo. Era quase que... anti-natura. Decerto existiriam pessoas que não ingeriam espécie alguma de drogas, como ele estava agora a tentar fazer, com bastante custo. Por exemplo, alguém que fosse alérgico ao tabaco ou que sofresse de asma crónica, não fumaria, certo? Errado. Tomaria um anti-histamínico. Até haviam marcas de tabaco em que o anti-histamínico era injectado no próprio filtro. E quem é que sofria de asma, hoje em dia?

Aliás, quase que não havia doenças, tinham sido quase todas erradicadas. Fumar podia causar cancro, mas os próprios processos de fabrico dos cigarros e charutos impregnavam as folhas de tabaco com anticancerígenos activos. Se tudo falhasse, submetia-se a um tratamento genético com retrovírus que limpavam o tecido canceroso. Quem bebesse demasiado, podia sofrer de problemas hepáticos e eventualmente de cirrose ou cancro do fígado. Mas as fibras de colagénio que se formavam no fígado e que causavam a cirrose eram tão fáceis de combater com uma bactéria que se alimentava justamente dessas moléculas! O colesterol era eliminado por processos químicos e biológicos, ou, no pior dos casos, por nanomáquinas que eram ingeridas e que limpavam as paredes artificiais. E mesmo nos casos extremos - por exemplo, alguém que viajasse no espaço durante um período prolongado de tempo, sem recurso a medicamentos modernos, permitindo assim a expansão de uma infecção, de um vírus, de um tumor - podia-se sempre fazer um transplante a partir da clonagem de células do órgão afectado.

Os seres humanos eram virtualmente imortais. É certo que os tratamentos de retardamento do envelhecimento só existiam há um século ou menos que isso. Mesmo assim, havia um japonês qualquer que já tinha atingido os 189 anos de idade; vira isso na InfoRede. Não se sabia quanto tempo é que um ser humano poderia sobreviver graças aos recursos da genética e da medicina moderna. Leo não se preocupava grandemente com isso.

É certo que as pessoas morriam de acidentes - um aerocarro que colidisse com outro no ar podia matar os seus ocupantes instantaneamente. Uma casa que ruísse num terramoto, desabando sobre os seus ocupantes, os esmagaria inevitavelmente. Mas mesmo isso era cada vez mais raro. E bastava as pessoas ficarem apenas incapacitadas que se podiam regenerar com facilidade. Isso era o triunfo da tecnologia moderna.

Portanto, a sua preocupação com as drogas era uma cretinice. Toda a gente tomava drogas porque toda a gente sabia que não havia mal nenhum em fazê-lo. Qualquer resposta mais radical do organismo em relação a esta ou aquela droga podia ser facilmente corrigida recorrendo a uma outra droga, ou melhor, a um «medicamento». A fronteira entre os dois era ténue...

Abanou a cabeça. Provavelmente estava a fazer uma tempestade num copo de água. Revigorado pelo exercício, que o deixara agradavelmente cansado, de uma forma natural, regressou a casa, intrigado com as descobertas que os seus agentes inteligentes porventura tivessem feito, nas suas pesquisas pela InfoRede ilegal.

5.


Leo desligou definitivamente o terminal, exausto. Os seus olhos injectados de sangue já só se mantinham abertos a custo. Estimou que estivesse ligado há quase dez horas seguidas, pela noite adentro; o sol estaria a erguer-se no horizonte verdejante daí a minutos. Bocejou e espreguiçou-se; nunca se sentira tão cansado na sua vida. E não fizera nada de especial; mas a esta altura já teria tomado uns cinco cafés ou um comprimido de neocaf para se manter desperto e atento. A verdade é que «resistira» ao sono apenas com as hormonas segregadas naturalmente pelo seu próprio organismo. Mas agora estava a perder a guerra e a render-se ao inimigo; nunca sentira tanto desejo de se afundar na cama confortável e quentinha que o aguardava. Acabou de beber o resto do sumo de tomate, deixou uma nota a Bea a dizer que se deitara muito tarde e que não o acordasse antes do almoço, e dirigiu-se ao quarto.

Não adormeceu instantaneamente, como esperava. Por alguma razão, agora que estava na cama, as insónias assaltaram-no. Tinha demasiadas ideias na cabeça. Aliás, fervilhava de ideias novas. Passara metade da madrugada a ler manuais de programação, coisa que não fazia desde adolescente, e depois testara uma série de algoritmos de correlação nos seus agentes inteligentes, em busca de mais informação. Os resultados não tinham sido animadores, mas descobrira algo de fascinante: por mais de uma vez, esbarrara em paredes virtuais que lhe negavam o acesso. Tudo o que encontrara até hoje se resumia a um conjunto de informação trocada com alguns elementos mais radicais da sociedade que lhe forneciam os livros proibidos. Eram pessoas muito reservadas, muito cientes dos actos ilegais voluntários que cometiam, e dificilmente forneciam mais informações, com receio de que Leo fosse um ciberpolícia qualquer. Só conseguia alguma coisa quando abria completamente o acesso à sua própria máquina, deixando-os fazer o que quisessem com o seu sistema, até se sentirem seguros que Leo não era mais do que um artista com gostos ecléticos e um desejo enorme de tentar compreender porque é que existia literatura censurada. Por vezes conseguia obter um ou outro recorte censurado dum jornal do século vinte; ainda mais raro era o acesso livre a um «nó flutuante» da InfoRede, onde eram arquivadas publicações proibidas, e cujo acesso era feito durante uns breves microssegundos e imediatamente fechado, transferindo-se no instante seguinte toda a informação para outro nó distante e fazendo desaparecer todo o rasto do primeiro nó. Os seus agentes inteligentes fervilhavam de actividade com os algoritmos modificados, mas as conclusões a que chegavam não eram satisfatórias.

