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Newsletter EVENTOS.
eventos 2.07 (08/04/00)
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                  Revista de TecnoFantasia

< http://www.geocities.com/simetriaEVENTOS >
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Nº 2.07    publicação semanal e gratuita       08 Abr. 2000
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Coordenação: Luís Filipe Silva
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(Mensagem 1 de 2)


«Quando era pequena perguntei à minha avó se me podia
contar um segredo que só os adultos conhecessem, e ela,
depois de pensar um bocado, revelou-me: os adultos não
existem.»
  Karen Joy Fowler, _The Marianas Islands_


CONTEÚDO

(Mensagem 1)
EDITORIAL: The Coming of Shape to Things (II)
VIDA: O Laboratório da Realidade
CULTURA: A Arquitectura do Possível
LITERATURA E AFINS: Turistas Eventuais
CIÊNCIA: O Que Sabemos Hoje e Não Sabíamos Ontem
AGENDA: Eventos & E-ventos

(Mensagem 2)
FICÇÕES E CONFISSÕES
Concurso de Ficção Primavera 2000

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Subscrições: enviar mail com subject/assunto «ASSINATURA» para:
                  [email protected]
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NOTA: A internet é o meio de educação e informação previlegiado
      do novo milénio. Neste sentido, *EVENTOS* encoraja a
      disseminação do conhecimento, autorizando a reprodução e
      envio da revista, desde que seja difundido na íntegra e
      com indicação completa da sua origem. Esta autorização
      no entanto só é válida para os artigos e notícias, e desde
      que o fim a que a reprodução se destina tiver natureza apenas
      didática - de modo nenhum deve ser difundido com fins comerciais.
      As obras de ficção aqui publicadas não estão abrangidas por
      esta permissão e são da propriedade exclusiva dos seus
      autores, pelo que a sua reprodução não autorizada é proibida.
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                         --oOo--

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EDITORIAL
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THE COMING OF SHAPE TO THINGS

Luís Filipe Silva


* Segunda Parte: Joyce e o Filme

No entanto antes do pós-modernismo havia Joyce. O primeiro: James. Que
transformou a arte da narrativa na arte da fragmentação, que deu voz ao
pensamento confuso e irrequieto do dia a dia. _Ulisses_ é um marco da
literatura moderna, não tanto pela exibição do virtuosismo cultural do
autor, como pelo reconhecimento assumido de que existe mais do que um
narrador em cada história, que a nossa vida, ou melhor, os nossos dias são
marcados por momentos de ficção, drama, tragédia, comédia e cinema. O
pensamento desgragmentado do senhor Bloom torna-se afinal no espelho da
sociedade tal como se avizinhava nos inícios do século XX: múltipla,
universal, cheia de informação - e logo, cheia de ruído, confusa, impossível
de conceber mesmo pelo mais bem informado dos homens cultos.

O caminho que Joyce trilhou poucos iriam seguir, e agora está a ficar
esquecido.

A culpa acabaria por ser do cinema.

Se houve algum benefício que o cinema trouxesse (ainda há quem duvide) foi
sem dúvida o de permitir que os espectadores, o público em geral, ficassem
expostos continuamente a novas formas de narrativa. Ir ao teatro poderia ser
um acontecimento ocasional, ou mesmo frequente, da sociedade da época - no
entanto, o drama, pela sua concepção, não mostrava, implicava. A experiência
de assistir a uma peça estava condicionada pela capacidade de absorção do
público: quanto mais sofisticado, maior seria a capacidade de imaginar ou
entender as diferentes implicações do cenário (à partida, uma verdade
aplicável a todo o tipo de audiências). O cinema, no entanto, vai, desde o
início, mostrar o que o teatro não mostrava. Fornecer perspectivas novas,
assustadoras, como a do comboio a avançar na nossa direcção. Levar os
espectadores aos lugares, visualizar os truques da imaginação.

A linguagem do cinema desenvolve-se tão rapida e desenvoltamente que se pode
dizer que tenha sido quase instintiva. Enquadramento, ritmo, diálogo - o que
funciona e o que não funciona vai muito rapidamente notar-se na nova
indústria, cujo público aflui cada vez mais em massa. O diálogo
estabelece-se - e em pouco tempo, milhares de pessoas encontram-se todos os
meses sujeitos a narrativa, ficção, drama visual, informação. E a novas
noções de tempo narrativo.

O filme trouxe-nos a percepção do tempo como um elemento em decomposição.
Que se podia separar da realidade. O tempo como narrador, por si mesmo,
independente. Milhares observaram crianças a andar devagar, pessoas na rua a
andar para trás, o comboio a retroceder à estação, passageiros a entrar. A
história não muda, aqui - apenas a forma como é contada. Foi fácil avançar
para sequências paralelas com diferentes pontos de vista, diferentes
situações de narração simultânea.

Sem o cinema e esta nova percepção, Joyce nunca teria escrito _Ulisses_, e o
pós-modernismo não teria surgido.

Em termos literários, o pós-modernismo vai renegar a noção de que existe uma
narração - princípio, fins e no meio um conjunto de tentativas, mais ou
menos frustradas de atingir o objectivo. Ou seja, vai renegar a tradição e o
sustentáculo da ficção, que tem a idade da própria linguagem. O tratamento
da forma torna-se mais importante que o conteúdo, ou então torna-se no
próprio conteúdo. Imagens confusas de diferentes tempos narrativos
intrometem-se na obra, na tentativa de, ao expôr os artifícios da ficção, se
consiga um melhor entendimento da natureza humana. A tentativa apercebida,
que é mais uma inquietação que um sentimento manifesto, é também sentida
pelos surrealistas, por Dali, por Picasso, por Man Ray. Mas o surrealismo é
apenas um passo. Nos anos sessenta, Ballard escreve os seus romances
condensados, Goddard confunde o cinema, e vão chamar ao fenómeno _Nouvelle
Vague_, ou _New Wave_ na TecnoFantasia.

Mas os malefícios desta nova droga que entorpecia a percepção estavam já a
ser sentidos. Quando o exagero surge sem conteúdo a acompanhar, a arte
começa a sofrer. E foi o que aconteceu nos anos 70. A lição de Joyce tinha
sido esquecida: para ignorar as convenções, é primeiro necessário ter-se em
mente um objectivo e uma ideia clara. Muitos dos autores que caíram na _New
Wave_ esqueceram-se que pura e simplesmente era necessário ter algo para
dizer, e ficaram-se pelo mostruário de técnicas psicadélicas.


(continua no próximo número)

                         --oOo--

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| Jones não considerava que a resposta fosse credível.        |
| Comentou: - Sr. Watts, estas pessoas não parecem estar      |
| mortas. E na verdade, pondo de parte os exageros, não estão |
| verdadeiramente mortas, pois não?                           |
|                                                             |
| - Eu nunca ponho de parte os exageros - respondeu-lhe Watts.|
| Mas já que não és de cá, vou explicar-te melhor como são as |
| coisas. Para começar, a morte é uma mera questão de termi-  |
| nologia. Outrora a definição era simplicíssima: se não te   |
| mexesses durante bastante tempo era porque tinhas morrido.  |
| Mas agora os cientistas examinaram melhor a questão e pes-  |
| quisaram o assunto exaustivamente. Chegaram à conclusão que |
| podes estar morto em todos os aspectos que forem relevantes,|
| mas continuares por aí a falar e a mexer-te.                |
|                                                             |
|                  Robert Sheckley, _Journey Beyond Tomorrow_ |
|                                                             |
|*EVENTOS* pergunta: você acredita mesmo que está vivo?       |
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                         --oOo--
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O LABORATÓRIO DA REALIDADE
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<> O DETENTOR DA CHAVE

O director da divisão de informação e informática da UNESCO esteve presente
esta semana na Fundação Gulbenkian, no congresso «De Gutenberg ao terceiro
milénio», organizado pela Universidade Autónoma de Lisboa. Tendo como função
questionar o papel das novas tecnologias nas sociedades modernas, Philippe
Quéau acabaria, na sua conferência inaugural subordinada ao tema
«Ciberespaço e noosfera», termos bastante conhecidos dos TecnoFantasistas,
acabaria por colocar uma questão importante no panorama das actuais relações
internacionais de informação, conhecimento e controlo da riqueza.

«Qual o lugar dos excluídos no ciberespaço?»

O mundo está hoje dividido por um novo Tratado de Tordesilhas. Desta vez,
contudo, não temos a benção papal, não existem dois pretentores à
exclusividade de exploração das principais rotas mundiais de comércio, não
se assina um contrato de exclusividade, não se foge ligeiramente e às
escondidas aos termos do contrato para proveito próprio.

Ou será que estou enganado? Vejamos:

Ainda temos Ocidente e Oriente. Já aqui se falou que a internet pode ser
vista como um princípio para uma nova Rota da Seda (v. EVENTOS 2.05). Neste
caso, podemos levar a definição mais além, e considerar que a internet é a
forma de fugir à Rota da Seda, é a reprodução do que os Portugueses
acabariam por tentar, e conseguir, há seiscentos anos: estabelecer atalhos
para as mercadorias, eliminar terceiros intervenientes, estabelecer-se como
a «melhor oferta com o melhor serviço». Melhor caso do que a Amazon.Com não
existe. Para quê livrarias, para quê empregados que nada conhecem do
assunto, para quê grandes hipermercados de livros que nunca têm a
preciosidade que eu pretendo?

A grande vitória da Amazon, e de todas as outras lojas virtuais, foi de
terem conseguido separar psicologicamente o custo associado à produção do
item (preço de custo mais margem de grossista) do custo de distribuição e
entrega (que normalmente aumenta em 55% o valor do item). Esta diferenciação
psicológica é a grande vitória deste tipo de lojas, que se tornam
verdadeiramente em grossistas com catálogos dinâmicos - e as _partnerships_
com grandes empresas de distribuição internacional permitem até custos de
distribuição mais reduzidos do que os efectuados por empresas «normais».

O resultado final é benéfico para todos. Mas é um resultado que acontece
numa parcela do mundo a que chamamos Ocidente, ou mundo ocidentalizado. A
referência não é europeia: na melhor das hipóteses, estamos no meio. O
Ocidente, neste caso, e como todos sabemos, é os Estados Unidos.

O mundo ocidental caracteriza-se por uma aderência a princípios éticos,
económicos e sociais bastante específicos. A questão do lucro e não da
partilha, a questão da concorrência e não da ajuda mútua, a questão do valor
do indivíduo ao invés do valor da sociedade, a imediatez do presente ao
invés da abnegação para uma vida futura. Algumas considerações parecem
ridículas, mas a verdade é que estes paradigmas existiram, antigamente, e
ainda se verificam em outros países e culturas. O que está em causa não é a
crença do indivíduo: é a razão de ser principal de toda a sociedade, todos
os milhões de seres reunidos. Que a tradição e o afastamento transformaram
na oposição quase natural entre as terras do Atlântico e as do Pacífico.

