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E V E N T O S
Boletim informativo da SIMETRIA FC&F
- Associacao Portuguesa de Ficcao Cientifica e Fantastico -
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Nº 1.04 19/05/99
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Coordenacao: Luis Filipe Silva
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CONTEUDO:
EDITORIAL
ARTIGO: A Literatura Policial na Ficcao Cientifica
(o passado dos detectives do futuro)
A SIMETRIA virtual
(novidades no nosso site; presencas e iniciativas
da Associacao na Internet)
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NOTA: Os Links referentes a entidades, pessoas ou eventos men-
cionados nos artigos encontram-se listados no final do
boletim.
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EDITORIAL
EVENTOS regressa 'a vida numa manha de Primavera. Passaram-se
meses desde o ultimo numero, e tudo o que posso apresentar como
justificacao esta' tambem ligado ao facto de ser editor, redactor,
revisor, tradutor, director, seguranca, contabilista e cozinheiro
deste pequeno boletim. Alem disso, ainda tenho de o escrever!
Sem sistema de backup (minha gente, facam sempre backup!), a producao
parou. Julgo que se tratou do meu proprio bug do ano 1999.
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ARTIGO
A Literatura Policial na Ficcao Cientifica
Luis Filipe Silva
Talvez a maior influência de sempre na ficcao cientifica
moderna tenha sido Raymond Chandler e o seu detective Marlowe,
solitario e desencantado, cujo poesia urbana viria a servir de
inspiracao para os delirios ciberpunks de William Gibson, no
Neuromante, a obra que originou um movimento literario e inspi-
rou a criacao do fenomeno da realidade virtual, como hoje a conhe-
cemos. Nesta, o heroi (ou antes, anti-heroi) e' tambem ele um soli-
tario 'a procura de identidade, contratado para descobrir informacoes
preciosas nos bancos de dados de uma grande corporacao, guardados
por Inteligências Artificiais ferozes.
E' agora no mundo virtual que os detectives da FC exercem a
sua profissao. Membros das forcas da lei, ou independentes a soldo,
dependem da tecnologia das epocas futuras para resolver as missoes
que lhes sao confiadas. Em _Queen of Angels_ (1992), Greg Bear explica
a criminalidade como um conjunto de defeitos ou agentes nocivos na
mente humana, cujo territorio pode ser explorado como um jogo de
computador; a sua solucao passa por uma forma de terapia, quer
psiquica quer física, a que os cidadaos dos seus EUA se submetem
voluntariamente, embora empurrados por uma pressao social e economica
crescentes. Os terapeutizados, por assim dizer, seriam cidadaos
completos, saos de corpo e mente, perfeitamente integrados na
sociedade. Num livro posterior (_Slant_, 1998), regressando ao tema,
o autor derruba a sua propria tese, mostrando a fragilidade desta
solucao ante a complexidade da mente humana.
_Torre de Vidro, SA_, do britânico Stephen Baxter, pelo contrario,
decorre completamente dentro do computador; o crime e' investigado com
a ajuda de camaras e robos, sem que seja necessaria a presença fisica
no local. Camada apos camada, esta realidade revela-se como ficcao, e
o detective acaba por descobrir a verdade sobre si mesmo: ele proprio
não passa de uma personalidade virtual. Outros autores seguiram este
rumo, entre eles Greg Egan, Nancy Kress e Pat Cadigan.
Mas, ironicamente, seria o proprio Raymond Chandler a castigar
severamente a ficcao cientifica, num pequeno texto cheio de termos
inventados em que o detective persegue o seu suspeito usando armas
que ninguem entende e resolvendo o caso de forma praticamente milagrosa.
Embora o tom fosse sarcastico, abordava o problema principal que
normalmente surgia ao falar-se de histórias de mistério na FC: como
conciliar os problemas de um mundo inventado com a objectividade de
indicar pistas ao leitor de modo a que este também pudesse resolver
o enigma proposto, na tradicao de Agatha Christie e Ellery Queen?
Para Isaac Asimov, possivelmente o autor que mais se preocupou
com este assunto, nao havia problemas, desde que o autor cumprisse
alguns mandamentos inviolaveis; o primeiro estava em, atempadamente,
introduzir ao leitor os mecanismos ou peculiaridades do seu mundo
que fossem relevantes para a história, de modo a fornecer-lhe todas
as informacoes relevantes; o segundo, seria o de nao fazer batota,
ou seja, usar a logica para fornecer a explicacao final e nao truques
de magia. Este metodo seria seguido por si no conjunto de contos
dos Viuvos Negros, uma associacao literaria em cujas reunioes se
entretiam a resolver puzzles mentais; nos enigmas cientificos resol-
vidos pelo Dr. Arsenion; e de forma mais visivel, nos seus dois roman-
ces policiais onde surge o primeiro duo de detectives da FC, um humano
e um androide.
