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                  Revista de TecnoFantasia

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Nº 2.05    publicação semanal e gratuita       25 Mar. 2000
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Coordenação: Luís Filipe Silva
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«Não há nada tão veemente quanto um interesse fixo
disfarçado de convicção intelectual»
Frank Herbert, _A Praga Branca_


CONTEÚDO

EDITORIAL: Manifesto de TecnoFantasia
VIDA: O Laboratório da Realidade
CULTURA: A Arquitectura do Possível
LITERATURA E AFINS: Turistas Eventuais
CIÊNCIA: O Que Sabemos Hoje e Não Sabíamos Ontem
AGENDA: Eventos & E-ventos
FICÇÕES E CONFISSÕES: UMA TURISTA DO OUTRO MUNDO, por
Luís Miguel Sequeira (parte 1 de 8)

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NOTA: A internet é o meio de educação e informação previlegiado
      do novo milénio. Neste sentido, *EVENTOS* encoraja a
      disseminação do conhecimento, autorizando a reprodução e
      envio do boletim. Apenas pede que seja difundido na íntegra
      e com indicação completa da sua origem. Obrigado.
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                         --oOo--

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EDITORIAL
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    MANIFESTO DE TECNOFANTASIA

   ou,

              A Era dos Gutenbergs Alucinados


Diz-se que a evolução funciona em etapas. Em saltos gnósticos, do sapo para
o girino com pernas, para os primeiros rastejantes em terra, para os pulmões
de combustão lenta e queima de oxigénio. A definição não é de Darwin, mas de
quem reflectiu sobre o que ele afirmou. Também aqui existe evolução: a lenta
mudança das percepções como reacção ao conhecimento acumulado e processado.

Diz-se que no período de gestação cada um de nós atravessa as diferentes
fases do passado genético. Guelras surgem e desaparecem num assombro
fantasmagório de eras perdidas no tempo, manifestações do que talvez
tenhamos sido, sombras de pensamentos que não chegam a ser concretizados.
Repetimos o processo na educação dos jovens, ao incutirmo-lhes uma história
do raciocínio e descoberta, a que chamamos disciplinas, a experiência de
milénios de conhecimento acumulado repetidos nas auto-estradas aceleradas
das academias.

Diz-se que a informação tem de estar de acordo com a plataforma que a
processa. Processar informação é uma necessidade que os nossos antepassados
(que podem ser os nossos pais e avôs), embora a praticassem conscientemente,
não tinham ainda percebido ser algo artificial e logo possível de estudo.
Tornou-se numa disciplina, logo num método, logo numa tecnologia.
E se a informação se adequa à plataforma, o inverso é ainda mais verdade.
Processamentos pesados, que resultam da evolução do _software_, requerem
novas plataformas, maior rapidez, maior volume - e ainda acreditamos que
acontece por acaso. Que é por acaso que empresas multinacionais desenvolvem
protocolos que exigem mais capacidade de processamento; que é por ganância e
vontade do lucro que somos obrigados a trocar de computadores e afins a cada
par de anos. Que a tecnologia é um acidente de percurso.

O girino que desenvolveu pernas não o fez por acaso, embora não tenha tido
vontade na matéria. Algo mais poderoso do que ele (o deus da informação? Os
antigos gregos não lhe deram nenhum nome) comandou o destino. O girino era
apenas plataforma num meio que tinha mais informação do que aquela que podia
processar: ali estava um mundo completamente novo, para lá da praia, um
manancial de informação, e ali estava ele, pequeno 286 que não suportava as
exigências de um planeta multimédia com alta largura de banda.

A internet desenvolve-se na progressão exponencial da escrita. Há muito
tempo os livros eram copiados à mão por artistas dedicados, sozinhos nos
seus conventos e nas suas conversas com Deus. A informação não era
importante, mas apenas a imagem. O conteúdo, invisível e inútil para todos
os iletrados na tecnologia de saber ler, perdia importância perante a
magnificiência das iluminuras e o contorno seguro, equilibrado das palavras.
A língua, o latim, era pertença de poucos, pois os comuns falavam uma
linguagem suja e adulterada - a mesma com que hoje em dia amamos, educamos
os filhos, condenamos os traidores, e elogiamos os mortos. Mais tarde, muito
mais tarde, viria Gutenberg com a sua tecnologia copiada de além-terras,
trazendo a multiplicação das notícias, o fácil acesso aos livros, mas também
a banalização e a vulgaridade. A imprensa foi a internet do século XVI.

E tal como a palavra escrita passou a fala com a proliferação da rádio e das
gravações, e estas por sua vez passaram a imagem e mentira com o
desenvolvimento do filme e dos efeitos visuais, tal como o século vinte viu
serem divulgadas duas tecnologias de armazenamento de informação com igual
importância à da imprensa, o mundo iria ainda assistir a uma evolução
compacta, repetida, em diferido, da evolução do conhecimento. A internet
começou como a imprensa, difícil de perceber, feia, apenas com texto em
ASCII, apenas com conteúdo, mas com capacidade de reprodução; mas
rapidamente se assistiu à rádio na internet, aos RealPlayers e QuickTimes, à
fala; e logo se evoluiu para a imagem, para os filmes, para a televisão.
Exponencialmente. No espaço de dez anos.

Mas a internet não é tudo. Não é o mundo real, embora o mundo também lhe
pertença. É mais uma sombra na evolução das nossas ideias, na gestação da
nova forma de estar da humanidade, cujo parto será daqui a... dez anos? Dez
séculos? Dez milénios? Dez milhões de anos? O mundo real é agora a nossa
tecnologia, que surge sobreposta à Natureza de forma ainda tão aberrante
como eram artificiais as cenas «acrescentadas» pelo George Lucas na Edição
Especial da Guerra das Estrelas, já de si sobre um mundo inventado (e é
idêntica a nossa reacção perante o argumento tecnologia versus natureza).

A tecnologia invade de tal forma os nossos sonhos que não somos espécie sem
ela. Não sabemos mais caçar nem comer. Não nos reproduzimos sem tecnologia.
Não amamos nem odiamos sem ela. Os nossos filhos aprendem as lições de uma
vida que a cada instante nos obriga a lidar com a tecnologia que nos
impusemos a nós mesmos, não a da Natureza. A Natureza já nos ensinou tudo: a
tecnologia é mais exigente na informação que põe ao nosso dispôr. Atraídos
pela riqueza, adoramo-la, mas estamos a chegar ao limite. Algures, de
qualquer forma, a plataforma terá de se adaptar.

Em tempos idos surgiu o Mito, primevo, único. O Mito e o Sonho juntaram-se,
e deram origem à Fantasia. A Razão interpõs-se, e chamou ao casamento Ficção
Científica. Mas a Informação estragou tudo ao inventar o Ciberpunk. O
ruralismo não explica mais o nosso mundo. A ficção científica transforma-se
e abarca tudo, mas nesta desmultiplicação perde o farol, o nevoeiro é denso.
Os sonhos são outros, e não são nossos.

Estamos na era da TecnoFantasia. De pegar no híbrido que já foi resultado do
enxerto da ficção na ciência, e dar-lhe finalmente forma. Se era algo
desconhecido para os nossos tais antepassados, já não o é para nós. A ficção
convive com a ciência no nosso dia a dia, e já não se chama ficção
científica, mas Realidade. Todos os sonhos a partir deste momento têm este
dado como adquirido.

A TecnoFantasia é o realismo mágico da era tecnológica. É o mito dos
cientistas experimentais. É o imaginário infantil da geração informatizada.
É a palavra de boca do homem de negócios. É o título que se transacciona no
mercado das expectativas sociais. A TecnoFantasia sabe que o mundo já não
pertence à Natureza, que é tão artificial, obediente e cego como um
termóstato. Sabe que habitamos todos numa realidade virtual que funciona por
consenso e regras e agendas temporais comuns. Sabe que o mundo entra em
sintonia pela necessidade internacional de encontrar um ponto de
entendimento e organização. Sabe que a plataforma actual não comporta mais a
informação que processa.