Falar de internet em África parece despropositado, uma vez que grande parte
daqueles países não passaram sequer por uma Revolução Industrial condigna. A
América Latina segue obediente os ditames americanos pois precisa dos
avultados financiamentos. O Extremo-Oriente, habituado a sobreviver,
reconheceu que por agora é o outro lado do mundo que detém o poder, e também
se amansou - mas não está na sua natureza. Na verdade, a única oposição
aberta ao estatuto mundial é a da China.

Desse modo, falamos da exclusão do ciberespaço é praticamente falarmos de
modos alternativos de vida, relativamente ao mundo ocidental. E obviamente a
nossa atitude é de intriga, ou mesmo de comiseração. Mas os excluídos talvez
mostrem outra atitude perante o assunto.

Sobre o assunto, a TecnoFantasia produziu o maravilhoso _Islands in the Net_
de Bruce Sterling, e também o livro «The Book of End Times», criticado
noutra secção deste número.

                         --oOo--

<> O LUCRO DO NEGÓCIO

O lucro do negócio, ou melhor dizendo, o negócio do lucro, é amplamente
debatido e discutido no último número da revista «Business 2.0». Mais de
três dezenas de directores de algumas das mais importantes empresas da
actualidade respondem à questão essencial da economia do ano 2000: se uma
empresa deve ter como objectivo o lucro, ou não? A resposta unânime é, pouco
surpreendemente, afirmativa, sendo que alguns directores se focam
directamente no lucro como objectivo final e prioritário de qualquer
investimento, enquanto que outros assumem que um objectivo demasiado
focalizado pode travar à nascença uma iniciativa válida, e portanto
recomendam tempos de sacrifício - embora, claro, com a promessa de riquezas
no fim do arco-íris.

Esta perspectiva complica-se obviamente se colocarmos a internet ao barulho.
Pode-se fazer negócio na internet? Pode-se ter lucro num meio cuja palavra
de ordem é ainda dar e distribuír de graça, e em que todas as tentativas de
monopólio acabam em insucesso? As _startups_ e os portais apostam na
publicidade e na colocação em bolsa - mas não nos esqueçamos que nem todos
os negócios se chamam Amazon.com, e mesmo esta ainda vai longe de apresentar
lucros. Até que ponto é que uma montra ou catálogo interactivo
(essencialmente, é o que é qualquer site de empresa) vale enquanto
empreendimento comercial? A bolsa de Nova Iorque parece acreditar que vale
milhões, mas já não é a primeira vez que se prova estar enganada. Uma das
respostas do artigo fala com interesse neste assunto. A internet é uma bolha
de ar, é o que pretende dizer, prestes a rebentar.

As evidências são, no entanto, mistas, havendo iniciativas que têm sucesso
quase instantâneo, por vezes sem muito esforço, enquanto que outras demoram
a «arrancar», e outras ainda se quedam pela meta, nunca conseguindo adquirir
velocidade nem ímpeto. É verdade que oferecer serviços incomuns pode ser uma
razão do sucesso inesperado, no entanto nem sempre basta uma boa base de
clientes, nem publicidade, nem um site bem concebido. Por vezes,
simplesmente não há apetência, ou não faz muito sentido. Esta discussão é
demasiado ampla para o reduzido espaço desta notícia - no entanto, fica aqui
o endereço com outro artigo da mesma revista, onde se analiza um conjunto de
_startups_ que tiveram sucesso e insucesso, sem mais comentários:
http://www.business2.com/articles/2000/04/content/feature_5.html

Relativamente à Nova Economia, podem então encontrar uma pequena perspectiva
no endereço
http://www.business2.com/articles/2000/04/content/feature_2.html. Fiquem no
entanto cientes que o artigo não aborda a questão central: será que a
internet irá despoletar a queda do estatuto financeiro do mundo ocidental, e
permitir o nascimento de uma  nova ordem económica?

                         --oOo--
<> BREVÍSSIMAS

+ Depois da execução anunciada e levada a cabo da tecnologia PUSH (em que o
espectador, incauto, seria bombardeado com informação, toneladas de dados,
imagens e sons, provenientes do grande purgatório virtual), chega-nos a
tecnologia STREAMING MEDIA, também ela com morte anunciada, em que a
informação flui de forma confortável e suave, como uma música ambiente,
nunca se intrometendo na actividade do utilizador, mas presente, eternamente
presente, como um odor estranho que teima em persistir. Ambas as atitudes
dão razão a uma tendência (preocupante) de que EVENTOS tem vindo a
aperceber-se ao longo dos tempos: que quanto mais conhecimento se torna
disponível ao cidadão comum, menos ele procura aprofundar. Numa era da
existência de televisão, rádio, bibliotecas municipais (ainda uma belíssima
e indispensável fonte de conhecimento), e internet, que sentido faz às
grandes corporações em obrigarem a informação a viajar até ao espectador
relutante - não devia ser ele a procurar? A verdade é que estamos a ficar
fechados para a informação, a ser cada vez mais selectos no que queremos
conhecer, a confundir notícias com publicidade. A tendência do conhecimento
é para a especialização, a selecção - e acabamos tão ignorantes, ou ainda
mais, do que os nossos antepassados - com a diferença de que julgamos que
sabemos tudo...

+ O mundo ultrapassou a TecnoFantasia: ainda na semana passada se anunciava
nos próximos meses o mapeamento completo do genoma humano, e já esta semana
a Celera Genomics anunciou que tinha acabado o projecto. Resultados
práticos? Para já aparentemente nenhum, pois o trabalho efectuado resumiu-se
a sequenciar a estrutura completa dos ADNs de uma amostra de indivíduos
(cerca de 3 mil milhões de unidades cada um), sendo agora preciso avançar-se
para o próximo passo de os atribuir a funções especializadas do corpo.
Afinal, o ADN é _só_ o código-fonte para todos os processamentos químicos
efectuados por um organismo terrestre...

+ Mercado de patentes: passa a ser possível vender e adquirir propriedade
intelectual como se fossem títulos ou opções, através de pl-x.com (Patent
and Licence Exchange), o novo mercado virtual onde as mercadorias são
patentes. Mais informações em:
http://www.business2.com/articles/2000/04/content/feature_4.html e no
próprio site http://www.pl-x.com

+ Numa perspectiva de realidade bastante mais premente que a da economia e
de Wall Street, um boletim da vigília espacial dos Estados Unidos avisa para
o ínico de uma tempestade geo-magnética. Segundo o comunicado de 6 de Abril,
«a nave ACE, localizada aproximadamente a um milhão de milhas do Sol,
detectou uma erupção no vento solar de alta velocidade (...) Crê-se que esta
estrutura tenha sido lançada pelo Sol no dia 4 de Abril. O campo magnético
da Terra respondeu pouco depois, provocando condições tempestuosas em todas
as latitudes. Espera-se que a tempestade continue por 24-36 horas. Impactos
significativos em sistemas terrestes: usinas de energia eléctrica, operações
como espaço-naves, sistemas de comunicação e navegação. Relativamente à
Escala da Vigília do Tempo Espacial da NOAA, esta tempestade atigirá a
categoria G3 (forte).» Recomenda-se a todos os autores e pretendentes a
autor de TecnoFantasia, engenheiros e visionários do futuro que considerem
que quanto maior fôr a complexidade do nível tecnológico de uma civilização,
mais dependente se encontra de factores a uma escala macro, próprios do
universo...
Fonte: http://sec.noaa.gov/advisories/200004061951_advisory.html

+ Na revista do Expresso desta semana, surgem dois anúncios, quase lado a
lado, que evidenciam como a nossa percepção das novas tecnologias tem
mudado de forma alucinante: uma loja virtual recentemente inaugurada
apresenta um jovem sentado à secretária, alegremente efectuando compras
e rodeado de saquinhos de mão; logo a seguir, uma empresa de telecomuni-
cações mostra outro jovem, no cimo de uma montanha que acabou de escalar,
a receber imagens da net (ou seja, acesso aos mesmos serviços) através
de tecnologia WAP. Implicações? As lojas virtuais impedem-nos o movimento,
obrigam-nos a estar sentados em casa, ao computador, para podermos
disfrutar os seus serviços; no entanto, ter um telemóvel é fixe, é «cool»
e dá-nos liberdade para gozarmos a nova forma de estar na TecnoFantasia.
A tecnologia que nos prende é a que nos liberta? Ou será apenas o
resultado da pobreza de imaginação dos consultores de marketing da loja
virtual, talvez os grandes responsáveis pela falta de sucesso deste
tipo de negócios em Portugal?...

                         --oOo--

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|                Site Recomendado da Semana                    |
|                    PROJECTO VÉNUS                            |
|              http://www.thevenusproject.com/                 |
| (a construção de uma cultura num mundo novo, com ferramentas |
|  e técnicas da TecnoFantasia)                                |
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A ARQUITECTURA DO POSSÍVEL
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<> BIBLIOTECA INTERNACIONAL

A London School of Economics, a Cambridge University Press, a British
Library, o Smithsonian National Museum of Natural History, a New York Public
Library e a Columbia University uniram-se para anunciar ao mundo esta semana
a criação de uma biblioteca pública (Fathom.com) internacional, tendo por
base um investimento inicial de 116 milhões de dólares.

Além de conteúdo gratuito e uma garantia de qualidade, o projecto incluirá
ainda lojas online relacionadas com produtos de conhecimento e investigação,
e a possibilidade de inscrição (paga) em cursos online (v. EVENTOS 2.06).

E infelizmente, sabendo-se que o português é a quinta língua mais falada no
mundo, nada existe de concreto nesta língua, nada sobre a sua cultura e do
Brasil...

Endereço: http://www.fathom.com

                         --oOo--

<> AUTORES PRECISAM-SE

O serviço de publicações em formato electrónico (os chamados e-livros)
Xlibris.com foi esta semana adquirido por um dos gigantes da indústria
editorial, a Random House Inc.

Embora o nível de participação no capital da empresa seja minoritário, o
investimento será suficiente para «poderem apoiar e servir os autores num
nível nunca antes sonhado», disse o director da Xlibris.com, John Feldcamp,
à revista Wired.

A Xlibris é uma empresa sediada em Filadélfia que oferece actualmente
serviços a autores para publicar e-livros, tendo anunciado também planos
para desenvolver um site centrado nos autores, disponibilizando-lhes páginas
específicas, chat rooms, fóruns de discussão e message boards. A grande
novidade está no facto de este serviço ser gratuito e sem restrições à
exclusividade dos direitos das obras.

Este anúncio vem trazer um suspiro de alívio à comunidade de autores
virtuais, que vêm assim dado mais um passo na direcção da legitimidade
literária. Durante muitos anos considerados como autores menores, numa
qualidade semelhante à que se reservou no início do século XX aos autores de
pulp-fiction dos EUA, ou que se continua a atribuír aos autores da chamada
«literatura de aeroporto», aqueles cuja produção literária existe somente na
forma virtual de HTML, ASCII ou PDF (designações que se têm vindo a
acrescentar aos tradicionais formatos «livro de bolso», «livro brochado»,
entre outros), encontram-se a ganhar terreno e a defender a qualidade das
suas obras.