Reviu mentalmente tudo aquilo que tinha conseguido obter. Sentia-se estranhamente lúcido, como se o seu cérebro entrasse em hiperactividade como nunca dantes. Mas não estava mais perto de encontrar mais respostas para as suas perguntas, e isso estava a frustrá-lo tremendamente.

Conseguiu finalmente adormecer com os primeiros raios de sol a baterem suavemente na janela, recortando caleidoscópios de luz e sombra nas silhuetas do quarto, e quando voltou a acordar, eram umas 3 ou 4 da tarde.

Bea não estava em lado nenhum da casa, mas deixara uma nota a dizer que tinha umas aulas para dar e que voltava à noitinha, avisando-o que o almoço estava no criogerador. Atirou o prato para o micro-ondas, aguardou uns segundos e espetou um garfo na massa viscosa do mesmo. Pelo aspecto seria uma espécie de lasanha. Comeu as primeiras garfadas até subitamente se dar conta do estranho sabor.

Franziu as sobrancelhas desconfiado e analisou o prato em si. Não conseguia detectar nada de especial na sua confecção; era apenas lasanha. Mas num impulso pegou numa pequena parte do seu conteúdo e atirou-o para o pequeno micro-analista que comprara numa promoção. Era bastante limitado no que conseguia identificar, e prova disso é que apenas detectou 90% dos ingredientes da lasanha. Leo não se fez de rogado: interligou o micro-analista com a InfoRede, deu uns comandos vocais, captados pelo seu terminal no escritório, e o micro-analista enviou os dados para este. Ao fim de meio minuto, uma busca pela InfoRede forneceu-lhe indicações precisas sobre todos os ingredientes não identificados: moléculas de vários tipos de estimulantes, reconstituintes e suplementos vitamínicos. Drogas.

Num impulso, foi à casa de banho e vomitou tudo voluntariamente. Seria pouco provável que o seu organismo tivesse conseguido absorver algum daqueles componentes químicos, mas nunca se sabia. Irritado, regressou à cozinha, e procurou uma embalagem nova de lasanha. Desta vez testou-a de imediato no micro-analista interligado com a InfoRede, e a análise foi negativa. Não havia dúvida: Bea tinha deliberadamente misturado os comprimidos na sua comida.

Deu um murro na mesa. Porque tinha ela feito isso? Porquê? Não conseguia arranjar uma explicação lógica para isso. Ela sabia perfeitamente que ele estava a acabar com a sua dependência das drogas. Encolheu os ombros. Curiosamente, em vez da sua irritação aumentar, analisou logicamente as conclusões a que chegara. Bea gostava dele; tinha receio que o seu organismo, sem o suplemento de drogas a que se sujeitava regularmente há mais de três décadas, sofresse qualquer doença incurável. O que era uma estupidez, nunca se sentira tão bem como nos últimos dias. É certo que a dependência da nicotina era talvez o que lhe custasse mais; nunca tivera tanta tosse como agora, mas os ataques pareciam diminuir de intensidade. Mas decerto que Bea não pensava assim. Tal como uma criancinha que se recusa a tomar as suas vitaminas, Bea usara o subterfúgio de qualquer mãe: misturar as drogas com a comida normal.

Fora por mero acaso que detectara o sabor estranho da lasanha. Ou talvez não? Nos últimos tempos, parecia ter um paladar mais apurado. Podia ser apenas coincidência, mas o pacote de lasanha novo soube-lhe muito melhor do que normalmente. Estava a brincar com a comida e a meditar nestas coisas, quando o terminal do escritório anunciou pelos intercomunicadores da casa de que tinha obtido novos resultados. Atirou ambos os restos da lasanha para o minidesintegrador e arrastou-se para o escritório. Apetecia-lhe um duche, dos de água e não sónicos, mas teria de ficar para depois.

Deixou-se cair pesadamente na cadeira anatómica. Os agentes cintilavam em todas as cores do espectro, assinalando assim os novos resultados. Sorriu para si mesmo enquanto os activava, um a um. Não obtivera grande coisa, excepto umas funções estatísticas com tendências curiosas. Após a Segunda Abolição, a criminalidade diminuíra progressivamente até atingir praticamente o zero, cerca de duas décadas mais tarde. O que batia certo, pois a Segunda Abolição introduzira um comércio paralelo de todo o tipo de estupefacientes, que desaparecera da noite para o dia. Contudo, não houve uma tendência idêntica na redução de polícias: estes transformaram-se em ciberpolícias, passando a agir no domínio da censura activa. Até aqui, tudo bem. Mas o estranho era não existirem relatos de detenções devidas à censura. Ou seja: o ritmo de detenções também diminuíra até zero, com a descida da criminalidade, mas o Governo Terrestre mantinha o número de polícias quase constante ao longo das décadas. Se isso fazia algum sentido nos primeiros anos - seria caro despedir toda a força policial de um dia para o outro, com as consequentes indemnizações todas. O que o Governo aparentemente fizera fora reaproveitar a totalidade dos polícias e a mantê-los nas comissões de censura - mesmo que estes não fizessem mais nada do que isso.

Coçou pensativamente a ponta do queixo mal barbeado. A censura era, pois, uma das prioridades máximas deste Governo, há várias décadas. Não admirava, pois, que fosse tão eficiente a suprimir todas as referências históricas a todos os temas considerados tabus. Mas tal comportamento era completamente paranóico. O Governo parecia estar simplesmente aterrorizado com a ideia que alguém conseguisse obter informações censuradas. Porquê?