Alguns visionários afloraram ligeiramente a ideia da TecnoFantasia. No
estrangeiro, Michael Swanwick com «The Iron Dragon's Daughter», Bruce
Sterling com «Distraction» e artigos científicos, os contos de Greg Egan,
todos os livros do Neal Stephenson. Em Portugal, a «GalxMente» de Luís
Filipe Silva seria o prenúncio, muito incompleto, da ideia, «Pedra de
Lúcifer» de Daniel Tércio uma hipótese possível, e «Terrarium» de João
Barreiros, um elogio fúnebre (inconsciente) da ficção científica
disfarçado de homenagem ao género.

O TecnoFantasista interpreta o mundo enquanto repositório de informação. A
realidade tem tanto valor quanto a virtualidade, e ambas são indistintas. As
interacções baseiam-se em regras, e essas regras existem numa completa
independência da geografia. As leis de Newton misturam-se com as leis da
retórica no infoespaço: depende da dimensão em que o jogo decorre - a do
espaço, a da memória, ou a da ficção.

O TecnoFantasista conhece o mundo e está atento aos mínimos indícios. Por
vezes, perde a noção de floresta e só consegue ver árvores ou arbustos; a
culpa não é dele: enquanto plataforma imperfeita, não consegue processar,
compreender.

A TecnoFantasia continuará a desenvolver-se, com este nome ou com BI falso.
Nestas páginas encontrarão uma tentativa de afastar o nevoeiro. Mas não se
encham de esperanças. O dia pode ainda tardar a nascer.

          Luís Filipe Silva, 25 de Março de 2000

                         --oOo--

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| «Quando Deus criou o Homem, fê-lo à Sua imagem, e
| a Sua imagem era múltipla. Deus acompanhava e ensinava o
| Homem, e dele obtinha reconhecimento. Enquanto Criador,
| era firme e responsável; enquanto Pai, terno e tolerante.
|
| Quando Deus criou o Homem, Deus teve de tornar-se
| um pouco Humano, para o compreender. Mas o Homem
| revoltou-se.
|
| Deus ao olhar agora para o Homem que criou assume
| um dos Seus cinco Rostos: o Rosto da Ânsia, quando sente
| que o Homem ainda pode ser salvo; o Rosto da Tormenta,
| ao recordar a despeita e insensatez do Homem; o Rosto do
| Desgosto, quando a Sua dôr se manifesta em toda a
| imensidão; o Rosto da Alienação, quando perde a noção de
| futuro e salvação do Homem; o Rosto da Melancolia,
| quando sonha com uma criação diferente.
|
| Quando Deus criou o Homem, Deus teve de tornar-se
| um pouco Humano, e logo perdeu o controlo da Sua criação.
| Deus ao olhar agora para o Homem que criou assume um dos
| Seus cinco Rostos, e o Rosto que assume perturba o
| coração do Homem, interfere no sonho do Homem, perturba
| os passos do Homem.»
|
| (Excepto do Tantra do povo Cidir,
| planeta Frederik, casa Solnen)
|
|*EVENTOS* pergunta: que Rosto assume Deus perante o Homem nos
|nossos dias?
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                         --oOo--
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O LABORATÓRIO DA REALIDADE
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<> AUTORA DE HARRY POTTER ACUSADA DE PLÁGIO

J. K. Rowling, a autora dos livros juvenis sobre Harry Potter e as suas
aventuras numa escola de magia, que têm tido sucesso e feito as delícias de
jovens e adultos pelo mundo inteiro, foi acusada de plágio por Nancy K.
Stouffer, que iniciou um processo federal para o ajuste de contas.

Stouffer argumenta que o material dos livros de Harry Potter têm na verdade
origem no seu livro «The Legend of Rah and Muggles», publicado em 1984 nos
EUA.


Motivos para tal alegação? Vejamos: no livro de Stouffer, os _muggles_ são
um povo de pequenos seres que tomam conta de dois rapazes que ficaram
orfãos, e no processo redescobrem a alegria de viver. Em _Harry Potter_,
_muggles_ é a designação que os feiticeiros atribuem aos humanos. O primeiro
livro apresenta um personagem chamado Lilly Potter, contra o personagem Lily
Potter dos livros de Rowling. Stouffer inclui personagens que se designam
por «Keepers of the Gardens», contra a designação «Keeper of the Keys».

Coincidência? Nancy Stouffer não acredita nisso. Além disso, _muggles_
encontra-se registrado em seu nome, e para seu uso pessoal.

A série de Harry Potter, da qual já saíram 3 livros, encontrando-se um
quarto a caminho (sai em Julho), já vendeu mais de 19 milhões de exemplares,
só nos EUA.

A verdadeira questão no entanto, não se encontra na evidência de plágio,
cuja decisão caberá aos juristas e aos acordos fora do tribunal: está na
legitimidade de apropriação do que se designa por propriedade intelectual.
Uma noção vasta, pois existe apenas no território das ideias. Usar o termo
«Coca-Cola» poderá ser um abuso de propriedade - pois não é uma frase
natural, não ocorre no espaço das conversas mundanas. Mas escolas de magia,
ritos de passagem, professores bons e maus - até que ponto será Rowling
detentora dos direitos? Legalmente não será, o que indica que os
legisladores compreendem a dificuldade de aprisionar conceitos uma vez
elaborados. Mas se alguém escrever um livro com um cenário similar, muitos
irão reconhecer que é uma imitação. Quem actua em primeiro lugar dá o
exemplo.

É como se a informação transformasse o mundo. Como se a des-multiplicação
dos universos paralelos de Everett se manifestassem ante o pronunciar de uma
frase, a descoberta de uma lei, a divulgação de um conceito (como a
TecnoFantasia). Todos nós sabemos como uma perspectiva diferente e original
pode transformar as nossas vidas e a própria identidade. Todos nós
conhecemos a força da palavra «acredito». Não conseguimos controlar as
ideias, como não conseguimos controlar a propagação dos vírus (v. abaixo
notícia sobre a China). Contudo, a internet pode vir a capacitar esta
incapacidade, pois é o repositório de ideias por excelência. E podemos
deparar-nos então com a situação descrita por David Brin no conto «Memory
Elephants» (que ganharia um Hugo) sobre uma sociedade que defendia ao máximo
os direitos de autor, controlava ao pormenor a propagação das ideias. Era
obviamente uma sociedade estéril e moribunda.

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<>  TIRANIA DE OPINIÕES NA CHINA
    Visões do Mundo que Não Reconhece a Hegemonia da Informação

Os surfistas da Internet foram proibidos pelas autoridades chinesas, que
começaram uma verdadeira perseguição a cibercafés e outros estabelecimentos
públicos com acesso à Net.

A explicação oficial reside na preocupação das autoridades com a
disseminação da pornografia, embora os termos em que as proibições são
apresentadas toda a «actividade que possa prejudicar a segurança do Estado,
perturbar a ordem pública e interferir nos interesses e direitos públicos».

Para prevenir possíveis infracções, os governantes decretaram que os cafés
onde os frequentadores forem descobertos a visualizar pornografia
via Internet «serão fechados permanente ou temporariamente». Neste situação,
estima-se que estejam «em risco» cerca de um milhar de estabelecimentos com
Net, nomeadamente barbearias, restaurantes e livrarias.

                         --oOo--

<> A (FALSA?) FEIRA DO LIVRO ESTRANGEIRO

Quem mora em Lisboa e arredores, tem a oportunidade de se deslocar ao Fórum
Picoas, neste fim de semana, e aproveitar as ofertas da Feira do Livro
Estrangeiro que decorre até domingo, às 20.00.

O inventário apresentado comporta diversas línguas (espanhol, inglês, pouco
francês e raríssimo alemão) e algumas obras de autores consagrados. Mas a
pergunta faz-se: EVENTOS recomenda?