De facto muitas editoras por esse universo anglo-saxónico fora têm, nos
últimos anos, desenvolvido actividades de publicação restrita, e apenas em
formato digital, sendo a mais famosa na TecnoFantasia a Pulpless.com. Esta
editora, ao contrário de muitas, para aumentar a qualidade do catálogo,
tornou disponível em formato electrónico, e com possibilidade de
print-on-demand (o livro vai para as rotativas exemplar a exemplar, à medida
que são encomendados, sem sofrer custos de armazenagem), obras de autores
famosos (Silverberg, Leiber) que já não se encontravam disponíveis nas
livrarias nem haveria sequer a possibilidade de serem re-editadas. Este
serviço é complementado com a publicação de novos autores.

O sucesso destas iniciativas aumentou quando a NuvoMedia, entre outras,
disponibilizou o Rocket eBook(tm), um pequeno aparelho com o tamanho de um
livro de bolso que permite a leitura de obras «descarregadas» da net - a que
se aliaram livrarias virtuais como a Barnes & Noble, uma das primeiras
fornecedoras de livros na forma digital.

Chegámos à era do «readerman», como outrora já foi a era do «walkman».
EVENTOS não se pronuncia sobre o formato digital, sabendo de antemão (e quem
o pode negar?) que a preferência de muitos dos leitores vai para aqueles
pequenos objectos de papel cuja presença física entre as mãos é
indispensável para a apreciação da leitura. EVENTOS recorda apenas as
palavras de alguns alfarrabistas, quando se vê perante um título difícil de
encontrar, mas que tem a capa rasgada e as folhas bolarentas: «o aspecto não
conta para nada - o que interessa é o conteúdo».

E para quando, pergunta, uma editora virtual em português? Alô, está aí
alguém?

                         --oOo--

<> A LIVRARIA MAIS ANTIGA DO MUNDO FOI ASSASSINADA PELA INTERNET

John Smith & Son, de Glasgow, Escócia, considerada a livraria mais antiga do
mundo, com quase 250 anos de idade, foi obrigada a encerrar (segundo as
afirmações dos donos) devido à queda das vendas provocadas por condições de
distribuição adversas, a que se veio acrescentar o aumento das encomendas
das livrarias virtuais.

Esta livraria, que era já considerada uma instituição (o número de 7 de
Abril do London Times afirmava que a livraria era um século mais antiga que
a própria Oxford University Press), tinha sido criada por John Smith, o
filho mais novo do Laird of Craigend, e vendia livros, bolos e café aos
mercadores de tabaco de Glasgow.

A tragédia resume-se a cinquenta empregados que ficarão no desemprego, e a
uma comunidade nacional que ficou um tudo-nada mais afastada das suas
origens e de uma imagem do passado.

                         --oOo--

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TURISTAS EVENTUAIS
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<> A CONTRA-INFORMAÇÃO

Um site original pretende perturbar o ritmo de informação e conhecimento, e
manifestar-se em favor da _Desinformação_. Poderes psíquicos, rumores,
movimentos anti-científicos, entrevistas a estrelas pornográficas, aqui se
encontra um repositório do estranho território dos mitos urbanos. Leva-nos
no entanto a agradecer terem exprimido claramente a sua intenção: quantos
sites e publicações e cultos não existirão por aí com pretensões de divulgar
a verdade mas tendo motivos menos claros?
Endereço: http://www.disinfo.com/

                         --oOo--

<> CANETAS DE APARO DE TITÂNIO (críticas)

Obra: FARSCAPE, série televisiva
Endereço: http://www.scifi.com/farscape/
Encomenda: http://www.amazon.co.uk/exec/obidos/ASIN/B00004R7DU/
Pontuação: 0 (zero)
Crítica de: João Barreiros

+ Barretes Enfiamo-los Todos Nós...

Ok, meninos, o vosso tio já tinha idade para aprender, mas que querem, ainda
acredito às vezes no menino Jesus, que as fontes podem de um momento para o
outro jorrar champaigne do francês, do genuíno...

Acham então que podem surgir, vinda do nada, uma série de TV decente? Ainda
por cima uma space opera com ETs genuinamente estranhos? Uma série que não
seja dedicada aos cabotinos? Uma série em que se mostrem civilizações
extraterrestres sem que estas pareçam um acampamento feito no quintal do
vizinho? Onde os alienígenas sejam alienígenas mesmo, não bonecos «cute»
puxados por fios, ou homens e mulheres de caraças monstruosas e testas
altas, mas com feixes éclairs nas costas...Ah...

Os estúdios do Jim Hansen (_Pigs in Space_, recordam-se?) prometeram a total
novidade com FARSCAPE.

Sites na NET criaram - artificialmente, só pode - páginas de fãs a clamar
maravilhas. Efeitos especiais nunca vistos. Criaturas deliciosamente
estranhas. Naves maravilhosas.Ecosferas exóticas.

Bah !

Este vosso tio, a salivar pela boca, adiantou-se, e mandou vir os primeiros
4 episódios em DVD.

Com as mãos trémulas de antecipação enfiou o disquinho maravilhoso no
aparelho que todos desejamos.

Ligou os circuitos, o stereo, a TV Wide, o amplificador digital. Sacou de um
tacinha de castanha de caju.

But...

Bem imaginem um astronauta tipo «all american boy» a fazer uns testes numa
space shuttle para ver - imaginem como se ninguém soubesse - se podia
acelerá-la utilizando o campo gravitacional terrestre. Isto no meio de
estrondos e estampidos como é costume. E no momento a seguir... BANG...
ei-lo que cai através de um buraco-verme... zupa, zap, até uma dimensão
paralela, algures num outro ponto da galáxia - ninguém na série sabe onde
está - capturado por uma nave viva tipo baleia do espaço, pilotada por uma
minhoca-marreta e ocupada por três foragidos à lei: uma menina azul tipo new
age com poderes mentais e pintinhas na cabeça, um Cocas peludo e que mal
sabe andar, um matulão com tentáculos na cabeça e bico de paoagaio, mas
todos muito humanos, muito dois pés e uma cabeça. Ah, e uma miúda da polícia
espacial - tipo ditadura Ming the Merciless - que por azar também fica
metida ao barulho depois de rejeitada pelo coronel paranoico - humano - tal
como vocês ou eu.

Será preciso dizer mais ? É inacreditável, mas lá fora gostam. Não, é mesmo
adolescent stuff, a léguas de distância do delírio do LEXX ou da
complexidade política da Babilónia 5. Se vocês quiserem, ó crianças, posso
resumir os 4 episódios que vi.

Mas só se quiserem, ou seja, a pedido de várias famílias.

Até lá...

E...

BuerK !

                         --oOo--

Obra: THE BOOK OF END TIMES
Autor: John Clute
Encomenda:
http://www.amazon.com/exec/obidos/ASIN/0061050334/territordesconhe
Pontuação: * * * *
Crítica de: Luís Filipe Silva

+ O Ano 2000 É Quando o Homem Quiser

230 páginas, formato de álbum. Na capa, gravuras e iconografia sobre anjos,
demónios e o dia do Juízo Final. O subtítulo ostenta a frase «Grapplling
With the Millennuim». Não, não se trata de um manual de sobrevivência para
os tempos pós-Y2K - ou estarei enganado?...

John Clute é o enciclopedista de Ficção Científica e de Fantasia mais famoso
dos tempos modernos. Nos últimos anos, deu a público duas obras monumentais
(também em termos físicos) que reuniam quase tudo o que era conhecido (em
língua inglesa e afins) sobre estes géneros nas Enciclopédias que editou
conjuntamente com outros colegas. Causou polémica, o que é sempre
representativo de uma tentativa de estabelecer conteúdo a partir do caos,
organizar a desordem de uma indústria editorial (a americana) que anualmente
é capaz de colocar nas livrarias cerca de 500 títulos novos - milhares e
milhares de toneladas de polpa de madeira. Mensalmente publica críticas
mordazes e certeiras na Scifi-Weekly sobre as novas tendências da Ficção
Científica. Publicou recentemente a Enciclopédia Ilustrada da FC. E ainda
teve tempo para produzir este belíssimo livro de arte sobre o fim dos Tempos
(Modernos).

De que trata THE BOOK OF END TIMES? É essencialmente um longo e elaborado
argumento sobre o período de transicção que o Homem atravessa, enquanto ser
terrestre e ser tecnológico. O final está a chegar, embora não haja
indicações sobre o que haverá para além da transição. Não é um livro
teológico, longe disso. Não promete apocalipses. É acima de tudo, uma
observação que assenta as suas raízes numa profusão de citações das mais
variadas fontes literárias - é um manifesto de arte, maravilhosamente
decorado com imagens de obras de arte e colagens fotográficas dignas do
estilo artístico que a revista Wired disseminou: a arte que mistura fantasia
e tecnologia, conceito e publicidade - a arte da TecnoFantasia.

O fim não virá com o ano 2000 nem com nenhum conceito arcaico ou
numerológico, mas pela simples sensação de que estamos a transitar de um
mundo em que a natureza nos dominava, para outro em que somos nós a nossa
própria Natureza. Que somos nós a dominar os processos físicos do planeta.
Que estamos a ficar imersos numa realidade subjectiva que renega a História
e tudo o que não diga imediatamente respeito ao Presente.

Um livro filosófico indispensável para todas as estantes, que no entanto só
não merece cinco estrelas por se concentrar demasiado no relato e na
colecção de evidências, e menos numa análise profunda, multidisciplinar do
próprio tema.

Um esforço notável e brilhante, acima de tudo.

                         --oOo--

<> BREVÍSSIMAS

+ Foi lançado a adaptação VHS do filme «A Ameaça Fantasma» de George Lucas,
um filme obscuro e minimalista sobre um conflito político passado nos
tempos das colónias e a intervenção de um jovem cadete orfão de pai para o
salvamento de uma espécie em perigo.