O segundo agente também encontrara outras tendências curiosas. Com a unificação dos governos da Terra - que fora extraordinariamente rápida após a Segunda Abolição, mais rápida que qualquer outra decisão alguma vez tomada na História da Humanidade - uma série de estruturas deixaram de fazer sentido, desde entidades financeiras que deixaram de se preocupar com questões cambiais, até às fronteiras que tinham sido abolidas e a consequente eliminação das alfândegas. Até aqui, nada de surpreendente. Os exércitos mantinham-se em efectividade, embora com um número reduzido de elementos, altamente especializados em combate eficiente, utilizado essencialmente para suprimir as constantes questões éticas, raciais e religiosas que deflagravam em confrontações regionais. Também essa evolução era esperada. Os exércitos diminuíam de tamanho com o passar dos anos, assim como o armamento NBQ (nuclear-biológico-químico), os mísseis intercontinentais que eram progressivamente desmantelados, e assim por diante. Contudo, uma coisa mantinha-se em número surpreendentemente elevado: o número de satélites-espiões em órbita da Terra e das principais colónias planetárias. Parecia não fazer sentido manter essa estrutura num mundo onde não existia rivalidade entre nações. É certo que, para os conflitos regionais, era útil dispor de satélites em órbita, mas não à escala dos tempos da Guerra Fria do século XX. E também era evidente que as megacorps usavam com frequência o espaço orbital para praticar espionagem industrial. Mas o grosso dos antigos satélites espiões estava na posse da... ciberpolícia! Ou seja: os Censores também tinham uma infra-estrutura em órbita terrestre, e não apenas na superfície do planeta. Para quê? O seu trabalho desenvolvia-se na InfoRede e seria lógico que os ciberpolícias controlassem satélites de telecomunicações, mas não de espionagem.

O terceiro agente, por sua vez, não tinha informação interessante. Classificava apenas os domínios da censura, por ordem de prioridade. Veio apenas reforçar a ideia de que tudo o que tivesse a ver com drogas e fantasias sobre a existência de vida extraterrestre tinha sido meticulosamente suprimido da InfoRede. Leo dirigiu esse agente para procurar mais informação sobre extraterrestres. Estava particularmente interessado em ler alguns relatórios conclusivos sobre os vários projectos científicos elaborados sobre o assunto. O agente não tinha encontrado nenhum. Tinham sido literalmente varridos da face da Terra - ou melhor, das bases de dados da InfoRede. Tentou aplicar cronogramas para tentar descobrir as datas mais prováveis da conclusão desses relatórios, mas a informação era demasiado vaga. Tudo apontava para que esses relatórios tivessem existido antes da Segunda Abolição, mas depois dela, nada tinha sido mantido em arquivo.

O último agente procurou estimar o crescimento do mercado mundial de farmacêutica e engenharia genética desde o seu estabelecimento nos inícios do século XX. Antes disso, a farmácia era uma disciplina artesanal, não fizera parte da Revolução Industrial. Subdisciplinas como a cosmética e a indústria alimentar nasceram a partir da indústria química. Pequenos micropaíses como a Suíça tinham estado na vanguarda dessa tecnologia, numa altura em que poucos investiam nessas áreas. Já no final desse século, a indústria química era das mais poderosas do universo corporativo. Mas o verdadeiro boom dera-se após a Segunda Abolição, quando todas as drogas passaram a ser permitidas, depois o seu uso activamente encorajado, finalmente levado ao ponto de fazerem de tal forma parte do quotidiano de cada cidadão que não era de surpreender que as maiores megacorps se dedicavam ou à InfoRede, ou à indústria química. Eram as duas maiores indústrias deste século.

Leo reclinou-se na sua cadeira, meditando sobre os seus resultados. Eram apenas fragmentos, mas apontavam para uma decisão, tomada numa dada altura após a criação do Governo Terrestre, de deslocar uma considerável parte dos recursos humanos para a supressão activa de todos os temas tabus. Em simultâneo, o Governo encorajara o crescimento tanto da infosociedade como da indústria química que «alimentava» os cidadãos com toda a espécie de drogas. As maiores megacorps tinham todas as regalias que o Governo lhes podia conceder: uma isenção parcial de impostos, linhas de crédito ilimitadas para financiamento da sua investigação, facilidades de colocação de produtos no mercado... um poder quase absoluto, mas de certa forma coordenado pelo Governo.

Coordenado não; controlado.

Isso era já uma maneira diferente de encarar a questão: o Governo controlava a InfoRede através da censura; e controlava a produção de drogas em estrita parceria com as megacorps da indústria química. Tudo o resto parecia seguir as regras do mercado livre.

O que faz um Governo quando controla a informação e a saúde dos seus cidadãos? A resposta era óbvia: domínio total sobre as suas vidas, em todos os aspectos.

A informação era manipulada para que os cidadãos apenas soubessem o que o Governo quisesse que eles soubessem; e obrigava-os a consumirem drogas. As coisas tinham de estar relacionadas. Porquê obrigá-los a consumir drogas?

Porque as drogas teriam algum efeito sobre o organismo que era importante para o Governo? Mas qual? Todos os efeitos negativos eram contrabalanceados por outras drogas que suprimiam esses efeitos negativos. Se alguém se sentisse embrutecido pelos efeitos do álcool ou de uma droga psicossomática, podia tomar um comprimido para anular imediatamente esses efeitos. Logo, o Governo não podia «controlar» cidadãos estupidificados pelas drogas. Correcto?

Não, mas a própria dependência das drogas - de todas elas, mesmo dos comprimidos que reduziam a obsessão por determinada droga - era uma consequência da sua vulgarização, tal como acontecera com a InfoRede: hoje em dia, ninguém conseguiria viver sem a InfoRede. Tal como ninguém podia sobreviver sem drogas. Leo estremeceu; ao recusar ingerir mais drogas, estava efectivamente a colocar-se fora do alcance do Governo. Era um elemento rebelde. Que teria de ser suprimido. Ou pelo menos reeducado. Mas como detectar se alguém não consumia a sua dose diária de drogas? Bem, através de despistes clínicos, claro. Um médico - humano ou máquina - que detectasse uma diminuição no consumo de drogas provavelmente receitaria um tratamento qualquer, à base de novos medicamentos, de forma a re-incentivar o seu consumo regular. E se alguém continuasse a recusar tomar medicamentos? Mais uma vez, os medicamentos e as drogas eram adquiridos através da InfoRede, e provavelmente os ciberpolícias estariam atentos a quem tentasse diminuir o consumo de drogas. Fazia sentido!