Bem, considerando que:
 - há alguns livros com capas e páginas rasgadas, e cheios de mofo - embora
sejam também os mais baratos, e possam encontrar verdadeiras pechinchas sem
comprometer a qualidade;
 - os exemplares são repetidos e pouco diversos quer em termos de títulos
quer em termos de autores;
 - não há organização aparente, e os livros se encontram amontoados, o que é
pouco convidativo à procura;
 - a FC é quase inexistente, apenas restando edições baratas do ILL WIND do
Kevin Anderson e Doug Beason, e um título qualquer da Marion Zimmer Bradley
em colaboração com outras autoras;
 - os jovens autores estrangeiros da actualidade estão ausentes;
 - no entanto, há livros baratos, há edições boas de editores consagrados,
em particular os espanhóis, e encontram-se boas oportunidades de compra em
diversos géneros;
*EVENTOS* recomenda os potenciais interessados a considerarem a feira como
uma exibição dos restos de colecção das livrarias das redondezas - e só
depois decidirem que querem realmente visitá-la ou não.

Se no entanto gostariam de ver uma verdadeira feira do livro estrangeiro,
com diversidade, qualidade e actualidade das edições, *EVENTOS* sugere que
sigam o exemplo de todos aqueles que não moram perto de Lisboa, e vão
visitar a AMAZON.COM, a AMAZON.CO.UK, e a FNAC.FR - e depois aproveitem o
fim-de-semana.

                         --oOo--

<> VÃO SER PUBLICADOS OS DIÁRIOS DE SILVIA PLATH

A publicação eminente dos diários da célebre escritora norte-americana
Sylvia Plath é o momento ideal para descobrir a autora de belos livros de
poemas, alguns já publicados em Portugal.

Tendo havido grande controvérsia em volta da relação da poetisa com o pai, a
mãe e o marido, o poeta britânico Ted Hughes, os filhos da escritora deram
finalmente permissão para se editar o conjunto de diários, a partir do dia
dia 3 de Abril. Estavam na posse de Ted Hughes desde 1963, data do suicídio
de Sylvia Plath. Entretanto, excertos dos mesmos têm estado a ser publicados
pelo jornal britânico _The Guardian_ desde terça-feira.

Para conhecer a vida e obra da poetisa:
* Enciclopédia Britânica
    Silvia Plath
:http://www.britannica.com/bcom/eb/article/4/0,5716,61884+1,00.html
    Ted Hughes:
http://www.britannica.com/bcom/eb/article/8/0,5716,42348+1,00.html

                         --oOo--

<> O CULTO DO DESESPERO

A notícia que mais chocou a sensibilidade pública internacional esta semana,
e que vem trazer o balde de água fria a esta secção, será sido sem dúvida a
do suicídio colectivo do Uganda, decorrido na passada segunda-feira,
estimando-se que o número de vítimas possa ter ultrapassado as 500.

Na base do ocorrido encontra-se uma seita designada por Movimento para o
Reestabelecimento dos Dez Mandamentos de Deus, cujo guru, Joseph Kibweteere,
se desconhece fazer parte das vítimas do incêndio que devastou uma cantina
de escola que servia de igreja em Kanungu (350 km a sudeste de Kampala).

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|                Site Recomendado da Semana                    |
|                   CAFÉ DE FILOSOFIA, em                      |
| http://www.salon.com/may97/wanderlust/cafe970513.html        |
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A ARQUITECTURA DO POSSÍVEL
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<> INTERNET EM PORTUGAL TEM QUASE 500 000 ASSINANTES

Segundo comunicação do Instituto de Comunicações de Portugal, esta semana, o
número de assinantes dos serviços de acesso à Internet em Portugal ascendia
a 474.389 no final do ano passado.

Este valor representa um aumento de 175 por cento em relação ao final de
1998, quando se contabilizavam 172.698, sendo que entre o terceiro e o
quarto trimestre de 1999, o crescimento do número de assinantes atingiu os
71 por cento, em consequência da introdução em Portugal do acesso gratuito à
Internet.

E segundo dados fornecidos pelo departamento comercial do *EVENTOS*, há uma
centena de previligiados senhores e senhoras a receber semanalmente esta
revista ;-)

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<> A NOITE DO TIO ÓSCAR

Numa semana em que muito se escreveu e contou sobre o roubo e recuperação
das estatuetas dos Óscares, pondo em questão a cerimónia de próxima
segunda-feira (um feito que foi inventado por portugueses: o roubo da
carrinha da revista Telejogos numa noite de Casa Cheia - lembram-se?), as
atenções voltam-se para as novas possibilidades de transmissão da cerimónia.
Isto porque cerca de 30 sites diferentes vão apresentar as imagens em
directo.

Numa verdadeira manifestação de TecnoFantasia, prevê-se que cerca de milhões
de espectadores troquem o televisor pelos seus computadores para assistir à
72a. cerimónia da Academia de Hollywood. A previsão pode no entanto ser
optimista, pois apenas a reduzidíssima largura de banda evitará que este
novo meio consiga para já destronar a televisão, pelo que as cadeias
televisivas podem respirar descansadas e assegurar o espectáculo. Mas as
tendências são alarmantes, e mesmo que os sites em questão tenham por trás
mega-corporações do meio das comunicações, a verdade é que os tempos estão a
mudar, e a realidade no próximo ano será muito diferente.

Analistas e especialistas da indústria acreditam que esta será a cerimónia
dos Óscares mais vista na Internet. Paralelamente ao visionamento por
televisão, que deverá atrair mil milhões de curiosos, alguns milhões de
pessoas estão coladas a outros ecrãs. No ano passado, a cerimónia foi
seguida por mais de dois milhões de cibernautas. Neste ano prevê-se dez
vezes este número.

O número não surpreende se considerarmos que na lista dos filmes do ano se
encontra o _Projecto Blair Witch_, o tal filme que um conjunto de mentiras e
enganos na internet (ou seja, publicidade enganosa vendida como criatividade
original) levou à ribalta.

A mesma questão se levanta para a necessidade de se organizar qualquer
cerimónia ou espectáculo, quando com um pequeno conjunto de câmaras e um
cenário virtual se pode alcançar iguais resultados, por muitos menos custos,
igual qualidade de imagem, e mais criatividade. Em breve veremos dezenas de
Broadways e Parques Mayer por essa internet fora, feitos por companhias
teatrais amadoras com alguns meios, Photoshops, e uns quartinhos vagos em
casa, sendo o impacto nas audiências dos teatros reais negativo.

Prevê-se, no entanto que a situação do espectáculo em Portugal não seja
afectada por esta tendência, pois pior não pode ficar...

Se quiser aderir ao espírito da Tecnofantasia, *EVENTOS* recomenda, para a
noite de dia 26:
* Oscar.com ( http://www.oscar.com ) que tem já uma série de informações e
dicas sobre a cerimónia. Propostas de como passar a noite, o que comer, como
decorar a sala e outros pormenores estão disponíveis na página.
* Yahoo! ( http://movies.yahoo.com/oscars )apresenta uma listagem dos 28
melhores sites sobre os Óscares. Segundo o portal, esta página especial foi
criada porque «o simples número de sites e
a dificuldade de encontrar os endereços certos pode ser esmagador».
* Brittanica ( http://www.brittanica.com ) com uma belíssima retrospectiva
sobre a história da cerimónia.

                         --oOo--

<> A INTERNET DOS ROMANOS

Os Romanos acreditavam que um dos requisitos para a manutenção de um império
em larga escala assentava num sistema de transportes e comunicações
duradouro e eficiente, para facilitar o comércio e o transporte de
mercadorias. Assim, investiram em estradas, pontes e aquedutos cuja
utilidade continua a ser reconhecida e aproveitada nos dias de hoje. Sabiam
perfeitamente que quanto mais fácil for a viagem, mais contente o dinheiro
se desloca, nas bolsas dos mercadores em direcção à metrópole. Estes
investimentos não tinham por base medições científicas, nem análises de
retorno de investimento, nem capacidade de amortização ao longo de dezenas
de anos.

Obviamente que actualmente a construção de barragens e empreendimentos em
larga escala não se compadece com análises de curto prazo, e terão de ter
por base financiamentos públicos. Ou seja, a comunidade como um todo
sacrifica parte dos seus ganhos presentes, acreditando numa melhoria futura
do nível de vida, mesmo que essa melhoria demore uma ou duas gerações a
manifestar-se.