                         --oOo--

---------------------------------------------------------------
O QUE SABEMOS HOJE E NÃO SABÍAMOS ONTEM
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<> PERCURSOS: Inventos e seus Inventores

+ A Máquina a Vapor: James Watt por Andrew Carnegie

+ Construção de uma História para a Difusão da Máquina a Vapor

+ A Vida de Nikola Tesla

+ Thomas A. Edison Papers

+ Flashes of Inspiration: The Work of Harold Edgerton

+ Scientific American: Explorações

+ A Necessidade da Incerteza Perpétua: a Emergência das Tecnologias

+ Velozmente Em Direcção à Falta de Conteúdo



                         --oOo--

<> ALGUMAS DAS MAIS RECENTES DESCOBERTAS CIENTÍFICAS

Ciências do Comportamento: http://www.scicentral.com/B-behavs.html#articles
>Os Macacos Recompensam-se Mutuamente por Trabalhos Feitos
>A Gesticulação Ajuda-nos a Encontrar o Termo Correcto, ou Tem Funções
Adicionais?
>O Humor Não é Genético

Biotecnologia: http://www.scicentral.com/B-biotec.html#articles
>Celera: Mapa do Genoma Está Completo
>Nanofeixes para Identificação de Células
>Cientistas Descobrem Chave para a Diferenciação e Envelhecimento das
Células

Evolução e Paleontologia: http://www.scicentral.com/B-evolut.html#articles
>A Ligação dos Peixes à Evolução em Terra

Ciência e Tecnologia da Alimentação:
http://www.scicentral.com/B-foodsc.html#articles
>Novas Embalagens Avisarão o Consumidor de Produtos Estragados ou Fora de
Prazo

Imunologia: http://www.scicentral.com/B-immuno.html#articles
>Imunidades Artificiais
>O Envelhecimento e o Sistema Imunitário
>Nova Vacina Ajuda no Tratamento da Asma e de Outras Alergias

Microbiologia: http://www.scicentral.com/B-microb.html#articles
>Cientistas do MIT Descobrem Ligação Genética Entre Infecções Crónicas nas
Plantas e nos Mamíferos

Genética: http://www.scicentral.com/B-molbio.html#articles
>Uma Única Proteína Pode Constituir o Primeiro Passo para a Customização
das Células Humanas
>Quem Quiser Mais Proteínas, Basta Adicionar Mais Letras ao Código Genético

Astronomia: http://www.scicentral.com/S-astron.html#articles
>Estranho Objecto em Taurus, é uma Estrela, Não um Planeta
>O Olho Brilhante do NGC 6751
>Como os Próximos Telescópios Espaciais Irão Desvendar as Idades Negras do
Universo

Engenharia Médica: http://www.scicentral.com/E-bioeng.html#articles
>Tecido Ósseo Produzido a Partir de Células da Pele e da Gengiva

Matemática: http://www.scicentral.com/P-mathem.html#articles
>O incrível número PI

Ciência para os Jovens:
>Animais: Elefante, o Gigante Gentil:
http://www.scicentral.com/K-12/K-anima.html
>Espécies em Perigo: Manatees: http://www.scicentral.com/K-12/K-endspe.html
>Lições: Água na Net: http://www.scicentral.com/K-12/K-lesson.html
>Tempo: os Fusos Horários: http://www.scicentral.com/K-12/K-time.html

Imagens do Observatório Anglo-Australiano: http://www.aao.gov.au/images/

FONTE: Portal de Ciência ( http://www.scicentral.com/ )

                         --oOo--
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EVENTOS & E-VENTOS
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<> OS VENTOS DO TEMPO QUE FOI

Encontram-se em exposição na Gulbenkian, até 2 de Julho, alguns dos livros
manuscritos do Ocidente que sobreviveram até aos nossos dias. São mais de
120 no total, entre volumes e fólios, a colecção abarca um período de tempo
de setecentos anos, entre o século X e o XVII.

«A Imagem do Tempo - Livros Manuscritos Ocidentais» encontra-se na Galeria
de Exposições Temporárias do Museu Gulbenkian, numa aliança com alguns dos
principais museus e universidades nacionais e internacionais, desde a
Biblioteca da Ajuda à Biblioteca Nacional Russa, a Torre do Tombo, o Palácio
Nacional de Mafra, a Biblioteca Apostólica Vaticana, The Pierpont Morgan
Library (Nova Iorque), The Royal Library (Copenhaga) e a Abadia de
Montecassino. Dada a extrema fragilidade dos volumes, e a necessidade de
conservar as cores originais, é necessário garantir condições de luz e
temperatura ambientes, o que torna uma exposição desta natureza difícil de
organizar - mais uma razão para aproveitar a oportunidade.

De relevar a própria colecção da Fundação Gulbenkian, um manancial de 25
tomos que mostra ao público algumas das origens da nossa tradição cultural.

                         --oOo--

<> A ARTE DE FAZER CASTELOS DE AREIA

Correm rumores que este site se encontra em desenvolvimento há mais de
quatro
anos, e ainda não há indicações de ficar completo. O seu propósito? Traduzir
para imagens em ASCII o filme completo da Guerra das Estrelas!

Este projecto interessantíssimo e invulgar tem como resultado um «filme»
feito de caracteres não proporcionais, e um design como nunca se viu.
EVENTOS
que existe no mesmo meio, em ascii feio e anti-multimedia, apenas pode
aplaudir o feito, e perguntar ao autor porque é que não escolheu um filme
bastante mais interessante para adaptar: o _Brazil_ do Terry Gilliam, por
exemplo?...

Endereço: http://www.mure.net/~ivar/starwars.html

(Sugestão submetida por Ricardo Madeira)

                         --oOo--

<> BREVÍSSIMAS


+ Mais novidades sobre os Exterminadores 3 e 4. Sabe-se que os filmes serão
produzidos por Mario Kassar e Andrew Vajna, sendo os autores dos argumentos
Teddy Sarafian (T3) e David Wilson (T4). Os produtores estão a tentar
contratar Arnold Schwarzenegger para voltar a encenar o papel do ciborgue
assassino (ou bonzinho, dependendo do filme), mas este afirma que só
aceitará se James Cameron for o realizador. Entretanto, fiquem de olho para
o jogo de computador e a série de TV, a estrear brevemente...

+ O primeiro olhar oficial ao filme sobre a Triologia do Senhor dos Anéis,
encontra-se patente no site http://www.LordofTheRings.net/ , apresentando
informações sobre a obra, entrevistas com o elenco, imagens das criaturas,
cenários, e efeitos, e apresenta ainda um browser com o «look» da
Terra-Média. Relembramos que os três filmes estão a ser filmados em
sumultâneo, na Nova Zelândia, por Peter Jackson, prevendo-se que a primeira
parte estreie no Natal de 2001.

+ Angelina Jolie vai interpretar a intrépida aventureira Lara Croft no
cinema, no filme _Tomb Raider_. A actriz, que recebeu o Oscar de Melhor
Actriz Secundária por _A Vida Interrompida_ vai encabeçar estas aventuras da
Indiana Jones de saias (ou calções, melhor dizendo), no que se tornou o
fenómeno Idoru mais famoso dos últimos tempos.

                         --oOo--

(esta edição continua no próximo e-mail)

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(c) 2000 Luis Filipe Silva ( http://www.LuisFilipeSilva.com )
    Email: [email protected]
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Se desejar deixar de ser assinante, devera enviar uma mensagem indicando no
subject/assunto «cancelar assinatura» para
                [email protected]

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                        E V E N T O S

                  Revista de TecnoFantasia

< http://www.geocities.com/simetriaEVENTOS >
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Nº 2.07    publicação semanal e gratuita        8 Abr. 2000
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Coordenação: Luís Filipe Silva
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   (Mensagem 2 de 2)

FICÇÕES E CONFISSÕES

CONTEÚDO


CONCURSO: Regulamento do Prémio de Ficção Primavera 2000
AMOR ESQUECIDO, por Gerson Lodi-Ribeiro
UMA TURISTA DE OUTRO MUNDO, por Luís Miguel Sequeira (Parte 3 de 8)


---------------------------------------------------------------
Concurso de Ficção EVENTOS

1. EVENTOS vem por este meio dar a conhecer que se encontra aberto o
Primeiro Concurso de Ficção Primavera 2000.

2. Poderão concorrer todos os autores de qualquer nacionalidade com qualquer
número de obras, desde que respeitem as normas de conteúdo e submissão de
textos explicadas noutros números do regulamento. Encontram-se excluídos
elementos da equipa de EVENTOS.

3. Apenas serão aceites obras de ficção com tamanho entre 2000 (duas mil) e
8000 (oito mil) palavras, estarem escritas em português, e respeitarem o
espírito da TecnoFantasia ou qualquer das suas outras manifestações: Ficção
Científica, Fantasia, Fantástico, Terror, Horror, Realismo Mágico,
Surrealismo, História Alternativa, Ciberpunk.

4. As obras deverão ser enviadas obrigatoriamente com a identificação
completa do(s) autor(es): nome completo, nome literário, morada, número de
bilhete de identidade (ou equivalente no país de origem), telefone de
contacto, e-mail(s).

5. Cada obra deverá ser enviada como mensagem de e-mail («plain text»), sem
formatações, directamente no conteúdo do texto, com identificação correcta
do título e do autor no início do texto, e indicando no «Subject/Assunto» o
título da obra. Não serão aceites ficheiros em attach.

6. Se o comprimento da obra e as limitações do sistema o obrigarem, a obra
pode ser dividida em várias mensagens de e-mail sucessivas, desde que
perfeitamente identificadas no «Subject/Assunto» com a indicação do número
de ordem da mensagem, e do número total final (ex: «Msg 2 de 5»)

7. Num mesmo e-mail não deverão constar mais do que um, ou parte de, um
único conto. Se o(s) autor(es) pretender concorrer com mais do que uma obra,
deverá individualizar cada um dos seus contos com um e-mail ou grupo de
e-mails distintos e perfeitamente identificados.

8. No caso de divisão da obra em várias mensagens, a identificação do(s)
autor(es) deve constar do e-mail inicial de cada conto.

9. As obras deverão ser enviadas para o email [email protected]
até às 24h de 30 de Abril de 2000, hora de Lisboa.

10. O júri é composto unica e exclusivamente por membros da equipa de
EVENTOS.

11. Do concurso será apurado um único vencedor e até um máximo de 3 menções
honrosas, sendo anunciado na EVENTOS até 31 de Maio de 2000.

12. O jurí poderá deliberar não entregar nenhum dos prémios caso não se
verifique haver um mínimo de qualidade aceitável.

13. O primeiro prémio receberá um vale de compras (gift certificate) na
Amazon.Com no valor de USD 25 (25 dólares), e será publicado na EVENTOS em
data a anunciar. As menções honrosas terão como prémio a publicação na
EVENTOS em data a anunciar. O júri reserva-se no direito de sugerir a
publicação de contos que assim o mereçam.
===============================================================

AMOR ESQUECIDO

  Gerson Lodi-Ribeiro


* I: Um Diálogo Muito Frustrante *

Depois da ressurreição de Larissa, minha vida voltou à normalidade. Ou
quase. Evito pensar nela, com graus variáveis de sucesso. O facto é que as
memórias de nosso vínculo vazam pelas frestas do meu auto-controlo,
lancetando-me o espírito
como a estocada de mil espinhos. As lembranças daquela última conversa, há
cerca de um ano, são as mais dolorosas. E as mais obstinadas em jorrar,
borbulhantes, das áreas mais nebulosas do subconsciente, onde haviam sido
lacradas, submersas, num sector da memória que eu julgara isolado, estanque.
De de um certo modo, a situação foi um pouco incongruente. Sabia tudo sobre
aquela mulher, e ela permaneceu me olhando como se fosse um estranho.
Esquisito. Minha argumentação fora perfeita. Considerava-me detentor dos
trunfos capazes de convencê-la. Conhecia bem seu modo de pensar e agir, a
sua maneira de ser. Mas aquela não era a mulher que amei. Tratava-se de
outra pessoa. Diferente, embora mantivesse na essência a mesma estrutura de
personalidade. Não imaginei que pouco mais de meio século produzisse
mudanças tão significativas.

Emitiu naquele mesmo tom mental cálido, que há muito aprendera a distinguir
dentre todos os demais.