Num impulso paranóico, Leo activou o sistema de compras electrónico e adquiriu a sua dose normal de charutos e whiskey irlandês. Activou novo agente, mandou-o elaborar um gráfico do seu consumo regular de drogas, e automatizou o processo de forma a adquirir regularmente todo o tipo de comprimidos, sujeito a um pequeno desvio aleatório. Havia muita gente que automatizava o processo, justamente para não se dar ao trabalho de consultar as lojas na InfoRede periodicamente sempre que precisava de «alimentar» os seus «vícios», tal como, no fundo, também se fazia em relação aos alimentos e às bebidas.

Em conclusão: o Governo efectivamente controlava muito bem a vida dos seus cidadãos, apesar da sua fachada ser democrática e livre. Todos tinham a liberdade de fazer o que lhes apetecesse - desde que consumissem drogas e não consultassem dados proibidos na InfoRede.

Muito bem. Agora faltava determinar em que medida é que o consumo regular destes tipos todos de drogas afectava de alguma forma a sociedade - talvez o primeiro passo para tentar compreender porque é que o Governo parecia obcecado com isso. Programou os seus agentes com novos algoritmos para correlacionarem os estudos médicos e sociológicos das últimas décadas sobre o comportamento de uma sociedade dependente de drogas fornecidas pelo Governo. Isso ia levar bastante tempo, mas Leo estava entusiasmado. Bem, Bea era socióloga, talvez pudesse ajudar...

Satisfeito consigo próprio, lançou-se de novo ao trabalho relacionado com a sua profissão. Estava de tal forma inspirado que terminou a criação psicossensitiva para a Teixeira Duarte sem sequer precisar de ir buscar ideias aos impressionistas do século dezanove. A Bea iria ficar orgulhosa dele.

6.


Tal como anunciara, Bea chegou ao final do dia, com um aspecto cansado, como era normal nos dias em que ia dar aulas à Faculdade. Após várias experiências no passado tinha-se chegado à conclusão que, para uma maioria de alunos, a aprendizagem era facilitada pela presença física do professor. Bea dizia que era uma moda, provavelmente daqui por uns dez anos alguém apresentava um estudo a favor da tele-aprendizagem, e voltava-se ao modelo anterior durante mais uns tempos, até sair de moda, e assim por diante.

— Porque é que abriste outro pacote de lasanha? Eu deixei-te uma mensagem a dizer que estavam os restos do meu almoço no criogerador — comentou Bea, pousando o material audiovisual em cima da mesa da cozinha, e consultando os registos do criogerador.

Leo suspirou. Mais valia contar a verdade. — Bea, sabes bem que estou a cortar com os comprimidos. — Não disse mais nada, e o seu tom de voz fora completamente neutro.

Encararam-se por uns instantes, procurando ler os pensamentos um do outro. Finalmente, Bea quebrou o silêncio. — Leo, onde é que te estás a meter...?

Leo franziu as sobrancelhas, fazendo uma careta. — Que raio queres dizer com isso?

— As tuas manias de pesquisares coisas ilegais ainda te dão cabo da vida.

— Como assim?

— Ora, achas sinceramente que consegues levar isso por diante? Quero dizer, e se apanhares uma vulgar gripe, como é que te curas?

Leo fez um gesto vago. — Balelas. Três dias de cama a tomar bebidas quentes. Além disso, estou saudável que nem um touro; sinto-me muito melhor desde que acabei com as drogas todas.

— É? Mas depois uma gripe pode tornar-se numa pneumonia; e quero ver-te a curares isso com chá e cama! — Bea parecia genuinamente preocupada, mais do que irritada com a teimosia do artista.

Este encolheu os ombros. — Se isso acontecer, tomo uma decisão na altura — disse simplesmente. — Aliás, tu devias fazer o mesmo, sentias-te logo muito melhor... não custa nada fazeres também a experiência.

Beatriz cruzou os braços, batendo com o pé. — Mas que esperas provar com isso? Qual é o teu interesse nessa... «experiência»? Que proveito é que pensas tirar disso?

— Provar que é do interesse do Governo manter-nos drogados e sob controlo — disse ele calmamente, com sinceridade. — Porquê e para quê, ainda não sei. Mas de facto sinto-me muito melhor, Bea. Olha, ontem estive a andar a pé umas horitas... sem estimulantes, sem compensadores electrolíticos, sem bebidas isotónicas... apenas andar a pé, mais nada. Nunca pensei que tivesse fôlego para uma coisa dessas.

Bea suspirou, afastando uma madeixa da testa. — Agora estás a ser paranóico, Leo. Qualquer dia começas a acreditar que na realidade existe uma enorme conspiração do Governo contra nós... e isso é paranóia... entra por aqui a Polícia por aqui dentro e leva-te para um centro de recondicionamento, onde te enchem o cérebro com drogas mil vezes mais fortes para deixares de pensar. É isso que queres que te aconteça, Leo? Desafiar o Governo por embirrice, a ver o que é que acontece depois? — A voz tremia-lhe e já estava irritada quando prosseguiu: — Caramba, Leo, eu gosto imenso de ti, mas continuas burro e casmurro como uma mula velha! Não te quero ver lobotomizado ou lá como é que hoje em dia lidam com os elementos subversivos da sociedade...

— Elementos subversivos? — contrapôs Leo. — Por recusar-me a tomar drogas? Tem dó, Bea!

— Tu é que devias ter dó de ti próprio. Estás a armar-te em parvo sem necessidade. Já vês o que te dá abandonares as drogas, como tu lhes chamas, começas a ficar paranóico e cheio de ideias estúpidas...

