Retrocedersimetria: ficção
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ainda não estou convencido
por Paulo Pinto Carvalho <[email protected]>

Éramos dois putos com cerca de 10 anos quando, após o Luís ter estado na minha casa a ver um filme de ficção cientifica no vídeo, discutimos o assunto pela primeira vez.

- Achas que existem mesmo extraterrestres?- perguntei-lhe eu.

Olhou-me como se lhe tivesse feito a pergunta mais esquisita do mundo.

- Claro que não, só existem nos filmes. Já viste algum ET a passear-se por aí na rua, ou a chocar com o OVNI contra a Terra? Se isso acontecesse já tínhamos visto nos noticiários.

De facto o seu argumento calou-me.

Mas é claro que, de tempos a tempos o assunto voltava a tona. Foi meia dúzia de anos mais tarde no ano de 1996, quando discutimos mais a sério o assunto pela primeira vez, os noticiários do mundo inteiro estavam a exibir a imagem de uns microorganismos encontrados dentro de um meteorito proveniente de Marte, o ALH84001.

- 'Tás a gozar! Isso é tudo treta! - Luís estava, tal como eu, agora bem mais velho, a um passo de deixar de ser adolescente. Andava meticulosamente bem vestido e penteado. Todos o chamavam o "padreco", por causa das suas conversas sérias e do seu aspecto severo, sempre com as sobrancelhas carregadas.

Eu tinha crescido para encarnar o modelo típico do puto português, desleixado e mandrião, amante da boa vida. Usava umas jeans gastas que já tinham deixado de me servir há uma eternidade. Tinha o cabelo comprido e despenteado, bem como uma amostra de barbicha a aparecer-me na cara. Apesar do meu aspecto era um aluno aplicado e gostava de biologia, por isso quando a notícia do micróbio marciano apareceu tratei de investigar a fundo o caso, obstinado por esfregar as minhas conclusões na cara teimosa de Luís.

- Não, não é. Luís, desta vez não se trata de relatos de OVNIs nem de raptos por extraterrestres. É uma prova científica e palpável da existência de vida microscópica extraterrestre.

- Não, não é! - Luís repetiu a minha frase com cara de gozo. Estava claro que se tinha preparado para aquela situação. Levantou a mão esquerda e ergueu o polegar: - Primeiro, apesar das formas encontradas "parecerem" biológicas, tal só será confirmado quando for possível fazer uma análise ao seu interior e ver se se trata de uma célula ou um amontoado de terra com um formato curioso... - levantou o indicador - Segundo: os resíduos orgânicos encontrados junto das tais pretensas bactérias são resultado de processos biológicos, é verdade mas não são exclusivos dos processos orgânicos... Terceiro - e levantou o dedo médio. Eu já devia estar a ficar vermelho de raiva. Pensava ter feito um bom serviço para contradizer o Luís, mas ele fez um serviço ainda melhor do que o meu. Continuava a palrear termos técnicos, já tendo o dedo mindinho levantado... - O meteoro esteve 13 mil anos na Terra, assim sendo há grandes hipóteses de ter sido contaminado por microorganismos terrestres. - Fechou a mão e olhou-me sorridente - Em conclusão, ainda não estou convencido que exista vida extra terrestre.

Passou-se mais de uma década até acontecer algo que me desse argumentos para o fazer mudar de opinião...

A segunda sonda internacional a Marte enviou para a Terra amostras de solo marciano. E as cornetas soaram novamente nos serviços noticiosos de todo o mundo: "Confirmada a existência de vida em Marte". Numa das amostras recolhidas no fundo de um extinto rio marciano foram encontrados fósseis de três tipos diferentes de organismos unicelulares, não muito diferentes daqueles que haviam dominado a Terra sensivelmente na mesma altura, há milhões de anos atrás.

A minha profissão de biólogo garantiu-me a posse de dados suficientes para desarmar qualquer objecção que Luís pudesse apresentar. Marcamos encontro num fim de semana.

Entrei no café, onde ele já se encontrava à minha espera. Continuava a vestir-se impecavelmente, agora todo de negro, e com o cabelo puxado para trás numa perfeição geométrica. Lia o jornal despreocupadamente. Sentei-me.

- Ora viva, senhor pregador! - é verdade, esqueci-me de dizer que ele era pregador de uma das seitas que surgiram no virar do milénio. Foi um bom uso a dar ao curso de relações publicas que tirou. Pousou o jornal e retirou os óculos. Levantou-se e deu-me um caloroso abraço.