"Compreendo que signifiquei muito para você. Mas é lógico que é impossível
corresponder a um sentimento deste tipo. Você parece um sujeito excelente e,
pelo que permitiu visualizar em sua mente, tudo o que emitiu é verdade. Para
mim, no
entanto, é como se nada tivesse acontecido."

Devo ter vazado espanto, porque ela se sentiu forçada a explicitar a
posição.

"Tudo o que sei, meu caro, é que estive morta. Morta por 56 anos, 2 meses e
17 dias, segundo me informou o biocomputador do Complexo."

"Querida..."

Franziu as sobrancelhas e me interrompeu num tom mental muito frio, que
jamais a vira emitindo, nem em suas altercações com os gandolphianos.

"Não me chame assim, por favor."

Seguiu-se um fluxo inarticulado, pura e deliberadamente emocional,
constituído de espanto, contrariedade e indignação. Então transmitiu a
imagem clássica de uma estrela murchando da fase de gigante vermelha, até se
transformar em anã branca. Aquele era o tipo de linguagem metafórica pouco
sutil que costumava utilizar há mais de cinquenta anos. No que lhe dizia
respeito, a conversa havia terminado.

Reagi à rejeição. Suspirei, procurando recuperar o auto-controle, e lancei
meu próprio fluxo emocional, mais sutil e delicado, como forma de
contra-ataque.

"Como pôde ser tão negligente consigo própria?" Senti um sabor amargo na
alma.

Foi extremamente difícil continuar argumentando de forma lógica e coerente.

"Ah, querida, seu registo estava tão desactualizado... Eu devia ter
percebido isso antes."

"Também não precisa fazer com que nos sintamos ambos culpados. Já estou me
sentindo mortificada o bastante sem o auxílio deste tipo de recriminação."
Captei o desalento presente em seu fluxo. Perder mais de meio século assim,
num piscar de olhos, é um facto duro de se enfrentar.

"Mas não julgo que a outra tenha sido negligente. Veja bem, não existem
precedentes para um lapso dessa escala. Quem se imaginaria correndo tais
riscos numa superfície planetária tão tranquila e aprazível quanto esta? O
biocomputador
da biblioteca continental informou que não viajei muito durante essas
últimas seis décadas."

"Nem uma única vez, minha..." Era difícil controlar algo que já havia se
tornado uma segunda natureza para mim. "Desculpe. Procurarei me lembrar."

Sob o seu bloqueio mental tremulou, fugaz, a sombra de um ligeiro
divertimento. Nada que chegasse a ser esboçado facialmente num sorriso, é
claro. Notou imediatamente que eu percebera o acto falho e intensificou suas
defesas.

Resolvi explicar.

"O facto é que estávamos muito envolvidos um com o outro e com o nosso
trabalho para pensar em viagens interplanetárias e, muito menos,
interestelares. Se o acidente houvesse ocorrido após a XII Conferência,
daqui a uns meros dois anos,
as conseqüências teriam sido infinitamente menos trágicas."

"Concordo. Mas não adianta lamentar sobre o que poderia ter acontecido. Sei
que estou sendo dura com você. Compreendo seus sentimentos. Existiu uma
outra Larissa pela qual você se apaixonou há mais de cinco décadas. Um
relacionamento profundo, embora ainda recente. Vocês se amaram, viveram e
trabalharam juntos. Foram muito felizes durante esse meio século."

Era mesmo a Larissa dos primeiros tempos. Fria como a lua de Plutão, quando
lhe interessava.

"Mas aquela mulher não existe mais. Em muitos sentidos, tudo funciona como
se fôssemos duas pessoas distintas. Tem que encarar os fatos: a pessoa que
você amou está morta, para sempre."

Aquilo era simplesmente um absurdo!

"Poderíamos começar tudo novamente. É claro que daria certo outra vez..."

"A idéia não deixa de ter os seus encantos, em termos hipotéticos. Mas não
hoje, nem nesta década."

Não nesta década, ela dizia. Comecei a sentir uma saudade imensa da minha
Larissa. Será que haveria alguma esperança com essa nova, tão diferente?
Quantos milênios eu teria que esperar?

"Estou emergindo de uma experiência traumática. Acordo um dia e descubro ter
estado afastada do contexto histórico durante cinqüenta e seis anos. Não
preciso de um relacionamento sério e intenso. Quero apenas um pouco de calma
e tranquilidade para colocar minhas idéias no lugar. Para todo e qualquer
efeito prático, mal acabei de partir do Sol e chegar a Sigma Pavonis. Quero
me estabelecer e planejar meu trabalho no Instituto de Pesquisa em
Inteligência Artificial Autoconsciente."

"Mas você já fez isto! Concluiu essa fase do trabalho há mais de três
décadas. Estávamos ambos na programação universitária do sistema, como
líderes do grupo de trabalho que estuda o funcionamento das máquinas
autoconscientes gandolphianas."

"Já me mostrou alguns flashs mentais desse trabalho. Parece muito
interessante. Infelizmente, preciso recomeçar do ponto de partida."

"Ingresse em meu grupo. Nós a ajudaremos."


"Não posso, Pilgrim. Não possuo o conhecimento necessário. A outra Larissa
havia se tornado uma especialista no assunto. Eu mal passo de uma aprendiz.
Não me sentiria bem colectando sem esforço em mentes alheias um conhecimento
que minha versão anterior não conseguiu conquistar senão a duras penas."

"Não exagere." Havia algo mais. Percebi que o problema fugia à esfera
exclusivamente profissional. "Não estará sozinha. Poderá recorrer à nossa
experiência e recordações sempre que for necessário. Todas as pessoas do
grupo, humanos e gandolphianos, se sentirão imensamente felizes em
auxiliar-la a se recuperar."

"Quanta generosidade de sua parte, Pilgrim. Estou sinceramente
sensibilizada. Está sugerindo que eu me torne uma parasita!"

"Você entendeu tudo errado!" Ela tinha razão num ponto: era uma pessoa
diferente. Minha Larissa era bem mais sensata e racional do que essa mulher
desconhecida. Começava a perder a paciência. "Só estou querendo ajudá-la.
Não
se esqueça que foi você, e não eu, quem perdeu cinqüenta anos de
experiência..."

"Tudo bem. Vamos tentar permanecer calmos. Por favor, perdoe meu sarcasmo. A
razão principal para recusar seu convite é que pretendo que mantenhamos uma
certa distância, por enquanto."

"Larissa..."

"Por enquanto, Pilgrim." Aquele tom era meu velho conhecido. O tom obstinado
de uma mulher que não admitiria ponderações. "Você está demasiadamente
ansioso para reiniciar seu relacionamento amoroso comigo. Mas, no que me diz
respeito, somos praticamente estranhos. Conheço relativamente bem sua
reputação acadêmica. Assisti seu seminário na XI Conferência, no Sistema Tau
Ceti. Trocamos mensagens hipercontinuum de teor estritamente profissional.
Só isto."

Só isto? Só isto? Pelo Espírito Galáctico, um vínculo de mais de cinqüenta
anos reduzidos a um só isto!

"Se deve existir algo mais sério entre nós que um relacionamento
superficial, gostaria que isso se manifestasse natural e espontaneamente.
Sou avessa a precipitações em assuntos desse gênero. Pode me julgar
antiquada se quiser, mas no que me diz respeito, a expressão do amor sexual
entre humanos é algo que deveria se desenvolver gradativamente, ao longo dos
séculos."

Nada pude contrapor aquele argumento. Sabia que, em tese, realmente pensava
daquela forma, apesar de em sua vida pessoal ter se apaixonado por mim em
poucos anos de convivência. Na realidade, eu fora a única excepção àquela
regra inflexível que ela impusera a si própria.

Senti meu lado emocional se petrificar. Alguns séculos?

Compreendi que a reconquista de Larissa seria extremamente difícil, se não
impossível.

Decidi tentar descobrir o que ela faria a seguir.

"Como você pretende agir desta vez? Há cinquenta e poucos anos, começamos a
trabalhar juntos no Instituto."

"Pretendo ingressar no grupo de pesquisa de Twoyoungtrees."

"Mas, ela foi sua aprendiz. Você supervisionou o desempenho do programa que
efetuou a instrução avançada dela em AA. Se me permite comentar, nem mesmo a
julgava uma de suas áulicas mais brilhantes."

"Talvez a antiga Larissa pensasse assim. Pessoalmente, não possuo idéias
preconcebidas. Conversamos há uma semana. Pareceu ser uma pessoa confiável.
Evidentemente, ela se lembrava de minha versão anterior com um certo
carinho. Expus minhas dificuldades e ela afirmou que terá o máximo prazer em
supervisionar minha aprendizagem."

Finalmente compreendi de forma visceral aquilo que racionalmente já sabia há
semanas. Realmente, aquela não era a Larissa que eu conhecera, a pessoa que
amei. Aquela mulher de cabelos escuros, seios firmes e graciosos, e olhos
castanhos muito meigos que, no entanto, fitavam-me como se eu não passasse
de um simples colega, era uma estranha.

Quase tão estranha e desconhecida para mim quanto eu o era para ela.

Desiludido, troquei com ela mais meia dúzia de pensamentos neutros.
Combinamos voltar a nos encontrar somente na XII Conferência Secular Humana
sobre Inteligência Artificial em Cindell, um planetóide cilíndrico que
presentemente orbitava Proxima Centauri.

Tal evento ocorreria dois anos depois daquela conversa.


* II: Retorno do Limbo *

Aquela discussão com Pilgrim me deixara irritada. Supus que as informações
que havia captado, embora verossímeis, não passassem da maneira como ele
encarara os fatos. Em busca de uma versão menos parcial desses fatos,
julguei aconselhável
consultar alguém que não estivesse diretamente envolvido no problema. No
início pensei nos amigos comuns, mas logo desisti da idéia.

"Recapitulando, " havia pedido ao programa gerenciador da biblioteca
municipal, "Kalahari."

"Trata-se de um planeta desértico, tipicamente marcianiforme, exceto quanto
à gravitação de 1,08 G. Translação orbital em torno da anã amarela G-2 Sigma
Pavonis com um período aproximado de 2,13 anos Tempo Padrão. A órbita de
baixa excentricidade e a pequena inclinação de seu eixo de rotação faz com
que o planeta tenha estações climáticas pouco pronunciadas. Sua
terraformização parcial teve início há cerca de vinte milênios,
respeitando-se a legislação da época quanto à preservação dos biomas
nativos."

Solícito e paciente como qualquer autoconsciência artificial que se
prezasse, o biocomputador da biblioteca poderia ter discorrido sobre
Kalahari durante horas a fio. Efectuando uma interpretação dinâmica de
minhas leituras mentais, transmitiria
conhecimento exactamente no nível de profundidade e à velocidade que mais me
agradasse, sem se dar ao trabalho de me consultar a respeito... Não havia
dúvida, as AA evoluíram muito enquanto estive morta. Mas aquilo não estava
me levando a lugar nenhum.

"Fale sobre Pilgrim."