— Acho que nunca raciocinei com tanta lucidez na minha vida — defendeu-se Leo, com um sorriso magnânimo.

Ela abanou a cabeça. — Tu não percebes mesmo nada, pateta — lamentou-se Bea. — Imagina que toda a gente pensasse como tu. O que aconteceria à nossa sociedade?

Leo pestanejou, sem resposta. — Isso de facto nunca me ocorreu...

— Pois é, tolinho. Imagina isso por um minuto. Que toda a gente deitasse os comprimidos todos no minidesintegrador, de um dia para o outro. Quando começasse toda a gente a adoecer, os hospitais não teriam camas suficientes para todos. As pessoas começavam a morrer em casa, a espalhar virus e bactérias. Uma nova Peste Negra, que poderia ser uma coisa tão simples como uma simples gripe: que farias tu com uma sociedade onde toda a gente, em todo o mundo, ficasse de repente três dias na cama? Deixaríamos de ter transportes públicos, energia, acesso à InfoRede... os próprios hospitais entrariam em colapso... e como tratar os doentes que se recusassem a tomar comprimidos? Havia de ser lindo, havia...

— Estás a exagerar, Bea. Sou só eu que estou a fazer isso, e a sociedade não vai entrar em colapso por minha culpa — assumiu Leo.

Os olhos azuis de Bea tornaram-se frios quando se fixaram nos do namorado. — Ah sim? E como sabes que és o único a fazer isso?

Leo estremeceu. — Bem, estou a assumir isso, claro... mesmo que sejam poucos... nada de mal aconteceria.

— Sabes lá se são muitos ou poucos! Ou és tão arrogante ao ponto de pensares que és a única pessoa no universo a pensar dessa forma? O único a ter essas ideias mirabolantes?

— Hum, também não pensei muito nisso...

— O teu problema, Leo, é não pensares em nada! E tens tudo à tua frente, e mesmo assim és cego ao ponto de te recusares a ver! Pior que uma cegueira artificia imposta paranoicamente por um Governo, só mesmo a de uma pessoa que pensa que sabe tudo mas que na realidade não sabe nada. — Nervosa, Bea puxou de um cigarro e acendeu-o. — Porque julgas que há gente na InfoRede suficientemente ousada para manter nós flutuantes ou lá como se chamam com as informações ilegais que vais lá buscar? Quem julgas que eles são?

— Nunca lhes perguntei...

— Pois claro que não, palerma! Logo vi que nunca pensaste nisso! — Soprou uma baforada furiosa de fumo azul para o tecto. — Mas de certeza que não são uns meninos de coro, pois não? Gente disposta a viver na ilegalidade, com informação altamente confidencial e ilegal, com a ciberpolícia à coca... quem pensas tu que são essas pessoas? E, contudo, dão-te acesso aos seus nós, em troca de quase nada... nunca achaste isso estranho?

Leo coçou a nuca. — De facto, isso já me ocorreu, mas...

— Mas não paraste para pensar duas vezes sobre o assunto. Leo, esses é que são os elementos subversivos da nossa sociedade... todas as sociedades os têm, é certo... e porque julgas tu que te dão essa informação gratuitamente? Porque estão a recrutar novos membros.

— Novos membros... de quê? Para quê?

— Seu revolucionário de merda! — exclamou Bea, furiosa. — Não percebes mesmo, ou só te estás a fazer de estúpido?! Então não vês que essa gente toda tem um objectivo concreto? O de minar a nossa sociedade, fazer com que palermas como tu acreditem nas coisas que lêem, nos tais «documentos secretos» que conduziram à Segunda Abolição, e que espalhem essa mensagem, tal como tu de forma atabalhoada tentaste fazer comigo...

— Eu? Desculpa, mas...

— Agora não me venhas com desculpas. Sugeriste ou não que eu deixasse também as drogas?

Leo encolheu os ombros. — Mas é verdade que me sinto muito melhor, Bea. Olha, até já acabei a encomenda para a Teixeira Duarte...

— Parabéns à prima, — retorquiu Bea. — Mas é assim que as coisas começam, Leo. Primeiro começas a acreditar nessas coisas. Depois começas a espalhar a palavra. As pessoas acreditam em ti, e pedem-te mais informações. Primeiro de uma forma tímida, envias-lhes os dados que já descobriste, de forma encriptada e segura... depois arranjas programas para activares o teu próprio nó flutuante... a seguir queres ser aceite como membro de pleno direito na organização e falas com os teus contactos... eles começam a confiar em ti, e começam a explicar-te como é que a organização funciona, e quais os seus objectivos... inflamado com a sensação de que estás a fazer algo pelo bem da Humanidade, entusiasmas-te cada vez mais com isto, até se tornar numa obcessão, e angarias, por teu lado, cada vez mais membros... onde é que isso irá parar, Leo? Sim, diz-me!

— Estás a ficar histérica — notou Leo, calmamente. — Presumo que tenhas lido isso nas tuas aulinhas de sociologia, não? Se calhar era melhor tomares um anti-histérico qualquer...

Desta vez os olhos de Bea tremeluziam com lágrimas. — Ainda não percebeste, meu tontinho...? Eu também faço parte dessa organização.

Leo abriu a boca de espanto. Por um instante a voz fugiu-lhe; ele que tinha sempre uma resposta pronta para tudo, apenas emitiu um som rouco. Teve uma necessidade quase incontrolável de tomar um whiskey, ou talvez de beber uma garrafa inteira, mas resistiu ao impulso. Sentou-se num dos bancos da cozinha, estupefacto. — Tu, Bea...? Mas como...?