Mas uma barragem, uma ponte, é uma obra visível, monumental, um testemunho
de metal e betão que dignifica o espírito humano e a sua capacidade de
organização. O que dizer da Internet? O que dizer dos investimentos em
comunicações, em serviços públicos para construção de páginas? O que dizer
dos _sites_ institucionais, do e-Business, que depressa se há-de tornar no
novo palavrão mundial?

A Internet, no seu melhor, pode considerar-se, em parte, como sendo a nova
Rota da Seda, mas não no todo. Porquê? A Rota da Seta era um meio de
transporte de mercadorias, em primeiro lugar, e de comunicações em segundo.
A Internet só disponibiliza mercadorias se estas tiverem uma forma eventual,
também, em formato digital, e apenas para uso por computadores. Ou seja, a
Internet vende conhecimento. Os correios e as distribuidoras é que
complementam o serviço da rota da seda digital. Na Nova Era, o caminho só é
percorrido quando já se vendeu.

Imaginem o que seria se este meio de comunicação estivesse disponível há mil
anos, quando a mercadoria podia demorar dez meses a chegar ao destino.

E como assegurar as transacções?

A nova moda encontra-se nos Bancos Online. Instituições financeiras cuja
marca e serviços apenas se encontra disponível na Internet. A moda ainda não
pegou por completo no nosso país, um pouco pela nossa baixa taxa de adesão
ao «surfing», mas também pela desconfiança natural em depositar dinheiro sem
se «olhar» sequer para a «pinta» do banco e do rapaz na caixa do balcão.

Quem se encontra a mudar as tendências são os jovens executivos,
principalmente os que trabalham nas multinacionais da Grande Lisboa, mais
sensíveis à capacidade de inovação dos colegas estado-unidenses: só assim se
compreende que possa haver potencial de mercado para nascerem em Portugal as
bancas online.

Como medida de segurança, apenas as grandes instituições, com uma rede de
distribuição tradicional e um mercado vastíssimo, se vão arriscar no início;
os small-players nacionais terão muitas barreiras à entrada no mercado,
sendo mais provável que a concorrência seja proveniente das congéneres
europeias, habituadas a economias de escala e melhores taxas de juro.

A Portugal Telecom (PT) e a Caixa Geral de Depósitos (CGD) vão assinar um
acordo na próxima segunda-feira para a constituição da Caixanet, uma
sociedade que irá desenvolver negócios na área da banca online. No espaço
deuma semana, esta é a segunda incursão da banca portuguesa na Internet.

O que significa isto para o consumidor pequeno e indefeso? Mais oferta e
diversidade de serviços, é natural. Mas não uma melhoria qualitativa, pois
para isso seria necessário, primeiro, uma adaptação das estruturas pesadas
destas grandes empresas, nem sempre muito sensíveis às necessidades do
mercado. Logo, não se espere o surgimento de melhores produtos nem mais
adequados à necessidade do consumidor. A tecnologia só por si, não inova. A
criatividade é que o faz.

Acima de tudo, vamos ter mais ruído. Mais capacidade de escolha sem
informação acrescida para poder escolher. E quem anda à procura de casa,
como o coordenador desta revista andou há pouco tempo, e tenta comparar as
taxas de juro e diferentes ofertas no crédito à habitação rapidamente
percebe que o mercado se encontra num equilíbrio dinâmico, a que as grandes
concentrações financeiras nada ajudam.

A concorrência é ilusória; os monopólios assumem, no limiar do novo milénio,
rostos fragmentados. Mas são monopólios, impérios verdadeiramente romanos a
construir pontes e estradas virtuais para receber o vosso dinheiro.

                         --oOo--

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TURISTAS ACIDENTAIS
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<> NOVO NÚMERO DE SCIFI-WEEKLY DISPONÍVEL

No endereço http://www.scifiweekly.com encontra-se disponível a edição 152
da revista de FC semanal mais lida da Internet.

Neste número poderão encontrar uma nova coluna mensal, «The Cassutt Files»,
da autoria de Michael Cassutt, autor que tem publicado contos muito
interessantes na _Fantasy & Science Fiction_, e é também produtor e escritor
para televisão. Crítica do filme «Deterrence», entrevista a Gregory
Benford - já publicado em Portugal - e crítica do seu livro «Eater»,
apresentação do jogo «Klingon Academy» (ATENÇÃO, STAR-TREKKERS!), entre
outros.

E quem ainda não pertence à mailing-list deles, pode sempre inscrever-se e
ter a oportunidade de ganhar uma t-shirt...

                         --oOo--

<> O REI DOS LIVROS ELECTRÓNICOS

Chamar a Stephen King de «Rei» é de um banalismo exarcebante, e no entanto,
não é que o raio do homem nasceu com o apelido correcto? Como se os pais
tivessem visto o filme «Beleza Americana» e percebido a mensagem do filme:
«para se ser bem sucedido, há que projectar sempre uma imagem de sucesso».

O lema é-lhe aplicado, e bem: vai receber $450 mil dólares pelos downloads
do seu último livro, Riding the Bullet, disponível gratuitamente na
Amazon.com. Nas primeiras 24 horas foram vendidos 400 mil exemplares, o que
não é nada de novo para o autor, habituado a vender dois milhões de
exemplares físicos na primeira semana de publicação de qualquer novo livro
seu.

King, que se encontra a preparar um novo trabalho, pondera agora a
possibilidade de escrever um livro exclusivamente para a Internet. «Se eu
fizesse isso, muitas pessoas teriam forçosamente que ir à Internet para ler
o livro», disse o escritor, citado pela agência Associated Press.

O êxito é menos dos e-livros, e mais do fenómeno King, com os seus milhões
de seguidores. Ao contrário de muitos autores de marca, King escreve ele
mesmo os seus livros, à sua maneira, e garantindo a qualidade final. Só
assim se compreende que tenha tantos fãs: nunca faz concessões, nunca cede a
pressões de estilo, tema e qualidade. King nunca desilude, é igual a si
mesmo: honestidade, a receita mais fácil para a popularidade, nunca levada
até ao fim por qualquer figura pública.

E-livros (livros electrónicos)? Será literatura? A questão pode colocar-se
ao *EVENTOS*, uma revista por e-mail, feia como só o ASCII pode ser
visualmente feio - mas no entanto com pretenções a literatura, ou a algo
diferente. Esta questão foi levantada no Salão do Livro de Paris.

Citando um jornal da praça: «Dentro do Salão havia uma "aldeia".
Chamavam-lhe "aldeia E-book". Entrava-se por baixo de um pequeno arco
colorido e aprendia-se a ler no futuro. O futuro, dizem eles - os
superdinâmicos membros da 00h00, editora de livros electrónicos -, é este
aparelhinho tamanho A3 ou A4, com um ecrã, quatro botões e uma caneta (ou o
dedo) para fazer de rato. É o E-book. E entre os livros que estavam
disponíveis para aprender a funcionar com o E-book, _Memorial do Convento_,
em português, sim. (...) A lista completa dos livros em português e todas as
informações sobre a 00h00 podem ser consultadas no novíssimo site inaugurado
no Salão: http://www.00h00.com/» (in Público).

A atitude do TecnoFantasista é de debruçar-se na cadeira e sorrir ante
tamanha agitação: ele sabe que, no final, o público há-de reconhecer que o
meio de distribuição é como uma capa, ou seja, não serve de critério para
ajuizar a obra final. E se é difícil ler num écran do computador, isso não é
um impedimento, mas um pormenor de plataforma.

                         --oOo--

<> AVENTURAS ESPACIAIS

O espaço é o grande terreno do TecnoFantasista. Não devido à sua imensidão,
que não tem (ao contrário do que se pensa, um vazio grande não é maior do
que um vazio pequeno - e a ficção científica assim prova, quando certas
obras de viagens no espaço têm a claustrofobia e mesquinhez de invenção de
dramas passados dentro de um quarto de família), mas pela imensidade da
solidão, por ser o espelho em que o indivíduo se encontra, solitário,
consigo mesmo. A imagem de marca é de Kubrik: no meio do vácuo, enfiado no
fato protector, o protagonista ouve apenas a sua própria respiração - a
humanidade está longe, e ninguém o pode salvar.