- Nem precisas de me dizer nada - disse, sentando-se novamente. - Já sei sobre o que queres falar...

Não lhe dei chance:

- A amostra de Marte. - falei o mais depressa que pude, para que ele não tivesse tempo para me contradizer. Contém definitivamente formas de vida microscópicas, analisadas e comprovadas. E desta vez não pode ter havido contaminação por formas de vida terrestres, foi tudo em laboratório. E não há dúvidas que a rochas seja mesmo proveniente de Marte. E se há hipótese de haver bactérias extraterrestres, também há hipótese de haver vida inteligente fora da Terra. Que me dizes agora? Tenho ou não tenho razão?

Luís sorriu-me. Do bolso interior do casaco tirou uma folha dobrada. Ao desdobrá-la descobri que se tratavam de várias folhas. Todas tinham imagens de ampliações dos micróbios marcianos e relatórios de análises químicas.

- Sim...? Aonde queres chegar? - fitei-o sem perceber qual a sua intenção.

- Isso são análises aos pretensos organismos marcianos.

Eu anuí.

- ...Excepto as últimas folhas. Parecem idênticos aos outros, mas de facto são fósseis de organismos terrestres com 4 mil milhões de anos, encontrados junto da cratera de Bowman, no fundo do Pacífico.- eu anui. Já tinha ouvido falar nessa cratera descoberta há algum tempo no fundo do oceano, provocada por um impacto ainda maior do que aquele que os cientistas achavam ter provocado a extinção dos dinossauros, muito tempo depois. Esta cratera era tão grande que resistiu a todas as mudanças geológicas e ao desgaste provocado pela água. Agora havia ténues vestígios dela, tal como também haviam sobrevivido fósseis das formas de vida dessa época. Mas que tinha isso tinha a ver com a nossa discussão? Levantei as sobrancelhas ao perceber onde Luís queria chegar.

- ...'Tás a gozar!- reclamei, incrédulo.

- Já deves estar a perceber onde quero chegar - a lógica foi a mesma usada para justificar a descoberta de meteoritos marcianos na Terra: o impacto do meteoro, todos esses milhões de anos atrás foi suficiente para que algumas das rochas projectadas atingissem velocidade de escape e saíssem da atmosfera da Terra, vagando numa órbita errante até atingir Marte. Ai, elas tentaram reproduzir-se e adaptar ao seu novo ambiente, mas não conseguiram. Por isso a Marte é estéril e a Terra não.

À medida que ele ia falando eu tentava abrir a boca para contra-argumentar, mas sem sucesso. Ele tinha uma lógica matemática e indiscutível. Podia ter-lhe dito imensas coisa para objectar à sua opinião, mas nenhuma delas o convenceria. Ainda não tinha a prova definitiva nas minhas mãos. Eu sabia que era verdade, mas não tinha maneira de o comprovar de uma maneira irrefutável.

Afundei-me na cadeira, desanimado por ter perdido mais uma discussão com Luís.

- Como podes depreender, ainda não estou convencido que exista vida extraterrestre.

Não falei mais do assunto com ele. De facto o nosso debate generalizou-se pelos cientistas de todo o planeta. Sensivelmente metade estavam convencidos que os micróbios eram de origem extraterrestre, a outra metade dos cientistas pensava, tal como Luís, que os micróbios tiveram origem na Terra. Como os fósseis estavam demasiados degradados para permitir uma análise de ADN que poderia resolver definitivamente a questão, esta ficou em aberto por quase mais uma década, até que a quarta encarnação do projecto SETI (pesquisa de vida inteligente extraterrestre) detectou emissões electromagnéticas de origem estranha provenientes de uma planeta a 60 anos luz da Terra. A notícia correu o mundo em menos de 5 minutos, espalhada por redes de comunicação. Até ao final do dia não havia nenhum homem, mulher ou criança em todo o planeta e arredores que não soubesse que o planeta SR2009-P4 estava a emitir ondas de rádio numa frequências extremamente elevada.

O que isso quer dizer? Pela primeira vez desde o começo da História, ouvíamos uma voz vinda de outro planeta. É claro que não se tratava propriamente de uma voz. Parecia, depois de tratado por computador, o chilrear de um fax do século XX. Audível 3 horas por dia. Nunca se repetindo.