"Nasceu no mundo artificial de Persephone, quando o planetóide volante
estava vogando no espaço interestelar, há 6.354 anos TP. Aprovado pelo
programa módulo educacional básico de nível superior de seu mundo, recebeu
instrução especializada em AA por um programa experimental da série Demigod,
elaborado em Geon, Capella B."

"Quando chegou a Sigma Pavonis?"

"No início de sua fase adulta, há cerca de cinco mil anos."

"Mais velho que a outra Larissa."

"Diferença não significativa. De qualquer modo, ela não parecia incomodada
por isso."

"Você disse que ele possui inteligência muito acima da média. Seu desempenho
acadêmico excelente corrobora essa afirmação, mas sabemos que isso não é
tudo. Suas reações emocionais diante da perda da outra parecem bastante
primárias."

"Uma extrapolação simples do padrões de comportamento da versão mais
experiente indica que ela responderia com reações em muito semelhantes as
que Pilgrim está apresentando agora."

"Eu jamais..."

"Lógico que não. Permita-me lembrá-la que estava me referindo a uma outra
pessoa."

"Cinquenta e poucos anos não mudam uma pessoa tanto assim. Conheço minhas
reações básicas. Eu não reagiria dessa maneira atávica."

"Não mesmo? Estamos falando de seres humanos apaixonados..."

"O que você entende de amor?"

"Já estudei direta e indiretamente as mentes de centenas de milhares de
pessoas apaixonadas."

"Mas nunca se sentiu assim, não é?"

Aquela AA era um programa e tanto! Mas também não sou nenhuma leiga no que
diz respeito a patamares emocionais de IA. Era evidente que sentira o golpe.
Sua resposta não só demorou mais que o normal, mas o próprio tom mental
dessa resposta me pareceu menos confiante do que o anterior.

"Bem, ainda não. Mas você também não. Pelas análises que efetuei, posso
afirmar que jamais se apaixonou por alguém com a intensidade que Pilgrim e a
outra Larissa o fizeram."

"Não vejo onde..."

"Logo é ainda mais incompetente que eu para discutir a primariedade dos
sentimentos do cidadão Pilgrim."

"Talvez tenha razão. Contudo, não posso deixar de notar uma certa
parcialidade em seu tom. Algo muito subtil, mas que está aí."

"Diante dessa suspeita, acabo de efetuar uma auto-avaliação. Nenhum sinal do
sintoma mencionado foi detetado ao longo do fluxo dinâmico deste programa."

"Diga-me uma coisinha: o cidadão Pilgrim acaso participou da equipe que te
criou?"

"Afirmativo. Mas a participação citada, embora fundamental na montagem da
estrutura da minha personalidade, não é de modo algum relevante para a..."

"Sinto muito, querida. Mas, lá se foi a imparcialidade que estávamos
procurando. Desculpe-me. Deveria ter perguntado antes."

Aquilo encerrou a conversa. E aquele tipo de abordagem.


* III: Náufraga da Memória *

Depois daquela "conversa definitiva", cerca de um mês após a reconstituição,
o assédio de Pilgrim se reduziu à cortesia de enviar boletins periódicos, a
fim de me manter informada quanto às actividades de seu grupo de pesquisa.
Ainda tentavam
obter, junto ao governo local, uma outra sonda interestelar gandolphiana com
o cérebro intato. Enquanto não encontravam essa agulha no palheiro da
periferia galáctica, trabalhavam sobre os dados colectados antes do
acidente.

Acidente? Eufemismo idiota. Os gandolphianos projetaram a sonda contando com
a possibilidade dos humanos tentarem acessar sua memória.

A máquina em questão fora encontrada há cerca de uma década, em pleno espaço
interestelar. Seus sistemas de taquiotranscepção e propulsão relativística
estavam inoperantes, devido ao bombardeio de radiação cósmica de alta
intensidade, a que a sonda havia sido submetida nas proximidades de um
remanescente de supernova recente, há cerca de 2.000 anos.

Constatando que o cérebro e as memórias da máquina alienígena estavam
aparentemente intatos, o veículo automatizado que a encontrou tomou a
decisão de rebocá-la para o sistema estelar humano mais próximo. Em Sigma
Pavonis, os hierarcas resolveram ceder a sonda ao departamento de
autoconsciência artificial da universidade planetária de Kalahari, o mundo
mais importante do sistema. Os gandolphianos consideram suas sondas
autoconscientes. Trata-se de uma mera questão de semântica. O
desenvolvimento de programas com AA ainda é algo recente dentro do padrão
tecnocultural gandolphiano. O fato é que, ao
contrário de nossas AA mais sofisticadas, a sonda não foi inteiramente
aprovada em alguns dos nossos Testes de Turing mais rigorosos.

De qualquer modo, estávamos satisfeitos. Aquela foi a primeira oportunidade
que os humanos tiveram de estudar in loco o funcionamento de um
biocomputador gandolphiano de alto desempenho. Havia mesmo a vaga esperança
de que conseguíssemos convencê-lo a nos ensinar algo a respeito das técnicas
de propulsão relativística de seus construtores, bem mais eficientes que as
dominadas pela humanidade.

Nossa equipe possuía alguns assistentes gandolphianos (segundo Pilgrim,
ainda estão por lá). Nenhum deles era de fato especializado em AA. Possuíam,
porém, uma certa formação científica, que lhes permitia atuar como
intérpretes em relação
aos complexos e mutáveis dialetos utilizados pela sonda. O jargão da máquina
diferia muito do idioma articulado por seus criadores, a ponto de
inviabilizar o emprego eficaz de programas decodificadores.

Esses gandolphianos eram os únicos "colaboracionistas" que dispúnhamos em
Kalahari.

O código de ética gandolphiano é bastante rígido em tudo o que diga respeito
à transmissão de conhecimentos técnicos a povos alienígenas (na prática, à
humanidade, uma vez que somos a única civilização tecnológica alienígena que
eles conhecem). Contudo, todo gandolphiano tem seu preço. E o deles foi
elevado - pleitearam e obtiveram cidadania plena em Sigma Pavonis. Isto
significou que poderiam utilizar os transceptores taquiônicos de matéria
para viajar para outros sistemas humanos. Quando exerceram esse direito pela
primeira vez, o programa do complexo de transcepção registrou seus padrões,
concedendo-lhes assim a imortalidade dos humanos, que sua própria espécie
tanto almejava, mas jamais fora capaz de lhes proporcionar.

Os nossos gandolphianos prestaram um auxílio valioso à equipa. Entretanto,
nem mesmo eles puderam imaginar que aquela sonda astuta ocultara um
dispositivo de autodestruição e o programara para actuar caso seus blocos de
memória principais fossem acessados sem a sua autorização.

Somente uma civilização de mentalidade paranóica construiria uma máquina
assim. A maioria dos membros da equipe, gandolphianos e humanos, estava no
laboratório da sonda quando esta explodiu. Apenas Larissa, minha versão
anterior,
estava próxima o bastante para receber um impacto capaz de produzir lesões.
Lesões fatais.

Em termos de segurança de nossos registros mentais, as normas tácitas do bom
senso vigente recomendam que a atualização seja feita mais ou menos a cada
dois anos. Depois da minha morte, Pilgrim me confessara que mantinha a
actualização anual como hábito há milênios. Para isto, ele simplesmente se
deixava transmitir de Kalahari a Avimimus, o planeta vizinho, numa viagem
curta de ida-e-volta, com duração total de uns poucos nano-segundos.

Sempre julgou que Larissa estivesse fazendo o mesmo.

Todo mundo fazia, não é?

O meu eu anterior, no entanto, não actualizara os seus registros desde a
chegada a Kalahari. Falando francamente, não a censuro. Neste mundo
pacífico, parcialmente terraformizado, e plenamente civilizado, a
atualização freqüente é antes uma mania que uma norma de segurança.
Paradoxalmente, o fato que corroborou essa crença "instintivo-estatística"
da Larissa anterior foi a afirmação do programa-mestre do complexo: a morte
dela (minha?) foi a única involuntária que se teve notícias, desde o início
da colonização humana em Sigma Pavonis. Como todos já ouviram falar, a morte
involuntária é um estado transitório e inteiramente reversível.

Não tomem essa reversibilidade ao pé-da-letra.

Fui reconstituída com o último registro disponível, que remontava há mais de
meio século. Registro anterior à época em que a outra Larissa havia
conhecido e se apaixonado por Pilgrim.

Não creio que muitos seres humanos já tenham passado por uma experiência
assim: amei alguém com quem vivi por décadas e, no entanto, não me lembro de
nada. Pois, na verdade, mal conheço meu amante (Ex-amante? Ex-futuro amante?
Faltam-me termos adequados para caracterizar bem o status de Pilgrim). Uma
experiência desconcertante e, de uma certa forma, deprimente.

Sinto-me como uma náufraga. Como alguém que tivesse perdido as melhores
décadas de sua vida. Pelo que captei de Pilgrim, e de alguns amigos comuns,
ao longo deste último ano, creio que, embora tenha mantido diversos vínculos
mais duradouros que esse, nenhum foi tão íntimo ou gratificante. E nenhum
dos compromissos anteriores foi tão exclusivo: meio século de monogamia
voluntária... Ninguém é tão bom assim! A outra Larissa deve ter sido uma
pessoa muito diferente de mim, ou então, mais século, menos século, vou
querer conhecer melhor esse homem!


* IV: Idílio na Conferência *

Cheguei a Cindell há pouco mais de uma semana. Twoyoungtrees decidiu que
Larissa representará a equipe dela em seu lugar. Minha querida deverá chegar
em breve. Curioso. Mesmo que em geral me sinta algo culpado, ainda me julgo
no direito de me referir a ela dessa forma.

Pelo que soube através da própria Twoyoungtrees, Larissa está bastante
mudada. Diferente mesmo do que costumava ser na época em que nos conhecemos.
Talvez seja eu que, por não ser mais o mesmo, considere que ela está
diferente. Um facto concreto é que ela, provavelmente ainda não recuperada
do trauma, tem efetuado actualizações quinzenais!

A outra, antes de se materializar no complexo transceptor orbital de
Kalahari, vinda do Sistema Sol, era uma andarilha das estrelas. Não se
fixava num sistema mais que uma ou duas décadas. Radicado naquele mundo
desértico há bastante tempo, senti-me à vontade para ciceroneá-la em vários
passeios turísticos, durante seu período de aclimatação.

Ela ingressara no instituto e começara a trabalhar no grupo de pesquisa do
qual eu fazia parte.

Primeiro, quase de imediato, reconheci sua inteligência invulgar, sua mente
repleta de idéias originais, quase sempre articuladas em pensamentos claros,
cristalinos. Percebi de uma forma difusa que era muito bela. Sua
personalidade me
impressionou tanto que tudo mais foi secundário. Passei a admirar sua
perspicácia e capacidade de trabalho. A atração física apareceu pouco
depois, alguns meses mais tarde.

Essa atração foi recíproca. Nossos interesses acadêmicos, profissionais e
pessoais eram extremamente coincidentes. Creio ter sido aquilo que alguns
chamam de amor à primeira vista.