Num tom mais ligeiro, recomendamos o seguinte percurso:

* Sobre o Espaço -

Space Travel Services Space Adventures:
 *Endereço: http://spaceadventures.com/

Bristol Spaceplanes:
 *Endereço: http://www.bristolspaceplanes.com/

Zegrahm Space Voyages: Cosmonaut and Astronaut Training
 *Endereço:
http://www.nature-adventure.de/SPACETOURISM/ZEGRAHM_COSMOTRAINING/index.html

Local Scenery and Conditions Earth from Space
 *Endereço: http://earth.jsc.nasa.gov/

The Hubble Space Telescope's Greatest Hits
 *Endereço: http://oposite.stsci.edu/pubinfo/BestOfHST95.html

Space Weather Today
 *Endereço: http://windows.engin.umich.edu/spaceweather

* Sobre Comunicações e Transportes -

On the Move: Past Revolutions in Transport Taming the Wilderness: Rivers,
Roads, Canals, and Railroads
 *Endereço: http://www.connerprairie.org/cp/taming2.html

The Life of Henry Ford
 *Endereço: http://www.hfmgv.org/histories/hf/henry.html

The American Experience: The Wright Stuff
 *Endereço: http://www.pbs.org/wgbh/amex/wright/index.html

* Curiosidades e Livros -

Ilustrações do espaço na literatura infantil
 *Endereço: http://sun3.lib.uci.edu/~jsisson/john.htm

Not Only The Planet - damien broderick, ed
http://www.amazon.com/exec/obidos/ASIN/0864425821/territordesconhe

                         --oOo--

<> OS PRIMÓRDIOS DA TECNOFANTASIA

O CEM - Centro de Esturos em Movimento - vai dar início a um novo workshop
para os amantes de Ficção Científica, jogos virtuais, internet, e outros,
sobre o movimento ciberpunk, precursor da TecnoFantasia e essencial para a
compreensão deste novo Movimento. Seguem-se os detalhes:

* NOME DO WORKSHOP: Ciberpunk e Realidades Alternativas
* DESTINA-SE a artistas, escritores e pretendentes a escritor, visionários,
amantes de jogos de computadores, surfistas de net, e a todos os que se
sentem insatisfeitos com a realidade tal como ela é.
* MOSTRA universos paralelos, mundos virtuais, relances do futuro, amostras
de um presente quase imediato.
* UTILIZA leitura de textos, apresentação e debate dos temas, apresentação
de filmes, exemplos do que se está a fazer em Portugal.
* ABORDA o Movimento Ciberpunk, o surgimento da Internet, a máquina de fazer
mundos, os sonhos que se podem tornar realidade, a filosofia e
contra-filosofia, as novas noções de existencialismo.
* OS AUTORES: Bruce Sterling, William Gibson, Lewis Shiner, Rudy Rucker, Pat
Cadigan, Tom Maddox, Kim Stanley Robinson, Walter Jon Williams, James
Patrick Kelly, Greg Bear, John Shirley, Neal Stephenson.
* OS FILMES: Blade Runner, Matrix, Johnny Mnemonic, The 13th Floor, Neon
Flux, Videodrome, ExistenZ, Brincadeiras Perigosas e The Ghost in the Shell.
* O MODERADOR: Luís Filipe Silva, autor de «GalxMente» («Cidade da Carne» e
«Vinganças»), possivelmente os primeiros romances ciberpunks em português.
* SANTO PATRONO: William Gibson, «The street finds its own use of things»
* DATAS: Terças e Quintas, às 20.30, no espaço CEM, entre 4 e 27 Abril 2000.

                         --oOo--

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O QUE SABEMOS HOJE E NÃO SABÍAMOS ONTEM
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<> NETSCAPE ATACA DE NOVO

Até ao final de Março a Netscape vai tornar disponível na Internet a nova
versão do browser da Netscape (6.0).

O browser rival do IE5 tem estado a ser aperfeiçoado durante os últimos três
anos, com a colaboração de toda a fiel comunidade cibernáutica (que
apreciaram o facto de a Netscape ter disponibilizado o código-fonte para
melhorias, à semelhança do Linux).

Espera-se melhorias na gestão de mensagens instantâneas, facilitando o
acesso às listas de contactos do Instant Messenger da America OnLine, de que
a Netscape é subsidiária. Adiantaram também que o programa de e-mail,
incluído nesta versão, vai possibilitar a utilização de várias contas em
simultâneo.

                         --oOo--

<> REMAR CONTRA A MARÉ - COM SUCESSO

Nos EUA, os jornais locais e regionais estão a passar por um processo de
revitalização, embora num formato pouco físico.

De facto, uma empresa inovadora, de nome Streemail, encontra-se a
desenvolver por todo o país uma rede de newsletters escritas por centenas de
correspondentes locais e enviadas por e-mail. O resultado será, segundo o
fundador Bo Peabody, «um cruzamento de reportagens regionais com talk-shows
nacionais».

                         --oOo--

<> ALGUMAS DAS MAIS RECENTES DESCOBERTAS CIENTÍFICAS

Segundo o portal http://www.scicentral.com/, eis alguns relatórios
disponíveis na internet, divididos por disciplinas, com destaques para temas
importantes da TecnoFantasia:

Ciências Behavorais: http://www.scicentral.com/B-behavs.html#articles
> Estudo indica uma nova categoria de sinais químicos inodoros
> Estudo indica que os viciados na Internet sofrem de doença mental

Biotecnologia: http://www.scicentral.com/B-biotec.html#articles
> Cientistas encontram erros no Genoma Humano

Evolução e Paleontologia: http://www.scicentral.com/B-evolut.html#articles
> Encontrado o Elo entre Dinossauros e Pássaros?
> O custo do Sexo
> Encontrado fóssil de uma cobra com pernas
> As plantas podem ter surgido na Terra há mais tempo do que se pensava

Ciências do Pensamento: http://www.scicentral.com/B-neuros.html#articles
>Vivemos no Passado
>Relativamente à orientação espacial, as mulheres e os homens usam partes
diferentes do cérebro

Astronomia: http://www.scicentral.com/S-astron.html#articles
>Astrónomo encontra planetas a vogar livremente na Galáxia de Orion

                         --oOo--

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EVENTOS & E-VENTOS
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<> LANÇAMENTOS DA SEMANA

Encontra-se disponível em Portugal o último número da revista SCIENCE
FICTION AGE (Março). Aconselha-se a aquisição rápida, uma vez que a revista,
por falta de lucro embora não de qualidade, irá cessar publicação a partir
de Maio. Destaques para o novo conto da sequência «Saddle Point» de Stephen
Baxter, e para os artigos sobre biotecnologia, vida em Marte e Inteligência
Artificial. À venda nas principais livrarias, preço de capa 1450 Esc.

                         --oOo--

<> BREVÍSSIMAS

* Yoda, o único personagem de toda a série _Star Wars_ que parecia saber o
que dizia, vai voltar no próximo filme
* Livro de Terramar, de Ursula Le Guin (_The Farthest Shore_) vai ser
adaptado para cinema...
* ... bem como _The League of Extraordinary Gentlemen_ de Alan Moore
* Prémios Saturno destacam _A Lenda de Sleepy Hollow_ de Tim Burton
* Começaram as filmagens do Projecto Blair Witch 2
* Remake do filme _Forbidden Planet_ ansiosamente esperado

                         --oOo--

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FICÇÕES E CONFISSÕES
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    UMA TURISTA DO OUTRO MUNDO

Luís Miguel Sequeira

    Parte 1 de 8

Algures numa daquelas ruazinhas que ficam por trás do Largo do Rato, mas que
ainda não são consideradas como fazendo parte de S. Bento ou da Lapa,
existia um edifício do início do século em mau estado de conservação, com
quatro andares, com um pé direito típico dos edifícios da altura.

