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a mão decepada
por Nilza Amaral <[email protected]>

Um conto de terror


A Mão Decepada

Jair, jardineiro, encerrado na estufa, corta os caules das flores velhas. A máquina emperrada, uma espécie de serra improvisada, ronrona preguiçosa dando a Jair o direito de viajar e divagar por mundos paralelos. Faz um pedido a um deus distante: deseja ser feliz. De repente descobre o acasalamento de duas lagartas gigantes sobre imensas folhas verdes. Tenta alcançar uma delas, mas jamais poderá imaginar, que é uma imagem de luz: um holograma, pois o conceito escapa ao seu imaginário:ele acredita em saci-pererê e gnomos da floresta. Misteriosamente para Jair, a imagem se vai: desintegra-se no espaço, como polens voadores. Ele acha que o seu pedido está sendo satisfeito. Algum deus distante e desconhecido está manobrando para a sua felicidade. Quase que de súbito, a serra teimosa, desembesta numa velocidade absurda e Jair vê sua mão sendo decepada pouco a pouco. Varrido pela dor desmaia. A mão pendurada presa por uma única pele, destaca-se e corre a esconder-se no cesto de caules velhos.A estufa transforma-se numa câmara de fumaça.

Jair acorda no hospital da pequena cidade - tão deficiente quanto a serra que o aleijara. Medicado e com o antebraço enfaixado com espessas ataduras. Só ouve a última frase das recomendações do médico.

- Foi uma pena não terem achado sua mão. Poderíamos ter feito um enxerto. Se conseguirmos um cadáver em até 72 horas, poderemos tentar o implante.

Já em casa a última frase do médico martela sua cabeça. Procura a mão perdida na estufa em cinzas. Encontra-a no cesto, carbonizada. Tenta limpá-la, e a coloca no soro fisiológico. Com esperanças de que se regenere. A serra criminosa, entretanto, está incólume.

O pensamento de encontrar a mão perdida, torna-se idéia fixa. Caso a resolver em menos de sessenta e oito horas. Quatro já se foram. Terá que achar um corpo igual ao seu para um ajuste perfeito. Não necessariamente um cadáver. Franzino, baixo, magro. Sem a mão direita, o que lhe resta além da feiúra e da magreza? . Mesmo a mão de uma criança se adaptará ao seu braço tão fino.

Pesadelos iniciam-se. Dedos carbonizados arrancam-lhe os cabelos, furam-lhe os olhos, invadem sua garganta puxam-lhe as amídalas. A cada noite, a invasão é maior! Penetram os labirintos de seu corpo, invadem os orifícios, examinam seus ouvidos, entram em suas narinas, asfixiando-o, retirando todo o seu oxigênio. Defende-se, luta com braço aleijado, amanhece sangrando, os lençóis encharcados de vermelho úmido. Passa a não dormir. Amanhece na janela de sua edícula escondida, um ponto ínfimo na floresta abandonada. As horas se esvaem. Só lhe restam quarenta. Então vê a sombra que ultrapassa o grande portal da outra dimensão. Jair nem imagina que haja mundos paralelos. O seu mundo é aquela floresta e as suas flores. A sombra pára sobre a ramagem espessa e se materializa na adolescente franzina de membros compridos. Envolta por uma aura colorida. O que não causa espanto a Jair, pois dos ignorantes não será o reino dos céus? É puro e certo que ele jamais ouvira ou ouvirá falar de Thomas Young, ou Dennis Gabor. Jamais saberá que aquela imagem está viajando num vácuo, a cento e oitenta e seis milhas por segundo. E est6aacute; vindo de um mundo paralelo, ultrapassando o portal do tempo. Aceita a situação como uma dádiva divina ou satânica. Pula a janela e parte em disparada naquela direção. Mil demônios ordenam que ele arranque a mão daquele corpo. Mais mil lhe insinuam o deleite de ter a criatura em seus braços. Jamais tivera uma mulher. Sempre se contentara com as gatas e os buracos das cercas.

Alcança-a. A aura que a envolve desaparece.

- Que alívio! O Supremo Ser me enviou você, disse ela, peito arfando de cansaço. Estou perdida. Não sei como vim parar aqui.

Ele não responde. Exalta-se interiormente com excitada emoção. Fixa o olhar nas mãos da garota. Unhas pretas.

-Às vezes nossos desejos são atendidos. Por Deus ou pelo Cão. Vamos até a minha casa, lá você poder6aacute; descansar um pouco.

Ela consente. Parece curiosa sobre o lugar.

No cômodo acanhado, ao som da fraca lamparina, percebe o ferimento.

- Feriu-se?

- É. Sou jardineiro. Perdi minha mão na serra de cortar caules.

- De onde vim teria imediatamente se recuperado. Já nos regeneramos automaticamente.