— Só tu é que tens direito a leres os teus artigos secretos, Leo? Eu sou socióloga; a minha profissão obriga-me a estar em contacto justamente com estas questões. E é mais fácil ter acesso a informação muito específica sobre documentos mais antigos, mesmo que censurados. A dada altura comecei a estudar a Segunda Abolição e as suas implicações na sociedade que se lhe seguiu. Reparei de imediato que estava a ser efectivamente encorajada para não o fazer. Primeiro estranhei e insisti; a pouco e pouco, as barreiras começaram-se a erguer em meu redor. Isto foi muito antes de te conhecer; estava do outro lado do mundo nessa altura. A minha teimosia levou-me cada vez mais longe, até chegar a um ponto em que comecei a descortinar a ponta do véu de mentiras. Mentiras, Leo! Quase tudo o que sabemos hoje em dia é forjado, falso, produto de censura, de informação filtrada, alterada, omitida... e eu também comecei a ser «aliciada», Leo. Também vi este e aquele nó onde existiam informações ilegais sobre o período após a Segunda Abolição. Primeiro encarei tudo como trabalho, o meu trabalho académico, a conclusão do meu segundo doutoramento com uma tese brilhante que me podia valer o prémio Franck.

— O teu segundo doutoramento? Mas tens apenas um mestrado...

— Deixa-me continuar, por favor — insistiu Bea, puxando mais uma fumaça. — A ciberpolícia um dia bateu-me à porta e interrogou-me sobre as minhas investigações académicas. Fez-me ver de forma bem clara e inequívoca que não podia continuar esse ramo de pesquisa. Entrei em pânico, Leo! Tal como tu, nunca tinha até à data pensado nas consequências de mexer em coisas ilegais. Fiquei assustadíssima, e que fiz? Pedi ajuda... por ironia, aos mesmos elementos subversivos, nos quais tinha uma inexplicável confiança, maior que na polícia. Raciocinei que se a polícia já desconfiava de mim o melhor seria desaparecer completamente e refazer a minha vida do zero. E que vida, Leo! Eu tinha marido e dois filhos. A Organização forjou um acidente, que nunca convenceu totalmente a polícia, e graças à terapia genética arranjei um novo corpo e uma nova identidade. Voltei para o Portugal que tinha largado há cinquenta anos e...

Cinquenta anos?! Mas...

Irritada, ela colocou as mãos nas ancas. — Sabes perfeitamente do que a cosmética genética é capaz, Leo. E sempre soubeste que eu recorria a isso, não te mostres assim tão surpreendido. Sim, tenho sessenta e cinco anos, quase idade para ser tua mãe. Respeitinho pelos meus cabelos brancos. — Suspirou, e fez um gesto perfeitamente anacrónico para uma mulher da sua idade, brincando com uma madeixa do cabelo. — Continuando... inscrevi-me de novo na Faculdade, tirei um mestrado, a vida corria-me bem, mas agora usava imensas precauções para não ser apanhada de novo. Tu não fazes ideia do que a minha vida foi de início. Deixar um lar, filhos, amigos, todos a pensar que tinha morrido... foi insuportável. Não desejo isso ao meu pior inimigo. E depois conheci-te, e só ao fim de uns anos reparei que estavas a manifestar interesse em todas estas questões... a princípio fiquei horrorizada, Leo. Que podia fazer? Encorajar-te seria demasiado perigoso; mas se te desconvencesse abertamente, que pensarias de mim? Teimoso como és, provavelmente ignoravas-me, mas depois poderias começar a pensar que eu estava a insistir demasiado e começavas a desconfiar das minhas intenções. Que fazer? Oh, mais valia ter morrido mesmo! — exclamou ela.

Leo abanou a cabeça, quis abraçá-la, mas subitamente deu-se conta que estava na presença de uma completa estranha. A Beatriz que conhecera não era a pessoa que ali estava. Fora tudo uma fachada. Até talvez a paixão entre os dois. Sentou-se num banco da cozinha. — Não digas uma coisa dessas...

— Fui demasiado covarde para me suicidar, a verdade é essa — admitiu Bea, num tom de voz melancólico. — E depois sempre fiquei com a ideia de que talvez, no futuro, quando as feridas sarassem, pudesse realmente recomeçar a minha vida do zero. Claro que não consegui abandonar por completo os meus ideais. Fui cinquenta mil vezes mais cautelosa, mas mantive contactos esporádicos com os meus antigos camaradas da Organização. Como já te expliquei, os sociólogos conseguem obter com mais facilidade acesso a originais dos documentos proibidos. O risco é enorme, mas as dificuldades vencem-se. Aqui e ali encontrei mais indícios do passado que reforçavam as nossas ideias... muitos dos documentos que tu encontraste provavelmente foram recolhidos por mim, alguns há quinze anos atrás, outros mais recentemente... e as conclusões não são nada agradáveis, Leo. Nada mesmo.

— Estás-me a despertar a curiosidade...

— Estou é a falar demais! — exclamou Bea. — Quanto mais conto, mais te enterro! E eu não quero que isso aconteça, Leo. Gosto imenso de ti... mais do que provavelmente julgas. Fazes-me lembrar de como eu era quando tinha a tua idade...

Leo abanou a cabeça. Pensativo, entrelaçou os dedos das mãos. Foi uma pausa silenciosa que antecedeu as suas palavras. — Bem. É inútil insistir. Estou pasmado com tantas revelações, mas quero ouvir respostas, quero saber a verdade.

— E condenares-te a ti próprio a uma vida de fugitivo? Não me parece, Leo. Aprende com os meus erros...

— Tomo as minhas decisões sozinho, obrigado — resmungou o artista. — Bea, posso não conhecer nem um décimo do que tu sabes, mas não tenho agora dúvidas nenhumas das intenções do nosso Governo. Se as tinha, dissiparam-se com a tua história. Ainda estou um pouco chocado com isto tudo. Sinceramente, para teres chegado a esse extremo, espero bem que a verdade valha a pena.

Ela apagou o cigarro e cruzou os braços. — E estás disposto a sacrificar tudo em prol dessa «verdade»? Leo, digo-te com sinceridade, estás a tomar uma decisão completamente irracional. Nada neste mundo merece tal sacrifício.