A mesma preocupação seria seguida por outros autores, nomeadamente
por Randall Garrett, que, em o _Tempo dos Mágicos_, livro pertencente 'a
sequência Lord Darcy, nos apresenta uma sociedade alternativa britanica
onde a Magia existe e e' praticada por especialistas credenciados. Os
elementos fantasticos, contudo, sao adornos, e os romances seguem uma
veia fortemente detectivesca (os crimes sao sempre cometidos de forma
comum, entrando a magia como forma alternativa 'a tecnologia - por
exemplo, o encantamento preservador conserva o corpo da vítima com
a eficiencia de um congelador). Um comentario curioso de Randall era
de que todos os livros de detectives tinham pelo menos um toque de
magia: os poderes telepaticos do protagonista, pois adivinhava
sempre o pensamento do autor.
Em 1987, Barbara Hambly retomava a antiga forma de tentar
descobrir o culpado entre um grupo de suspeitos, em _The Witches of
Windsor_.
Contudo, a figura do investigador que acumula varias investigacoes
no seu curriculo (ou seja, a grande tradicao do romance de literatura
policial) nunca ganhou raiz na FC. Alguns casos surgem apos analise:
Asimov, mencionado antes; Kate Wilhelm, cujo livro _Death Qualified_
combina FC e misterio numa novela longa e bem conseguida, de ambiguidade
moral, cuja ideia central - descobrir o verdadeiro assassino de modo a
ilibar o inocente acusado - conduz suavemente a um final que envolve
teoria do caos, novas formas de percepcao e um toque do conceito do
super-homem; Richard Paul Russo, muito na tradicao de Dashell Hammet;
o agente de Bizancio de Harry Turtledove, num mundo alternativo em que
o Império Romano do Oriente não foi derrubado tao prematuramente.
Talvez a razao esteja na forma de ser da Ficcao Cientifica. O
que une os dois generos e' exactamente aquilo que os separa. Na FC,
também existe um enigma inicial, constituindo a sua resolucao um
desafio ao leitor. Mas este enigma e' de natureza extra-enredo, nao
esta' no centro das atencoes das personagens. O enigma e' precisamente
o mundo novo, inventado, em que decorre a accao. O grande desafio
para quem le FC e' de poder ir descobrindo esse mundo novo atraves das
pistas que o autor vai fornecendo. Na literatura policial, bem como
na literatura em geral de cariz nao-histórico, o cenário e', 'a partida,
o mundo que conhecemos. E' relativamente facil introduzir um enredo
policial num cenario fantastico; o contrario e' virtualmente impossivel,
pois exigiria abandonar, em parte, aquilo que identifica o policial.
E' no entanto suficiente para confundir os generos (considerados
de cariz popular, ou menor) por quem nao os conhece minimamente, e por
se ter optado, conscientemente ou nao, em Portugal, por inaugurar
coleccoes tematicas em que ambos os generos surgem de braco dado
(lembro-me da Europress, da Europa-America, da Caminho). Em particular
na coleccao da ultima surge uma das primeiras autoras portuguesas a
misturar de forma leve os generos: Ana Teresa Pereira.
É' certo que esta mistura faz sentido. Se em literatura nao
houve grande seguimento, no cinema o caso e' diferente. O policial
sempre foi mais bem tratado do que a FC no grande ecran, e continua
a ser mais popular. O surgimento de parelhas de detectives num ambiente
fantastico começou com _Alien Nation_, e teve o seu expoente máximo
nos _X-Files_.
Continuarao a existir historias que atravessam os dois generos.
A formula nunca será esgotada. E, eventualmente, 'a medida que
caminhamos
para a concretizacao lenta do que tem sido previsto (ou precavido) na
FC,
'a medida que assistimos 'a lenta uniao de todos os generos e 'a
assimilacao das ideias num enorme _melting pot_ que existe ha' milenios
e se chama literatura, talvez dessa uniao surja um novo paradigma, que
revele a enorme necessidade da mente humana em sentir-se fascinada com
o misterioso e com o desafio de desvenda-lo.
Leituras
Primeiro exemplo: _The Moon of Much Gladness_ (1932), Ernest Bramah -
conto absurdista sobre o roupo de um mandarim.
Duos de detectives: Simon R Green: serie _Hawk and Fisher_ - policias
que combatem com espadas; Katherine Kerr: _Polar City Blues_; e mais
recentemente a dupla Mulder e Scully nos X-Files.
Investigadores solitários com longos curriculos: Walter Jon Williams
(o fabuloso _Days of Atonement_, ligado a experiências com mundos
paralelos);
Ladrões: Walter Jon Williams, romances à la Raffles, na sequência
_Crown Jewels_, num futuro em que o estilo é sagrado.
Trabalhos isolados: _To Hold Infinity_ de John Meaney, _Cocoon_ de Greg
Egan,
_Fault Lines_ de Nancy Kress.
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aceitamos todos os comentarios (mesmo os acerbicos) dos
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aceitar contos da vossa autoria (possivelmente o unico
lugar onde se publica FC portuguesa com regularidade);
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(c) 1999 Luis Filipe Silva/SIMETRIA FC&F
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