Isso mereceu uma visita a Luís. Entrei no seu gabinete, estava ele a falar para a câmara, ainda a realizar um dos seus programas de evangelização difundidos via AINET, para milhões de pessoas em todo o mundo. O seu culto havia crescido e aproveitado a maré das novas tecnologia para angariar ainda mais adeptos.

Ao ver que ainda estava a trabalhar, parei junto à porta. Fez-me um discreto sinal, convidando-me a entrar. Continuou o seu sermão:

- ... mas abordaremos agora outro problema.- fez uma pequena pausa dramática, mantendo sempre o seu ar de contemplação. Num movimento imperceptível dos olhos activou uma gravação áudio. Que durante vários segundo encheu o ar: o inconfundível chilrear inter-estrelar, num volume dolorosamente alto. Assim que o ruído cessou Luís continuou:

- "A mensagem de rádio extraterrestre"! Soa estranho, não? Quase... inteligente. É a derradeira prova de vida extraterrestre?

Sorri, olhando-o nos olhos. Não acreditava que ele ia dar o braço a torcer, após todos estes anos. Luís passou a mão pelo cabelo. Rigorosamente no meio da sua linha de cabelo tinha crescido uma madeixa branca, que penteada para trás, uma faixa que desaparecia a caminho da nuca. Disse-lhe várias vezes para pintar o cabelo ou corrigir cirurgicamente a cor, mas ele recusava-se determinadamente a fazê-lo. Dizia que atraía o publico feminino, de todas as idades, criando uma mística quanto à sua verdadeira idade. Apelava tanto às netas como às avós, com o sorriso de garoto e cabelo de meia idade.

Ele continuou, tirando-me dos meus pensamentos:

- Não! Ainda não é a prova tão almejada por certas pessoas para demonstrar que "não estamos sozinhos". Qualquer aspirante a astrónomo pode falar-vos de um caso que aconteceu no século passado: um cientista que explorava o espaço descobriu uma onda de rádio proveniente de determinado ponto. Só que a onda não era constante, como as provenientes das demais estrelas. Logo se encarregaram de afirmar na imprensa que tinha sido descoberto um sinal de uma civilização extraterrestre. É claro que caíram no ridículo quando se demonstrou que afinal a tal "emissão" provinha de um novo corpo celeste até então desconhecido: os pulsares.- À medida que Luís ia falando o computador emitia automaticamente dados que permitiam aos espectadores do sermão consultar informações sobre aquilo que estava a dizer, uma espécie de bibliografia interactiva. - Quem não conhece a história está condenado a repeti-la, não é o que dizem os sábios? Ora, meus caros, para quê correr a exclamar que vêm aí os homenzinhos verdes quando pode haver uma explicação científica mais plausível? Um ruído estranho não significa que esteja alguém a fazê-lo. Quem nunca ouviu o vento a assobiar por entre as árvores ou os prédios? Dizem então que algum ser invisível está a fazer o barulho? Ou tentam descobrir o que de facto o produz?: uma força da natureza.

O sermão tinha acabado, tal como qualquer hipótese que eu poderia ter de convencer Luís que a razão estava do meu lado.

Fez o gesto ritual da sua religião: pousando os dedos da mão esquerda na testa e depois virando a mão, estendendo um pouco o braço.

- E não se preocupem, meus caros. Não estamos sozinhos. Criador está sempre connosco.- Com um movimento dos olhos a câmara automática desligou-se. As luzes do gabinete mudaram de intensidade e o ecrã que cobria a parede atrás da cadeira de Luís iluminou-se com a imagem, em directo, do pôr-do-sol no mar, transmitido via AINET de uma paradisíaca ilha perdida algures num oceano.

Ele levantou-se e estendeu-me a mão.

- Então? - perguntou-me sorridente. Apertei-lhe a mão e sentei-me em frente a ele.

- Estou "não estou convencido"... que não haja vida extraterrestre. - respondi eu com um sorriso gozão, embora amargo. Já não me adiantava de nada tentar fazê-lo mudar de opinião. - Vamos tomar um café?

Continuamos bons amigos através do passar do tempo. Víamo-nos pelo menos uma vez por semana, agora mais, desde que a igreja virtual de Luís fora tornada ilegal por uma norma internacional de regulação da AINET.