— Mas tu fizeste-o — notou ele, apontando-lhe um dedo.

— E muitos outros também.

— Sacrificaste a tua vida e a dos teus filhos — tornou ele.

— Não me fales nisso — disse ela, revirando os olhos. — Não podes compreender o que sente uma mãe, afastada dos filhos para sempre... quantas vezes não sonhei poder ser capaz de lhes mandar uma mensagem a dizer que estou bem... às vezes leio notícias na InfoRede, procuro acompanhar as suas vidas... mas não é a mesma coisa... não, Leo, não fazes a menor ideia. Ainda estás a tempo de salvar a tua vida. Isto... — e abriu os braços — não é vida para ninguém.

Leo cofiou a barba. — Uma mártir... — reflectiu.

— Como?

— Uma mártir, — repetiu Leo, num tom de voz mais alto. — Como os primeiros cristãos. Sacrificando a sua vida por algo em que acreditavam, que era mais importante do que a sua vida. Foi assim que nasceram as religiões mais poderosas deste planeta.

— É isso que pensas que eu sou? Uma fanática religiosa?

— Não me interpretes mal — contrapôs Leo. — Era um elogio, não uma crítica. Tu — e talvez os «outros», presumo eu — estão tão convencidos de que é fundamental manter vivo o espírito da verdade que não olham a meios nem a sacrifícios pessoais. Mmmh. Tem de valer a pena. — Cruzou os braços por sua vez. — Vá, conta-me tudo. Sou todo ouvidos.

— Nem penses nisso, não vou destruir a vida de mais gente. Se quiseres saber a verdade, descobre-a tu sozinho.

— Não vais «destruir» a vida de ninguém. — Suspirou pesadamente. — Bea, eu não tenho grande «vida», convenhamos. Quem sou eu? Um miserável artista medíocre, desconhecido, ignorado, desprezado. A sociedade não sente a minha falta. Mas sou um idealista; acredito em princípios morais. Estás-me a dar uma oportunidade de fazer algo com significado. Se tenho de abdicar da minha «vida» para ser útil a essa causa... bem, abdico-a de bom grado. — Fez um gesto vago na direcção do escritório. — Talvez a única coisa de bom que saiu daquele terminal foi justamente ter encontrado fragmentos da verdade... mas eu posso fazer muito mais, Bea. Não sou completamente atrasado mental. Julgo que estou mais que apto a realizar um trabalho infinitamente mais importante do que o meu actual. — Coçou a cana do nariz. — De certa forma, parece que tenho muito mais a contribuir à vossa causa do que através da minha arte sofrível...

Ela arqueou uma sobrancelha. Mas não disse nada durante uns instantes. Depois suspirou, esfregou o rosto com as elegantes mãos. — Que se lixe... vamos para a sala, estamos lá mais confortáveis.

7.


— É nestas alturas que estou arrependido de ter deixado o whiskey — resmungou Leo, afundando-se numa das poltronas da sala, observando o copo de sumo de tomate com tristeza.

Bea exibiu um pequeno sorriso. — Há quem tenha destilarias ilegais, obtidas de produtos naturais, não adulterados...

— Como assim?

A jovem-que-era-uma-mulher-de-meia-idade suspirou, cruzando as pernas. — Ok, já percebeste que há razões para o Governo insistir no consumo de drogas.

Ele encolheu os ombros. — Até aí, já cheguei. Estão a ocultar deliberadamente as provas de que as drogas têm efeitos nocivos.

— E de facto têm, mas podem ser evitados facilmente...

— Tomando novas drogas. E assim por diante. Sim, até aí já percebi eu, mas... porquê?

— Vamos com calma. Um passo de cada vez. — Bea acendeu um cigarro, observando a ponta. — Estes cigarros, por exemplo, contêm tabaco... mas tabaco plantado ilegalmente.

— Não percebi.

Todas as drogas que existem no mercado têm uma «contra-droga» que anula os seus efeitos. Nunca achaste isso curioso?

— Desde que se saibam quais os efeitos nocivos que causam, é fácil fazer essas «contra-drogas»...

— Mas no fundo estás a substituir um vício por outro, certo? Uma «contra-droga» é a mesma coisa que uma droga. Também ficamos dependentes dela, pois não queremos abdicar dos vícios, mas não queremos estar sujeitos aos seus efeitos nocivos. Correcto?

Leo inclinou-se, observando-a com atenção. — Sim, eu sei. Onde queres chegar?

— Portanto, é do interesse do Governo manter as drogas controladas, na medida em que se saibam exactamente quais os efeitos nocivos de cada droga, de modo a ser sempre possível criarem «contra-drogas» que os anulem.

— Ou seja, o Governo controla a produção de todas as drogas e «contra-drogas».

— Exactamente.

Ele coçou o couro cabeludo, num gesto de primata confundido. — Ok, tu queres dizer que o Governo mete o nariz em tudo que sejam drogas. Porque se aparecesse uma nova droga, com efeitos desconhecidos e nocivos, não seria possível elaborar uma «contra-droga» suficientemente depressa para os anular... hmmm, estou a ver. Espalhava-se o pânico entre a população, e as pessoas começavam a desconfiar dos efeitos das drogas. Subitamente deixava de ser óbvio que não nos faziam mal nenhum.

— Continua, que vais lindamente — encorajou Bea.

— Sendo assim, todas as drogas no mercado são... são sempre as mesmas. — Leo observou a loura mulher de perna traçada. — Nunca tinha pensado nisso antes. Há séculos que usamos sempre as mesmas drogas! Álcool, tabaco, haxixe, marijuana, LSD, Valium e derivados... e porquê? Porque estão bem estudadas, sabemos quais são todos os seus efeitos. — Abanou a cabeça. — Mas não consigo compreender porquê. Ok, já percebi que o Governo nos fornece todas as drogas e que não aparecem drogas novas no mercado... porque no fundo não é necessário. Hmmm. O Governo quer, pois, manter-nos sempre drogados, com drogas cujos efeitos são controlados... mas qual o verdadeiro interesse nisso?