Esse edifício passaria completamente despercebido na zona. Uma pequena placa
de bronze, muito gasta pelo tempo e parcialmente corroída com verdete,
anunciava que o primeiro andar alojava a Subdivisão de Crimes
Extraordinários da Polícia Judiciária. Talvez o transeunte mais curioso
encontrasse um pretexto qualquer para entrar então no edifício, que dava
para uma escadaria velha e gasta - mas imaculadamente limpa. O primeiro
andar podia albergar qualquer consultório médico de terceira categoria, um
notário ou uma firma de advogados em declínio; uma campaínha de baquelite
negro datando dos anos trinta, ao lado de uma sólida porta de madeira, tinha
apenas uma chapa metálica com a inscrição «PJ/SCE».

Quem ousasse tocar a essa campaínha era imediatamente recompensado com o
ruído estridente do trinco eléctrico que abria a porta. Entraria para uma
pequena recepção que parecia parada no tempo. O chão era de pedra sem
características excepcionais; as paredes, gastas mas também limpas, eram
forradas a madeira a partir de meia altura. Tudo dava indicações de ter sido
restaurado décadas atrás, numa altura em que a palavra «restauro» era mais
sinónima de «manutenção» e pouco mais. Não havia degradação, ou estuque a
caír das paredes, ou inflitração de água - apenas uma sensação de gasto. Por
exemplo, a iluminação era fornecida por uma lâmpada fluorescente sem adornos
especiais; provavelmente teria sido colocada nos meados do século e
substituída por lâmpadas de dimensão igual ao longo dos tempos.

A pessoa responsável pela abertura do trinco executava em simultâneo as
tarefas de recepcionista, telefonista, secretária/dactilógrafa e de office
boy - embora fosse uma senhora de idade indeterminada, mas provavelmente
cinquentona, e que dava pelo nome de D. Isabel. Era também ela responsável
pela limpeza das instalações. Embora a simpatia não fosse o seu forte, D.
Isabel primava pela eficiência, característica bem rara na função pública.
Tudo na sua secretária de metal típica da burocracia estatal estava
meticulosamente arranjado - a velha consola do PBX, a máquina de escrever
electrónica, os papéis e as canetas. Na verdade, este excesso de eficiência
e de organização era totalmente desperdiçado - pois a Subdivisão de Crimes
Extraordinários não tinha quase nada para fazer. D. Isabel era, pois, como
as Forças Armadas portuguesas - pronta para a intervenção, mas consciente de
que jamais a sua intervenção seria necessária.

De manhã, ao chegar, sempre pontualmente às 8 horas, D. Isabel começava por
fazer a distribuição dos jornais. Levava cerca de uma hora para adquirir os
matutinos diários, lê-los na diagonal, assinalar os artigos de interesse, e
fazê-los chegar às mãos dos restantes funcionários da subdivisão. Era uma
rotina que fazia há trinta anos, desde que entrara ao serviço da Polícia
Judiciária.

A verdade é que não existiam também muitos funcionários na subdivisão. A
recepção dava para um corredor em U com seis portas em madeira, todas elas
com um vidro opaco, sobre o qual eram inscritos os nomes dos seus ocupantes
a tinta dourada. Em tempos idos, a pintura destes nomes era contratada a um
profissional, mas nos últimos anos era a própria D. Isabel a realizar essa
tarefa, por uma questão de minimizar os custos. De qualquer das formas, só
existiam mais quatro pessoas na subdivisão, que se conheciam muito bem; os
nomes que estavam pintados nas portas eram um pro forma originário de outros
departamentos e divisões da Policia Judiciária, e que se mantinha aqui
apenas por tradição, não por necessidade.

A primeira porta dava para um pequeno gabinete que era ocupado pelo agente
Manuel Gaspar Alves. Alves era também ele um cinquentão e fora polícia de
giro antes de ser transferido para aquela subdivisão. Homem de poucas
palavras, era o «operacional» da subdivisão, se bem que esse nome pomposo
não reflectisse em nada o seu trabalho - que, na verdade, era quase nulo.
Tinha vinte quilos a mais e provavelmente seria incapaz de correr atrás de
um suspeito, se alguma vez lhe pedissem que fizesse isso. De qualquer das
formas, fora para ali transferido na sequência de um tiroteio enquanto ao
serviço da PSP, quando, ainda muito novo, tinha levado um tiro numa perna e
outro na anca. Sobrevivera quase que por milagre, mas ficara praticamente
incapacitado de continuar a desempenhar a sua profissão. No entanto, a
Polícia defende os seus, e Alves encontrara ali na Subdivisão de Crimes
Extraordinários um trabalho sedentário que podia continuar a desempenhar. Ou
que não desempenhava, visto que o trabalho era muito pouco. Mesmo assim,
acompanhava os detectives nas suas (escassas) investigações, sempre que
preciso - nunca mais do que uma ou duas vezes por ano. Os restantes dias
passava-os a ler jornais e a ouvir música e relatos de futebol no velho
rádio que fora deixado pelo seu antecessor no seu gabinete. Mas era uma
pessoa fiável, muito calma, e bastante calado. Integrava-se perfeitamente
numa unidade cuja existência era praticamente nula e que sobrevivera ao
longo dos anos porque o seu orçamento era de tal forma reduzido que passava
completamente despercebido no rol de departamentos e divisões da PJ.

A porta em frente dava para uma espécie de arrecadação, que também
conservava a velha fotocopiadora dos anos setenta, por milagre ainda a
funcionar - ou talvez apenas funcional devido ao seu pouco uso. Afinal de
contas, nem sempe havia dinheiro para tirar fotocópias, e o uso da máquina
era bastante controlado. D. Isabel protestara energicamente pela introdução
da fotocopiadora - era a favor da manutenção do sistema antigo, artesanal, à
base de gelatina e amoníaco, que servia perfeitamente para a reprodução dos
poucos documentos que produzia na sua máquina de escrever. Mas tanto a
máquina de escrever, a fotocopiadora e o PBX tinham sido oferecidas pelos
órgãos centrais da PJ aquando da introdução de equipamento mais recente nas
divisões mais ricas. Eram os três dos equipamentos mais modernos que
existiam na Subdivisão de Crimes Extraordinários, com a excepção de um que
se encontrava no gabinete de um dos detectives.

Dando a primeira curva do U, ficava o maior e melhor gabinete, com vista
para o trânsito lisboeta, que naquela rua era relativamente escasso. Aqui
ficava o espaço pessoal do chefe da subdivisão, o inspector-chefe Eugênio de
Castro, licenciado em direito pela Universidade Católica. Já perto dos
sessenta anos, era um homem magro e aquilino, de feições duras, embora na
realidade fosse de coração mole. Constava que tinha tido um cargo importante
no Quartel-General da Polícia Judiciária, embora fosse muito novo nessa
altura. Uma complicação qualquer no seu passado forçara a sua transferência
para aquela unidade esquecida de todos. Mesmo assim, era, tal como a D.
Isabel, bastante eficiente no que fazia. Os seus relatórios de progresso -
embora curtos - eram os primeiros a dar entrada nos arquivos da PJ. Detia
também o recorde de fecho de casos - embora tal não fosse para admirar,
pelas razões que veremos de seguida.

É que a PJ apenas recorria à Subdivisão de Crimes Extraordinários quando
tinha entre mãos um caso qualquer que fosse aparentemente inexplicável ou
insolúvel. Antes de ser definitivamente arquivado, era passado para as mãos
de Eugênio de Castro. Este pacientemente delegava nos seus detectives e no
agente Manuel Alves uma exaustiva investigação fora dos moldes e
procedimentos normais da PJ. Recorriam-se a meios completamente estranhos -
como, por exemplo, o recurso aos arquivos da Torre do Tombo, a consulta em
especialistas sobre esoterismo ou até mesmo a mediums na busca de novas
informações que pudessem conduzir a uma conclusão de uma investigação cujos
factos abordassem o irracional, o inexplicável ou mesmo o oculto. Não era
para admirar, pois, que, por um lado, a PJ não desse importância alguma aos
casos que chegavam à SCE, como por outro lado ninguém lesse as conclusões
altamente improváveis a que Eugênio de Castro chegava. Os casos muitas vezes
eram fechados com explicações bizarras - ou mesmo sem sequer uma explicação
coerente para os factos. Haviam alturas em que os mais tresloucados casos
passavam pelas mãos da SCE; mas nos tempos mais recentes, era vulgar a PJ
ignorar completamente a existência da SCE, deitando a papelada dos casos
mais extraordinários directamente para o lixo. Existia algum equilíbrio
neste processo: afinal de contas, o custo de fazer passar uma investigação
para as mãos de Eugênio de Castro era quase nulo.
Mais valia darem-lhes algo que fazer do que deixá-los a passar o tempo a ler
jornais.