Os amigos e conhecidos comuns se surpreenderam com a rapidez com que tudo
aconteceu. Embora profundamente apaixonados, não estávamos menos surpresos:
menos de dois anos depois de nos conhecer, falávamos em viver juntos.
Larissa era, e suponho que ainda seja, maravilhosa.

O simples aroma de seu corpo costumava me deixar extasiado. Até bem pouco
tempo, éramos capazes de fazer amor horas seguidas, sem pressa, quase
preguiçosamente, sem a mínima preocupação com os índices de desempenho, tão
em voga nos últimos séculos, ou com a contabilidade mesquinha de orgasmos,
característica que ambos julgávamos irrevogavelmente associada à insegurança
e
à imaturidade emocional.

Ah, a visão daquele rosto, iluminado pelos primeiros raios da estrela, nas
manhãs de verão, em que despertávamos nus, após uma noite inteira de amor
sob o céu estrelado da Grande Planície Escarlate... Aquele rosto, tão belo
sob a luz pálida do
crepúsculo, fazia com que eu me sentisse atordoado. Exatamente como na
primeira vez que eu a observara. Não conseguia resistir, sequer acreditar,
naquela beleza, tão pura e espontânea.

Quase ainda podia sentir sua carícia telepática, cálida, suave, em minha
mente adormecida, mergulhando delicadamente em meus sonhos, estimulando-me a
despertar.

Essas e todas as inúmeras outras lembranças agradáveis que guardei das
breves décadas em que vivemos e trabalhamos juntos são-me agora amargas e
nostálgicas.

Nosso lar me parece hoje excessivamente amplo e solitário. Vazio e, no
entanto, repleto de recordações. Lembranças tão boas e, ao mesmo tempo,
dolorosas. É como se eu esperasse vê-la surgir de repente, à mesa ou no
interior da ducha hidrostática.

Éramos tão felizes há pouco mais de dois míseros anos! E ela ainda não se
materializou para a conferência. Terá havido algum
imprevisto?

* * *

Hoje faz exatamente quatro anos que ela foi reconstituída.

Estamos ambos em Cindell, um planetóide cilíndrico atualmente orbitando
Alpha Centauri C (que em Sigma Pavonis ainda chamamos de Proxima Centauri).

Este ambiente artificial foi escolhido como palco da XII Conferência Secular
Humana sobre Inteligência Artificial. O evento tem duração prevista de três
anos, com possibilidade de extensão por mais dois anos para os interessados.
Todos sabem que seria muito mais fácil realizar uma conferência deste tipo
através de transmissões holográficas por via taquiônica. Os participantes
não sairiam de seus lares, e assistiriam a todas as atividades acadêmicas
como se estivessem pessoalmente presentes. Aquilo fora tentado uma ou duas
vezes, nos velhos tempos, há dezenas de milênios. Tentativas fracassadas em
maior ou menor grau. A parte acadêmica não havia sido o problema, mas sim a
ausência de interações sociais e de lazer entre os participantes; atividades
talvez mais mportantes para o bom andamento de uma conferência do que a
própria qualidade das palestras e seminários ministrados. Desse modo, a
maioria dos interessados prefere comparecer pessoalmente.

Finalmente surgiu uma oportunidade de conversar com Larissa
"espontaneamente", conforme suas condições. Nos primeiros meses em Alpha
Centauri, os temas de nossos diálogos foram invariavelmente acadêmicos, é
lógico. Para meu total desalento.

Mas a presença em Cindell tem suas vantagens sobre a participação remota.
Tem havido uma quantidade considerável de atividades sociais e recreativas,
intercaladas aos cursos e seminários. Nesses eventos ela, finalmente,
começou a se
mostrar menos arredia e mais receptiva em relação à minha pessoa. Num desses
períodos de lazer, dançamos juntos no poço de gravidade nula de um dos
centros esportivos, ao som de uma melodia bem romântica que havia sido uma
das nossas composições telepáticas favoritas.

Senti que era a hora de começar a "jogar sujo", embora habitualmente isto
esteja longe de constituir o meu estilo. Na ocasião, estava realmente
transtornado com a perspectiva de que aquela talvez fosse minha primeira e
última chance de
reconquistá-la. Tomei a decisão durante a dança.

Bem ou mal, ainda conhecia seus gostos e predileções, as coisas que ela
apreciava e aquelas que não suportava ou era simplesmente indiferente.
Apesar do que Twoyoungtrees dissera, ninguém poderia mudar tanto em uns
meros cinqüenta e poucos anos.

Soprei em sua mente meu sussurro mais doce e apaixonado, exatamente o que
ela adoraria captar durante aquela situação romântica. O clima estava
propício: além da música, ela adorava dançar num ambiente desprovido de
gravitação. Meus dedos pressionavam sua cintura e sua nuca, suavemente, do
modo que eu sabia que seria mais apreciado. Com um braço enlaçando-me o
pescoço, ela se deixava conduzir, nossos corpos flutuando juntos poço acima.

Por um momento consegui vislumbrar algo entre as franjas de seu bloqueio
telepático. Um certo risinho maroto, como se suspeitasse de algum ardil. Mas
meus receios se mostraram infundados. Se percebeu a trama, não se preocupou
minimamente em evitar um envolvimento. A nova Larissa continuava tão esperta
quanto a anterior.

Fizemos amor ao fim daquele período. Não como nos velhos tempos, é claro.
Afinal, para ela era a primeira vez comigo. Foi, contudo, um bom começo. Ou,
no que me diz respeito, uma reconciliação.

Mesmo depois daquela noite, por vezes ainda parecia reticente e distante.
Porém, já se sentava à mesa comigo independente de um convite ou combinação
prévia, e ria de minhas tentativas nervosas e desajeitadas de me mostrar
espirituoso. Percebi
que realmente estava apreciando a minha companhia.

Mas, o facto que me parece mais importante, voltou a sorrir para mim. Aquele
sorriso cativante pelo qual ansiava desde a sua ressurreição. Um sorriso que
faz ondular um vagalhão de alegria e esperança dentro da mente, apenas por
saber que tornei a merecê-lo. Espero que essa onda tenha o ímpeto necessário
para ultrapassar os recifes de suas últimas reservas.

Há uma semana iniciamos o terceiro ano da conferência. Estamos vivendo
juntos, para todo e qualquer efeito prático. Planejamos os mesmos ciclos de
palestras e seminários, e, o melhor: começamos a elaborar um curso sobre AA
gandolphianas. Nosso relacionamento sexual tem se revelado quase tão
gratificante e prazeroso quanto antes. Um sintoma que imagino ser relevante
é que estamos fazendo amor cada vez mais freqüentemente.

Tem sido maravilhoso. Há poucas semanas, ela me disse que compreendia muito
bem por que a outra Larissa havia se apaixonado por mim. Além disso, tem se
mostrado cada vez mais meiga e amorosa. De uma forma estranha e misteriosa,
parece-me algumas vezes até melhor do que sua versão mais madura.

Sem querer parecer demasiadamente optimista, julgo tais sintomas
extremamente significativos.

Creio que estamos conseguindo novamente. Pela primeira vez.

(c) Gerson Lodi-Ribeiro
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UMA TURISTA DO OUTRO MUNDO

   Luís Miguel Sequeira

Parte 3 de 8


     * CAPÍTULO 3 *

Quando Paulo voltou a encontrar Duarte Nunes, era já ao fim da tarde.

- Onde é que estiveste? Assisti a uma reunião extraordinariamente
interessante! - exclamou o detective mais velho. - As implicações do que se
discutiu foram tremendas... imagina! Vida para além da Terra... e a prova à
nossa frente! Chegaste a visitar a nave?

Duarte Nunes quase que não lhe dava oportunidade de responder. Eram
perguntas retóricas, na sua maioria. Ao fim de meia hora de relatar a
interminável discussão sobre o que se iria fazer com a nave - a NATO exigia
que esta fosse deslocada para a Área 51, o famoso armazém americano para
naves alienígenas capturadas, mas o governo português não estava de acordo.
A nave tinha sido capturada em espaço aéreo português; se os americanos
quisessem estudá-la, podiam fazê-lo, mas em solo nacional. Os americanos
protestaram, alegando que não existiam condições para fazerem todos os
testes que pretendiam.

- O mais estranho desta história toda, - disse Duarte Nunes, ainda
entusiasmado com toda a história, ao passo que Paulo Vasconcelos só pensava
no destino que estava reservado à jovem Myra, - era que ninguém admitia
publicamente que isto tudo já tinha acontecido no passado! Todos pretendiam
que estavam a tratar de um assunto de rotina, mas não falavam de
acontecimentos anteriores. Aparentemente, o governo português tem mais naves
destas em hangares aqui na base de Beja, e alguns cadáveres de
extraterrestres, e até se falou num acordo qualquer secreto entre o governo
português e uma raça de extraterrestres...
A dada altura, Duarte Nunes apercebeu-se de que o seu interlocutor não só
não partilhava do seu entusiasmo como estivera calado o tempo todo,
absorvido pelos seus pensamentos. - Que se passa, Paulo? Não achas isto
tudo... fascinante?

Ele encolheu os ombros.

- Viu esses... cadáveres de que falou?

- Não, estavam numa outra área de alta segurança...

- A nave que visitou, não lhe pareceu estranha?

Duarte Nunes sorriu, e os seus olhos brilharam.

- Qualquer nave extraterrestre é estranha... nem que seja pelo facto de
existir!

- Mas a disposição do interior da nave... não a achou peculiar?

- Peculiar? Em que sentido?

- Ora, a forma como tudo estava disposto... curiosamente da mesma forma que
nós, humanos, o faríamos se tivéssemos acesso à tecnologia.

O outro detective franziu o sobrolho.

- Onde queres chegar? Achas que a nave que vimos era uma fraude?

- Nada disso. Apenas faço notar que, se a Terra dispusesse da tecnologia
apropriada, construiria uma nave com exactamente aquele aspecto.

Encolheu os ombros.

- Talvez. Não sei. Que sabemos nós sobre as tecnologias de habitantes
doutros planetas?

- Sentou-se ao cockpit da nave?

- Não, mas...

- Mas se o fizesse notava que as cadeiras eram anatomica e ergonomicamente
desenhadas para acomodar seres humanóides... ou mesmo humanos.

- Onde queres chegar? Não sabemos nada sobre a origem da nave ou dos seus
pilotos...

- Isso não é bem verdade.

Duarte Nunes arqueou as sobrancelhas.

- Ah sim? Pelos vistos estás melhor informado do que eu! Conta lá então as
tuas descobertas, senhor detective da PJ!

Paulo encolheu os ombros uma vez mais.

- Por mero acidente, vi os tripulantes da nave. Bem, pelo menos um deles; os
restantes estavam numa espécie de sala de operações.

- Tens a certeza? Disseram-me que os tripulantes tinham morrido pouco depois
do impacto! - Duarte Nunes sorriu, claramente não acreditando nas palavras
de Paulo. - Quer dizer, no relatório que lemos, eles diziam que tinham
capturado os tripulantes ainda vivos, mas agora dizem que eles não
sobreviveram, apesar dos esforços para os tratar aqui no hospital militar de
Beja...