— Parece-me mais que evidente, Leo. Tens uma sociedade dependente de drogas, mantida sob controlo. Qual é a consequência desse efeito?

— Apatia? — interrogou-se o artista.

— Nem mais — concordou Bea com um sorriso.

— Hmmm... estagnação da sociedade. Não existem desenvolvimentos novos. Apenas aperfeiçoamentos tecnológicos... e mesmo esses são poucos.

— Olha para a nossa casa. A maior parte da tecnologia que aqui está foi inventada há dois séculos atrás. Desde o computador quântico que nada de novo se inventa que seja realmente revolucionário...

— Mas qual o interesse nisso?

Bea suspirou. — Pensa na nossa sociedade. Pensa no que fizemos nos últimos dois séculos. O que nos falta?

— Em termos tecnológicos...?

— Qual foi o grande desafio da Humanidade no século vinte?

— Acabar com a guerra? Com a poluição? Uma sociedade global, dominada por uma aliança tecnológica e económica? Mas temos tudo isso hoje em dia...

Ela abanou a cabeça. — Tens de olhar mais para trás... o que aconteceu nos séculos anteriores ao vigésimo? O que acontece quando uma sociedade estagna ou pára o seu desenvolvimento?

— Bem, a civilização desaparece... é isso que queres dizer?

— Estava a pensar justamente na alternativa a isso. Pensa nos portugueses do século quinze!

— Os Descobrimentos?

— A expansão territorial — disse Bea.

— Mas a Terra já não tem mais espaço. Colonizámos os continentes todos e os oceanos, tanto à superfície como no fundo dos mares... e fomos para os planetas distantes do sistema solar.

— Exacto. Mas...

— Mas não podemos passar daí, não temos tecnologia para sair do sistema solar... oh, estou a ver o que queres dizer. Parámos nos limites do sistema solar. As estrelas... são inalcançáveis!

— Precisamente. Não desenvolvemos tecnologia que nos permita sair deste sistema. Sim, claro que enviámos sondas não-tripuladas a Alfa Centauri que levaram meio século a lá chegar, a velocidades subluminais. Mas não passámos disso.

Leo abanou a cabeça de novo. — Mas, Bea, não existe maneira de lá chegar doutra forma! As estrelas estão mesmo para além do nosso alcance. Só se se violar os limites einsteinianos, mas isso, claro, é impossível...

— Porquê «impossível»? O teleporte de matéria foi demonstrado mesmo no final do século vinte. Claro que para funcionar à macro-escala seriam necessários computadores com capacidades na altura impossíveis de imaginar. Mas foram desenvolvidos computadores quânticos com capacidades para além da compreensão humana... ou seja, a teoria existia... mas nunca foi colocada em prática!

— Isso é um absurdo, o desenvolvimento tecnológico para isso nunca se deu... e mesmo assim, não se poderiam ultrapassar os limites einsteinianos...

— Mas podia-se chegar a Alfa Centauri em 4 anos, sem dificuldades de logística. Mesmo as restantes estrelas mais próximas poderiam ser atingidas facilmente, mesmo que se levasse anos ou décadas a receber informação de lá... agora em termos de logística, o teleporte resolveria todos os problemas! Nunca se avançou para esse aperfeiçoamento tecnológico. E porquê? Porque uma sociedade apática, drogada e controlada pelo Governo, perde o desejo de expansão territorial. Ficamos contentes com o que temos e deixamos de desejar abandonar o planeta-mãe.

Leo mudou de posição na cadeira. — E qual o interesse nisso? — perguntou pela milésima vez. — Porque é que não haveremos de visitar as estrelas próximas? Se calhar estou a fazer as perguntas erradas... porque é que o Governo não quer que as visitemos?

— Diz-me tu. Leste tudo o que havia sobre o assunto.

O artista riu-se. — Não me digas que isto tudo tem a ver com os relatos dos maluquinhos dos discos voadores!

Bea apenas ergueu uma sobrancelha, mas não comentou.

Leo levantou-se da poltrona, passeando pela sala, cofiando a barba. — Ora o que me estás a querer dizer é que existe um fundo de verdade nesses relatos alucinados... nunca percebi qual a relação entre umas coisas e as outras. Ou seja, parecia-me que deveria haver uma razão para o Governo proibir informação sobre literatura utópica e sobre discos voadores, ao mesmo tempo que encorajava o uso de drogas. — Abateu os ombros. — Bem. Queres convencer-me de que existe vida inteligente extraterrestre e de que o Governo não quer que entremos em contacto com os visitantes de outros planetas? Mas isso é assumir a existência duma megaconspiração... não sei se estou preparado para aceitar isso.

Bea fez um pequeno sorriso e entrelaçou os dedos das mãos. — Comparado com a megaconspiração do controle pelas drogas, até parece que estás a fazer um grande esforço... tens de concordar comigo de que é preciso haver uma razão muito forte para que um Governo chegue a estes extremos! E os indícios apontam para isso, não apontam?

O artista não respondeu de imediato. Parecia concentrar-se, colocando a ponta dos dedos sobre as pálpebras. — Ver para crer — disse, finalmente. — Tenho de ver esses... esses alienígenas, extraterrestres, bichos doutros mundos. Onde estão eles?

O rosto de Beatriz iluminou-se com um enorme sorriso. Pegou-lhe gentilmente na mão, como uma adolescente que arrasta um amigo para um local secreto. Suavemente disse-lhe ao ouvido: — Vem comigo, vou-te mostrá-los...

 

acerca do conto...
Título: Cegueira Artificial
Data: 09/05/00
Autor: Luís Sequeira
e-mail: [email protected]