Pois era essa a tarefa mais importante da Subdivisão: a leitura de artigos
de jornais detalhando possíveis casos o mais bizarros possível. A Subdivisão
era suficientemente autónoma para ter liberdade de escolha nos casos que
investigava, sob sua própria iniciativa ou a pedido dos órgãos centrais.
Muitas vezes investigavam-se casos sem nexo apenas pelo prazer de fazer algo
de mais produtivo do que ler jornais. Era aqui preciso o bom senso de
Eugênio de Castro para saber distinguir o que valia a pena investigar -
argumentando que o caso tinha pelo menos algo que justificasse a sua
investigação - e o que nem valia a pena o esforço da leitura do respectivo
artigo no jornal.

Mesmo assim, a quantidade de casos absurdos que passava por Eugênio de
Castro era impressionante: muitas vezes chegavam-se aos vinte casos por ano,
quase todos eles sem qualquer relevância para a Justiça portuguesa. O último
caso que tivera alguma relevância e chegara mesmo aos tribunais envolvera um
mau-olhado lançado por uma «bruxa»... há quase quinze anos atrás! Eugênio de
Castro tinha uma dose de bom senso suficiente para saber quando é que haviam
factos suficientes para incomodar um juíz com uma dose de bizarria
suficiente para internar um louco...

O braço direito de Eugênio de Castro era o detective Diogo Duarte Nunes. Era
um pouco mais novo que o chefe da subdivisão e era quase o antagonismo
perfeito do mesmo. Era gordo, calvo e bonacheirão; um conversador natural.
Homem de muita cultura, era licenciado em sociologia, mas tinha uma atracção
anormal pelo oculto e pelo inexplicável que cedo causara a sua transferência
para a Subdivisão de Crimes Extraordinários, pois acabava por dificultar a
acção dos outros departamentos com as suas explicações arrevezadas. Tentara
inclusivé acusar um suspeito de assassínio apenas baseando-se na sua carta
astrológica. Mas aqui na SCE, brilhava - os seus conhecimentos profundos de
tudo o que era estranho eram preciosos para a investigação dos casos
inexplicáveis que passavam pelas mãos de Eugênio de Castro - mesmo que na
maior parte dos casos fosse o próprio Eugênio de Castro a reescrever o
processo de forma a lhe dar um pouco da consistência necessária a um
processo judicial - por mais extraordinário que fosse. De qualquer das
formas, o chefe da subdivisão sabia bem que Duarte Nunes era incansável na
sua tarefa de procura de explicações loucas - mas plausíveis na sua
bizarria - que exaustivamente prosseguia, mergulhado na pequena biblioteca
que possuía no seu gabinete.

Aliás, a sua biblioteca expandira ao ponto de ocupar a sala defronte, que de
momento estava atafulhada de estantes metálicas baratas cheias de pastas
cheias de papelada extraordinária. O gabinete de Duarte Nunes era o caos
completo, com uma bancada de trabalho com várias camadas de livros abertos
sobrepostos em cima de diagramas e anotações. Tinha uma colecção de
bloco-notas empilhados precariamente em cima da secretária de madeira, que
competiam pelo espaço no tampo da mesa com acessórios quase inúteis como o
telefone e a velha máquina de escrever Olympia. A um canto da mesa estava
talvez o equipamento mais moderno que jamais passara pelas portas da SCE: um
computador portátil de último modelo, oferecido por uma sobrinha predilecta
de Duarte Nunes, e que este nunca tinha conseguido colocar efectivamente ao
serviço da Justiça. Mesmo assim, era infinitamente mais rápido para desenhar
cartas astrológicas ou para mostrar cartas de Tarot no seu écran,
apresentadas por um software qualquer obtido algures na Internet.

Uma das várias prateleiras continha cópias de volumes de ficção que ninguém
conseguiria levar a sério num gabinete pertencente a um digno membro de uma
força policial: livros como o «Livro Azul» que documentava grande parte das
aparições de OVNIs nos Estados Unidos desde o incidente de Roswell no Novo
México, cassetes de alguns episódios dos X-Files (que Duarte Nunes parecia
acreditar que eram baseados em dossiers perdidos pelo FBI e recuperados por
um produtor qualquer de Hollywood na expectativa de lucro fácil com a sua
divulgação através de uma série apresentada como ficção), as obras completas
de Edgar Allan Poe e de H. P. Lovecraft, traduções beras de livros medievais
ocultos, ensaios e teses sobre os Templários, uma boa meia dúzia de livros
sobre esoterismo, escritos por autores de credibilidade duvidosa, enfim, uma
série de obras relacionadas com todo o tipo de assuntos estranhos, bizarros,
ocultos e extraordinários. Talvez o livro mais «normal» fosse uma bíblia
hebraica do século dezoito, cujas páginas encerravam uma série de notas
sobre explicações proibidas pela Igreja Católica.
O resto do gabinete encerrava livros sobre assuntos mais comuns, como
física, história, arte e geografia. Havia uma estante quase dedicada apenas
a arqueologia. Uma outra tinha livros antigos sobre sociologia, psicologia e
até parapsicologia. Alguns tomos sobre medicina, incluindo medicina
naturalista e oriental, completavam o quadro. Junto à janela estava uma
ardósia repleta de símblos cabalísticos; Eugênio de Castro costumava dizer
que se Duarte Nunes vivesse no século dezasseis, seria queimado num
auto-da-fé por bruxaria...

Para completar o ambiente místico do gabinete, a atmosfera estava geralmente
repleta de fumos exalados por um cachimbo quase permanentemente aceso,
característica que Duarte Nunes gostava de partilhar com Sherlock Holmes - a
névoa permanente que enchia o gabinete parecia tornar tudo ainda mais
irreal, mas Duarte Nunes estava convicto que os odores do cachimbo lhe
aguçavam o espírito durante o trabalho mais intenso. Escusado será dizer que
era um argumento pouco convincente, especialmente para D. Isabel, que odiava
profundamente o vício do tabaco, e que encontrava todos os pretextos para
arejar a sala do sociólogo-bruxo sempre que este se ausentava por um minuto
que fosse.

Numa tarde sombria no final do Verão, Eugênio de Castro abriu a porta do
gabinete do detective, torcendo o nariz perante o miasma que emanava do
cachimbo de Duarte Nunes. Este aparentemente deliciava-se em experimentar as
marcas de tabaco com odores o mais irrespiráveis possíveis. Deixou uma pasta
com capa amarelecida em cima dum espaço da mesa que por lapso o sociólogo se
esquecera de ocupar com os seus incontáveis bloco-notas e diagramas. O facto
da capa do dossier ostentar as palavras «Ministério da Defesa Nacional»
despertou a curiosidade do detective, que arqueou uma sobrancelha e deixou
um sorriso maroto trespassar os lábios carnudos. - Ena, o Exército tem algo
para nós? - interrogou-se.

- Dá uma olhadela nisto e passa-a ao Benjamim, - disse simplesmente o chefe
e saíu, grato por se libertar daquele antro sinistro que passava por
gabinete.