É claro que, na pratica, a diferença era pouca. Luís abrira um serviço de orientação especial via AIMAIL. Como as consultas agora eram a pagar, Luís tinha cada vez mais dinheiro, embora trabalhasse cada vez menos... um desses paradoxos que as altas tecnologias propiciam. Outro efeito da inovação tecnológica foi estarmos ambos com quase 50 anos, e mantermos uma vigorosa aparência de trintões. A única marca da passagem do tempo era o cabelo, agora completamente, grisalho dele, e já não penteado para trás, mas solto, o que lhe dava uma aparência mais despreocupada do que o seu antigo visual.

Algumas coisas mantinham-se idênticas. Continuava a ser muito mais pontual do que eu. Quando cheguei esbaforido ao café olhou-me preocupado. Pousou o livro electrónico que estava a ler e fitou-me, sério.

- Que se passa, estás bem?

- Ainda não ouviste?

- Ouvi o quê?

Peguei no terminal que ele estava a usar para ler o livro electrónico e regulei-o para um canal de notícias. O pequeno ecrã iluminou-se com a gravação da conferência de imprensa que eu tinha visto antes de sair de casa. Passei-lhe o terminal. A minúscula imagem da relações públicas da AEE (Agência Espacial Europeia) mexia os lábios, com um ar extremamente solene. Luís subiu o volume do aparelho de modo a ouvir o que estava a ser dito, embora tal não fosse necessário dado que a tradução automática colocava automaticamente as legendas do fundo da imagem.

- ... pelas 13h49m o Objecto começou a desacelerar, logo após cruzar a órbita de Marte. Se mantiver esse ritmo alcançará a órbita da Terra em menos de 16 horas. - A imagem mudou para dar uma panorâmica da enorme sala de convenções da ESA, completamente cheia de jornalistas dos mais diversos meios de comunicação. O foco mudou novamente para mostrar um jornalista da primeira fila, que estava a fazer uma pergunta. A sua identificação apareceu no topo do ecrã.

-Como é que podemos ter a certeza que o Objecto não é um meteoro com uma órbita excêntrica?

A relações públicas olhou-o como se o outro fosse uma criança a fazer uma pergunta absolutamente básica. Sorriu e chegou-se para o lado, deixando ver o ecrã que cobria a parede atrás de si. Premiu uma tecla na consola do pódio e a parede começou a exibir uma representação do Sistema Solar à escala. A imagem foi sendo ampliada, até mostrar Júpiter. Um pequeno ponto atravessava lentamente por entre os seus inúmeros satélites, deixando um risco tracejado atrás de si, indicando o percurso já realizado.

A relações públicas tocou no ecrã, por cima do ponto. A imagem congelou e ao lado do ponto apareceram várias linhas de texto com informações.

- Como já disse, ao ser detectado ontem de madrugada, ao passar por Júpiter, o Objecto viajava a 70% da velocidade da Luz. Nenhum corpo com o tamanho superior a um átomo foi observado a tal velocidade, embora isso não impedisse de se tratar de um novo corpo, nunca antes observado. Mas o Objecto surpreendeu-nos, quando começou a reduzir a velocidade, pensámos que era devido à atracção gravitacional de Júpiter, contudo, o Objecto corrigiu a órbita, continuando a movimentar-se da direcção da Terra e reduzindo cada vez mais a velocidade. Neste momento já viaja a menos de um décimo da velocidade da Luz. Repito: o Objecto está a desacelerar e a corrigir constantemente a órbita. Não há nada na natureza que seja capaz de fazer isso.

A imagem ampliou-se inúmeras vezes, até que o disco nebuloso que era o objecto preencher grande parte do ecrã. Tinha uma espécie de halo azulado que não deixava ver os seus detalhes.

Luís tocou no pequeno ecrã, parando a imagem. Olhou para mim com um sorriso.

- Não levas isso a sério, pois não?

Fiquei completamente atónito a olhar par ele. Aquele homem era o cúmulo da casmurrice.

- Como é que podes dizer isso? Não viste...?

- Tudo o que vi foi uma imagem num ecrã. Não te lembras do que aconteceu meia dúzia de anos atrás, quando aqueles hackers invadiram os computadores da NASA e plantaram lá dados sobre uma frota de naves extraterrestres? Foi a partida da década. Muito melhor do que aquela coisa da "Guerra dos Mundos" de Orson Welles no começo do século XX. Os gajos do Pentágono andaram dias às aranhas até descobrirem que era um embuste.