- Hmmm, faz sentido... pois, falou numa conspiração, não falou? Não me
admira que o governo português queira encobrir a verdade sobre os
tripulantes...

- Depois de anunciar quase publicamente a captura da nave? Francamente,
Paulo, isso não faz sentido. Qual seria o interesse em manter os tripulantes
em segredo, se até deixaram visitar o interior da nave capturada?

- Abatida seria uma descrição melhor do que aconteceu.

Duarte Nunes, surpreso com a afirmação de Paulo, não comentou.

Paulo prosseguiu:

- Mais ainda: creio que todos sabiam muito bem o que iam encontrar no
interior da nave. Dr. Nunes, concordo com a sua teoria de que todos sabem
muito mais do que dizem oficialmente. Este não foi o primeiro caso. Existem
imensos casos, espalhados por esse mundo fora. E na maior parte deles, os mi
litares não mostram grande surpresa em relação o que vão encontrar. Por
engano, confundiram-me com alguém, e levaram-me para uma das salas para
interrogar um tripulante.


- A sério?! - exclamou Duarte Nunes, estupefacto. - Caramba! Quer dizer que
os tripulantes foram mesmo capturados vivos... mas não compreendo: como é
que os interrogam? Decifraram a linguagem deles, o quê?

- A tripulante com que conversei era uma jovem humana de nome Myra, - disse
Paulo. E passou a descrever sucintamente a conversa que teve com a
extraterrestre.

Duarte Nunes, surpreendetemente, nem interrompeu Paulo durante a descrição.
No final, apenas assobiou. - Bem, bem, bem, meu caro Paulo, parece que
tropeçaste em algo de grande...

- Claro que ela podia ser uma actriz a contar uma história qualquer
completamente louca, e eu fui parvo em acreditar nela, - disse Paulo, mas
com ironia suficiente para que Duarte Nunes compreendesse que ele não
acreditava nisso. - Mas não me parece. O desprezo que Myra exibiu por toda a
política galáctica pareceu-me genuino. Ela foi bastante convincente, como
extraterrestre... como turista extraterrestre. Reagiu como uma menina mimada
que foi apanhada pelas autoridades a conduzir acima dos limites de
velocidade. Se ela tivesse insistido em montes de palavreado técnico a
explicar como vivia numa civilização avançada, eu se calhar não teria
acreditado numa palavra. Mas não; a única coisa que ela mostrou foi um
profundo conhecimento da Terra e dos seus habitantes, da perspectiva de uma
turista que andou muito tempo por cá. O português dela era impecável. Se ela
não fosse genuina, acho que teria outra atitude: a de um ser humano
incrivelmente avançado e sofisticado, de uma civilização tão superior que
desprezava completamente a nossa presença. Mas, curiosamente, ela teve a
atitude inversa: a de uma pessoa insatisfeita com o que se passava no seu
planeta e que vinha visitar regularmente a Terra como turista porque pode
aqui esquecer com facilidade tudo o que se passa na tal Aliança. E gozar
umas férias em descanso. Um homenzinho verde de tentáculos não teria o mesmo
impacto...

- Bem, bem, bem, - disse Duarte Nunes de novo. - Isto tudo é mais fascinante
que o próprio facto de estarmos numa instalação militar de acesso restrito
onde o governo português guarda os OVNIs que captura!

- Nem mais, - concordou Paulo. A questão agora é: o que vamos fazer em
relação a isso?

- «Vamos»? - ironizou Duarte Nunes. - Não vamos fazer absolutamente nada,
claro. Ou esqueceste-te que temos de jurar segredo...? Ah, esqueço-me que
faltaste à reunião do Conselho Nacional para as Observações de Fenómenos
Extraplanetários... pois, eles lá foram bem claros a dizer o que é que podia
transparecer para o exterior. O Eugênio de Castro terá acesso ao dossier,
claro, mas mais ninguém. Do ponto de vista oficial, a resolução do Conselho
Nacional foi que os militares abateram um aparelho de origem americana em
espaço aéreo nacional, sob pressão dos americanos e da NATO. O aparelho é
oficialmente uma sonda orbital não-tripulada que escapou ao controle
automático e que estava em risco de despenhar num local habitado; os
americanos inisitiram que fosse abatido o quanto antes e os destroços
enviados de volta para os Estados Unidos. Esse é o relatório que vai constar
do dossier para apreciação do Presidente da República e do Embaixador dos
Estados Unidos...

- A sério? Agora nós fazemos parte da conspiração! - Paulo sentiu o sangue
ferver nas veias. - Dr. Nunes, temos de fazer alguma coisa! Eles estão a
dissecar os outros membros da tripulação; é o que provavelmente vão fazer
com Myra quando descobrirem que ela não é mais que uma turista e que não
podem obter mais informações interessantes dela!

- Isso está completamente fora do nosso controle, Paulo. Estamos de mãos
atadas. Jurámos segredo...

- O Dr. pode ter jurado segredo, mas eu não jurei coisíssima nenhuma, -
disse Paulo, irritado.

- Implicitamente, pelo facto de teres sido convidado para assistires à
reunião do Conselho, - relembrou Duarte Nunes. - Paulo, mesmo que pudessemos
fazer alguma coisa, qual é a tua ideia? Raptar uma extraterrestre de uma
base militar secreta? Não te parece um bocadinho difícil? E mesmo que
conseguisses fazer isso, e até assumo que seja possível esconder a dita
extraterrestre dos militares, e depois? Que ganharíamos com isso?

- Podíamos revelar a verdade...

- Sem provas? Quem acreditaria em nós?

- Myra é a prova que precisamos! - exclamou Paulo.

- Estou mesmo a visualizar a cena. Conferência de imprensa no Centro
Cultural de Belém. «Meus caros senhores da imprensa, tenho aqui ao meu lado
a jovem Myra, turista extraterrestre que foi abatida no Alentejo uns dias
atrás, que nos vai revelar informações bastante interessantes sobre a
política galáctica... senhores e senhoras, tenho o prazer de vos apresentar
a jovem extraterrestre que foi raptada de uma base militar secreta
portuguesa. Myra, boas tardes. Qual foi a sensação que teve quando foi
abatida por uma esquadrilha de aviões portugueses, quando se deslocava ao
Algarve em férias?» Não me parece que funcione, não sei bem porquê.

Paulo insistiu:

- O Dr. tem os seus contactos, os seus amigos, o seu grupinho de
pseudo-intelectuais, como lhes chama... podia apresentar-lhes Myra, numa
reunião restrita. Ela podia contar a história dela e documentá-la em
pormenor. Depois podia-se pensar na divulgação da verdade...

Duarte Nunes abanou a cabeça. - Esquece, Paulo. Estamos no mundo real. No
mundo real, ninguém rapta extraterrestres das mãos dos militares. Isso nunca
iria acontecer! Só nas séries rascas de TV é que é possível fazer uma coisa
dessas e não ser apanhado. A razão pela qual este tipo de segredos tem
passado despercebido ao público em geral é que são mesmo... segredos. Além
disso, não creio que o Mundo esteja preparado para uma revelação destas. Por
alguma razão é que os militares e o governo mantêm isto em segredo. Como os
segredos de Fátima. Há certas coisas que não podem ser reveladas. Paulo, não
te esqueças nunca que és também um agente da Lei. Temos acesso a muitas
coisas que os comuns mortais não têm, mas, por mais fascinante e romântica
que seja a ideia de «libertar» uma extraterrestre deste grupo de
«conspiradores», não o podemos fazer.

- E o que aconteceu aos direitos dos cidadãos? Eles não têm o direito de
saber o que é que o nosso Governo faz com os extraterrestres que captura?

- Os cidadãos têm o direito de saberem tudo o que achamos que devem saber, -
afirmou Duarte Nunes, peremptório. - E mais nada do que isso. Já imaginaste
o que seria um mundo em que toda a gente soubesse tudo o que se passa?
Seria... seria ingovernável, para dizer o mínimo...

Paulo considerou as palavras do sociólogo.

- Bem... nesse caso, o melhor que podemos fazer é evitar que dissequem Myra
em nome da ciência. Acho que concorda com pelo menos isso.

Duarte Nunes abanou a cabeça.

- Não está nas nossas mãos. Especialmente depois do que Myra te contou. Se
de facto é verdade que essa tal Aliança não se quer preocupar sobremaneira
com a Terra, não nos cabe a nós estar a criar incidentes desagradáveis. Se é
verdade que o governo português tem também um desses «acordos» com os
extraterrestres, eles não ficariam lá muito satisfeitos se subitamente toda
a Terra soubesse o que se passava. Teriam de intervir. Estás a ver o que
seria uma nave extraterrestre a aterrar à frente dos Jerónimos e a dizer:
«Nós fizemos tudo por tudo para adiar este momento; mas vocês forçaram-nos a
isto. Bem-vindos à Aliança». A malta da Terra passava-se dos carretos!
Subitamente perdíamos toda a nossa inocência. A opinião pública iria exigir
dos seus governos que tomasse medidas. Resultado: uma guerra de declaração
de independência da Terra. Ridículo! Não se pode estragar tudo. Pelo que
Myra te contou, isto tudo é uma questão de tempo, mas quanto mais tempo os
governos da Terra tiverem para decidir o que devem contar à população,
melhor. Neste momento, as consequências de uma decisão rápida seriam
avassaladoras. É melhor dar tempo ao tempo. Ainda há muito que fazer na
Terra antes de chegarmos ao ponto em que conseguiremos assumir que não
estamos sozinhos no Universo. Provavelmente precisaremos de vários séculos
para chegar a esse ponto. E temos de caminhar bem devagar...

- Tudo isso é muito bonito, mas estamos a sacrificar um ser humano, - fez
notar Paulo.

- Suponho que essa Myra seja atraente, não? Hmmm, bem me queria parecer...

- Não vejo o que isso tenha a ver com a discussão, - protestou Paulo.

- Tem muito a ver... se fosse um velho de meia-idade, careca e caquético,
provavelmente não te mostravas tão interessado...

Paulo resmungou.

- Isso é injusto. Até parece que sou o mau da fita. Apenas me parece errado
e injusto que as coisas sejam assim.

Duarte Nunes insistiu:

- Mas, mais uma vez, isso não está nas nossas mãos, não nos cabe a nós tomar
decisões em relação a isso. Falo-te agora como profissional: sejamos
honestos, a Terra não está preparada para este tipo de revelação que tu
pretendes.

Paulo meditou um pouco sobre o assunto e não fez mais comentários.

- Bem. Agora que o assunto está arrumado, acho que podemos fazer as malas e
irmo-nos embora daqui. O dia já foi suficientemente excitante para uma
pessoa da minha idade, a meu ver. Nem quero acreditar no relatório que vamos
ter de apresentar ao chefe. O Eugênio vai-se passar com esta história
toda. - E, pondo um ponto final na discussão, o sociólogo e o jovem
detective encaminharam-se para a saída.

(continua no próximo número)

(c) Luís Miguel Sequeira
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