O «Benjamim» era o ocupante da última sala da Subdivisão. Era igualmente o
mais jovem membro da unidade. Dava pelo nome de Paulo Vasconcelos e vinha de
boas famílias. Estudara medicina durante uns anos, mas nunca concluira o
curso; pensava em especializar-se em Medicina Legal e exercer a profissão de
médico legista. Concluira a parte escolar com uma média péssima e fora
aconselhado a desistir; tirara dois anos de Direito, mas a falta de
interesse no assunto não lhe permitira continuar os estudos com o ardor
necessário para decorar os enormes volumes de Direito a que os estudantes
estavam sujeitos. O pai arranjara-lhe uma cunha para um trabalho honesto no
Ministério da Justiça; existiam alguns familiares que ocupavam lugares de
respeito dentro do Ministério, alguns juízes e até um adjunto do
Procurador-Geral. Mas a falta de entusiasmo do jovem Paulo acabara por o
condenar a uma transferência para a unidade mais inútil da Polícia
Judiciária. O pai desesperara ao ver o seu filho mais novo relegado para um
cargo de funcionário público sem importância; a filha mais velha era
assessora da administração do Banco de Portugal, um outro filho desempenhava
um papel importante na direcção de uma das firmas do grupo da família, um
terceiro estava bem lançado num escritório de advocacia de luxo, tratando de
off-shores na Madeira, e apenas o último filho fora uma desilusão completa,
apesar do seu ingresso na Faculdade de Medicina parecer inicialmente
extremamente promissor. A mãe, contudo, mais prática, achava que qualquer
profissão honesta fosse melhor do que a condenação a uma vida de estudante
frustrado. E a verdade é que Paulo conseguira terminar com louvor e
distinção um curso de formação interna na PJ que lhe dava a equivalência
necessária para a posição de detective. Fora assim destacado para os
serviços centrais da PJ. A estadia fora breve - o jovem recém-promovido
detective mostrava uma aptidão para encontrar teorias pouco plausíveis para
a solução de casos pendentes, e preferia o trabalho em frente aos livros do
que o trabalho de rua - estranha vocação para quem passara uma vida de
estudante com horror aos livros de estudo! Mas alguém se recordara da
existência da Subdivisão de Crimes Extraordinários, que lhe assentava como
uma luva, e graças a um pedido especial da família Vasconcelos, que fora
muito insistente para que o jovem Paulo exercesse a profissão de detective -
«um cargo digno, com responsabilidades, e com algum staus quo», segundo as
palavras da mãe - fora então transferido para a SCE.

Paulo rapidamente se adaptou à nova posição, com bastante entusiasmo. Dada a
sua formação em Medicina, passaram-lhe os casos bizarros todos que tinham a
ver com corpos estranhamente mutilados ou os assassínios com substâncias
estranhas que os Homicídios nunca conseguiram resolver. O jovem detective
parecia assim re-encontrar a sua vocação e sentia-se bem naquela unidade
pouco exigente, onde podia dar largas à imaginação na sua demanda por
explicações pouco plausíveis para os casos inexplicáveis. Eugênio de Castro,
contudo, já habituado às teorias de Duarte Nunes, limitava grandemente a
imaginação de Paulo Vasconcelos, insistindo em relatórios mais objectivos.
Mas Paulo não precisava de grandes incentivos para se dedicar de corpo e
alma ao seu trabalho. Formara rapidamente uma amizade com o sociólogo Duarte
Nunes, ficando várias vezes maravilhado com a sua vasta biblioteca do
bizarro e do obscuro; tornou-se no seu mais fiel pupilo, facto que dava
muita satisfação pessoal a Duarte Nunes, embora não fosse tão bem recebido
pelo chefe, que tentava - em vão, bem o sabia - que a sua unidade produzisse
relatórios mais plausíveis para obter maior credibilidade junto dos serviços
centrais da PJ.

Foi assim que, no dia seguinte, Duarte Nunes entrou no pequeno gabinete do
«Benjamim» da Subdivisão, o seu sorriso maroto brincando ao canto do lábio
quando se sentou em frente da mesa onde Paulo tomava esporadicamente notas
sobre um caso em andamento e que seguia na imprensa e nos relatórios da
«Judite». Ergueu o olhar para o detective mais velho. Este simplesmente
depositou o dossier militar em cima da mesa. - Quero que leias isto, que
tires umas notas e que discutas o assunto comigo durante o almoço. À uma
hora, no «Trapos».

O «Trapos» era um pequeno e barulhento restaurante uma rua abaixo, que
apesar de servir apenas pratos do dia, tinha um ambiente um pouco retro e
era frequentado por um conjunto particular de pessoas que trabalhavam na
zona - alguns intelectuais, aqui e ali uns antiquários das lojas da zona,
uns estudantes da Escola de Artes Plásticas que abrira no Rato, e este ou
aquele deputado de S. Bento mais associado à classe intelectual do que a
classe política. Eugênio de Castro recusava-se a entrar no «Trapos»; dizia
que estava farto de pseudo-intelectuais a discutirem a influência de Kant na
Constituição Portuguesa. Duarte Nunes, admitindo uma certa nostalgia pelos
tempos de estudante em que se passavam os dias com conversas perfeitamente
inúteis e fúteis do género, numa altura em que acreditava que ele e os
amigos estavam na realidade a discutir temas de grande importância para o
património cultural da humanidade, era bom frequentador do «Trapos», ao
ponto de ter uma pequena mesa «cativa» que lhe estava eternamente reservada
num canto da sala, de onde se podia observar toda a fauna que passava pelo
«Trapos». Paulo Vasconcelos fora pontual e já esperava na mesa do costume o
idoso detective-filósofo há mais de vinte minutos. Este, sempre sorridente,
sentou-se murmurando umas desculpas. - É que estava a acabar de ler um
excerto interessante de um livro de Johannes Fleischmann - não conheces? Um
judeu alemão do século dezoito, tem meia dúzia de coisas interessantes,
estava a ler o Die Wasserwesen, uma recolha de relatos históricos
alegadamente verídicos sobre uma enorme conspiração de uma raça de
humanóides que vive há milênios nas zonas mais profundas dos oceanos, e que
a pouco e pouco têm influenciado a raça humana a tornar-se mais
civilizada...

Este género de conversas de Duarte Nunes sempre arrancava um sorriso ao
tímido Paulo, que achava extraodinário como é que uma pessoa com idade para
ser seu pai, e evidentemente com uma certa dose de cultura - se bem que
muito parcial! - acreditava com tanta veemência naquilo que encontrava. De
certa forma, Duarte Nunes encorajava o próprio Paulo, que tinha a tendência
para dar largas à imaginação para explicar certos factos mais incriveis.

Acendeu o seu odorífero cachimbo, facto que levou Paulo a puxar de um
cigarro, vício que «apanhara» por contacto com o sociólogo e que
provavelmente escandalizaria quase toda a sua família, à excepção da irmã
mais velha, que era um caso sui generis. Teresa era cinco anos mais velha
que Paulo e tinha uma figura impressionante (que decerto não saía à mãe,
matrona de expressão rude e com excesso de peso desde criança), apesar de
não praticar nenhuma forma de exercício, alimentando-se com tudo que tivesse
excesso de colestrol, fumasse dois maços por dia, bebesse ao ponto de ser
quase alcoólica, tivesse experimentado quase todos os tipos de drogas, e
partilhado o leito com metade de Lisboa, para além de ter sido presa duas
vezes em rusgas de discotecas por comportamento escandaloso que acabara em
sessões de strip-tease - o que nunca a impedira de ter sido a primeira do
curso, tivesse uma ascensão quase mágica dentro do Banco de Portugal sem
qualquer intervenção da família, tivesse sido eleita a «Mulher do Ano» por
uma revista do jet-set e publicasse dois best-sellers no espaço de dois
anos, um dos quais um livro técnico sobre operações financeiras de capital
de risco e o outro um romance pornográfico... mas aos que têm sucesso, uma
carreira invejável e uma fama notável, todas as excentricidades eram
permitidas.

- ... mas de qualquer forma, - continuava Duarte Nunes, com Paulo a perder
já o fio à meada, - não existe nenhuma prova científica que comprove a
existência de taquiões que viajem a velocidades superiores à da luz, em
clara violação de todas as leis conhecidas no Universo. O que nunca impediu
que a sua formulação matemática pusesse em questão o modelo relativista.
Paulo folheou o dossier militar e procurou desesperadamente que Duarte Nunes
se concentrasse no assunto em questão. - Como é que uma coisa destas chegou
às mãos do chefe?

(continua no próximo número)

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