"Começo"? A farsa de Welles foi em 1938. Mesmo sabendo isso, decidi não o corrigir.

- Então, Luís... não estejas a comparar as coisas. Aquilo nem foi tornado público na altura, toparam logo que havia alguma coisa estranha, mas tiveram que investigar o caso a sério, só para garantir.

- Sinto muito, pá, ainda não estou convencido - disse Luís. - Se aquela "nave" aterrar no meu jardim e de lá sair um homenzinho verde, aí sim, sou capaz de ficar convencido.

Fiquei boquiaberto a olhar para ele. A empregada do café chegou ao pé de nós.

- Os cavalheiros vão querer alguma coisa?

Fitei-a.

- Para mim uma cerveja com álcool. Forte. Bem estou a precisar.

Cheguei a casa estourado, não só por causa do trabalho mas mais porque a bebida tinha acabado com a minha cabeça. Por isso custou-me a acordar na manhã seguinte.

Sentia algo estranho na cidade. Não ouvia o chilrear dos pássaros no tecto da minha casa. Não ouvia o barulho das pessoas na rua nem o apitar dos carros. Esfreguei os olhos e sentei-me na cama, tentando acordar.

Não era impressão minha. Não se ouvia um único ruído. Parecia que todas as criaturas do Mundo se estavam a esconder, com medo de serem vistas. Abri a persiana e a Luz dos dia cegou-me por alguns momentos, forçando-me a cerrar os olhos.

Esper'aí! O Sol não nascia deste lado da casa! Abri os olhos. O céu resplandecia com cores azuis brilhantes, que bailavam iluminadas com traços de vermelho. Era a aurora boreal mais estranha que havia visto em toda a minha vida.

Uma aurora boreal aqui? Só então despertei definitivamente. Só podia ser o Objecto extraterrestre a aterrar. Liguei a televisão. Havia imagens do céu colorido por toda a Europa.

Áh! Tinha que falar com Luís. Parece que afinal ele estava prestes a ver os seus homenzinhos verdes.

Marquei o número do telefone dele. Ninguém atendeu. Nem mesmo o atendedor automático. Deixei tocar por minutos, enquanto me vestia. Nada. Pus os meus óculos de sol e vim à janela novamente. A rua estava cheia de pessoas atónitas que fitavam o céu. Havia filas de carros, todos parados, com os condutores a olharem para o céu.

Saí, sempre olhando para o céu, tentando não chocar com ninguém. Caminhei o mais depressa que pude para casa de Luís. Ia a mais de meio do caminho quando as cores do céu começaram a diminuir. Quando cheguei à porta do prédio dele, as cores já tinham voltado ao azul celeste comum dos começos de manhã.

Bolas. Se Luís tivesse dormido por tudo isto, nunca seria capaz de o convencer que tinha de facto acontecido e não que era uma manipulação dos média. Toquei à porta. Ninguém atendeu. Tentei inúmeras vezes, sempre com o mesmo resultado.

Eventualmente chamei a polícia, que acabou por arrombar a porta. O apartamento estava vazio. Todas as coisas continuavam onde deveriam estar, mas não havia sinal de Luís. Caminhei para o seu quarto. Estava escuro. Acendi a Luz, temendo encontrar o seu corpo inerte, vítima de alguma doença inesperada ou pior ainda, um assassino qualquer, daqueles que abundavam nestes tempos, matando sem qualquer razão. Quando a luz inundou o quarto constatei com alívio que a cama estava vazia.

No arquivo do porteiro, os registos de entradas e saídas indicavam que ele havia entrado por volta das 21 horas de ontem e não havia chegado a sair.

A policial que estava comigo tirou o boné e passou a mão pelo cabelo.

- Houve muitos desaparecimentos hoje. Pessoas com medo da invasões dos ET´s. Houve relatos de suicídios em massa na Suécia e nos EUA. Se fosse a si, preparava-me para o pior.

- Não está a compreender, senhora agente. Luís era o mais céptico possível em relação à existência de extraterrestres, a única maneira dele se convencer que existiam era aparecer um ET no seu... - calei-me e uma ideia absurda correu pelos meus neurónios. Corri para a varanda onde havia um pequeno jardim com relva, flores e até duas pequenas arvores que quase chegavam ao tecto da varanda.