- E onde é isso?

Ela se cala. Não reconhece aquele ambiente pleno de verde. E aquele ser excêntrico.

O aroma do chá de melissa fumegante inunda o ambiente.

- Beba isso, é calmante.

- Essas ervas, já não as cultivamos. Qual é o efeito?

- Que isso, garota? O efeito dessa erva é apenas relaxante. Você está muito nervosa.

- Obrigada. Estou mesmo é confusa. Pode me dizer que tempo é esse?

Jair deixa a pergunta sem resposta. Ora, que tempo é esse. É o tempo em que perdi minha mão.

Porém, mal acaba de tomar o chá, a garota entra em torpor e adormece profundamente.

Ele tenta despi-la de suas roupas leves. Tenta tocar-lhe o empinado seio, quer brincar com seus mamilos rijos, examinar-lhe o sexo. Estranha a textura de sua pele, misturando-se com o tecido do lençol. A aura volta a circundá-la. Lá estão as unhas pretas.

O prazer há tanto desejado não pode se concretizar. Supersticioso atribui o facto a um anjo de protecção da garota. Quase desiste, mas os demônios não perdem a oportunidade de sussurrar em seus ouvidos: "serre essa mão, rápido, não terá outra oportunidade".

Larga sua presa por instantes, e dirige-se à estufa. Lá está a serra maldita. Corre de volta. E se o chá perder o efeito? Afinal mexera demais com a garota, desperdiçara tempo.

Ela não est6aacute; sobre a cama, embora suas roupas estejam caídas no chão. Vacila por instantes. Afinal não era um assassino. Não poderá assassiná-la para conseguir a mão decepada. Arrepende-se de ter perdido tempo. A tentação da carne o atrapalhara. Mas não desistirá. Afinal a garota é magra e fraca. Será fá:cil dominá-la. Não precisará: matá-la.

- Desculpe, estudo o lugar. Fui até à floresta.

Nua e linda!

- De onde vim temos premonições e parece que esse chá ajudou.

A oportunidade!

- Posso fazer mais se quiser. Melissa é que não falta aqui.

- Preciso achar a saída. Meu companheiro deve estar à minha procura. Sempre descemos em dupla. Ele não deve ter encontrado o portal.

Companheiro! Portal? E a floresta por acaso tinha algum portal? Precisava agir rápido.

- Você pode pegar as minhas roupas? Preciso de meu comunicador.

- Não. Vai ter que esperar clarear. Você teve sorte de não ser atacada por algum animal.

Aproveita quando ela se abaixa para vestir a calcinha. O tronco atravessa a sua cabeça, termina o baque na parede, não se mancha de vermelho como ele esperava, a mancha é colorida e brilhante. Purpurina! Desacordada ela se materializa. Ao colocá-la sobre a cama, pressente passos na ramagem. Precisa agir rapidamente. Liga a serra. Funciona, a bateria está carregada. Serra a mão sem dificuldade. Um pulso tão fino e sem sangue!

Coloca a mão no isopor com soro fisiológico e corre ao hospital no caminhão mambembe. Nada o impedirá de chegar. Nova sombra aparece por entre duas árvores. O baque do impacto e a protuberância sobre as rodas não o impedem de continuar. Ainda vê a sombra envolvida numa aura brilhante pelo espelho retrovisor.

Os médicos não perdem tempo. A mesa operatória é preparada rapidamente. O único transplante de mão naquele hospital de segunda classe os deixará famosos. Será o reconhecimento. As luzes se apagam. Exceto a corrente que alimenta o laser a rubi. Será quase no escuro, sob a iluminação mortiça do gerador... O laser é potente o suficiente. O isopor está pronto, o material à mão. Não haverá erro.

A cirurgia é um sucesso, nenhuma rejeição. Em uma hora as ataduras serão retiradas. A rádio local e o jornal da cidade estão presentes para registrar o facto. Chega o momento.

Ao levantar o lençol um grito de horror ecoa no quarto. Há dedos por todo o corpo do jardineiro. Remexem seu cérebro, enfiam-se pelas narinas, expõem todos os seus orifícios.

A mão implantada está descoberta. As ataduras foram arrancadas. E desintegra-se lentamente.

O forte estrondo desperta as pessoas do choque petrificante. O quarto ilumina-se feericamente. A imagem holográfica do casal estranho projecta-se no quarto. Por instantes apenas. Abre-se um portal brilhante e ambos desaparecem através da parede.

Os médicos saem da letargia e verificam surpresos que a mão carbonizada implantara-se com sucesso no pulso do jardineiro.

O laser rubi ainda avermelha o orifício na parede.

acerca do conto...
Título: A Mão Decepada
Data:
Autor: Nilza Amaral
e-mail: [email protected]