Algo estranho me chamou a atenção. Aproximei-me. Na relva havia um circulo perfeito onde a terra parecia comprimida uns centímetros abaixo do resto do terreno. As folhas da relva haviam sido esmagadas.

A agente reclamou baixinho e falou para o microfone do comunicador que suspenso junto à boca, saindo do fone que tinha preso à orelha.

- Daqui é a agente Morais. 24-35. Temos mais um círculo...

Passei a mão relva esmagada e olhei para o céu azul.

Não era possível... Logo o Luís!

Luís acordou com a sensação que havia algo que não estava bem. Ainda antes de abrir os olhos sentiu que o colchão onde estava não era o da sua cama nem o do seu sofá. Abriu os olhos e olhou em volta. Estava escuro. Levantou-se a luz acendeu-se, mas tão suave que nem o encadeou.

Estava numa sala branca, a sala não era propriamente branca. Era como se toda a sala, das paredes ao tecto, brilhasse suavemente. Espera aí! Não havia nem paredes nem tecto. Era como estar no interior de uma velha lâmpada de néon. Olhou para trás. Mas no sitio onde deveria estar a cama onde estivera deitado, não havia nada. Coçou a cabeça. Acalmou-se. A última coisa que se lembrava era de passear no seu jardim, quando... não se lembrava de mais nada.

Assustou-se com um leve ruído de sucção atrás de si e virou-se. À sua frente flutuava um circulo negro na branquidão que o envolviam. Então o circulo abriu-se como a íris de uma objectiva de uma máquina fotográfica e algo passou. À sua frente estava uma estranha criatura, ligeiramente mais alta do que ele próprio.

A melhor maneira de o descrever era como sendo um louva-a-deus gigante e azulado, com uma cabeça enorme e dois olhos que o fitavam sem piscar (não parecia ter pálpebras sequer). A criatura caminhou graciosamente na sua direcção, andando com duas patas que lembravam as das galinhas. A sua cabeça inclinou-se, fascinado, examinando Luís, que soltou uma gargalhada.

- AH! Essa foi muito boa. Deves ter-te dado a uma trabalheira fenomenal para preparar esta partida. Mas não me conseguiste assustar. Ainda não estou convencido que existam extraterrestres. Podes tirar a mascara.

Pousou a mão da cabeça dura do gigantesco insectóide. Parecia um capacete. Puxou para cima, mas a criatura sacudiu-o graciosamente e recuou um pouco. Mexendo a boquinha.

"Estranho", pensou Luís. Não conseguia encontrar maneira da tirar aquela mascara ao amigo.

Aproximou-se novamente da criatura e agarrou na sua cabeça com ambas as mãos, puxando para cima com toda a força.

- Anda lá, tira a máscara, eu sei que és tu! - puxou até se cansar.

- Já não tem piada, pá!

A criatura levantou uma das patas dianteiras, que terminava numa garra. Parece que já havia percebido: aquele gesto devia ser uma espécie de cumprimento. O humano obviamente esperava que ele retribuísse. Num gesto rápido segurou a cabeça do humano e puxou-a para cima com ambas as patas. Ficou surpreso quando esta se revelou mais frágil do que pensava, pois ouviu a som seco de ossos a partir. Assustada, largou o humano e este caiu no chão, com o pescoço torcido numa posição impossível.

Assustada a criatura bailou nervosamente à volta do corpo, cutucando-o a medo com uma pata. Obviamente estava morto.

- Oh não! A Matriarca não vai ficar nada contente com isso. - começou a chiar, a criatura, numa sequência de sons rápidos e agudos que seria extremamente irritante para os seres humanos - Ela avisou-nos para termos cuidado com os espécimes. - Coçou a cabeça - Também!... porquê que estas criaturas tinham logo que ser tão frágeis! Onde é que se ouviu falar de espécies inteligentes sem exoesqueleto! Sinceramente!!!

O buraco negro surgiu novamente no vazio branco. A criatura pegou no corpo e atravessou a passagem, pensando numa boa desculpa para dar à Matriarca da nave. Já sabia que as coisas iam correr mal. Aquelas expedições de pesquisa custavam caro e cada espécime recolhido era valioso demais para ser destruído.

Talvez ainda se conseguisse safar se fizesse uma boa análise post-mortem ao corpo...

 

acerca do conto...
Título: Ainda Não Estou Convencido
Data: 21/09/99
Autor: Paulo Pinto Carvalho
e-mail: [email protected]